2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DO ESTUDO
2.6 Estudo de corpus e letramento
2.6.1 Corpus: conceito e uso
A pesquisa da linguagem de tradução foi defendida por Mona Baker em 1993, ao considerar que os textos traduzidos têm características próprias e seu estudo poderia proporcionar informações para estudiosos da linguagem e tradutores. A autora salienta que a linguagem traduzida é importante na visão de mundo de boa parte da população mundial, constituindo um evento comunicativo, com seus próprios objetivos, pressões e contextos de produção.
Baker (1993) apresentou a ideia original do uso de corpora computadorizados nos Estudos da Tradução. Ao apresentar pesquisas que usaram corpora como metodologia, envolvendo áreas como a de terminologia, que passou a utilizar textos autênticos e estudos descritivos, além de questionar a utilização dos termos em contextos diferenciados, questionando noções prescritivas, Olohan (2004) afirma que o uso de corpora na tradução teve reflexo de variadas formas nos Estudos da Tradução. Ela diz ainda que o uso de corpora nos Estudos da Tradução ocorre também na identificação de estratégias utilizadas por tradutores, convenções impostas por gêneros e tipos de texto, exame das estruturas discursivas e de textualização, análise de características léxico-gramaticais e características particulares dos autores.
Corpus é definido como coleção de textos selecionados e agrupados, seguindo critérios definidos e explicitados conforme os objetivos da compilação. Pode incluir textos de várias áreas, contendo dados empíricos para estudo em diferentes áreas. Nos Estudos da Tradução baseados em corpus, a palavra “corpus” é uma coleção de textos em formato eletrônico cuja análise é feita automática ou semiautomaticamente no computador, conforme proposto por Baker (1995).
Mais do que uma abordagem, perspectiva ou paradigma particular o uso de corpora na pesquisa de Estudos da Tradução se
configura como uma metodologia de pesquisa, que, como alerta Olohan (2004), requer discussão, aplicação e reconhecimento de forças e limitações intentando melhoria em seu desenvolvimento. Debate que pode conclamar a uma maior aplicação da metodologia em estudos e práticas de tradução, de modo que se obtenha um refinamento em seus processos teórico-metodológicos.
Baker (1995) apresenta três tipos de corpora os quais julga sejam possivelmente usados nos Estudos da Tradução: corpus paralelo; corpus multilíngue; corpus comparável. No presente estudo, será trabalhado corpus paralelo, que conforme Baker (1995) é constituído por textos na língua-fonte e suas versões traduzidas. Esse é um tipo de corpus bastante utilizado nos Estudos da Tradução. São utilizados softwares especialmente feitos para que se possa alinhar textos-fonte e suas traduções. Conforme Baker (1995), as pesquisas a partir de corpus paralelo permitem que se tenham dados para objetivamente analisar comportamentos tradutórios.
Fernandes (2006) ao analisar a tipificação de corpus listada por Baker (1995) anos após este texto ter sido publicado argumenta acerca de cada aspecto apontado pela autora. Aqui é feita uma referência ao que Fernandes comenta sobre o uso dos termos comparável e paralelo.
Os termos “comparável” e “paralelo” são vistos a partir da perspectiva de seus aspectos contrastivos, enquanto o “multilíngue” não tem nenhum aspecto contrastivo que pudesse distingui-los dos outros dois tipos de corpora. “O termo multilíngue somente adquire aspecto contrastivo quando comparado a outros corpora em termos de número de línguas” (FERNANDES, 2006, p. 91). Assim, a sugestão inicial de Baker é atualmente classificada como corpus comparável multilíngue linguístico.
Os corpora paralelos são caracterizados a seguir, a partir do texto de Dayrell (2005):
- são geralmente bilíngues, mas podem também ser multilíngues;
- permitem a identificação de determinado padrão ou unidade nas línguas de partida e de chegada simultaneamente;
- são utilizadas técnicas de alinhamento para que se estabeleçam ligações entre textos de origem e de chegada; - servem como ferramenta para avaliar o comportamento traducional de dois idiomas;
- são úteis na investigação do relacionamento entre padrões lexicais e sintáticos nas línguas de origem e de chegada e de ocorrências isoladas de “tradutorês”;
- desempenham papel importante na formação de tradutores, no desenvolvimento de sistemas de tradução automática e na lexicografia bilíngue;
- possibilitam a mudança da perspectiva prescritiva para a perspectiva descritiva (para Baker, a mais importante contribuição para os Estudos da Tradução);
-fornecem “evidências empíricas de estratégias e alternativas adotadas por tradutores para solucionar dificuldades e obstáculos encontrados na prática tradutória” (DAYRELL, 2005, p. 94).
A utilidade da compilação de corpora com textos completos tem sido defendida (Baker, 1995; Fernandes, 2013) para analisar palavras, orações e frases, quanto à estrutura textual em seu contexto.
Quanto ao tamanho do corpus, uma análise qualitativa dos dados permite que corpus compilado em pequena escala tenha valor reconhecido nos Estudos da Tradução (FERNANDES, 2013). No trabalho com corpora específicos, tem sido demonstrada a representatividade maior quando os corpora são menores, do que quando o trabalho é feito a partir de corpora maiores como, por exemplo, o British National Corpus (BEBER SARDINHA, 2000). No entanto, de acordo com este último autor, ao seguirem propósitos particulares, corpora de estudos deixam de ser disponibilizados para a comunidade científica, comprometendo a replicabilidade e generabilidade. Explica que um dos fatores para que isso ocorra são os direitos autorais dos textos utilizados.
Antes do seu uso na disciplina de Estudos da Tradução, corpus já era utilizado na linguística, por exemplo, como ferramenta computacional. Com isso foi ampliada a possibilidade de utilizar uma extensa base de dados para investigar características de padrões de linguagem. Da mesma forma, para explorar diferentes aspectos da linguagem traduzida hoje, várias pesquisas são realizadas tendo como metodologia de trabalho o uso de corpus.
O uso de corpora na tradução teve reflexo de variadas formas nos Estudos da Tradução, como menciona Olohan (2004) ao apresentar pesquisas que usaram corpora como metodologia, envolvendo áreas como a de terminologia, que passou a utilizar textos autênticos e estudos descritivos, além de questionar a utilização dos termos em contextos diferenciados, questionando noções prescritivas. Além dessa área, outras tantas sofreram modificações investigando conhecimento de aspectos inerentes à linguagem traduzida, estilo de autores, etc.
Outras formas de utilização de corpora nos Estudos da Tradução são destacadas por Olohan (2004), como a identificação de estratégias utilizadas por tradutores profissionais, soluções a desafios dadas pelos mesmos, convenções impostas por gêneros e tipos de texto, exame das estruturas discursivas e de textualização, análise de características léxico-gramaticais e características particulares dos autores.
A importância do uso de corpora na pesquisa de Estudos da Tradução, portanto, não está ligada a uma abordagem, perspectiva ou paradigma particular, e sim, a uma metodologia de pesquisa, que, como enfatiza Olohan (2004) é relativamente recente e requer discussão, aplicação e reconhecimento de forças e limitações para que haja melhoria em seu desenvolvimento. Para que essa discussão seja feita de forma ampla, é necessário que se tenha uma maior aplicação da metodologia em estudos e práticas de tradução, gerando, assim, um refinamento de seus processos teórico-metodológicos.