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CAPÍTULO II CORPOS (IM)POSSÍVEIS: LOCUS DE OPRESSÃO E

2.3 Corpos maternos: o lugar social e cultural

As representações dos corpos femininos na literatura contemporânea latino- americana, chicana e caribenha, dialogando com a ação política do feminismo, têm alimentado debates de gênero, como um locus privilegiado para a problematização das relações desiguais de poder e assimetrias de gênero (subordinação da mulher) na sociedade e nas relações humanas, que se mostraram problemáticas para as mulheres.

Nos primórdios do feminismo, embora a produção literária sobre o corpo materno tenha sido discutida na perspectiva das mulheres brancas e de classe média, tendo ocupado um espaço substancial na literatura americana e de outros países/continentes, mulheres escritoras, inclusive não-brancas, em resposta a esta herança, começaram a rejeitar essas concepções, problematizando o objeto da maternidade (DAVIDSON; MARTIN, 1995).

O trinômio – casamento, gravidez e maternidade – foi e ainda é visto, na maioria das culturas, como destino de todas as mulheres, tornando-se uma norma, um padrão social e constructo das identidades desses sujeitos. Tais compreensões são naturalizadas e justificadas pelos sistemas heterodominantes, principalmente pelas instituições religiosas que historicamente vincularam a gravidez ao casamento e à maternidade como dom divino e realização de toda mulher dentro de uma família nuclear. Apesar de tantas modificações na vida social, com o surgimento da pílula, as mudanças na família, a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, ainda assim, esse trinômio permanece pelo menos como uma referência que a sociedade indica/impõe às mulheres.

A crítica feminista dos anos 1980/90 provocou mudanças na representação da maternidade, desconstruindo a visão essencialista da mulher como procriadora.

A voz crítica feminista que levantou contra as prescrições androcêntricas de boa maternidade esclareceu que tais noções não passavam de reproduções do contexto social, histórico e político como forma de controle social sobre as mulheres. Foram as feministas radicais da Segunda Vaga quem trouxe à discussão uma vertente importantíssima da maternidade: os cuidados maternos, que foram em larga medida socialmente construídos e muitas vezes influenciados politicamente. (MACEDO; AMARAL, 2005, p. 124).

Para algumas feministas, a exemplo de Kate Millet (1970) e Sulamith Firestone (1971), a maternidade é fundante da opressão das mulheres, sendo imputada pelo patriarcado. Para Firestone, na Dialética do Sexo (1971), o fim das desigualdades entre homens e mulheres

só ocorreria quando a mulher abrisse mão de sua capacidade reprodutiva, defendendo a reprodução artificial para ambos os sexos (homem/mulher). Reconhecemos um radicalismo exacerbado na proposta, porém o momento realmente era de abalar e questionar as bases das estruturas onde a opressão se instalava.

Badinter (1985) questiona a naturalização da maternidade, desmitificando a noção de “instinto maternal”, visto como essência exclusiva do corpo feminino e, portanto, função das mulheres no exercício da maternidade ou da maternagem, argumentando que “uma mulher pode ser normal sem ser mãe e que mãe não tem uma pulsão irresistível a se ocupar do filho” (BADINTER, 1985, p. 9).

Adrianne Rich (1976), em Of Woman Born, desenvolve ideias sobre a maternidade por dois ângulos diferentes, um sobreposto a outro: a experiência de fato e a institução da maternidade, como explica a autora:

[…] the potential relationship of any woman to her powers of reproduction and to children; and the institution, which aims to ensuring that that potential – and all women – shall remain under male control. This institution has been a keystone of the most diverse social and political systems. It has withheld over one-half the human species from the decisions affecting their lives; it exonerates men from fatherhood in any authentic sense; it creates the dangerous schism between 'private' and 'public' life; it calcifies human choices and potentials63. (RICH, 1976, p. 13).

De acordo com Rich (1976), a maternidade tem sido utilizada pelo sistema político e social para reforçar as hierarquizações de papéis de gênero, ausentando os homens de suas responsabilidades paternas. Na atualidade, temos acompanhado matérias midiáticas criminalizando as mães que, por razões complexas, rejeitam este “instinto materno”. Deste modo, compreendemos que a maternidade é uma construção histórica, social e cultural, visto que nem todas as mulheres desejam, querem ou podem ser mães biológicas ou adotivas por razões subjetivas, sociais, econômicas e culturais. Neste sentido, compreendemos que a maternidade deve ser uma escolha e não uma obrigatoriedade.

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A relação potencial de qualquer mulher com seus poderes de reprodução e para com crianças; visa assegurar que esse potencial - e de todas as mulheres – deva permanecer sob controle masculino e a instituição quer. Essa instituição tem sido a pedra angular dos sistemas político e social mais diversos. Tem retido mais da metade da espécie humana das decisões que afeta suas vidas; ela exonera homens da paternidade em qualquer sentido autêntico; cria o perigoso corte entre vida ‘privada’ e ‘pública’; calcificando as escolhas e potencialidades humanas (Tradução livre).

Este ideário da obrigatoriedade da maternidade biológica se cristalizou e se enraizou com afinco nas culturas mexicanas e dominicanas, como podemos constatar nas representações das personagens descritas nos romances de nosso estudo, personagens latino- americanas inseridas nesses mundos.

Na cultura mexicana e dominicana, uma mulher que engravidasse antes do casamento oficializado tinha seu destino traçado pelo matrimônio que normalmente ocorria de forma imposta pelas famílias, como aconteceu com as personagens de Caramelo, Regina Reyes e Soledad Reyes, e En el nombre de Salomé, com a personagem Gregória Ureña. Regina casa-se com o espanhol Eleuterio, que, ao tomar conhecimento de sua gravidez, a abandona e só volta atrás em sua decisão para salvar a moral da família espanhola, como recorda-se o personagem:

[...] Cuando conocí a tu madre no podía pensar en otra cosa que no fuera mi propio placer. Y en mi ceguera, hijo mío, fuiste concebido. Cuando tu madre me dijo que estaba encinta, empaqué mis cosas y empecé a vagar por los caminos sin mirar atrás, y a la larga me encaminé a mi lugar de origen, Sevilla. Salí corriendo y abandoné a tu madre. (CISNEROS, 2002, p. 164).

Regina Reyes, embora uma mulher de personalidade forte (la Reyna), mesmo apaixonada por outro homem, negro e pobre, não teve outra escolha a não ser se casar com Eleuterio. Ela não conseguiu fugir das amarras do casamento, que foi oficializado com a interferência do sogro, que desperta a consciência do filho sobre seu comportamento de “perro”, convencendo-o a assumir a jovem grávida como esposa. O pai, segundo a narradora, inicialmente era contra o relacionamento do filho com Regina, por questões de preconceito étnico e social, mas convence o filho a se casar com ela, que, no discurso de Eleuterio, “a quién debía [ella] agradecerle por salvar su honra” (CISNEROS, 2002, p. 165). O código de honra era definido pela cultura heteronormativa, aqui representada pelos personagens masculinos. Eleuterio, que concebe o corpo de Regina como objeto sexual, e o pai que garante a normatização do patriarcado pela via do casamento, o que evidencia que casamento, heterossexualidade compulsória e família formam o tripé de um modelo heteronormativo patriarcal.

Regina, mulher de origem indígena, pobre, de pouca escolaridade e educada na tradição católica, de acordo com a narradora, se dá “[...] cuenta de que si no se casaba con el padre de su hijo, su destino no sería sino una vida de dificultades” (CISNEROS, 2002, p. 165), pois seria vista como uma mulher desonrada. Portanto, para ela o casamento com um homem branco e europeu tornava-se conveniente:

A Regina le gustaba pensar que al casarse con Eleuterio Reyes había purificado la sangre de su familia, se había vuelto española, por así decirlo. Hay que reconocer que su familia era tan morena como la cajeta y tan humilde como una tortilla de nixtamal. (CISNEROS, 2002, p. 121).

O preconceito étnico verificável na busca pela “purificação do sangue”, representado na história de Regina, é resultante da colonização espanhola em que subjaz a ideia de superioridade da cultura branca europeia sobre a cultura indígena, sendo esta considerada como inferior e discriminada dentro do próprio território, daí a dificuldade de Regina em assumir seus traços étnicos. Neste sentido, Cisneros mostra as chagas de anos de relações coloniais desiguais, que afetam a autoestima do povo das ex-colônias em relação a ínumeros aspectos: fenótipo, desempenho linguístico e hábitos culturais.

Na história de Soledad (nora de Regina), cujo nome etimologicamente significa solidão, a personagem tem seu destino selado pelo beijo do homem que a transforma na mãe de seus filhos: “Entonces Narciso Reyes se acercó a Soledad y besó a la mujer que se convertirá en la madre de sus hijos. E ese beso estaba su Destino. Y el de ella” (CISNEROS, 2002, p. 153). O corpo da menina transforma-se num corpo jovem de mulher que desperta desejo, pois agora ela “se encontraba, más llenita, con un trasero agradable, y un rebote encantador en su blusa cada vez que se movía” (CISNEROS, 2002, p. 153), despertando em Narciso “sentimientos extraños”, isto é, atração sexual pelo corpo da bela mulher em que ela havia se transformado.

De certa forma, a situação de abandono pela qual havia passado Regina, é vivida por Soledad com seu futuro marido, Narciso, que passa a tratá-la com indiferença e menosprezo, ao perceber que o corpo belo, que outrora havia lhe dado prazer e cuidado, já não era mais o mesmo:

Hasta ese momento, era como si Narciso no hubiera visto realmente a Soledad. Se veía tan lastimosamente absurda y pequeña temblando al lado de Eleuterio, con su panza redonda y todo. Él recobró su humanidad en ese momento y comprendió lo que su padre le estaba diciendo. Él era un Reyes, un Reyes, y los Reyes, aunque eran muchas cosas, definitivamente ¡no eran perros! Habiéndolo recordado esto, Narciso Reyes cumplió con su obligación como Caballero. (CISNEROS, 2002, p. 174).

Eleuterio, ao perceber o comportamento de “perro” do seu filho, recordando do passado quando seu pai fez com ele se casasse com Regina, entra em defesa da moça, fazendo com que se casem. O casamento de Soledad com Narciso é aceito por Regina e realizado em

decorrência de uma promessa que esta faz à Virgem de Guadalupe para proteger seu filho, Narciso, das atrocidades da guerra mexicana.

[...] una hermosa recepción que nunca tomó lugar porque, a decir verdad, la panza de Soledad hacía que Regina se avergonzara de verla. No, no era La nuera que hubiera escogido, pero tenía que aceptar el habla milagrosa de su marido como la voluntad de Dios. Le había prometido a la Virgen de Guadalupe hacer lo que le mandara, si tan sólo mantenía a Narciso a salvo durante la guerra. Y aquí estaba, después de todo, sano y salvo. (CISNEROS, 2002, 174).

Contudo, o casamento é realizado sem festas porque as transformações do corpo grávido de Soledad eram motivo de vergonha para Regina e Narciso, que influenciados pela Tradição da Igreja Católica, culpabilizam Soledad por manter relações antes do casamento, não consagrando o casamento perante as leis divinas do catolicismo, já que só as mulheres virgens poderiam receber a benção divina, porque só Maria foi virgem e mãe.

A obrigatoriedade do casamento também ocorre na experiência da personagem de En el nombre de Salomé, Gregória Ureña, que se casa em decorrência da gravidez, como se recorda Salomé:

El matrimonio de mi madre y mi padre había contado con la suficiente aceptación de su familia, particularmente porque, si contabas desde el nacimiento de Ramona, mi hermana mayor, no cabía duda de por qué fue necesario. Pero si hubiese habido tiempo para discutir el asunto, los Ureña hubiesen sostenido una larga conversación con su hijo Nicolás en la que le hubieran indicado que a pesar de que Gregória era lo suficiente blanca, y a pesar de que ella hablaba de su abuelo de Islas Canarias, no había más que mirar a su abuela y sacar tu propias conclusiones. (ALVAREZ, 2002, p. 21).

Regina, Soledad e Gregória tiveram seus destinos traçados pela gravidez e pelo consequente casamento. O casamento, no contexto da época, torna-se, assim, um refúgio moral para esconder a sexualidade vivenciada antes do mesmo e para salvaguardar a integridade das mulheres desvirtuadas, “salvar su honra”, para não serem expulsas do convívio familiar e/ou excluídas da sociedade. Naquela época, as jovens, além de esconderem a gravidez da sociedade ou da família, normalmente se deparavam com o abandono e/ou rejeição dos homens que as engravidavam, o que, aliás ainda hoje ocorre em muitas partes do mundo.

Cisneros e Alvarez questionam este lugar imposto às mulheres, mostrando como uma família, grupo ou representante de uma nação constrói um modelo ideal de “mulher”, a partir

de um referencial materno. Ao mesmo tempo, evidenciam como as mulheres nessas culturas permanecem ou rompem com este papel e função social, culturalmente construídos pela sociedade patriarcal, ocupando outros lugares na sociedade. Na narrativa, são as personagens das novas gerações e contextos, a exemplo de Lala e de sua amiga Vivia Ozama, que irão romper com estes lugares tradicionais de gênero, como veremos mais à diante.

As experiências maternas vivenciadas pelas personagens de Cisneros são marcadas pelo sexismo e etnicidade, que estão justapostas. Regina e Soledad reproduzem a negação de sua identidade indígena desde o nascimento à vida adulta de seus primogênitos, expressando sua alegria ao perceber a cor da pele do filho, como afirma a voz narrativa:

Muy contenta estaba su mamá de ver que había nacido con la piel más clara que la suya. Le pellizcó los genitales color malva para comprobar que era cierto: — Así es cómo se sabe. Sí, sería güero. El mundo lo trataría con bondad. (CISNEROS, 2002, p. 163).

O fato de Regina desejar que o filho seja “güero” (pele branca, não mestiço) é a voz de uma mãe que tem consciência do racismo presente na sociedade colonizada pelos brancos, dotados de privilégios no mundo. Se ela foi resgatada pelo casamento, deseja que o filho seja de pele clara. A experiência de gravidez e maternidade vivida por Soledad acontece ainda na fase da juventude, com Narciso Reyes, sendo mãe de quatro crianças, três meninos (Inocencio, Chato e Baby) e uma menina, Norma (Güera), com a qual a mãe estabelece uma relação de conflito.

Ao longo da história ocidental, a religiosidade e arquétipos míticos têm influenciado na formação da identidade das mulheres de diferentes culturas, de geração em geração, sobretudo nas culturas latino-americanas, como parte do processo de colonização. Na cultura mexicana, a devoção à Virgem de Guadalupe, central na cultura religiosa, remonta ao período da colonização espanhola, conforme a historiadora Marta Robles:

Portadora de una fuerza vivificante sobre la que se levantaría el único símbolo indiscutible de la patria, la Virgen de Guadalupe es también una de las respuestas religiosas más inteligentes de la evangelización colonial. Su presencia en el Valle del Tepayac, zona sagrada de la región de Anáhuac, mitiga el baño de sangre que derramaron los conquistadores españoles durante años de sangueo y cruel sujeción en nombre de la grandeza imperial de la península; después, al instaurarse como creencia legítima de un pueblo que en su rostro moreno reconoce la cara de su espiritualidad. (ROBLES, 2004, p. 243).

Octavio Paz (1998), em Labirinto da Solidão, ao fazer um resgate das representações sagradas da cultura mexicana, mostra como os mitos das ancestralidades indígenas astecas foram sendo substituídos pelas divindades católicas e ganhando popularidade:

El lugar de su aparición (ante el indio Juan Diego) es una colina que fue antes santuario dedicado a Tonantzin, ‘nuestra madre’, diosa de la fertilidad entre los aztecas64. [...] La Virgen católica es también una Madre (Guadalupe-Tonantzin la llaman aún algunos peregrinos indios) pero su atributo principal no es velar por la fertilidad de la tierra sino ser el refugio de los desamparados. La Virgen es el consuelo de los pobres, el escudo de los débiles, el amparo de los oprimidos. En suma, es la Madre de los huérfanos. (PAZ, 1998, p. 35).

Na leitura do autor, a Virgem refletia tanto a condição geral dos homens como a espiritual e material, e ainda: “Madre universal, la Virgen es también la intermediaria, la mensajera entre el hombre desheredado y el poder desconocido, sin rostro ((PAZ, 1998, p. 35). Deste modo, a construção das identidades de Regina e Salomé é influenciada pela dimensão da religiosidade e da espiritualidade. Em muitos países da América Latina, as mulheres de tradição religiosa católica recorrem às figuras divinas femininas para que possam interceder nos momentos em que se encontram mais vulneráveis, aflitas, sem saber que rumo dar à vida, como aliviar suas dores, tomar decisões na vida, pedir soluções para os problemas pessoais e da família.

A narradora no capítulo: Le pido a la Virgen que me guíe porque no sé lo hacer diz o que segue: “[...] En la fresca oscuridad de la iglesia Soledad Reyes le rezaba a diario a la estatua de madera de la Virgen de la Soledad […]” (CISNEROS, 2002, p. 197), já que segundo Paz, “La Virgen es el consuelo de los pobres, el escudo de los débiles, el amparo de los oprimidos. En suma, es la Madre de los huérfanos (PAZ, 1998, p. 35).

Na presença da Virgem de Guadalupe, a órfã Soledad pede a intercessão das figuras divinas para que o filho nasça do sexo masculino:

Si su bebé era varón, Soledad prometió que lo amaría como la Virgen y lo llamaría Inocencio. [...] llamaría Inocencio a su bebé si era varón, y lo amaría con el amor puro de una madre como la Santísima Virgen de la Soledad que murmuraba y sufría solita mientras José, bueno, ¿dónde

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De acordo com Paz, com o desaparecimento das divindades masculinas Quetzalcóatl, o deus do autosacríficio, e Huitzilopochtli, o joven deus guerreiro que sacrifica. “La derrota de estos dioses, inicia-se un ciclo cósmico y la instauración de un nuevo reinado divino— produjo entre los fieles una suerte de regreso hacia las antiguas divinidades femeninas. Este fenómeno de vuelta a la entraña materna, es sin duda una de las causas determinantes de la rápida popularidad del culto a la Virgen. Ahora bien, las deidades indias eran diosas de fecundidad, ligadas a los ritmos cósmicos, los procesos de vegetación y los ritos agrarios” (PAZ, 1998, p. 35).

demonios estaba cuando lo necesitaba? Confiablemente poco confiable, como todos los maridos. (CISNEROS, 2002, p. 197).

A predileção de Soledad pelo sexo masculino (“varón”) da criança que esperava é influenciada pela sua história pessoal, a qual é permeada por relações desiguais de gênero, em que aos homens é permitido maior poder, status e privilégios do que às mulheres. Deseja que sua prole tenha melhor futuro, que esse seja mais promissor. Na medida em que a gravidez avança, as mudanças no corpo se evidenciam e com ela a tristeza e solidão afloram e a jovem grávida se sente ainda mais invisível perante a família Reyes, “[...] ella era una criatura triste y temerosa a quien todos estaban tan acostumbrados a ver que ya no la veían” (CISNEROS, 2002, p. 172). Soledad não tinha nenhum conhecimento sobre a sexualidade e a reprodução, ao ponto de não compreender porque tais mudanças ocorriam no corpo das mulheres grávidas:

Ella había subido tanto de peso que tenía la cara hinchada, el cuello ancho y rosado, y ahora tenía papada doble. Se había transformado de una mujer a una niña gorda vestida con ropa suelta y cuellos de bebé blancos y bordados. También se había hecho algo raro en el pelo, se había cortado el fleco de manera que se veía como una niña crecida. ¿Por qué hacían esto las embarazadas? Se preguntaba.[...] Desde que su esposo se había ido, Soledad juraba que le habían crecido un número los pies. En la intimidad, le dio por andar descalza, pero esto enfurecía a su esposo. – Pareces india – la regañaba. – No me insultes dejando que te vean así; como si no tuviera dinero para comprarle zapatos a mi mujer. (CISNEROS, 2002, p. 194-195).

Durante a gestação, Soledad, devido ao inchaço dos pés, anda sem sapatos pelo espaço da casa fazendo com que o marido sinta vergonha, já que remete pés descalços à pobreza ou ao atraso. Ela já não se reconhecia neste corpo que, aos poucos, ganhava formas estranhas, que nem sabia ser bastante comum em seu estado:

Si tan sólo él me susurrara un cariñito al oído, pensaba ella, una palabra dulce, una palabra que se hacía sagrada por el aliento tibio de él en su cuello. Una palabra amable que le hiciera temblar la piel. ¿No lo sabía, su Narciso?