4 Corpos Consagrados a Deus
4.3 Corpo Enfermo: presente de Deus
Na Antiguidade, sociedades como as judaica e babilônica, acreditavam que a doença era um castigo dos céus. Para estes povos, o doente fora atacado por espíritos do mal porque haviam cometido algum pecado grave. A figura do Cristo, no entanto, surge como uma nova interpretação para este estado físico. Através do sofrimento de Jesus, a doença passa a ser encarada como algo positivo. Em Antropología del dolor, David Le Breton (p.112) afirma que ao morrer na cruz, Cristo se transforma na essência do sofrimento e ensina à humanidade que a dor pode ser uma alternativa de redenção. A dor física é uma das pequenas maneiras de reviver a Paixão, e a doença seria uma de suas vias. A sociedade cristã católica enxerga nos estados patológicos de seus componentes um convite de Deus para estreitar relações. A dor prova a paciência e a fé do crente, oferecendo a este uma oportunidade para mostrar ser merecedor do amor divino. Jacques Gélis (2005: 76,77) cita várias obras teológicas nas quais as doenças são consideradas uma graça. Uma delas teria sido publicada no ano de 1634, sob o titulo Sacrum sanctuarium, com ilustrações dos mártires católicos e suas enfermidades. O objetivo de tal publicação seria dar suporte para que os fieis pudessem superar mais suavemente as suas dores. A interpretação para os males físicos passa a ser a de vencer o mal que se escondia na alma dos pecadores. Corpo e alma se unem como uma oportunidade de salvação. Esta poderia ser feita através de duas formas. A primeira consiste no acompanhamento de enfermos em estado avançado de doenças. Retornando novamente à Jacques Gélis, encontramos vários exemplos em biografias dos séculos XVII e XVIII. Freiras se cobriam com o pus do câncer de suas companheiras, beijavam chagas, lambiam sangue, acariciavam feridas. Submeter-se a tais provas era um ato de vencer o medo da doença, superar o asco e encontrar a felicidade na ajuda ao próximo em sofrimento:
Pues, volviendo a ló que decía; yo recebi con mucho Consuelo aquel castigo y penitencia de ir em lugar de lega a la enfermería, porque había leído em la vida de santa
Magdalena de Pasis ( a quien com toda mi alma había deseado tomar por maestra), que era muy amante de las enfermas, y me parecia que por ser la enfermería lugar retirado, hallaría allí gran alivio. (CASTILLO, 2007: 212)
A grande mestra de Castillo, Maria Madalena de Pazzi, foi uma mística carmelita italiana, que dedicou sua vida à penitência e cuidado dos enfermos. Madalena de Pazzi ajudou a rememorar entre as freiras que a caridade é o amor que não finda. Cuidar dos doentes, principalmente dos que estão em estado terminal, é um ato de virtude, mostrando que o que se doa ao irmão necessitado foi capaz de compreender o que é amar. Através do amor aos enfermos, as freiras iriam alimentar o espírito, recuperando as forças para lutar contra as desordens da vida. Caridade, portanto, é o exercício do amor sem condições e interesses. O apóstolo Paulo, em carta aos coríntios, afirma que a caridade nos ajuda a exercitar a paciência, o perdão, o senso de justiça, além de eliminar a inveja e o egoísmo, mãe de todos os vícios da alma. Mas ser um observador que ajuda não é o suficiente para o místico. Apesar de todos os benefícios que a entrega abnegada a outrem possa provocar, o místico sente a necessidade de ser protagonista da dor.
O místico cristão tem como companheira de vida a enfermidade. Ela faz parte de sua natureza e o define como escolhido por Deus, desde o seu nascimento:
Nací dia del bienaventurado San Bruno (...). A lós quince o veinte dias, decían que estuve tan muerta, que compraron la tela y recados para enterrarme, hasta que um tío mio, sacerdote,(...) me mandó, como a quien ya no se esperaba que viviera, aplicar un remédio com que luego volvi y estuve buena. (CASTILLO, 2007: 60,61) De edad de once meses empecé a enfermar y lo atribuyó mi madre que la ama me Dio leche preñada, y se lamentaba desta desgracia y alquilo otra ama, y trás éstas otras 8, com que tuve diez amas: así salí yo de mala. (SÚAREZ, 1984:91)
Mais adiante as duas freiras relatam que para serem salvas, a família passou a se dedicar à orações, promessas e jejuns, aproximando-se mais de
Deus. A provação da doença em terna idade, apesar de não dito, mostra que a presença destas mulheres fortaleceu a fé dos familiares, deixando mais forte os alicerces do lar cristão. O sofrimento deve se fazer uma constante para que Deus não seja esquecido.
As freiras se utilizam destes momentos da vida para construir uma escrita que funciona como um espaço sintomático, teatralizado, no qual as doenças se apresentam como protagonistas de um corpo que morre para ressuscitar a alma. A dor do corpo não é sofrimento, mas uma chance de padecer por Deus. Quanto mais doía o corpo, mas se depurava a alma. Assim, as doenças deveriam estar presentes em toda a narrativa, marcando as transições da vida. Josefa del Castillo costuma narrar momentos de profundo padecimento físico antes de acontecimentos marcantes, tais como sua entrada no convento, morte de pessoas importantes, debilidade de relações no espaço conventual. Várias são as vezes nas quais a doença lhe arrebata dos pequenos infernos cotidianos, onde se travavam intrigas e acusações. Enquanto estava prostrada em sua cama, a freira colombiana mantinha contato com Deus, que a aconselhava e a fortalecia para seguir adiante. A doença, entretanto, era desejada mais por seu caráter curativo do que consolador.
A relação entre pecado e doença, como já dissemos, é importante por sua dimensão sagrada. Adoecer também seria uma indicação de que a freira estava pecando, estava vulnerável ao mal. A doença era, portanto, um assunto moral. Josefa del Castillo, por exemplo, tem um possível problema cardíaco interpretado como influência diabólica:
Enfermé mucho, y se pasaban algunos tiempos sin poderme levantar de la cama. Dábame mal de corazón y muy recio, y entonces las personas estaban enojadas conmigo, me echaban água bendita, y decían que estaba endemoniada, y otras cosas, que en oyéndolas yo, me servían de mayor tormento. (CASTILLO, 2007: 85)
O coração, símbolo dos sentimentos humanos, começou a adoecer quando entre as freiras do convento surgiram boatos de que a madre Castillo desejava os devotados, solicitando sempre a presença deles no convento. O coração estava fraco porque nele a freira nutria a luxuria, própria do demônio.
O coração tinha problemas de funcionamento como castigo pela possível transgressão do voto de castidade. E o padecimento deve ser encarado com doçura, pois um gesto de rebelião lembraria figuras orgulhosas do Antigo Testamento, e consequentemente da tradição judaica. Rebelar-se contra o Criador significaria não acreditar na sua justiça, significaria sepultar a ideia do Pai que só quer o bem de seus filhos. Não saber aceitar a doença poderia ser uma prova de heresia. Protestantes, por exemplo, acreditavam que a dor deveria ser combatida, pois esta não seria um castigo, tampouco um caminho para a redenção da alma. Le Breton (118) nos lembra que para a Reforma, as doenças físicas eram indiferentes a Deus. O corpo adoece porque é seu destino natural e o que irá determinar a vida pós-morte são as obras dos homens e não seu sofrimento físico. Para a Contra-Reforma, no entanto, as dores provocadas pelas doenças não deveriam ser diminuídas, pois tal prática denotaria uma consciência equivocada. Em caso de doença, deve-se chamar um padre e não um médico. Tal prática é informada por Josefa del Castillo (2007:108) em ocasião do surgimento de um tumor em sua boca. Conta a mística que diante de tal situação, a Madre Abadessa manda chamar o padre prior de San Juan de Dios, único que conheceria o remédio para este mal. A cura, no entanto, não é relatada pela freira, pois o que interessa aos confessores é a causa da enfermidade e a maneira de encará-la.