4 ESTATUTO DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL E NOVAS REGRAS
4.4 CORRENTES EXISTENTES ACERCA DO CONTRADITÓRIO NO INQUÉRITO
Atualmente a aplicação do princípio do contraditório e da ampla defesa no inquérito policial, de fato, tornou-se um divisor de águas nesse mar do penalmente indiferente.
Com a edição da Lei nº 13.245/16183, a contenda ganhou mais força, pois,
fez renascer uma discussão cravada pelos renomados autores do Direito Processual Penal, bem como pela jurisprudência sumulada pelos tribunais.
A grande controvérsia produzida pela alteração da Lei nº 13.245/16 foi acerca da natureza jurídica do inquérito policial, levantando o questionamento se consequentemente à vigência de tal diploma, caiu-se por terra a inquisitoriedade do inquérito policial ou se, atualmente, a ampla defesa e o contraditório são elementos obrigatoriamente presentes nessa fase da persecução criminal.
De fato, o inquérito policial é inquisitorial, por outro lado, a ampla defesa e o contraditório tornaram-se elementos obrigatoriamente presentes nessa fase da persecução criminal após a alteração da Lei nº 13.245/16.184
A contrário senso, o posicionamento dos doutrinadores e da jurisprudência quanto à presença do princípio do contraditório no inquérito policial divide-se em duas temáticas: A temática antes da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e após sua promulgação.185
A posição dominante antes da promulgação da Carta Magna era a de não admitir o contraditório na fase investigatória, dadas a sua natureza e a sua finalidade. Isto porque, o inquérito era considerado, via de regra, peça de cunho meramente administrativo, no qual o contraditório nunca foi admitido.186
183 BRASIL. Lei nº 13.245, de 12 de janeiro de 2016. Altera o art. 7o da Lei no 8.906, de 4 de julho de
1994 (Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil). Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/L13245.htm>. Acesso em: 2 out. 2017.
184 BRASILEIRO DE LIMA, Renato. Manual de Processo Penal. 2. Ed. Salvador: Juspodivm, 2014.
p. 107.
185 TÁVORA; Nestor; ALENCAR, Rosmar Rodrigues. Curso de Direito Processual Penal. 3. ed.
Salvador: Juspodivm, 2009. p. 77.
186 TÁVORA; Nestor; ALENCAR, Rosmar Rodrigues. Curso de Direito Processual Penal. 3. ed.
Após a promulgação da Constituição Federal de 1988, com a edição do artigo 5º, inciso, LV, passaram a ser asseguradas também no processo administrativo o contraditório e a ampla defesa, redação essa que deu azo a um movimento interpretativo que buscou inserir na investigação criminal a garantia do princípio do contraditório.187
Não obstante, nos dias atuais, as Cortes Superiores não são unânimes ao tratar desse assunto. Pois, se de um lado alegam genericamente que não se aplica o contraditório e a ampla defesa ao inquérito policial, de outro lado o Supremo Tribunal Federal edita a Súmula Vinculante nº 14, aduzindo:
É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa.188
De outra banda, o próprio Superior Tribunal de Justiça já declarou, em síntese, que
Apesar da natureza inquisitorial do inquérito policial, não se pode perder de vista que o suspeito possui direitos fundamentais que devem ser observados mesmo no curso da investigação, entre os quais o direito ao silêncio e o de ser assistido por advogado.189
A doutrina, na mesma esteira, acentua que não existem contraditório e ampla defesa no inquérito policial, mas ao mesmo tempo reconhece o plexo de direitos do qual o investigado é titular.190
Entre os que consideram o inquérito policial apenas como medida preparatória da ação penal, destacam-se Mirabete, que não considera o inquérito
187 TÁVORA; Nestor; ALENCAR, Rosmar Rodrigues. Curso de Direito Processual Penal. 3. ed.
Salvador: Juspodivm, 2009. p. 77.
188 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmula nº 14. Brasília, 09 de fevereiro de 2009. Disponível
em: <
http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=14.NUME.%20E%20S.FLSV.&b ase=baseSumulasVinculantes>. Acesso em: 2 out. 2017.
189 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. HC nº 139412. Relatora: Ministra Maria Thereza de Assis
Moura. Disponível em: <http://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/9208740/habeas-corpus-hc-139412>. Acesso em: 2 out. 2017.
190 BRASILEIRO DE LIMA, Renato. Manual de Processo Penal. 2. ed. Salvador: Juspodivm, 2014.
processo, mas procedimento administrativo informativo, pois, não se aplicam os princípios processuais, nem mesmo o contraditório.191
E, ainda, Tourinho Filho, que assevera:
O inquérito, pois, nada mais é do que um conjunto de informações sobre o fato infringente da norma e da respectiva autoria. Não teria sentido admitir-se o contraditório na primeira fase da persecutio criminis, em que o cidadão- indiciado é apenas objeto de investigação e não sujeito de direito de um procedimento jurisdicionalmente garantido.192
Sobreleva destacar, uma vez mais, que esta corrente doutrinária faz uma interpretação restrita e/ou literal do art. 5º, IV da Constituição Federal,193 entendendo
ser aplicável esta garantia somente a processos judiciais.
Noutro giro, parte da doutrina entende que o princípio do contraditório e da ampla defesa incidem no inquérito policial, dentre eles, Ada Pelegrini Grinover, Antônio Carlos de Araújo Cintra e Candido Rangel Dinamarco, que asseveram que, após o indiciamento, mesmo não sendo formal este ato, e inexistindo, ainda, a acusação propriamente dita, já há uma situação de litígio, ante a confrontação do investigado com o estado acusador.194
Então,
Conforme o Art. 5º, LV da CF/88, deve-se permitir o contraditório pelas consequências causadas por este ato, causando, por óbvio, a exposição do nome do cidadão em inquérito que apura um delito, deixando sua reputação bastante fragilizada.195
191 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal. 17. ed. São Paulo: Atlas, 2005. p. 79.
192 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. 35. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. p.
236.
193 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 27 set. 2017.
194 PINTOS JUNIOR; Acir Céspedes. O princípio do Contraditório no Inquérito Policial. Revista
Âmbito Jurídico. 2010. Disponível em: http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=8560. Acesso em: 2. out. 2017.
195 PINTOS JUNIOR; Acir Céspedes. O princípio do Contraditório no Inquérito Policial. Revista
Âmbito Jurídico. 2010. Disponível em: http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=8560. Acesso em: 2. out. 2017.
Ainda, existem aqueles que não encontram problemas em admitir que a participação defensiva no inquérito policial se dá por meio de contraditório mitigado.196
Por fim, no tocante ao uso do princípio do contraditório no instituto do inquérito policial, doutrina e jurisprudência pátrias agem com enorme dicotomia, vez que a grande maioria não aceita seu emprego, enquanto que uma minoria, porém relevante, aceita-o.
196 Henrique Hoffmann Monteiro de; MACHADO, Leonardo Marcondes; ANSELMO, Márcio Adriano;
GOMES, Rodrigo Carneiro; BARBOSA, Ruchester Marreiros. Investigação Criminal pela Polícia