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CAPÍTULO 2 - Antirracismo e descolonização do currículo a partir da pedagogia

2.4 Corpo e identidade sob a perspectiva antirracista

O racismo está, portanto, vinculado às relações de poder que estruturam a sociedade e, para ser combatido, há que se pensar em estratégias para a construção de um contradiscurso eficaz, capaz de efetivar esse combate e eliminar as ações discriminatórias.

(AMADOR, 2020). A posição de privilégio de determinado grupo social está imbricada com o acesso à máquina do Estado, que detém o controle e a legitimação dos direitos da cidadania (emprego, educação, moradia, dentre outros aspectos) e o controle hegemônico da cultura.

As pesquisas pedagógicas que estabelecem uma relação primordial entre corpo e saúde física tem sua origem e primeiros desenvolvimentos durante o século XIX, ainda que na atualidade haja abordagens desse tipo (MILSTEIN, MENDES, 2010). Na atualidade, o trabalho pedagógico que considera o corpo como ponto de partida tem determinado o desenvolvimento de novas abordagens. Os vestígios históricos trazidos pelos africanos escravizados em seu corpo e em sua memória adquiriram, por exemplo, importância fundamental na reconstrução pessoal e coletiva dos seus descendentes nas Américas (AMADOR, 2020). No processo da diáspora forçada vivida por africanos, a memória coletiva dos diversos grupos étnicos mobilizou a luta social pelo poder, em que o processo da reelaboração da memória intervém não só na ordenação desses vestígios, mas também nas releituras diaspóricas.

Atualmente, como parte da teoria crítica da realidade social, a categoria corpo se sustenta na necessidade de entender as regularidades nas formas de dominação das sociedades contemporâneas nas quais se desdobram reproduções de desigualdade, poder e controle (MILSTEIN, MENDES, 2010):

Com efeito, em uma sociedade racista de hegemonia branca na qual a branquidade é valor que transcende o próprio branco, os negros pagam o preço do massacre dramático de suas identidades, pois à medida que o branco é modelo de identificação e o negro é outro aprisionado pela marca que lhe foi imposta pelo domínio da branquidade, a recuperação das identidades negadas será sempre um processo sofrido, pois um indivíduo negro terá sempre que enfrentar a “dor da cor” ou a “dor da raça”. (AMADOR, 2020, p. 42)

Na escola existe um intenso e constante trabalho em cada um dos corpos, com diferenças de raça, gênero, idade, comportamentos etc.; que tendem a produzir um corpo-sujeito social e escolar (MILSTEIN, MENDES, 2010). Por isso, é importante considerar os fatores que constituem o corpo e seus conjuntos de significados, que apontam caminhos para as reflexões educativas acerca da identidade.

Para Amador (2020), o corpo negro em sua historicidade é pouco levado em consideração pelos estudiosos, e a autora destaca concepções do corpo negro como marca identitária:

Nesse processo de fusões e ressignificações, o corpo dos africanos e seus descendentes sempre teve uma importância muito grande, tanto para ser negado como para ser afirmado. Se você quer afirmar sua negritude, o corpo está presente, reafirmando se você quer negá-la, é esse mesmo corpo que você tenta subverter e fazer com que se aproxime do corpo branco padrão. Para falar do corpo negro como marca

identitária, não se pode perder de vista que esse corpo que sempre terá uma tarefa coletiva que fala por si, mas que também fala por uma raça e pela ancestralidade. (AMADOR, 2020, p. 46)

Para o antropólogo Munanga, por sua vez, a identidade

[...] é uma realidade sempre presente em todas as sociedades humanas.

Qualquer grupo humano, através do seu sistema axiológico sempre selecionou alguns aspectos pertinentes de sua cultura para definir-se em contraposição ao alheio. A definição de si (autodefinição) e a definição dos outros (identidade atribuída) têm funções conhecidas: a defesa da unidade do grupo, a proteção do território contra inimigos externos, as manipulações ideológicas por interesses econômicos, políticos, psicológicos, etc. (MUNANGA, 2012, p. 177-178)

Para Gomes (2005), a identidade se refere ao modo de ser no mundo e com os outros, nas relações entres os grupos sociais e seus elementos culturais e indica traços culturais que se expressam por meio de práticas linguísticas, festivas, rituais, comportamentos alimentares e tradições populares, isto é, referências civilizatórias que marcam a condição humana. A identidade compreende aspectos sociopolíticos e históricos, de maneira que a perspectiva da identidade racial pode ser compreendida quando “um grupo reivindica uma maior visibilidade social face ao apagamento a que foi, historicamente, submetido” (NOVAES, apud GOMES, 2005, p. 41).

A diversidade identitária é, portanto, um aspecto constituinte da formação histórica, política e cultural, em que a constituição da identidade se dá a partir de processos e valores de pertencimento e reconhecimento da alteridade:

Diante dessa realidade, como poderá o educador desconsiderar a importância da construção da identidade racial da criança, do/a adolescente, do/a jovem negro/a? Como será que a criança negra se vê refletida na escola? E na sociedade? A escola tem possibilitado aos/às alunos/as e professores/as negros/as, as condições adequadas à construção de uma imagem positiva de si mesmo, do povo negro, da descendência africana, da estética, da corporeidade, enfim, do conjunto cultural negro? Enquanto a educação escolar discutir a questão racial, como um “problema do negro”, negando-se a integrá-la das reflexões sobre a sociedade brasileira, continuaremos dando muito espaço aos mais diversos equívocos e a práticas intencionalmente racistas.

(GOMES, 2001, p. 93)

A temática da diversidade étnica e cultural é uma demanda da educação e tem como propósito contribuir, sobretudo, no desenvolvimento da autoestima das crianças negras. Para isso, é preciso ir além da permanência dos estereótipos presentes no senso comum sobre a cultura afro-brasileira e africana. As reflexões e ações de combate ao

racismo, com uma abordagem pedagógica de conteúdos relacionados à matriz africana a partir de práticas corporais, incidem na autoestima das crianças negras e no respeito e reconhecimento da diversidade para as crianças não negras.

Evidenciar a identidade e o pertencimento étnico desde uma perspectiva da história e da cultura negra mobiliza os estudantes negros e não negros a repensarem ações e falas racistas. “Em uma escola homogeneizadora e estruturada a partir da perspectiva do universalismo abstrato, as diferenças são tratadas como desigualdades e de maneira discriminatória” (RÉGIS; BASÍLIO, 2018, p.39). A abordagem de conteúdos que contribuam para a reflexão da identidade negra traz para o cerne do processo educativo o reconhecimento das pessoas negras como sujeitos históricos, participantes da construção da sociedade diversa e que precisam ser reconhecidas como tal.

Os processos históricos constitutivos da construção da identidade negra, uma vez inseridos nos conteúdos escolares, garantem reflexões sobre o antirracismo e as possibilidades de transformação social aos indivíduos que integram o espaço escolar, simbolizando o despertar da conscientização das desigualdades sociais instituídas e corroborando a difusão de posicionamentos críticos ao longo do processo de ensino e aprendizagem.

Sabino e Lody (2011), no livro Danças de matriz africana: antropologia do movimento, apresentam subsídios teóricos para as conexões históricas e sociais que permeiam a dança, em diálogo com a Arte, a História e a Sociologia:

Dança de matriz africana é um tema que, apesar do seu forte significado como arte, símbolo, criação, memória, saúde e, em especial, foco de identidade, é ainda praticamente inédito em coreologia- ciência da dança que estuda os movimentos e sua relação com o bailarino, o espaço e a música (SABINO; LODY, 2011, p. 15)

Os autores indicam as principais facetas das danças brasileiras de matriz africana, seus significados, articulações sociais, ritmos, instrumentos e coreografias, que descrevem vivências e recriam o mundo. Na escola, a dança pode atuar como ponte para a construção e a preservação da memória social, da identidade cidadã e do patrimônio cultural brasileiro.

Rodrigues (2012), no texto “A relação do corpo para construção da identidade negra”, escreve sobre a identidade do indivíduo:

A identidade de um indivíduo tem seu início no processo que se dá a partir do olhar para si próprio e do olhar do “outro” para ele. Por isso, podemos entender que o processo identitário é tanto individual quanto coletivo, e sempre engendra instâncias conflituosas. A identidade não somente demarca existência de um indivíduo no mundo, mas também direciona a maneira como ele vai se socializar. Logo, a identidade do negro está intrinsecamente ligada à sua relação com o seu próprio corpo, no qual foram inscritos, ao longo da história, valores e crenças negativas que tendem a depreciá-lo. (RODRIGUES apud FELINTO, 2012, p. 61)

Para a autora, é importante refletir sobre o corpo negro construído ao longo da história da sociedade brasileira e os processos de construção e recriação de cultura que atravessam o espaço escolar, constituído por diversas identidades sociais e culturais dos sujeitos, trazendo suas concepções e valores dos lugares que ocupam e frequentam na sociedade. A ampliação de pesquisas que abordam práticas antirracistas no ambiente escolar, que escutem as crianças e considerem seu corpo como um ponto de partida para o desenvolvimento de sua relação com o mundo e constituição de sua identidade, contribui para a valorização das vivências pessoais dos estudantes e incentiva a aprendizagem.

Segundo bell hooks4 (2017), em sua obra Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade, os diferentes tipos de relações entre fatos, objetos, acontecimentos, noções e conceitos desencadeiam mudanças de comportamentos e colaboram para a utilização do que é aprendido em novas situações, contemplando a prática libertadora da educação e transgredindo as fronteiras raciais, sexuais e de classe.

No capítulo “Pedagogia engajada”, a autora afirma

A “pedagogia engajada” é mais exigente que a pedagogia crítica ou feminista convencional. Ao contrário destas duas, ela dá ênfase ao bem-estar. Isso significa que os professores devem ter um compromisso ativo com o processo de autoatualização que promova seu próprio bem-estar.

Só assim poderão ensinar de modo a fortalecer e capacitar os alunos.

(HOOKS, 2017, p. 28)

hooks argumenta a respeito da importância do ato de ensinar para atender às necessidades dos estudantes e para devolver à educação e às salas de aula o entusiasmo pelas ideias e a vontade de aprender. Ela apresenta novas maneiras de saber, estratégias diferentes para partilhar o conhecimento, para pensar e repensar, criar outras visões e, por

4 bell hooks é o pseudônimo que Gloria Jean Watkins, escritora norte-americana (1952-2021), escolheu para assinar suas obras, como forma de homenagem aos sobrenomes da mãe e da avó. O nome, grafado em letras minúsculas, serve para destacar que “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”.

sua vez, para uma nova maneira de ensinar, que permita transgressões que transformem a educação na prática da liberdade.