Em Spinoza, corpo e alma são uma única e mesma coisa; são modos da substância única – Deus ou Natureza; modificações contínuas e descontínuas da substância compreendidas segundo seus atributos, que são infinitos, porém dos quais os homens participam, ou têm conhecimento, de dois: o atributo extensão e o atributo pensamento. A natureza atual e singular de um corpo é o modo atual e singular da substância (Natureza- Deus), como expresso pelo atributo extensão; a natureza atual e singular de uma idéia é o
modo atual e singular da substância (Natureza-Deus), como expresso pelo atributo
pensamento.
Nada existe que não seja Deus, enquanto a própria substância infinita, e enquanto imanente aos modos que expressam seus atributos. A substância ou Deus ou Natureza não existe fora, acima ou além dos modos de seus atributos. Deus não existe separado da Natureza, e esta não é uma criação exterior a ele: Deus é a própria Natureza em todas as suas modificações; é a própria substância na criação contínua e constante de si mesma. Deus = Natureza = Substância é a fórmula do materialismo de Spinoza, ao mesmo tempo, divino e ateu, ético e imoral. Uma natureza para todos os corpos; todos os corpos como variações de uma mesma Natureza.
É disto que se trata o plano comum de imanência ao qual se refere Deleuze. Deo sive
Natura2é a Substância única, infinita e indeterminada, cuja essência implica existência; que é causa de si (causa sui) e de tudo o que existe; e tudo o que existe é sua existência mesma nos modos finitos que expressam seus atributos. Assim, as coisas que existem, não existem pela vontade de Deus, mas pela necessidade de sua natureza; porque Deus não pode não querer sua própria existência nas modificações pelas quais existe. É a substância infinita e indeterminada “causando” a si mesma de infinitos modos finitos e determinados, ainda que uma determinada existência não esteja implicada na sua essência, isto é, ainda que determinada coisa ou pessoa pudesse ou não existir.
Há quem julgue que Deus é causa livre porque, segundo pensam, pode fazer que as coisas que, como dissemos, resultam da sua natureza, isto é, que estão no seu poder, se não façam, ou, por outras palavras, não sejam produzidas por ele. Ora, isto é como se dissessem que Deus pode fazer com que da natureza do triângulo não resulte que os seus ângulos sejam iguais a dois retos, ou que de uma causa não resulte o efeito, o que é absurdo. Ademais, mostrarei adiante (neste escólio), sem o socorro desta proposição, que o intelecto e a vontade não pertencem à natureza de Deus. (ESPINOSA, 1992, p. 132)
O livro II da Ética inicia pela definição: o corpo é um modo da substância; um modo certo e determinado, que exprime a essência de Deus como coisa extensa, ou seja, Deus é materialidade corpórea por sua essência compreendida no atributo extensão. O corpo, tradicionalmente, considerado o negativo da existência que se opõe ao espírito, possui a dignidade e a perfeição próprias à sua natureza como coisa singular e enquanto sua existência exprime uma afecção ou modificação de Deus; não a perfeição de modelos ideais e abstratos, mas na medida em que “Por realidade e por perfeição, entendo a mesma coisa.” (Ética II, def. 6)3.
2 Deus ou Natureza. 3 ESPINOSA, 1992, p. 198
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Segue que: é da essência de uma coisa “aquilo sem o qual a coisa não pode existir, nem pode ser concebida e, reciprocamente, aquilo que, sem a coisa, não pode nem existir nem ser concebido.” (Ética II, def. 2)4. A isso se pode chamar imanência.
Um corpo, entretanto, como modo ou coisa singular tem existência finita, embora indeterminada, isto é, possui duração, e sua essência não envolve sua existência; isso quer dizer: não pode ser causa de si mesmo; sua essência não pode ser causa de sua existência ou de sua duração. Um modo ou coisa singular só pode existir determinado por Deus como modo da substância, ou seja, como modificação, afecção de um atributo de Deus – o corpo é uma
afecção do atributo extensão; a idéia, uma afecção do atributo pensamento.
Mas, a essência do modo, corpo ou ideia, não é a essência da substância ou de seus atributos, que são infinitos. É que os modos finitos não são produzidos pela natureza absoluta dos atributos de Deus, e sim tendo como causa outra coisa finita, que tem por causa outra coisa finita, indefinidamente, que são modos da substância, afecções dos atributos. As coisas singulares são determinadas a existir por Deus ou por seus atributos, não em sua natureza absoluta e infinita, mas por seus atributos enquanto afetados por uma modificação finita; são afecções dos atributos determinadas por outra afecção do atributo, determinada por outra... ao infinito.
A questão, então, é: se a essência da coisa singular, do modo finito, corpo ou ideia, não envolve sua existência; é um modo da substância, mas não sua essência, como compreender a definição de essência como aquilo que não existe sem a coisa?
A essência da coisa singular compreende e está compreendida na sua existência: como causada por outro modo finito exterior existente; como composição de multiplicidades em relações complexas; como duração e tendência a perseverar em seu ser. Um modo finito da substância é causa de outro modo finito da substância, compreendido no atributo de que é afecção: um corpo é um modo finito da substância, isto é, uma afecção do atributo extensão, ou ainda, um modo da existência de Deus como coisa extensa compreendida na duração, que tem por causa outro modo existente assim compreendido, que tem por causa outro modo, sucessivamente, ao infinito. A extensão é infinita, indivisível, o corpo é um grau da potência, ou da força de existir e de agir, da extensão. O mesmo para a ideia e o espírito, em relação ao atributo pensamento.
Em seguida, vem a definição: idéia é um conceito que a alma forma, por ser coisa pensante. A própria alma é uma ideia constituída de ideias; sendo multiplicidade como o
corpo. É um modo da substância compreendida no atributo pensamento. Entre as várias definições de ideia e alma, que Spinoza faz na “Ética”, destaca-se, no início do livro II, a relação com o corpo. Toda ideia é ideia de alguma coisa existente; de tudo que acontece ao corpo se dá uma ideia no espírito; de toda afecção do corpo se dá uma imagem ou ideia- afecção. Assim, a alma é idéia do corpo que lhe corresponde; alma percebe o corpo e tudo que lhe acontece; é como se pode conhecer o corpo que, por sua vez é tal como é percebido.
Deleuze considera que o termo alma não corresponde ao que pretende Spinoza, por seu caráter teológico. Spinoza utiliza o termo latino “mens”, que pode ser traduzido por “mente”, ainda limitado, se compreendido como uma estrutura mental, cognitiva - objeto de estudos científicos. A maioria das traduções para o português emprega o termo “alma”, enquanto a recente tradução de Tomaz Tadeu (...) utiliza o termo “mente”, mas que Deleuze entende por “espírito”, no sentido de pensamento e ideia, não no sentido religioso, também, muito comum nas teologias. Assim:
O corpo é um modo da extensão; o espírito é um modo do pensamento. [...] O espírito é, pois, a idéia do corpo correspondente. [...]
[...] a idéia que nós somos é para o pensamento e para as outras idéias o que o corpo que nós somos é para a extensão e para os outros corpos. [...]
Toda coisa é corpo e espírito simultaneamente, coisa e idéia; é nesse sentido que todos os indivíduos são animata (II, 13, esc.). (DELEUZE, 2002, p. 73)
Portanto, mens = mente = alma = espírito = ideia do corpo correspondente. Um tema que mereceria uma pesquisa e uma dissertação específicas.
O corpo é um modo da substância sob o atributo Extensão; o espírito é um modo da substância sob o atributo Pensamento. As ações e paixões do corpo são as mesmas ações e paixões do espírito, isto é, o modo de extensão e o modo de pensamento são uma única e mesma coisa, expressa de duas maneiras diferentes, segundo os atributos que expressam.
Um efeito qualquer produzido no corpo produz uma ideia no espírito, simultaneamente, na mesma ordem e conexão, não existindo superioridade, comando ou interferência de um sobre o outro. O corpo não é melhor ou pior que o espírito, mais forte ou mais fraco; o espírito não move o corpo, nem o corpo restringe o espírito, é a mesma coisa percebida de maneiras diferentes – a coisa e a ideia da coisa. Corpo e espírito não se determinam, entre si, a agir ou pensar; são expressões paralelas das modificações da substância; de tudo que acontece ao corpo dá-se uma ideia na alma.
Esses vários aspectos configuram o paralelismo que afirma, por um lado, a independência do corpo em relação ao espírito e vice-versa, e, por outro lado, a identidade de ordem e de conexão entre o que se passa no corpo e no espírito, bem como, a igualdade de
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princípio entre a extensão e o pensamento. E, ainda, identidade e simultaneidade, sendo, ambos, modos da substância. O que move um corpo é outro corpo, não a alma; o que afeta uma ideia é outra ideia, não o corpo; o que se passa em um atributo deve ser entendido sob esse mesmo atributo, em sua natureza absoluta e infinita ou nos modos finitos que o exprimem.
O corpo e o espírito são, portanto, autônomos, entre si: “Nem o corpo pode determinar a alma a pensar, nem a alma determinar o corpo ao movimento ou ao repouso ou a qualquer outra coisa (se acaso existe outra coisa).” (Ética III, prop. 2). Contudo, são expressões de uma mesma coisa, compreendidos em diferentes atributos, conforme o escólio dessa mesma proposição.
Estas coisas entendem-se mais claramente pelo que foi dito no escólio da proposição
7 da Parte II, a saber, que a alma e o corpo são uma só e mesma coisa que é concebida, ora sob o atributo do pensamento, ora sob o da extensão. Daí resulta que a ordem ou encadeamento das coisas é a mesma, quer se conceba a Natureza sob um atributo, quer sob outro; e, conseqüentemente, que a ordem das ações e das paixões do nosso corpo é, de sua natureza, simultânea à ordem das ações e das paixões da alma. (ESPINOSA, 1992, p. 270)
Spinoza faz o polimento das lentes e retifica o olhar sobre um ponto que é, praticamente, uma unanimidade na tradição filosófica, na moral, nas religiões, nas ciências humanas, tanto quanto no senso comum, nas artes ou na mitologia. Uma quase unanimidade que supõe a superioridade do espírito, a eminência da alma sobre o corpo, quer considerada como um Todo - psique, Eu, pensamento, intelecto, mente, substância etérea imortal, consciência, quer considerada como parte ou faculdade – vontade, inteligência, espiritualidade, cognição, bom senso.