Diagrama 4 – Cenário moulage dialógica
2.1 DESIGN ESTRATÉGICO
3.1.4 Corpo: transdutor de signos
Ao concentrar o seu olhar nas metamorfoses apresentadas pelo corpo, Gil (1997) investigou de que maneira o corpo humano atua como o transdutor ideal de símbolos e signos, partindo da premissa de que o ser humano possui, atavicamente, a capacidade de gerar e traduzir os signos construídos. A geração e a tradução de signos somente é possível pela articulação entre significados e significantes, momento em que surgem também espaço para os significantes flutuantes. Para o referido autor, alguns rituais primitivos – que ainda existem, especialmente ligados a religiões – configuram-se como tentativas de posicionamento do homem na centralidade das operações de significação, em especial através da busca por conhecimentos preexistentes e já estabelecidos em um “acervo” ou “gramática corporal”. São essas operações de significação que abrem as possibilidades de colocar em fruição, através do corpo, uma variada gama de conexões de informações e de percepções.
Ao relacionarmos a teoria de Gil (1997) com o campo da moda, podemos afirmar que o corpo e as roupas sempre estabeleceram este diálogo de mútuas influências. Ao longo dos tempos, incontáveis peças de roupa foram criadas não apenas para cobrir o corpo, mas também para responder questões do campo das sensibilidades, tais como atender desejos por determinadas silhuetas com formas, volumes e proporções específicas, por exemplo. Por isso, podemos considerar que o corpo sempre se posicionou como um elemento operador de conceitos, o transdutor de signos de moda. De forma idêntica, a moda nunca deixou de se beneficiar das formas e da imagem do corpo para ser vista, para comunicar algo e para
retroalimentar-se, financeira e conceitualmente. Ou seja, tanto a moda influencia o corpo quanto o corpo influencia a moda, pois as roupas são os objetos mais próximos ao nosso corpo, a fronteira entre nós mesmos e o mundo, ainda mais se considerarmos que a pele é a fina linha física que nos separa do meio ambiente. Esta linha somente é ultrapassada pelo olhar e pelas percepções de mundo que construímos ao longo de nossas vidas e nos ambientes sociais que frequentamos. Designers referenciais na moda adotam a ideia de diálogo entre corpo e moda através de distintas dinâmicas e fluxos simbólicos, que ultrapassam o material e se aproximam de experiências sensoriais, como observamos em lojas conceituais de diversas marcas de moda (SVENDSEN, 2010).
No desenvolvimento desse estudo, ao investigarmos as mais relevantes técnicas, ferramentas e processos criativos contemporâneos no design de moda, observamos que a moulage constitui-se em uma das principais técnicas utilizadas, pois contempla a interpretação do corpo através de tecidos, em um processo transdutor e dialógico que se mostrou extremamente relevante para os designers de moda. Se o corpo é o grande transdutor de signos do mundo em que vivemos, então a moulage pode ser considerada, por analogia, a grande transdutora do corpo da moda, em uma operação realizada pelo olhar, técnico e conceitual, do designer de moda. Em poucas palavras, a transdução dos signos e símbolos acontece por meio do corpo.
Entretanto, o processo de transducção e diálogo oferecido pelo corpo não seria completo se não abrangesse o seu movimento e géstica. Se movimento e géstica não fossem elementos de suma importância, o corpo para a moulage poderia ser substituído, sem perdas estéticas, por um simulacro de corpo (ou busto), o corpo que finge ser corpo. Porém, este simulacro não oferece, por exemplo, o movimento, a géstica e os trejeitos, os quais são fundamentais para que os designers compreendam questões que ajudam a moldar os corpos existentes nos dias de hoje, tanto física quanto simbolicamente. Ou seja, o corpo humano em movimento é uma linguagem capaz de se expressar através de diferentes manifestações culturais como, por exemplo, o misticismo, a arte ou outras maneiras imprecisas, de significados difusos e interpretativos, mutantes e que variam de acordo com o tempo e o espaço de diferentes culturas. Desta forma, reafirmamos a relevância do significante flutuante, um significante com capacidade de representar muitos (ou mesmo quaisquer) significados, pois opera através da subjetividade ou da perspectiva particular de quem
os interpreta. Em outras palavras, as coisas podem significar aquilo que seus significantes desejam que elas signifiquem, através de influências imprecisas e inúmeras conexões de insumos advidos tanto do ambiente em que se encontram como de seu “acervo” particular, diferente do acervo de outras pessoas.
No entanto, sempre que o significante flutuante opera, ele o faz acompanhado de um resíduo, que ainda mantém certa energia inerente à sua própria existência, mas também faz referência ao todo por ele representado. Ou seja, a energia do todo é potencializada pela existência deste resíduo, um pedaço que contém uma força significativa quase equivalente ao todo. Os amuletos e relíquias religiosas são resíduos altamente potentes, talvez tão potentes quanto a integralidade da mensagem que reverberam, assim como algumas peças de roupa.
Na moda, um vestido de noiva é um exemplo no qual a potência e a reverberação do que significam ficam explícitas. São resíduos ou marcas que, em si, podem ser insignificantes em um primeiro momento, mas que ainda carregam dentro de si toda a potência da energia que empregam quando pertencem a um todo – neste caso em específico, o casamento. Nestes resíduos, é possível percebermos praticamente toda a potência, de forma latente, do significado de sua totalidade.
A seguir, destacaremos o corpo e as suas relações com movimento, comunicação e moda, na tentativa de aproximação destes temas com o objetivo da pesquisa em curso.