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O CURRÍCULO E A MULTIRREFERENCIALIDADE: ASPECTOS DO PASSADO E DO PRESENTE INDÍGENA

PALAVRAS CHAVE IES

3.1.3. Corpos, vestimentas e pinturas

Nos diferentes continentes, o corpo é lugar de manifestações. Tatuagens, pinturas e símbolos, com distintos significados são expressões culturais que os corpos carregam, permanentemente, ou em distintas ocasiões, que expressam a cultura de um povo.

Considerando os diferentes povos indígenas, eles utilizam procedimentos usando jenipapo, carvão, urucum e outros materiais, como já é do conhecimento comum. A depender dos costumes, várias são as partes dos corpos que marcam rituais, ou demonstram a passagem de algum fato importante para aquela pessoa ou comunidade. Os cabelos, as orelhas, as pernas, os braços, as costas, a barriga, enfim, o corpo é lugar de vibrar e demarcar ocasiões. Essas manifestações variam de sociedade para sociedade indígena.

Propor o estudo sobre corpos, vestimentas e pinturas exemplificado na Figura 33, é também ter a responsabilidade de considerar que, o que se faz num lugar, não necessariamente é feito numa outra comunidade. Na Bahia e no Brasil, há uma grande diversidade nas artes corporais indígenas.

Figura 33 - Arte no corpo

Fotografa: Valuza Saraiva (2016).

Com os dedos, pincéis ou varetas de madeiras, a pintura é construída nos corpos de mulheres e homens. Assim como o anel, a pintura também pode demonstrar compromisso amoroso com alguém, ou se está à espera de um encontro. O braço pode ser o lugar dessa demarcação. Os motivos podem variar de acordo com a etnia, mas merecem atenção e cuidado ao se apresentar o uso da pintura como forma de falar da cultura indígena nas escolas. Vejamos na Figura 34 homens pintando homens, se embelezando para uma importante celebração.

Figura 34 - Pintura como afirmação indígena

E, quando a proposta é o trabalho com o grafismo indígena, variadas são as pesquisas nessa direção, que merecem estudo para o tratamento da temática nas instituições educacionais. Estudiosos(as) indígenas mostram resultados de pesquisas, a exemplo da dissertação de mestrado de Arissana Souza - Pataxó (2012), intitulada ―Arte e identidade: adornos corporais Pataxó.‖

A Figura 35 é uma demonstração da arte dessa etnia, onde elementos da natureza se cruzam para embelezar e demarcar contextos sociais nas suas diversidades e ressignificações estéticas.

Figura 35 - Arte corporal Pataxó

Foto: Acervo SEC (2011).

Com o objetivo ―[...] de descrever os adereços Pataxó, sua produção e uso, refletindo sobre sua relação com a identidade e história deste povo [...]‖ (SOUZA, 2012, p.6), a pesquisadora usa imagens e depoimentos que demonstram o antes e a atualidade dos adereços da sua etnia. Neste trabalho ela destaca a importância da

história de um povo ―[...] através da memória oral, da relação com o território, e dos conhecimentos transmitidos dos mais velhos aos mais novos, sucessivamente‖ (idem, p. 85).

Assim sendo, mesmo usando novas formas ou elementos, a matéria-prima e a gestão do conhecimento dos mais novos, através da escuta aos mais velhos, tem assegurado à continuidade e fortalecimento da identidade indígena. Vejamos na Figura 36 o detalhamento da arte passada por gerações.

Figura 36 - Pinturas para Festividades

Fotografa: Valuza Saraiva (2011).

A depender do lugar, do motivo e da intencionalidade de expressão, o uso das vestimentas indígenas é sim uma forma de luta. Vejamos o que aponta a pesquisadora indígena, Souza (2012, p. 43):

[...] ainda hoje é possível constatar, nos meios acadêmicos, e mais ainda entre a população em geral, uma concepção estática das culturas dos povos indígenas. Mudanças, empréstimos, criações e invenções, mesmo no âmbito do contexto histórico brasileiro, parecem ainda não caber nas mentes das pessoas em relação aos povos indígenas.

Entendendo que luta consiste também em enfrentar a forma de vestir, quando este vestir não corresponde ao padrão dos modelos apontados como vigentes - a troca entre indígenas (desde os saberes aos materiais e produções) é uma forma de fortalecimento individual e coletivo.

Por outro lado, não é cabível exigir que indígenas andem somente com esse tipo de vestimenta, pois essa ―pureza‖ esperada não compõe a vida de povos e sua autenticidade coexiste num contato cotidiano fora dos seus ambientes. Para tanto, vale o questionamento:

 Esse desejo do passado nesses corpos não seria uma forma de novamente impor a essas vidas, tal qual feito na história?

Composta por estudantes do magistério que concluem o curso com as vestimentas da sua etnia, a Figura 37 e a Figura 38 demonstram a estética daquele momento.

Figura 37 - Mulheres e Homens Tupinambá na Formatura Indígena

Fotografa: Valuza Saraiva (2011).

Figura 38 - Mulheres Pataxó na Formatura Indígena

Para além de pintar as crianças nas escolas, de forma descontextualizada, sem um traço que traga este trabalho indígena, vale o olhar mais apurado à trama presente no tecido das pinturas corporais de indígenas da Bahia, como exemplificamos na Figura 39, onde podem ser vistos diversos padrões geométricos.

Figura 39 - Pinturas usadas nas costas

Fotografa: Valuza Saraiva (2013).

No Norte ou no Nordeste, os indígenas têm suas características e o pleito é refazer o jeito de pensar como se alguns fossem ―caboclos‖, ―misturados‖, ou outras nomenclaturas construídas que acabam por colocar graus em quem é mais ou menos indígenas.

Todos compõem o grande tecido histórico de Brasil que resulta no indígena da contemporaneidade.

São muitas as formas de se vestir, se arrumar e se pintar (no rosto ou noutras partes do corpo).

Com cores e materiais variados de acordo o contexto indígena, confirmamos na Figura 40 e na Figura 41 o ser e viver de nações nas pinturas e adereços.

Figura 40 - Pinturas e adereços

Fotografa: Valuza Saraiva (2017).

Figura 41 - Adereços Tupinambá, na CONEEI

Contudo, conforme chama à atenção Aracy Lopes da Silva (1993, p. 132), a intenção deve ser ―[...] informar corretamente; abrir caminhos para a compreensão da sabedoria, das peculiaridades e da riqueza de vida presentes nas sociedades indígenas; sensibilizar para a situação dramática que esses povos têm enfrentado ao longo da história‖. Desta forma, evidenciar lutas, resistências e expressões da coletividade divulgada nas danças, nos cantos, nos rituais e nos projetos de povo que existem e resistem na atualidade.

3.2. (RE)CAPITULANDO

Tratar sobre os povos indígenas deve ser uma responsabilidade da educação escolar, pois já passou do tempo de se indignar com a superficialidade ao tratar desta temática na escola. Os dados quantitativos registrados no início do capítulo, por meio do estudo do censo e crescimento demográfico, trazem os números que comprovam onde estão indígenas no campo ou nos centros urbanos. Nesse sentido, a partir das investigações sobre a indianidade e o que as instituições educacionais necessitam ilustrar, convém elucidar sobre:

 o lugar de indígenas e negros nos documentos oficiais, pois são evidências da discriminação existente pós exploração europeia;

 indígenas no campo e na cidade e suas condições: laboral, de saúde, de moradia, educacional, etária, municípios de residência, dentre outras;

 adornos como símbolos de resistência em práticas sociais e políticas;  pinturas: seus contextos nas festividades e nas lutas.

O capítulo a seguir, ―Capítulo 4. Enfrentamentos Educacionais‖ dá continuidade ao tratamento das lutas de indígenas da atualidade, considerando a perspectiva da educação escolar indígena, suas frentes de trabalho e reivindicações.

CAPÍTULO 4