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PARTE II: A REALIDADE COMO PONTO DE PARTIDA: O

2.3 O CORPO QUE VIAJA

Se na excursão os sentidos humanos são consumidores, na perspectiva elaborada por Agamben (2007), pois são incapazes de fazer uso dos estímulos visuais, gustativos, auditivos, entre outros, e se adquirem à disposição de um apetite, porque são acionados apenas por aquilo que provoca sensações (TÜRCKE, 2010), podemos considerar que, na excursão, é o ―corpo que viaja‖ e não o sujeito. Não o corpo restituído da sua sensibilidade, mas o corpo-armadura (BUCK-MORSS, 1996), um corpo preocupado, valorizado e julgado precisamente pelo seu desempenho no campo da satisfação sensorial, inserido, portanto, dentro daquilo que se convencionou chamar de culto ao corpo e na extensão de uma cultura somática (COSTA, 2005).

A partir do que analisamos até aqui, podemos compreender que a viagem é um fenômeno pertencente e intensificador de uma dinâmica composta por novas relações com o corpo e com o cuidado de si que se tornou referência para a construção das identidades contemporâneas. Como observa Costa (2005), tendo em vista o caráter presentista da nossa sociedade, não é por um acaso que as experiências com e pelo corpo assumem espaço preponderante, pois só ele tem a qualidade de experimentar a coisa no tempo presente, é nele que o sujeito moderno deposita toda sua esperança e seu investimento de saúde, beleza, prazer e felicidade. O corpo é a sede das sensações, é onde podemos sentir o prazer imediato, diferente, por exemplo, da alma, a partir da qual encontraríamos a paz somente na posteridade (COSTA, 2005).

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Ivone - Bancária aposentada, 59 anos, casada, 3 filhos que não residem com ela. Natural de Piratuba e residente em Florianópolis. Ensino superior completo. Viajou sozinha para Curitiba. Entrevista em 20/12/14.

Também é importante apontarmos que o processo de reencantamento pelo corpo, dentro da perspectiva desenvolvida por Costa (2005), não considera que haja uma divisão propriamente dita entre corpo e mente, como corroboram os autores anteriormente referenciados. A análise de Costa (2005) mostra, no entanto, a ênfase que vem sendo dada ao corpo em suas dimensões materiais e a forma como os padrões de aparência corporal e os pressupostos da ―qualidade de vida‖ têm se tornado significativos para a definição de felicidade e para a caracterização moral dos indivíduos na atualidade. Nas palavras do autor:

O cuidado de si, antes voltado para o desenvolvimento da alma, dos sentimentos, ou das qualidades morais, dirige-se agora para a longevidade, à saúde, à beleza, à boa forma. Inventou-se um novo modelo de identidade, a bioidentidade, e uma nova forma de preocupação consigo, a bioascese, nos quais a fitness é a suprema virtude. Ser jovem, saudável, longevo e atento a forma física tornou-se a regra científica que aprova ou condena outras aspirações à felicidade (COSTA, 2005, p. 190).

Não só a alimentação saudável, os exercícios e os procedimentos estéticos tornaram-se referentes para a qualificação do indivíduo, mas a imagem social de um corpo desinibido, controlado emocionalmente, que privilegia as sensações físicas, enfim, um corpo sempre em movimento, também é suporte para sua admiração moral. No interior deste novo paradigma de felicidade e qualidade de vida, a viagem tem sido uma prática amplamente recomendada, principalmente para os idosos, e conserva uma moralidade condizente com aquela enaltecida pela cultura somática.

A viagem é, a nosso ver, a materialidade de um corpo que se exige estar ativo e em movimento num duplo sentido, primeiramente pelo seu deslocamento físico no espaço, mas também por representar um deslocamento em direção à jovialidade e tudo o que ela representa: o ―corpo que viaja‖ é o corpo que está em crescimento, que não ―parou no tempo‖, que não ―morreu em vida‖, como ilustra a situação descrita a seguir.

Na saída do Parque Knorr, em Gramado, pergunto para um senhor de idade avançada se ele está gostando, ele balança a cabeça afirmativamente, pergunto se gosta de viajar e ele diz que ―não

muito‖. A esposa dele entra na conversa abruptamente e diz que ele gosta, sim, que ficar em casa é pedir para se entregar, que ele tem que viajar junto com ela, senão ela também não pode, pois não tem com quem deixá-lo.143

Costa (2005, p.197) não desenvolve a ideia, mas sugere que na velhice assumiríamos uma bioidentidade própria desta faixa etária, quando faríamos a ―última tentativa bioascética de permanecer jovem, vital, por dentro da moda‖. Na cultura somática, o ―corpo que viaja‖ também é definidor de caráter e de identidade, pois é um corpo que se disciplina, que se diverte, é forte moralmente para investir na sua saúde mental e emocional. Diferente, portanto, daqueles que ficam em casa, não procuram formas de interação social, desenvolvem estresse, depressão, entre outras doenças, pois supostamente se deixaram abater pelos problemas, pela velhice [...]. São os ―fracos‖ que desistiram da vida, ou que aceitam uma vida supostamente menos interessante centrada no ambiente doméstico. A estes, restam-lhes rezar, como fez um turista na excursão realizada para Lages: ―Dentro do ônibus, um turista idoso pede para fazer uma oração no início da viagem, o guia concorda e passa o microfone. O turista inicia a reza dizendo que nem todos têm a facilidade de sair viajando toda hora e temos que agradecer‖.144

Ao lembrar àqueles que não estão viajando, o turista, de certa forma, demonstra solidariedade para com aqueles que não teriam as mesmas condições financeiras ou físicas para realizar a prática, mas também demonstra pesar por eles estarem aquém de um ideal de felicidade pautado no desempenho corporal. Não se supõe, neste momento, que alguém não queira ou não goste de viajar, pois o gozo sensorial proporcionado pela viagem é avaliado como extremamente relevante para que o sujeito sinta-se pertencente a um estilo de vida prestigiado, aquele associado ao entretenimento, conforme explica Costa (2005).

Entendemos que os pressupostos da cultura somática não se restringem, portanto, ao desenvolvimento de uma relação imediata entre moralidade e aparência corporal, mas também entre moralidade e uso social do corpo. O idoso certamente não representa em sua aparência o ideal de forma física, beleza e jovialidade inscritos no contemporâneo, mas busca estas características por meio dos usos (ou consumo) que faz

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DC3 - ―Gramado e Canela‖.

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do seu corpo: um corpo que está antenado, atualizado, que faz curso de informática e viaja.

O ―corpo que viaja‖ inscreve-se na cultura somática principalmente porque direciona toda sua atenção e esforço para o gozo sensorial145. Segundo Costa (2005), a sensorialidade é a face da experiência corporal mais valorizada e explorada na nossa sociedade e converteu-se no ideal de felicidade. É aquilo a que aprendemos que nos sentiríamos mais ―satisfeitos‖ e a que atribuímos um maior valor moral, é o que, de imediato, ―experimentamos como agradável, prazeroso, extático‖ (COSTA, 2005, p. 194). A alteração da percepção social do corpo em direção à sua valorização fez com que nos tornássemos mais sensíveis às experiências que utilizam a expressão corporal que, mesmo sendo parte de uma mesma unidade, comporta diferenças fenomênicas em relação à expressão mental.

[…] a expressão física é o modo do corpo agir e reagir às circunstâncias presentes, enquanto a expressão mental, o modo de rememorar ações e reações passadas que auxiliam o organismo a obter satisfação nas interações atuais ou futuras com este meio. Ao agir no aqui e agora, o corpo projeta os seus atributos físicos no ambiente para interpretá-lo e modificá-lo, com vistas a satisfazer necessidades em curto prazo; ao se retrair do presente imediato, relaxa o tônus da preparação para a ação e permite que a memória de ações pretéritas reforce a eficácia da intenção pretendida (COSTA, 2005, p. 213).

A mesma diferenciação que o autor faz neste trecho, entre prazer sensorial, privilegiado pela cultura somática, e satisfação, Benjamin (1994d) faz entre gozo imediato e a satisfação plena. Enquanto o primeiro caracteriza-se por uma dependência a um estímulo sempre novo que se aproxima daqueles experimentados na esfera das necessidades corpóreas, como vimos em relação às sensações, a segunda

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A sensorialidade, ou sensação física de que estamos falando é somente uma entre as várias formas em que podemos experimentar nossa sensibilidade, outras podem ser, por exemplo, a ação pública, que teria sua experiência de satisfação voltada ao mundo e à vida comum, ou ainda o amor romântico, que tem satisfação no cultivo dos sentimentos e na ―memória das interações vividas com o outro próximo‖ (COSTA, 2005, p. 193). Em ambos os exemplos a sensação física era subordinada a algo exterior, ao contrário do que vemos hoje na cultura somática.

só se realiza a partir de uma relação aurática com os objetos. Neste sentido, em diferentes perspectivas, ambos os autores dão ênfase à imaginação e à memória para que este tipo de satisfação prolongada se exerça.

O gozo das sensações depende da capacidade do corpo tornar presente a fonte de estimulação prazerosa. [...] não tem como usar a fantasia para prolongar a satisfação, pela rememoração do passado ou pela projeção do gozo atual no futuro. Resta, portanto, uma saída: recorrer incessantemente a novos objetos e situações que estimulem o corpo e o façam gozar (COSTA, 2005, p. 236).

Memória e semelhança fazem parte dos caminhos que percorremos no próximo capítulo. Essas noções, inseridas na perspectiva benjaminiana, compõem nossas análises sobre as relações, representações e percepções dos turistas sobre os objetos turísticos (da história, da natureza, do comércio e dos espetáculos), contribuindo para a compreensão do que se constitui uma relação aurática e seu entrelaçamento com a experiência.

Antes disso, finalizando as ideias que estávamos desenvolvendo a partir dos argumentos de Costa (2005), destacamos que o investimento no corpo e em experiências que provoquem sensações não caminha, contudo, unicamente para o excesso de prazer. A necessidade por estímulos sempre novos, em doses cada vez mais fortes para que façam o indivíduo se ―sentir vivo‖, segundo o autor, também o coloca em um estado de eterna privação, pois este tipo de prazer idealizado é, quase sempre, inalcançável porque está sempre no ―outro‖: na vitalidade dos corpos nos catálogos de suplemento alimentar, no aspecto de liberdade e felicidade nos rostos das propagandas de viagem, no sucesso das celebridades nas revistas. Talvez e por isso, a moralidade centrada no corpo e o ideal de felicidade das sensações sejam componentes ostensivos da Indústria Cultura. O corpo e suas sensações são fetiches engendrados por seus esquemas, que

[...] não sublima[m], mas reprime[m] e sufoca[m]. Expondo continuamente o objeto de desejo, o seio no suéter e o peito nu do herói esportivo, ela apenas excita o prazer preliminar não sublimado, que, pelo hábito da privação, há muito tempo se tornou puramente masoquista (HORKHEIMER; ADORNO, 2015, p. 35).

A valorização da sensação e do consumo como formas de vivenciar o turismo pode ser inserida nos novos usos do sujeito com o corpo e com o cuidado de si, que se constituem nos novos guias morais para a formação da subjetividade contemporânea, bem como são constituidoras de novas formas de convívio e de relacionamento com o outro por meio de biossociabilidades, tema que desenvolveremos no Capítulo 5.

3 AS RELAÇÕES ENTRE O TURISTA E OS OBJETOS TURÍSTICOS: A NOVIDADE, A PROXIMIDADE E A MONOTONIA

3.1 OBJETOS TURÍSTICOS: A NATUREZA, A HISTÓRIA, O