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Tainá Reis1

Resumo

O corte de cana de açúcar exige um grande dispêndio de energia, não só do corpo, mas do próprio ser social. O objetivo deste trabalho é apresentar algumas repercussões da articulação entre trabalho e gênero no corte de cana, tendo o adoecimento físico e psíquico como consequência. A pesquisa foi realizada no Vale do Jequitinhonha/MG, local que contou com intenso fluxo migratório para os canaviais paulistas. O cortador de cana adoecido vê em seu adoecimento o desmantelamento de tudo aquilo que dava sentido em sua existência. Percebe-se uma adaptação do corpo à condição de classe e de gênero.

Palavras-chave: Corte de cana. Masculinidade. Adoecimento.

Introdução

Os cortadores de cana saem de suas terras para buscar melhoria das condições financeira de vida no trabalho sazonal nos canaviais paulistas; encontram uma realidade laboral penosa - pagamento por produção, alojamentos precários, alimentação deficiente e ritmo de trabalho exaustivo, “vencem” a safra ano após ano. Sendo superexplorados2, acompanham o desgaste de seus corpos. Na cidade natal, as famílias vivenciam as idas e vindas desses trabalhadores. Mulheres denominadas “viúvas de marido vivo” passam mais da metade do ano sozinhas, responsáveis pelo cuidado com os filhos e pequenas roças que

1 Doutoranda em sociologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos

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Entende-se o pagamento por produção como meio de superexploração, uma vez que o salário pago ao trabalhador é menor que o valor de sua força de trabalho, ou seja, não garante efetivamente a reprodução da força de trabalho, submetendo-o a uma reprodução precária (Guanais, 2015).

esses homens deixam para trás quando migram. Apesar de o trabalho ser sazonal, ocorre anualmente há mais de 50 anos, o que o caracteriza uma “migração permanentemente temporária” (Silva, 1999). Após oito, dez, 15 anos nesse movimento de idas e vindas, a penosidade do trabalho nos canaviais pode ser sentida no corpo dos trabalhadores; adoecem.

Uma vez que o salário pago aos cortadores de cana é calculado a partir de sua produtividade, pode-se dizer que seu ganho, ou seja, o aumento da produção, e a consequente “melhoria” na sua condição de vida, vão depender justamente de sua capacidade física (Navarro, 2006; Alves, 2006). No caso dos cortadores de cana se afirma que o “esforço realizado pelos trabalhadores é decorrente do processo de trabalho combinado com a forma de pagamento” (Alves, 2008, p. 2). O pagamento por produção garante à empresa a intensificação do trabalho e um aumento das jornadas de trabalho, uma vez que para garantir maiores ganhos os trabalhadores se submetem a altos níveis de esforço laboral físico.

No trabalho, o cortador deve abraçar certa quantidade de cana com um braço e com a outra mão golpear a cana com o podão ao rés do chão. Esse movimento exige a total curvatura do corpo. São desferidos vários golpes de facão e depois a cana deve ser lançada nas leiras. Laat (2010) concluiu que, em média, os cortadores de cana desferem 3.498 golpes de facão, realizando 3.080 flexões de coluna, cortando em média 12,9 toneladas por dia. Os batimentos cardíacos chegam a duzentos por minuto. A maior parte dos trabalhadores nessa atividade extrapola a carga cardiovascular limite, ou seja, tem uma grande sobrecarga na frequência cardíaca. Os cortadores de cana também ingerem grande quantidade de água, em média, oito litros em um dia de trabalho em que cortam sete toneladas de cana, com um gasto médio de 3.518 calorias, caminhando até dez quilômetros (Verçoza, 2015). Desse modo, convivem com dores cotidianas, como câimbras, vômitos, tonturas e machucados - cortes nas mãos e pés pelo manuseio do facão.

O alto gasto de energia somado ao esforço em excesso para a realização do corte da cana pode levar à morte ou à perda precoce da capacidade de trabalho. No período de 2004 até 2007 foram registradas 21 mortes nos canaviais paulistas, possivelmente por excesso de trabalho. Mortes, acidentes e mutilações são recorrentes no corte de cana. Médicos

afirmam que a perda excessiva de potássio na sudorese pode levar à parada cardiorrespiratória (Silva, 2008), assim como doenças cardíacas, respiratórias e osteoarticulares. (Laat, 2010; Prado, 2011). A sobrecarga térmica também age contra a saúde do cortador de cana, podendo levar às chamadas doenças de calor, como irritabilidade, confusão mental, câimbras, fadiga e até mesmo morte (Bittencourt et al., 2012). Além disso, a queima da cana, a fuligem e fumaça, que provocam problemas respiratórios, também representa um aquecimento da terra, que contribui para a sobrecarga térmica. As vestimentas pesadas impedem o corpo de fazer a troca de calor para a manutenção do equilíbrio térmico do corpo.

Os descartados da cana são, na maioria, migrantes, que por anos se dedicaram à colheita da cana de açúcar, trabalhando por produtividade, cortando mais de dez toneladas por dia, às vezes 20, 30 toneladas. Conforme Lourenço e Bertani (2010), a escolha pela força de trabalho migrante representa vantagens para o capital, já que os encargos trabalhistas e sociais se restringem apenas ao período da safra; trata-se de uma mão de obra mais barata e mais resignada. A distância da família e as adversidades da viagem resultam numa maior subordinação às imposições do trabalho, uma vez que a possibilidade de retorno imediato é baixa, principalmente pela questão financeira. Alguns são selecionados no local de origem, e com o fim da safra devem voltar a esses locais, para que possam ser recontratados nas safras seguintes.

Esses trabalhadores migrantes são camponeses oriundos, principalmente, do Nordeste (mais especificamente Maranhão e Piauí) e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Um longo processo de expropriação orquestrado pelo Estado expulsou os camponeses de suas terras, empurrando-os para a migração como meio de sobrevivência. Esses expropriados tornam-se mão de obra assalariada nos canaviais paulistas, de camponeses transformam-se em boias-frias. Como dito anteriormente, apesar de a colheita da cana ser um trabalho temporário, já que ocorre apenas nos períodos de safra, é também permanente, pois ocorre há mais de meio século. É uma migração permanentemente temporária. O modo de vida das famílias camponesas, então, passa a ser organizado pelo tempo da safra, o tempo da produção capitalista. Passam por um processo de desenraizamento. Mas, apesar das adversidades que enfrentam, os cortadores de cana tendem a voltar à região de origem (Silva, 1999).

O posicionamento do cortador de cana, seja no local de trabalho, seja com a família e amigos, vai depender de seu desempenho ao fim da safra. Se cortou muito, ganhou dinheiro suficiente, ganhará respeito, reconhecimento; se não, fica conhecido como “podão de borracha”, um fraco. Há um peso simbólico da associação entre desempenho no trabalho e a identidade. O pensamento patriarcal mantém sobre o homem a responsabilidade de manutenção da família. Entretanto, o patriarcado não está restrito ao campo do trabalho, está em todas as esferas das relações sociais. Voltar para o local de origem, voltar com uma quantia de dinheiro que possa garantir o conforto da família, significa reafirmar esse papel. É também essa cobrança que faz com que os cortadores se dediquem até o limite de seu corpo, que vai findar no adoecimento, tanto físico quanto psíquico. Esse adoecimento repercute também sobre as famílias, as mulheres passam a desempenhar outros papéis quando da volta dos esposos já sem capacidade laboral.

Esse artigo apresentará considerações iniciais sobre a articulação entre gênero e trabalho, apontando o adoecimento como consequência da articulação entre tais elementos. Trata-se de resultados parciais da pesquisa de doutorado Fio da navalha: o ‘não trabalho’ para ex-cortadores de cana adoecidos. A pesquisa foi realizada no município de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha/MG, local que contou com intenso fluxo migratório para o corte de cana em São Paulo, onde atualmente estão muitos dos adoecidos da cana.

A pesquisa

O Vale do Jequitinhonha/MG foi uma região de significativa migração para os canaviais paulistas desde a década de 1960. O modelo de modernização empreendido pelos governos militares foi responsável pela expropriação do campesinato da região, que se efetivou por meio de leis que garantiam a livre atuação das classes dominantes. A destruição e fraudulenta compra das terras dos camponeses, que seriam destinadas depois às grandes produtoras de eucalipto, a expropriação para a construção de grandes usinas hidrelétricas posterior e os empreendimentos mineradores, os empurrou para a busca de sobrevivência fora dali. Assim, se inicia a migração desses camponeses para o trabalho em outras culturas, como colheita de café, laranja e corte de cana, que se torna permanentemente temporária uma vez que ocorre paulatinamente no decorrer dos anos (Silva, 1999).

No caso do adoecimento dos cortadores de cana, torna-se relevante atentar para a volta à terra natal como estratégia de sobrevivência. Pode-se compreender que o apego a terra também representa uma forma de sobrevivência (SILVA, 1999). Partindo do debate de identidade e memória, entende-se que é o compartilhamento do sentido de espaço que garante a coesão social dos grupos (Halbwachs, 1990; Pollack, 1992). Dessa forma, buscou- se uma região de origem para a realização da pesquisa, que se efetivou no município de Araçuaí, no Vale Jequitinhonha/MG. Lá foram buscados, além dos ex-cortadores de cana adoecidos e suas famílias, os equipamentos sociais que poderiam dar atendimento a esse público, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS) e Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), além do Sindicato Rural, médicos do SUS, e representantes do Instituto Nacional de Seguro Social - INSS.

Ao todo, realizaram-se 29 entrevistas de roteiro semiestruturado, os sujeitos de pesquisa foram: ex-cortadores(as) de cana adoecidos, familiares dos ex-cortadores, sindicalistas, assistentes sociais, psicólogos, e médicos (responsáveis pelos laudos para o INSS). A entrevista com os familiares teve o intuito de compreender os impactos do adoecimento nas relações familiares e a organização das relações de gênero. As entrevistas com os ex-cortadores de cana se organizaram em torno de três eixos, trabalho, saúde/doença e aposentadoria. As entrevistas com agentes como assistentes sociais, psicólogos, e sindicalistas buscaram informações sobre a presença de ex-cortadores de cana adoecidos na localidade, suas demandas e a capacidade de resposta frente tais demandas. A entrevista com os médicos intentou a caracterização do discurso médico sobre a situação dos ex-cortadores de cana adoecidos e sobre a questão da aposentadoria.

Experiências do corte de cana: “aguentar a bronca”

Sabe-se que as atuais formas de organização do trabalho impõem aos trabalhadores altos níveis de produção, aos quais os mesmos se submetem para garantir a manutenção do emprego, e também a manutenção de sua posição simbólica no seu espaço social. Essa submissão se dá também no sentido de negar e suportar as dores advindas do trabalho. Os entrevistados em maioria relatavam a convivência com as dores durante o trabalho no corte

de cana. Até porque, como relatou Nilton3, "Todo sabem, quanto mais forçava, mais ganhava”.

As altas taxas de produtividade, a dor e o sofrimento estão naturalizados, pois já está introjetado nesses sujeitos um certo código de conduta, uma disciplina, em relação ao trabalho e aos atributos de gênero. Em uma entrevista coletiva, enquanto um ex-cortador relatava que abandonou o corte de cana por não aguentar mais o trabalho, outro ex- cortador disse, em tom jocoso: “Não aguentou a bronca né?”. A manutenção da virilidade e de outros preceitos típicos da masculinidade são produtos culturais. O homem não aparece apenas como indivíduo, ser biológico, mas como “depositário histórico da objetivação valorativa” (Scholtz, 1996, p. 13). Para os homens o trabalho aparece como um elemento fundador de identidade, e o adoecimento é a cisão nessa identidade.

Um médico ortopedista elencou algumas enfermidades que costumam atingir seus pacientes que cortavam cana4, alegando que há a possibilidade de as lesões serem irreversíveis. Muitas vezes o paciente, ex-cortador de cana, torna-se limitado em suas atividades, "sentem bastante dor, [...] muitas vezes é incapacitado até de pegar um copo de água [...] É um paciente que vai evoluir aí para o INSS. É um paciente que não vai mais trabalhar". A busca pelo direito ao auxílio doença ou aposentadoria por invalidez no INSS não é simples. O médico explica:

Então o paciente ele não chega, passou no ortopedista, você tem uma hérnia de disco, não consegue mais trabalhar, me dá o laudo, vou no INSS e aposento. Não é assim. Me dá o laudo, eu vou no INSS, consigo 30 dias e vai pra casa. Na verdade ele espera chegar uma carta né. Chegou a carta: trinta dias de benefício. Faltando 15 dias para acabar seu benefício você tem que correr atrás novamente. Aí você em 15 dias – já que ele deu 30 dias e faltando 15 dias ele precisa de correr atrás – ele tem que procurar um ortopedista de novo. Então se ele não tem condições de pagar uma consulta particular, ele vai ter que passar em um ortopedista pelo SUS. Como que ele vai

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Os nomes utilizados são fictícios. 4

Síndrome do Túnel do Carpo, compressão do Canal de Guyon, tendinite, bursite, causadas por LER – lesão por esforço repetitivo, hérnia de disco, lombalgia, entre outras.

passar num ortopedista pelo SUS se a fila de espera é de um mês, dois meses, entendeu? Aí o cara tem que voltar a trabalhar, ou ele vai passar fome, ou ele vai vender coisa, vai fazer alguma coisa. Então ele segue uma via sacra, e acaba que ele se sente marginalizado. Marginalizado que eu falo é fora daquela, fora do... Não é mais uma pessoa apta para trabalhar. Então ela fica à margem daquela questão do trabalho né. Então, entra em depressão, família passa fome, existe, família que passa fome, paciente com depressão.

Além do adoecimento físico, há ainda o desenvolvimento ou manifestaçoes de questões psíquicas. Uma psicóloga afirmou que as princiapis reclamações dos ex-cortadores são as condições desumanas de trabalho e que "a forma de trabalho influencia na saúde mental" .

Imagina todo o transtorno da pessoa ter que sair da cidade, largar as famílias, muitos pais de família eu atendo... esposas, né... de pais que vão pra lá ganhar a vida desse jeito, então já tem todo esse transtorno de ter que sair, deixar a família e tudo. Aí quando chega lá é essa pressão toda, aí ele se vê nessa condição, volta.

Somado à predisposição para alguns transtornos mentais, o gatilho para a manifestação de alguns desses transtornos são situações traumáticas - no caso, o trabalho nos canaviais. O tipo de trabalho no corte de cana representa uma carga de estresse que, muitas vezes, é pesada demais para se aguentar. Nesse sentido, pode ocorrer a manifestação de algum transtorno mental, como esquizofrenia, por exemplo. Então o desenvolvimento de esquizofrenia, por exemplo, pode estar associado ao trabalho, assim como outras questões, como neuroses, psicoses e a dependência química. É relevante a dificuldade de acesso a esses casos, uma vez que os homens raramente assumem o adoecimento psíquico ou da dependência, muitas são as mulheres, esposas ou mães, que vão buscar auxílio.

Bourdieu (2014) afirma que numa construção social em que se essencializa o gênero a partir da anatomia, a ideia de força do homem não precisa ser justificada, é como se fosse um dado natural. Espera-se do homem a força física e mesmo psíquica para aguentar as

maiores adversidades. Para Esteves, que era um dos campeões da turma, foi assustador ser tomado por câimbras no corpo todo.

eu comecei a torcer todo, achei que eu ia morrer, eu não conseguia levantar, [...] eu enrolei todo. [...] Nesse dia eu achei que eu ia morrer. Inclusive na hora que eu fiquei dentro da cana sozinho eu pensei: “Ixi, agora eu morro, não tenho força”. E você não tem força, você não consegue levantar. Porque tudo em você trava, os dedos travam, dá câimbra em tudo quanto é lugar que você pensar.

A pressão do trabalho gera um estresse mental que afeta significativamente a psique dos trabalhadores. Dejours (1987) afirma que, junto com o sofrimento físico advindo da exploração da força de trabalho, deve-se levar em conta que a exploração também passa pelo aparelho mental. Existe, então, uma carga de trabalho psíquica, que mais do que um efeito acessório do trabalho, resulta de “uma etapa primordial, da qual dependeria a submissão do corpo, etapa cujo sucesso seria assegurado pela própria organização do trabalho” (p. 136).

O trabalho no corte da cana coloca sobre o homem uma dupla responsabilidade: a de manter o padrão de hombridade, por meio do esforço no trabalho para mandar alguma quantia em dinheiro para a famíia que ficou no local de origem, e a de virilidade, atingindo altos níveis de produção, “vencendo a safra e enfrentando o eito”. Por conta das próprias condições de trabalho, o adoecimento aparece como destino para muitos dos cortadores de cana. A vida familiar se reorganiza quando o homem, antes arrimo de família, volta adoecido e, muitas veses, incapacitado para o trabalho. Sobre isso, uma psícologa disse:

Imagina que tem um esposo como estrutura principal e aí, na verdade, o suporte que ele dá, enquanto ele está lá, é financeiro, manda dinheiro e tudo. Aí, quando volta, normalmente a esposa não trabalha e cuida dos filhos, aí volta doente, ele não tem condições de trabalhar mais, muitas vezes o benefício no INSS é negado, e aí? Como é que fica? Filho e tudo, né... É bem complicado. Poderia pensar: ”Ah, então a esposa vai trabalhar? Pra ele cuidar dos filhos?”,

mas talvez ele não tenha essa condição e também é difícil arrumar emprego assim. Então... bem complicado.

A situação de adoecimento pode representar uma desarticulação da organização familiar dos ex-cortadores de cana. Geralmente recai sobre a mulher, esposa ou mãe, a responsabilidade pelo sustento doméstico, somada aos cuidados da casa, dos filhos e do homem adoecido. A perda de uma das rendas domésticas resulta numa maior dificuldade na reprodução familiar. Além disso, muitas vezes os homens recorrem ao alcoolismo como maneira de lidar com a situação vivida.

Breves reflexões sobre trabalho, adoecimento e gênero

É consenso que o corte da cana é um trabalho estafante, que pode gerar (e gera) uma série de debilidades físicas e/ou psíquicas, quando não a morte. E, uma vez debilitados fisicamente, esses cortadores deixam de ser contratados para o trabalho na safra seguinte, ou, quando registrados em carteira profissional, são demitidos. Muitas vezes pelo medo da demissão não divulgam as debilidades físicas, até que o corpo não mais aguente o ritmo de trabalho e o afastamento se torne indispensável (Lourenço, 2013; Silva, 2008). A doença é ocultada por uma questão de sobrevivência (Dejours, 1987), não só material, mas simbólica, uma vez que admitir a dor é admitir a fraqueza - o que não pode ser aceito no homem do modelo de virilidade e força socialmente construído.

Prazeres (2010) apontou que a força de trabalho só pode ser vendida (e explorada) na medida em que há “saúde” para executar o trabalho. Nesse sentido, não é a saúde do trabalhador em si o que importa, e sim aquela necessária à produção (Ribeiro, 1999). Lourenço (2013, p. 185) afirma que “a alta produtividade do trabalho tem sido acompanhada do saque da vida dos trabalhadores”, sendo essa categoria (saque da vida) resultado da expropriação do trabalhador de sua própria capacidade de trabalho, que o torna imprestável precocemente para o trabalho e suas exigências no sistema capitalista. A saúde do trabalhador é relevante para as empresas apenas no sentido da alteração da produtividade e dos possíveis custos adicionais (Scopinho, 2003). Compreende-se que os problemas de saúde dos trabalhadores não devem ser considerados como questões

individuais, mas inseridas em um quadro social e cultural, isto é, não são meramente ocupacionais, mas reflexo das relações sociais e organização do trabalho (Laurell e Noriega, 1989; Silva, 2008; Alves, 2008; Verçoza, 2015; Guanais, 2015). São milhares de descartados da cana que, pelo próprio processo de trabalho, perdem precocemente a capacidade laboral5.

Misturado nos relatos sobre as dificuldades do trabalho, as constantes câimbras, a alimentação muito ruim (às vezes estragada), a saudade da família, a vontade de regressar à terra natal, havia as histórias de conquistas advindas da renda do corte da cana: “Coloquei dentadura na boca do meu pai com o dinheiro da cana”. A honra está no trabalho, no esforço de resistir frente às piores dores, para, ao fim da safra, levar para a família uma quantia de dinheiro que possa garantir algum benefício. É uma adaptação do corpo a uma condição de classe e de gênero. O próprio corpo é pensado e representado de acordo com o contexto social.

O trabalho sob chuva, a precariedade de alguns alojamentos, a convivência diária com