II O município e os outros poderes
1. Os elementos de ligação com o poder central
1.1.0 corregedor da comarca
O Regimento dos Corregedores de 1332 e o Regimento de 1340 constituem os documentos que procuraram restringir os abusos dos corregedores, agentes do poder régio que actuavam directamente junto ao poder local. Este oficial surge com regularidade a partir de 1323, no reinado de D. Dinis134, numa época conturbada dos
Concelhos, minados pela acção de bandos no seu interior relacionados com poderosos que procuravam aumentar a sua influência na vida concelhia.
A actuação dos corregedores obteve, desde a sua criação, uma reacção negativa por parte dos Concelhos, considerada como abusiva face às prerrogativas dos oficiais locais. Ao longo dos séculos XIV e XV multiplicaram-se as queixas dos Concelhos contra estes oficiais régios que, de acordo com os procuradores enviados às Cortes, desrespeitavam facilmente os forais e privilégios locais.
Em 1433 surgiu a ideia da criação de um conjunto de normas e recomendações que servissem para regular a actuação dos corregedores no desempenho da justiça. O indivíduo, para além de ser obrigatoriamente um letrado, ocuparia o cargo apenas durante três anos. Durante o desempenho do cargo, deveria respeitar as competências e decisões dos oficiais locais, contribuir para o rápido andamento dos processos e ser alvo de uma fiscalização por parte dos elementos concelhios.
HESPANHA, António Manuel - História das Instituições. Épocas medieval e moderna, Coimbra, Livraria Almedina, p. 429.
MORENO, Humberto Baquero - A presença dos corregedores nos municípios e os conflitos de competências (1332-1459), in "Revista de História", F.L.U.P., vol. X, 1989, p. 77.
Na segunda metade do século XV as queixas agravaram-se e levaram os representantes do poder local a pedirem a extinção de um cargo cujos titulares continuavam a intrometer-se nas decisões municipais e a desrespeitar as normas estabelecidas para a sua actuação.
Apesar dos pedidos o cargo não foi extinto, permanecendo no início do século XVI como principal elemento de ligação entre os municípios e o poder central. O próprio rei D. Manuel I procederá a uma reformulação do "Regimento dos Corregedores", em
1524135.
De acordo com as Ordenações Manuelinas, o corregedor possuía competências diversas ao nível da justiça, recebendo querelas ou inquirições136, podendo também dar
ordem de prisão. Neste caso os presos eram posteriormente remetidos aos juizes para estes desembargarem o caso137.
Em relação aos oficiais locais, o corregedor deveria averiguar se eram céleres no despacho dos feitos, não devendo intrometer-se nas suas competências138. No reinado
de D. Manuel também se acentuou o controle das contas concelhias, efectuado pelo corregedor e, mais tarde, pelo juiz de fora139.
O corregedor era obrigado a fazer a correição pelo menos uma vez por ano, não podendo permanecer no mesmo lugar mais que trinta dias, quando se tratava de uma cidade como o Porto, salvo especial mandado régio140. Todas as sentenças dadas eram
escritas por um tabelião ou escrivão que o deveria acompanhar sempre141.
Durante o período estudado, o corregedor da comarca de Entre Douro - e - Minho era Pedro de Aguiar, referenciado como bacharel142, condição que corresponde ao perfil
pretendido pelo poder central.
A sua presença nas reuniões da Câmara do Porto faz-se sentir principalmente quando se elegem os oficiais para cada ano camarário, indicando que tal eleição não se poderia realizar sem o representante do poder régio, que também jurava os juizes e vereadores para os respectivos cargos.
MORENO, Humberto Baquero - A presença dos corregedores nos municípios e os conflitos de competências (1332-1459), in "Revista de História", F.L.U.P., vol. X, 1989, p. 12.
6 Ordenações Manuelinas, Lv. 1, Tit. XXXIX, p. 248. 137 Ordenações manuelinas, Lv. 1, Tit. XXXIX, p. 255. 138 Ordenações manuelinas, Lv. 1, Tit. XXXIX, p. 249.
\Z N°Va História de Portuëah volume V- "Do Renascimento à União Dinástica", p. 152.
Ordenações manuelinas, Lv. 1, Tit. XXXIX, p. 262.
141 Ordenações manuelinas, Lv. 1, Tit. XXXIX, p. 262. 142 A.H.M.P., Vereações, Lv. 9, fl. lOlv.
Presenças do corregedor nas reuniões da Câmara
1508 1509 1510 1511
N ° de presenças 8 2 14143 14144
N ° de reuniões 34 26 41 49
Apenas na reunião de 7 de Julho de 1509 surge um conflito entre a Câmara e o corregedor, relacionado com a elaboração das pautas com os nomes dos cidadãos elegíveis para os diferentes cargos, nos três anos seguintes. Tal como o regimento régio estabelecia, a Câmara elegeu seis indivíduos para, isolados, elaborarem as referidas pautas, após o próprio corregedor 1er em plena sessão o regimento régio sobre o procedimento a seguir em tal caso145. Contudo, os oficiais queixaram-se que o
corregedor "limpara" as pautas sem a sua presença, afirmando o representante do poder central que o monarca lhe dissera para seguir o regimento régio. O problema foi resolvido rapidamente, concordando Pedro de Aguiar em "limpar" as pautas na presença dos oficiais.
Como já foi referido, o corregedor deveria averiguar se os oficiais locais desempenhavam bem as suas funções. Em Março de 1509, o procurador da cidade queixou-se que os oficiais faziam as suas audiências fora da localidade, prejudicando certamente quem se dirigia à Câmara para resolver os seus problemas. Como apenas Pedro de Aguiar poderia solucionar o problema, foi decidido que o escrivão deveria escrever ao corregedor, logo que os juizes enviassem uma resposta por escrito146.
As ausências dos juizes também eram alvo das atenções do corregedor. Na reunião de 14 de Julho de 1509, quando jurou os novos oficiais, a ausência de um dos juizes levou-o a mandar notificar o porteiro do juiz para este se dispor a servir "... sua semana ..." , impondo uma pesada pena de dois anos de degredo, se a situação não fosse resolvida147.
E também na sua presença que os novos oficiais de 1510, na reunião de 10 de Julho, decidem avisar os vereadores anteriores para terminarem a sua correição pelo termo da
Em 2 reuniões é substituído pelo "ouvidor pelo corregedor".
144 Em 7 reuniões é substituído pelo "ouvidor pelo corregedor". 145 A.H.M.P., Vereações, Lv. 9, fl. 58v.-61v.
146 A.H.M.P., Vereações, Lv. 9, fl. 47v.-48v. 147 A.H.M.P., Vereações, Lv. 9, fl. 62-64. 148 A.H.M.P., Vereações, Lv. 9, fl. lOlv.
O corregedor, de acordo com as Ordenações Manuelinas, deveria receber as queixas de quem se sentisse lesado com a acção dos oficiais camarários. Esta função é confirmada na reunião de 31 de Julho de 1510 quando Pedro de Aguiar apresentou aos oficiais as queixas de algumas pessoas, dizendo que não despachavam os feitos das injúrias verbais, aconselhando brevidade no despacho destes assuntos149.
Pedro de Aguiar esteve também presente quando a cidade recebeu cartas régias, nomeadamente sobre a abertura de canais no Rio Douro. Esta carta foi entregue por um cavaleiro da Casa Real, Diogo de Azevedo, e lida pelo corregedor na reunião de 6 de Agosto de 1511 De acordo com as indicações de D. Manuel, o corregedor deveria ouvir todas as partes interessadas no assunto e elaborar um parecer a enviar como resposta ao rei150.
De todas estas informações se depreende que a dependência dos oficiais locais em relação ao poder central é cada vez maior, vulgarizando-se as deslocações dos representantes da cidade junto do corregedor151, cuja assinatura e presença legitimam variados actos da vida e da administração portuense, no início da centúria de quinhentos.
1.2.0 ouvidor pelo corregedor
Em 29 de Janeiro de 1511 surgiu na Câmara Lopo Rebelo, que havia sido nomeado ouvidor pelo corregedor por mandado régio152. O problema consistia em já ocupar outro cargo, o de juiz dos órfãos, pedindo aos oficiais que elegessem outra pessoa para o substituir, visto que a função de ouvidor lhe ocupava muito tempo. Para evitar qualquer dúvida, os oficiais receberam em 21 de Fevereiro um alvará a isentar Lopo Rebelo do cargo de juiz dos órfãos153.
Em 1510 esteve presente apenas por duas vezes, substituindo Pedro de Aguiar nas reuniões camarárias, como já foi assinalado no quadro anterior. Contudo, em 1511 iguala as presenças do próprio corregedor, apresentando-se em sete reuniões.
A.H.M.P., Vereações, Lv. 9, fl. 105v. - 106.
150 AH.M.P., Vereações, Lv. 9, fl. 109 - HOv.
FERREIRA, Ana Maria Pereira -Algumas despesas do município portuense no início do século XVI: 1509 - 1510, in "Boletim da C. M. do Porto", 2a série, volume 3 / 4, 1985/86, p. 172.
152 AH.M.P, Vereações, Lv. 9, fl. 138v. - 139. 153 AH.M.P, Vereações, Lv. 9, fl. 145v. - 146v.
Não é possível detectar nas actas de vereação qualquer justificação para a ausência do corregedor, podendo significar que se encontrava a efectuar a correição por outros lugares da comarca. As Ordenações Manuelinas permitem ao corregedor nomear um substituto, se fosse mesmo necessário, somente durante um mês em cada ano. O prazo seria mais prolongado se o corregedor estivesse a realizar a correição pela comarca, dependendo então do período de ausência154.