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Corpo e envelhecimento: entre a juventude e a velhice

Quando o foco da discussão recai sobre o corpo em envelhecimento, poder- se-ia argumentar que a temática do envelhecimento sobrepõe-se às questões relativas ao corpo. Porém, se pensarmos em um corpo para além de mero instrumento material, podemos perceber o quanto corpo e envelhecimento são faces de uma mesma moeda, inter-relacionando-se frequentemente.

Os corpos são distinguidos o tempo todo, diferenciando-se biológica e socialmente através de discriminações como homem/mulher, jovem/velho, bonito/feio, gordo/magro.

Em relação ao envelhecimento, o sentimento mais marcante é o de perdas: físicas, de saúde, de vigor, de papéis sociais. No entanto essas perdas são marcadamente relacionadas ao corpo, expressas em sua aparência modificada como “enrugamento”, “encolhimento”, “descoramento dos cabelos”, “enfeiamento” (BRITTO DA MOTTA, 2002a):

Às vezes as pessoas fazem concessões e expressam um esteticismo abstrato, comentando a beleza de um rosto “marcado pelo tempo”, um “pergaminho”. Mas ninguém quer ter essa “beleza”, essa aparência associada ao desgaste e à proximidade da morte. (ibidem, p. 41).

A beleza corporal tem sempre como referência o corpo jovem. Assim, o corpo envelhecido está sempre em desvantagem segundo esse modelo padrão. E as mulheres são, ainda, as principais vítimas dessa cruel comparação.

Estando numa posição entre a juventude e a velhice, as pessoas na meia- idade encontram-se numa espécie de não lugar, definido por Sibilia (2011, p. 101) como uma “zona cinza”: não possuem o status nem do jovem – a quem a sociedade elegeu como modelo a ser seguido – nem do velho – que, não obstante toda a problemática que enfrenta, parece resgatar para si esse status, através do respeito e da atenção, inclusive sendo alvo de políticas públicas específicas.

Também é na meia-idade que as mudanças corporais trazidas pelo envelhecimento começam a ser sentidas e visualizadas, tanto pelo indivíduo que envelhece quanto – e de maneira, muitas vezes, bem mais acentuada – pelos outros.

O envelhecimento, assim, também é relacional. E contextual, já que ninguém se sente velho – ou aciona, muitas vezes positivamente, essa condição – em todas as situações (DEBERT, 1988). Bourdieu, aliás, exemplifica bem essa relação quando afirma que “somos sempre o jovem e o velho de alguém” (1993, p. 113). Ou seja, o eu é sempre construído com base no outro.

Nesse sentido, é interessante pensarmos sobre como as representações sobre o corpo, construídas dentro de contextos específicos, são determinantes para o estabelecimento de práticas, vivências e relações. Assim, estudos, como os de Bourdieu (1983, 2008) e Víctora, Knauth e Hassen (2000), apontam que o corpo e suas formas são, em variados contextos, sinais distintivos de posição social.

A distinção [...] é a diferença inscrita na própria estrutura do espaço social quando percebida segundo as categorias apropriadas a essa estrutura [...]. O capital simbólico – outro nome da distinção – não é outra coisa senão o capital, qualquer que seja a sua espécie, quando percebido por um agente dotado de categorias de percepção resultantes da incorporação da estrutura da sua distribuição, quer dizer, quando conhecido e reconhecido como algo de óbvio. (BOURDIEU, 2007, p. 144-145).

A protuberância da barriga masculina em camadas populares urbanas, por exemplo, pode ser lida como um indicativo de opulência financeira. O estado de gravidez entre adolescentes também é distintivo entre camadas populares, representando independência e a chegada à vida adulta, vista como um degrau superior na evolução da condição humana. O mesmo acontece com os cabelos grisalhos masculinos, que são, em grande medida, em diferentes camadas sociais,

vistos como sinal de experiência e maturidade intelectual; ao passo que os mesmos cabelos grisalhos, nas mulheres, são, quase sempre, interpretados como desleixo, baixa autoestima ou pouco cuidado consigo mesmas.

Fica evidente, assim, que as representações sobre o corpo fazem clara diferenciação entre os corpos masculinos e os femininos, independentemente da classe social a que se referem.

Entre as colaboradoras desta pesquisa, é perceptível que o cuidado com o corpo feminino, especialmente se feito com a frequência a uma academia de ginástica, denotando a preocupação com um acompanhamento profissional, também é um sinal de distinção social, representando certa mobilidade social.

Os homens da classe média-alta frequentam igualmente a academia. Seu trânsito, porém, é mais restrito às salas de musculação, já que um corpo distintivo, para eles, encontra ecos em um tórax e membros torneados, bem definidos e sem gordura, o que, aliás, nem sempre é bem visto por homens e mulheres de camadas populares, para os quais os cuidados com o corpo masculino, tomados como excessivos, podem gerar suspeitas sobre sua masculinidade e sexualidade48.

Essas representações, produzidas na e pela vida cotidiana, acabam, muitas vezes, adquirindo status de algo do domínio da natureza e, como tal, são inquestionáveis.

No que tange ao envelhecimento, principalmente no aspecto corporal, as representações são sempre negativas. Associa-se o envelhecimento ao declínio e à falta de cuidado consigo mesmo. Tanto é que os modelos de envelhecimento construídos na contemporaneidade se pautam na juventude, deixando claro que “só é velho quem quer” (BRITTO DA MOTTA, 2002a, p. 46).

Dessa forma, o corpo aparece como uma categoria central e como elemento catalisador das tensões entre as dimensões de saúde e sexualidade para as mulheres de meia-idade, em visível processo de envelhecimento.

48 Em contrapartida, entretanto, pode-se verificar que a musculatura e a corpulência masculinas,

desenvolvidas através do próprio trabalho braçal – sem o artifício de uma academia, por exemplo, implica, para as camadas mais populares, estar saudável e apto para atividades que exigem força física – característica vista como essencialmente masculina. Nesse sentido, corpos masculinos musculosos são bem vistos nas camadas populares.

3.3 Pare(c/s)endo jovem: estratégias e tecnologias de embelezamento e