• Nenhum resultado encontrado

O registro do corpo constituía o domínio mais eminente no qual se expressava o mal- estar de Diógenes. Suas falas no início de seu tratamento revelavam que, tal como proposto por Costa (2005) com relação a quadros psicopatológicos da contemporaneidade, seu corpo era colocado como objeto privilegiado de sua atenção, preocupações e sofrimentos conscientes, sendo explicitamente identificado como um dos principais componentes de seu conflito psíquico e não apenas como pano de fundo dos embates entre afetos, pulsões,

representações e instâncias psíquicas. Seu corpo tornou-se a fonte primordial de seu sofrimento e o “lugar privilegiado da expressão pulsional em pane de representações” (Douville, 2012c, tradução minha co30).

Percebe-se que o abuso da exploração das sensações do corpo próprio por meio do crack e das outras drogas instaurou uma nova relação com seu corpo, novos ritmos e regulações corporais, promovendo significativas alterações na sua economia pulsional, na sua condição erógena e na sua relação com a linguagem, com o outro e com o mundo externo. Desde o início de sua adolescência, seu corpo foi sendo constituído e configurado na interação com substâncias químicas, que afetaram os circuitos de excitação, prazer e dor, alteraram suas “condições de sensibilidade” (Freud, 1930/2010) e deixaram suas marcas nos arranjos e dinâmicas pulsionais na imbricação corpo-psiquismo. Essa exploração do corpo alcançou seu paroxismo durante os quatro anos anteriores ao início de seu tratamento, em que todos os seus dias foram predominantemente consagrados à ingestão de enormes quantidades de crack e álcool, até o limite da exaustão do corpo, com crises convulsivas e perda de consciência.

Sua narrativa, focada na ambiguidade sensorial de prazer e dor provocada pelo crack (Rui, 2014), nas lembranças de satisfação, nos sintomas de abstinência e na vontade intensa que sentia de voltar a usar, colocavam em cena, de forma onipresente, um corpo regulado predominantemente pelo uso e pela fissura. Um corpo que não suportava sequer sua estimulação por exercícios físicos, pois seus efeitos nos ritmos cardíacos traziam à memória corporal os efeitos do crack e atiçavam uma urgência sentida como “física” em relação à substância, intensificando o mal-estar provocado pela falta da droga: “eu não tô conseguindo nem malhar na comunidade [terapêutica]...meu coração acelera, me dá uma vontade ainda maior de fumar crack e eu fico nervoso e irritado”. Essa fala de Diógenes sobre o insuportável do exercício físico revela uma intolerância ao estado de excitação, ao aumento

das tensões somáticas e psíquicas, sem que elas fossem descarregadas por meio do crack. A intoxicação tornou-se a via única e exclusiva de extinção da excitação. A partir do momento em que Diógenes tentou não recorrer a essa via, qualquer estimulação de seu corpo tornou-se insuportável.

Podemos, então, apreender o regime de excitações específico produzido pela operação de intoxicação a partir do que Assoun (2015a) descreveu como uma “ditadura da excitação” – paradoxalmente, busca-se a extinção da excitação por meio de uma busca desenfreada pela excitação (Assoun, 2015a) promovida pela dinâmica de intoxicação. Há, portanto, no circuito tóxico, um movimento de provocar um aumento da excitação, ao mesmo tempo em que a droga e a intoxicação se estabelecem como a única via possível de descarga e extinção.

É possível identificar, no caso de Diógenes, o funcionamento do que McDougall (2004) descreveu como “economia psíquica da adicção”. Segundo a autora, a “economia aditiva” é centrada nos objetivos de se desfazer dos afetos e de operar uma descarga rápida de toda tensão psíquica (que não é necessariamente associada a estados afetivos penosos, mas pode estar igualmente relacionada a estados excitantes ou agradáveis), seja a sua fonte interna ou externa. McDougall (2004) descreve que, na economia psíquica da adição, os afetos e os processos e “apelos” psíquicos são traduzidos pelo sujeito como “necessidades somáticas”, o que a leva a afirmar que a solução aditiva consiste em uma “solução somato-psíquica” aos conflitos e sofrimentos psíquicos. No caso de Diógenes, percebe-se que esse mecanismo aditivo tornou-se praticamente o único mecanismo que ele conseguia acionar para lidar com seus afetos e processos psíquicos e, também, para lidar com as tensões e excitações, não apenas psíquicas, como descreve McDougall, mas inclusive as tensões eminentemente corporais (pelo menos no que diz respeito à sua origem), como as que eram provocadas pela movimentação e exercício de seu corpo.

O uso que Diógenes fazia do crack como via praticamente exclusiva de extinção e descarga de toda excitação permite traçar um paralelo com o estado original do recém- nascido – descrito por Freud no “Projeto para uma Psicologia Científica” (1895/2006) –, cujo psiquismo, confrontado ao desamparo e à solidão, é centrado no mecanismo de evacuação, expulsão e descarga de todo e qualquer estímulo e excitação que o atingem. Nesse sentido, é possível compreender o recurso ao crack feito por Diógenes como uma estratégia que, diante de uma fragilidade da capacidade de conter, habitar, elaborar e significar as excitações, os afetos, o mal-estar e o sofrimento, regride a esse mecanismo originário centrado primordialmente sobre as operações de expulsão para fora de si, de evacuação e catarse, de descarga e extinção.

Nessa perspectiva, a operação de ingestão (da droga) visaria em última instância a uma operação com sentido inverso, a evacuação e a descarga expulsiva (das excitações, afetos e dores). E, assim como as estratégias do recém-nascido para lidar com as excitações, que se efetuam por uma via essencialmente somática (expressão de movimentos emocionais, gritos, agitações motoras, inervação vascular, choro), a operação de intoxicação pelo crack pode ser interpretada como uma tentativa de solução organizada primordialmente sobre o corpo, sobre a influência direta no próprio “organismo”, nas sensações e nas condições de sensibilidade.

A predominância do corpo e da exploração das sensações por meio do recurso ao crack – o hiperinvestimento na dimensão do corpo e da sensorialidade – aponta, portanto, para um tentativa de agir sobre o mal-estar diretamente no corpo próprio, a partir da alteração das sensações e das “condições de sensibilidade” (Freud, 1930/2010). Observa-se uma prevalência da regulação química do mal-estar sobre o corpo e uma fragilidade das representações psíquicas e das formações simbólicas (Birman, 2014).

A urgência física pela droga apresentada por Diógenes – chancelada pelas concepções largamente estabelecidas de abstinência e fissura – e a intolerância psíquica ao aumento da excitação corporal evidenciam uma tentativa do sujeito de conceber o corpo como um simples epifenômeno de um jogo bio-químico-neuronal (Nogueira-Filho, 1999), um corpo vivenciado como pura sensação, desancorado da palavra, do simbólico e do social. O “corpo de sensações” prevalece sobre o “corpo falado” (Fernandes, 2011); faz-se um elogio do organismo em detrimento do corpo pulsional e simbólico; tem-se a emergência de um corpo que se aproxima muito mais do corpo extenso, anátomo-biológico (Körper), do que do corpo simbólico e permeado pela linguagem (Leib) (Assoun, 2015b; Fernandes, 2011).

Assim como o hipocondríaco, que, segundo Freud (1914/2010), tem sua alma confinada no estreito “buraco de seu molar” (p. 26), Diógenes apresentava, inicialmente, sua existência absorvida seja pela vivência de satisfação provocada no registro do corpo pela intoxicação, seja pela urgência corporal, pelo estado de fissura, por uma espécie de dano corporal que a falta do crack lhe provocava. Se, como destacado por Le Poulichet (1990), a droga dá corpo ao sujeito, a sua ausência evoca uma forma de mutilação, deixando uma espécie de membro fantasma que, embora ausente, produz dor. Opera-se uma significativa modificação na organização do aparelho psíquico, cuja energia fica exclusivamente concentrada no ponto doloroso.

O modelo pulsional do narcisismo mostra-se pertinente para a compreensão metapsicológica da questão do corpo no uso de crack: o retorno da libido retirada do mundo externo e dos investimentos objetais sobre o Eu, que, como Freud chegou a destacar (1923/2006), é “primeiro e acima de tudo, um Eu corporal” (p. 39), fundamentalmente derivado das sensações corporais. Esse investimento narcísico em ação no uso de crack relaciona-se com uma tentativa de reconstituir e refazer o corpo, forjar um corpo novo, um corpo outro, orgânico e quimicamente regulado que, a partir de um curto-circuito pulsional,

busca situar-se às margens da linguagem, do laço social, da divisão e do conflito psíquico, das dependências mais radicais e dos limites32. Por meio do recurso ao crack, observamos uma tentativa de silenciar e dessubjetivar o corpo, subtraindo-o de sua dimensão simbólica e cultural.

A centralidade e preponderância que o corpo ganha na dinâmica de uso do crack apontam, portanto, para um retraimento da capacidade de elaboração e trabalho psíquico, para uma fragilidade das representações e das formações simbólicas e, como destacado por Assoun (2015a), para um retraimento do sujeito da fala e da linguagem. Diógenes nos “avisou” claramente: não queria falar, não gostava de falar de si. E quando, pela primeira vez no grupo de psicoterapia, se entregou à fala e se percebeu atravessado por sua narrativa e associações, procurou-nos individualmente para expressar seu incômodo: sua cabeça ficou “atribulada”, se sentiu “acuado”. “O toxicômano se droga, bebe ou fuma para não falar e porque ele não pôde dizer” (Assoun, 2015a, p. 87, tradução minhaco45).

Antes de prosseguir, impõe-se uma ressalva com relação à questão da imbricação corpo-psiquismo, para evitar possíveis interpretações equivocadas no sentido de uma separação radical entre a corporalidade e o psiquismo. Se afirmo que é possível identificar, no caso de Diógenes, uma preponderância da dimensão corporal e da exploração das sensações e uma estratégia subjetiva que busca agir diretamente sobre o terreno corporal, renunciando, de certa forma, às mediações e vias psíquicas da representação e do sentido, é importante ressaltar que corpo e psiquismo jamais se encontram completamente desintegrados.

Como destacado por Celes (2016), nem mesmo as estratégias e operações que são primordialmente ancoradas sobre a corporalidade e que se destacam das representações, do sentido e da linguagem prescindem do psiquismo em sua composição. Mesmo nos

32 Essa formulação teórico-clínica dialoga e vai de acordo com muitos dos autores que se dedicaram a uma compreensão psicanalítica da toxicomania (Assoun, 2015a; Bucher, 1992; Gurfinkel, 2011; Le Poulichet, 1990; Nogueira Filho, 1999; Santiago, 2001).

sofrimentos corporais, a participação do psiquismo está sempre presente de forma intensa. O corpo, segundo Celes (2016), é “colonizado pelo psiquismo” (p. 61), e inclusive quando se aliena psiquicamente e permanece em um funcionamento autoerótico – como parece ser o caso de Diógenes – ele é profundamente qualificado, condicionado e submetido ao psiquismo. E, no limite, pensando nas estratégias terapêuticas, mesmo as manifestações mais corporais exigem operações psíquicas para sua elucidação, que é o que se espera de um processo terapêutico fundado na psicanálise (Celes, 2016).

Documentos relacionados