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1 ESCOLA: ENTRE CONCEITOS, INOVAÇÃO E TRADIÇÃO

7.4 Corpo

O corpo, historicamente, é um conceito ambivalente, pois ele é ao mesmo tempo receptor da norma, disciplinarizado, mas também é resistência (REVEL, 1999). É com meu corpo de mulher, homem, magra, gorda, baixa, alta, feminilizada, masculinizada que deixo marcas nesse mundo e que sou marcada por ele: “[...] o corpo é ao mesmo tempo receptáculo e ator face as normas prontamente enterradas, interiorizadas, privatizadas” (CORBIN; COURTINE; VIGARELLO, 2012, p. 11). É através do corpo que me vejo como sujeito no mundo, que me identifico social e culturalmente. E, também é através do corpo que a norma nos controla, pois as sexualidades e as identidades de gênero se materializam no corpo, que quando desvia da norma deve ser fiscalizado.

O que nos coloca em uma via de questionamento com a história do corpo nesse trabalho é a construção de que só existem duas formas de corpo, a saber, o corpo masculino e o feminino baseado no diformismo sexual. Dependendo com qual genitália a pessoa nasça, isso deverá definir o comportamento que terá na sociedade. Conforme Vergueiro:

Quando se considera que a leitura sobre os corpos seja capaz de, objetivamente, determinar gêneros, ela também é atravessada pela ideia de que estes corpos, se ’normais’, terão estes gêneros definidos a partir de duas, e somente duas, alternativas: macho/homem e fêmea/mulher (VERGUEIRO, 2015, p. 64).

Dessa maneira, o binarismo designado ao corpo é um traço importante da cisnormatividade e da heteronormatividade. Na verdade, antes mesmo de nascer, já é atribuído ao feto uma série de expectativas: quando o médico afirma que é menino ou menina na ecografia obstétrica, se está produzindo masculinidades e feminilidades àquele corpo que nem nasceu ainda (BENTO, 2011): “A suposta descrição do sexo do feto funciona como um batismo que permite ao corpo adentrar na categoria ‘humanidade’” (AUSTIN, 1990 apud BENTO, 2011, p. 551). Se for menina espera-se que seja vaidosa, delicada e amável, se for menino, espera-se que seja forte e corajoso.

Os corpos ganham sentido socialmente. A inscrição dos gêneros — feminino ou masculino — nos corpos é feita, sempre, no contexto de uma determinada cultura e, portanto, com as marcas dessa cultura (LOURO, 2000, p.6).

Nossa cultura está embasada em um binarismo de gênero, em que construímos nossas expectativas em cima do feminino ou do masculino, não nos permitimos ampliar a visão para as diversas performances que o corpo pode ter.

Com o nascimento daquele corpo que já foi socialmente definido, permanece sendo construído como feminino ou masculino, pois ao longo da vida vai ouvido discursos do tipo: “Você não se comporta como uma menina”, “Esse brinquedo é de menino”, “Parece uma guriazinha chorando”, “Para de chorar, seja homem”, “Nenhum menino vai te querer se tu continuar desse jeito”, “Menino não tem cabelo comprido”, “Menino não brinca de boneca”, “Esse menino dança igual uma menina”, “Essa menina é muito saidinha”, entre tantos outros discursos que estamos acostumados a ouvir de pais, mães, avós, professores/as que ensinam as crianças a desenvolverem esse tipo de pensamento binário. Suas feminilidades e masculinidades estão subjetivamente sendo construídas através desse discurso. Dessa forma, não se pode atribuir à natureza um comportamento que é reiterado cotidianamente para meninos e meninas através dos discursos dos familiares. E é, então, o corpo que dá origem às diferenças sociais. Em idade escolar, a partir dos seis anos, a criança já está “contaminada” pela cultura, seu corpo já está doutrinado para comportar-se de acordo com o gênero que foi designado ao nascer (BENTO, 2011). E na escola essa binarização dos corpos se perpetua, conforme Megg de Oliveira: “O corpo está na mira dessa máquina que controla os padrões de comportamentos e estéticos, entre tantos outros” (OLIVEIRA, 2018, p. 183).

Segundo Laqueur (2001) o interesse em mostrar as diferenças entre os corpos ou representar o corpo como bissexuado não ocorreu por conta de uma descoberta de algum essencialismo entre homens e mulheres, mas sim um interesse político: “As formas de interpretar o corpo mudaram, não pelo avanço da ciência, mas resultaram de desenvolvimento analítico: epistemológico e político” (LAQUEUR, 2001, p. 22). A noção de que o corpo do homem e da mulher eram diferentes iniciou a partir do século XVIII, a medida que as características físicas de ser homem e mulher determinaram o que era feminino e masculino. Porém, conforme Laqueur, em nenhum dos registros médicos os quais ele examinou havia “conhecimento específico da diferença sexual em termos históricos a partir de fatos indiscutíveis [...] quanto mais examino os registros históricos, menos clara se torna a divisão sexual” (LAQUEUR, 2001, p. 8). Dessa forma Laqueur acredita que não há diferenças essenciais entre os sexos, enquanto feminino e masculino.

A diferença do corpo se dá no campo social, cultural e epistemológico, é assim que o corpo ganha significado no mundo. Linda Nicholson (2000), em seu artigo Interpretando o gênero, afirma que o corpo passa a ser fonte do binarismo, pois, no século XVIII, ele é significado pela natureza:

Na medida em que o corpo passou a ser percebido como representante da natureza, ele assumiu o papel de "voz" da natureza, ou seja, na medida em que havia uma necessidade percebida de que a distinção masculino/feminino fosse constituída em termos altamente binários, o corpo tinha que "falar” essa distinção de forma binária. A consequência disso foi uma noção "bissexuada" de corpo (NICHOLSON, 2000, p. 21)

De certo modo, a sociedade é fundada nesse binarismo até os dias de hoje, designando o gênero a partir de uma leitura do corpo, identificando o sexo macho/fêmea. Assim, já se imagina que tipo de comportamento aquele ser terá.

Como já mencionando anteriormente, a linha de pensamento transfeminista surge a partir da discordância da ideia de divisão morfológica imutável de sexo e gênero; afinal, é “[...] um fator de opressão das pessoas trans, por regular corpos não conformes à norma binária homem/pênis e mulher/vagina” (JESUS; ALVES, 2012, p.8). Os corpos não são determinados pelo sexo (genitália) de forma binária, homem/pênis, mulher/vagina, o que é fator fundamental para identificar os corpos como pertencentes a determinado gênero está associado ao social e à cultura.

Esses corpos que subvertem as normas regulatórias para assegurar a hegemonia cisgênera e heterossexual pesam (BUTLER, 2000), ou seja, não conseguem comportar- se conforme os rótulos que determinada identidade pretende fixar, seus sentimentos e desejos, seu desenvolvimento psíquico e social são diferentes daquilo que a norma apresenta: “os corpos não são, pois tão evidentes como usualmente pensamos. Nem as identidades são uma decorrência direta das “evidências” dos corpos” (LOURO, 2000, p. 8). Assim, não é o corpo que determina a identidade de gênero e a sexualidade das pessoas. É um desenvolvimento muito mais complexo e não autoevidente.

Aqueles que não se adequam às normas regulatórias acabam sofrendo discriminações, preconceitos e até mesmo agressões físicas por serem taxados como “antinaturais”, porque seu corpo desvia daquilo que as pessoas acreditam que seja a natureza:

As experiências de trânsito entre os gêneros demonstram que não somos predestinados a cumprir os desejos de nossas estruturas corpóreas. O sistema

não consegue a unidade desejada. Há corpos que escapam ao processo de produção dos gêneros inteligíveis e, ao fazê-lo, se põem em risco porque desobedeceram às normas de gênero, ao mesmo tempo revelam as possibilidades de transformação dessas mesmas normas. Esse processo de fuga do cárcere dos corpos-sexuados é marcado por dores, conflitos e medos (BENTO, 2011, p. 551).

Assim, apesar de haver sofrimento, dor e conflito quando o corpo não é identificado com o gênero sentido, ainda assim, o corpo é um lugar de resistência e um espaço de luta. E são esses corpos não conformes à norma binária que tensionam as instituições e fazem com que reflitam a constituição da norma. Conforme Vergueiro:

descentralizar a cisgeneridade como definidora das possibilidades legítimas de gênero deve, também, ser um processo que questione a premissa de permanência das identidades de gênero em suas relações e diálogos com suas formações corporais, uma premissa que, em se produzindo como normatividade, estabelece restrições e violações de direitos significativos às diversidades corporais e de identidades de gênero (VERGUEIRO, 2015, p. 66).

Para o desenvolvimento de um currículo de História com disposição antinormativa, desnaturalizar as constituições dos corpos binários também deve estar na roda, sendo capaz de desconstruir determinismos biológicos e narrar novas histórias a partir dos corpos que chegam à sala de aula, desejantes de serem representados/as.