XLVI 96. Quid? illudne dubium est, quin multi, cum itanati essent, ut quaedam contra naturam deprauata haberent, restituerentur et corrigerentur
87 E Um corpo com as pernas demasiadamente compridas ou com qualquer outro excesso é, em si mesmo, simultaneamente aberrante e
assimétrico; ao mesmo tempo, quando conjuga esforços, provoca muitos sofrimentos, muitas roturas e quedas, em virtude do seu movimento cambaleante; o que é uma causa de incontáveis males para si próprio.
Devemos pensar o mesmo acerca do composto dual a que chamamos ser-vivo, porque quando nele a alma, por ser mais poderosa do que o corpo, se apresenta irascível, sacode-o violentamente e inunda-o todo de doenças 88 A. por todo o lado, e consome-o quando se debruça intensamente sobre algum ensinamento ou investigação; quando ela se dedica à aprendizagem ou a discussões oratórias, em público ou em privado, agita-o e torna-o ardente nas disputas e rivalidades que se geram. Ao induzir fluxos, engana a maioria dos chamados médicos e fá-los responsabilizar as causas contrárias. Quando um corpo demasiado grande e demasiado forte para a alma é congeminado com uma actividade intelectual diminuta e frágil, como nos homens 88 B. existem dois tipos de apetites – um de alimento, que provém do corpo, e outro de pensamento, que provém da parte mais divina que há em nós –, e visto que os movimentos da parte mais poderosa dominam e aumentam o seu poder, tornam a alma obtusa, avessa à aprendizagem e privada de memória, e produzem a pior doença: a ignorância. [Tradução: Rodolfo Lopes]106
Daniel R. McLean107 também aborda a consciência fisiognomônica e destaca o
fato de Foerster ter citado, em sua compilação de autores que trataram da fisiognomonia, inúmeras passagens de Platão. O autor lembra ainda o quanto a relação entre o “bem” e o “belo” está presente no pensamento da Antiguidade, tendo em vista que uma bela aparência era indicativo de qualidades e Platão teria herdado os preconceitos fisiognomônicos de sua época, já que a beleza é um termo de significado ético em seus diálogos.
Em Teeteto, temos um exemplo do modelo de homem kalos kagathos, recorrente em Platão, 185e:
106 Timeu – Crítia. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos – Universidade de Coimbra, 2011.
107 “The Socratic corpus: Socrates and physiognomy”. Cf. p. 75. In: Socrates from Antiquity to the Enlightenment and Socrates in the Nineteenth and Twentieth Centuries. Londres: Ashgate (Centre for Hellenic Studies, King’s College), v. 1, p. 65-88, 2007.
{ΣΩ.} Καλὸς γὰρ εἶ, ὦ Θεαίτητε, καὶ οὐχ, ὡς ἔλεγε Θεόδωρος, αἰσχρός· ὁ γὰρ καλῶς λέγων καλός τε καὶ ἀγαθός. πρὸς δὲ τῷ καλῷ εὖ ἐποίησάς με μάλα συχνοῦ λόγου ἀπαλλάξας, εἰ φαίνεταί σοι τὰ μὲν αὐτὴ δι' αὑτῆς ἡ ψυχὴ ἐπισκοπεῖν, τὰ δὲ διὰ τῶν τοῦ σώματος δυνάμεων. τοῦτο γὰρ ἦν ὃ καὶ αὐτῷ μοι ἐδόκει, ἐβουλόμην δὲ καὶ σοὶ δόξαι.
Sócrates: Sabes, Teeteto, és belo e não feio, como afirmou Teodoro, pois aquele que discursa belamente, é belo e bom. Mas além de ser belo, me fizeste um favor ao poupar-me de uma longa discussão, já que pensas que a alma, embora considere algumas coisas através das faculdades do corpo, considera outras sozinha e através de si mesma. De fato, era essa a minha opinião e desejava que concordasses comigo. [Tradução: Edson Bini. Grifo nosso]108
No início do mesmo diálogo, Sócrates é descrito por Teodoro com uma aparência disforme: nariz chato e olhos saltados (143e).
Boys-Stones propõe que Platão não concordava com o princípio geral da fisiognomonia, visto não existir de fato uma relação entre corpo e alma, já que esta preexiste ao corpo por ser imortal e chega ao corpo já formada; nesse sentido, o corpo e o ambiente podem afetar o caráter da alma, já que ela se desenvolve por meio de experiências nas encarnações. O teórico vê no exemplo de Fédon (81e - 82b) mais um comprometimento com o personagem de Fédon do que com a teoria fisiognomônica109.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, 1127b-1128a, relaciona o comportamento das pessoas ao ethos. Ele cita, por exemplo, o indivíduo espirituoso e o bufão vulgar: o bufão é exagerado na tentativa de provocar o riso e se torna vulgar, ao passo que o indivíduo espirituoso graceja com bom gosto e reflete um caráter decoroso.
O emprego da fisiognomonia, portanto, marca presença na literatura antiga mesmo antes dos tratados que hoje conhecemos, mas o questionamento acerca de seu estatuto persiste. Baroja110 expõe bem esta dúvida ao citá-la como ciência e arte, no entanto, ele
ressalta que o fato da fisiognomonia não ter conseguido constituir um sistema de verdades
108 BINI, E., op. cit.
109 In: SWAIN, S. op. cit., acerca dessa discussão cf. p. 36-41.
110 BAROJA, C. op. cit.: “[...] el del desarrollo de la fisiognómica, fisiognomónica o fisionomía, de la que se dice que es la “ciencia que estudia la relación del carácter y el aspecto físico de los individuos y especialmente el carácter y los rasgos de la cara”. Al lado de esta definición se nos dirá que también se llama así al “Arte de adivinar el carácter de acuerdo com los signos exteriores”. ¿Una ciencia o una arte? He aqui la primera cuestión replanteada outra ves. Si ciencia es sinónimo de saber, o un conjunto de conocimientos con unidad suficiente y que conducen a conclusiones concordantes, podemos decir que la fisiognómica hoy no puede considerarse como tal ciencia, aunque muchos lo hayan pretendido. Tampoco como conjunto de reglas o procedimientos que conducen a um resultado seguro, como arte. Porque los esfuerzos realizados de dos mil quinientos años, o más, a esta parte, no han alcanzado verdadera madurez.” (p. 20-1)
gerais e ainda ser colocada ao lado de falsas ciências, nos impossibilita de classificá-la como ciência sem que haja contradições e resultando no saber verdadeiro; além disso, nem mesmo poderíamos considerá-la arte, consistindo esta no conjunto de regras para produzir um resultado determinado.
André Lalande, em seu vocabulário filosófico111, enuncia a primeira definição de
arte de acordo com Galeno: “conjunto de procedimentos que servem para produzir um certo resultado”. Neste sentido, a fisiognomonia representa uma techne cuja finalidade é a avaliação do caráter e das paixões por meio da observação da aparência física; no entanto, pensar que haja um sistema para orientar esta techne que possa ser considerado episteme, entendendo-a como saber teórico, é questionável, visto que a teoria proposta nos manuais é imprecisa e nem sempre as imagens descritas são facilmente compreendidas.
Podemos ainda lembrar o termo patognomonia que, segundo Martin Porter112, é uma nomenclatura moderna para o estudo das emoções por meio das expressões da face, equivalendo ao terceito método citado no tratado de Pseudo-Aristóteles113. A acepção de patognomonia no Dicionário Houaiss é: “estudo dos sinais e sintomas característicos das doenças”, cuja datação do adjetivo correspondente “patognomônico” em nossa língua é de 1601. Chantraine114 esclarece que, no grego moderno, p£qoς significa “doença”.
Charles Le Brun, diretor da Academia Real de Pintura e Escultura da França, na conferência L’expression generale et particulière (1668), contribuiu significativamente para o estudo das alterações faciais de acordo com as emoções. Le Brun115 afirma que o movimento da alma é seguido por reações no corpo.
111 LALANDE, A. op. cit., cf. p. 88-9. 112 PORTER, M., op. cit., cf. p. 56-57.
113 Cf. Pseudo-Aristóteles, 805a30. Sugerimos a leitura da tradução em inglês de SWAIN, S. op. cit. 114 CHANTRAINE, P. Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque. Paris: Kincklisieck, v. I, 1968. Cf. p. 862.
115 Citação indireta de LE BRUN, C. Conférence sur l’expression générale et particulière. In: DESJARDINS, L. “La peinture ou les passions entre mimésis et technè”. Le corps parlant: savoirs et représentation des passions au XVIIe siècle: “Et comme il a été dit que l’âme a deux appétits dans la partie sensitive, et que de ces deux appétits naissent toutes les passions, il y a aussi deux mouvements dans les sourcils qui expriment tous les mouvements des passions. Ces deux mouvements que j’ai remarques ont um parfait rapport à ces deux appétits, car celui qui s’élève em haut vers le cerveau, exprime toutes les passions les plus farouches et les plus cruelles.” (p. 181)