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CAPÍTULO 2 – AS EXPERIÊNCIAS NA FÁBRICA E MEMÓRIAS DE UM CONFLITO

2.4 O PROCESSO DE PRODUÇÃO NA FÁBRICA

2.4.1 O Processo produtivo

2.4.1.5 Corte semi-mecanizado (cortadeira e tiradeira)

O corte aparece como o processo mais importante do beneficiamento. É aquele que exige maior emprego de força de trabalho e geralmente o mais severo do ponto de vista das condições de trabalho, onde ocorrem mais acidentes e onde se verificam as maiores reclamações por parte das trabalhadoras. O corte é um setor onde trabalham apenas mulheres, divididas entre cortadeiras e tiradeiras. Durante a pesquisa tivemos diversos relatos sobre o processo de trabalho no setor pois todas as castanheiras acabam trabalhando neste setor e ele também aquele o que acumula maior número de acidentes de trabalho. É um processo delicado de produção, Luzimar explica como se inicia, ressaltando a exclusividade do uso de força de trabalho de mulheres neste setor:

No corte de castanha era só mulher, agora o homem as vezes era só pra butar a castanha dentro pra abastecer os balcão, sabe? Tinha um negóciozinho assim, uma caixa aqui desse lado, pra agente pegar daqui, tinha outro aqui e outro aqui [...] aí botava assim num caixão, a gente melava as mãos tudo sujo do óleo, óleo preto, chega quando a gente chegava de manhã [faz uma cara de asco] chega agente inguiava. Porque, pra não queimar né, o óleo da castanha. E agente ainda botava umas luvas [apontando do ombro ao punho, dando dimensão do tamanho da luva], que agente fazia, nera eles que davam.. davam um avental, a gente tinha um avental. Mas a gente fazia umas luva porque onde aquele pingo do óleo da castanha batesse feria. [...] E era com o pé assim [pisando], quando no fim do dia a gente tava com a perna que não aguentava. [Se levanta] trabalhava aqui em pé né, aí botava a castanha aqui e tá! [pixando] e tá! Aí a gente sofria muito, principalmente a gente mulher, daquele jeito tinha que aguentar porque a gente precisava né. Num tinha um refeitório pra gente, não tinha nada. (Entrevista. Luzimar. 07 dez. 2017).

Maria Elódia que, apesar de ser operária têxtil, também trabalhou por diversas vezes na indústria da castanha de caju, não apenas no período da greve, complementa:

A coisa [navalha], abria assim, aí você botava a castanha, aí a máquina fazia automaticamente. A máquina fazia, você tirava. Tinha que ser entre o pé e a mão tinha que ter uma... as vezes não tinha, cortava o dedo... era muito ruim tá, muito sofrido. A máquina era numa tábua assim. Aí você ficava em pé assim. E aqui tinha um negócio que abria e fechava. Aí você botava castanha.. tinha um buraco aqui.. e quando você fazia assim, você botava a castanha dentro, que ela abria assim, ela fechava, quando você fazia aqui no pé, ela abria, ela caia lá dentro de um buraco que tinha uma lata. Aí tinha uma pessoa do lado de lá pra tirar a castanha quando a lata enchesse. (Entrevista. Maria Elódia. 26 de abr. 2013)

Percebemos uma dependência do ritmo da máquina sobre o corpo da operária, onde esta última dita a velocidade da produção e é sobrecarregada de esforço no processo de corte da amêndoa. Franzé, atual gerente administrativo da fábrica, mas que trabalhava na fábrica desde inícios dos anos 1970. Endossa que no fim dos anos 1960 este era o procedimento de corte castanha:

O descascamento que hoje é mecânico, na época [1968] era manual. Existia uma maquina, onde se trabalhava em duplas, normalmente mulheres, que a gente chamava de cortadeira e tiradeira. Elas pegavam uma por uma, pegavam a castanha, prendiam na navalha, e com o pé - pá! - abriam a castanha. Na mesa a cortadora cortava. Imagine uma mesa com duas pessoas, quando a castanha caía a outra banda ficava aí vinha uma pessoa com uma espátula, a chamada tiradadeira, arracanva o outro pedaço." (Entrevista. Francisco José. 01 jul. 2014)

O depoimento de Maria de Fátima nos conta sobre o setor do corte – quando questionada se este era o setor onde mais havia acidentes de trabalho – e ela confirma: “Era. Os outros podiam acontecer acidente, mas nem tanto”. Especialmente cortes nas mãos e queimaduras devido a acidez do LCC e, consequentemente, quando questionada se era este o setor onde se via mais insatisfação e revolta em relação às terríveis condições de trabalho das castanheiras ela confirma e descreve as razões:

Era. Era. Eu lembro que era. Tinha dos outros, mas que do óleo era mais. Por mais gente que a gente tivesse cuidado, era um trabalho muito... [fazendo uma cara de sofrimento]. Porque você ficava, só com o cheiro da castanha você ficava né [cara de asco]... Era pra gente ter as blusa. Luva não porque não podia botar luva, por que você tinha que tá molhando. Mas tinha que ter uma coisa assim mais confortável. A gente tinha que usar um avental. Porque se você ficar aqui [apontando uma possível proximidade entre a barriga e a bancada] e se descuidar, você pegava queimadura até na barriga. (Entrevista. Maria de Fátima. 29 set. 2017).

Dona Nenê que trabalhava no período da greve na Cia Brasileira de Indústria de Castanha de Caju – COBICA mas que logo após se somou à produção da CIONE mostra que pouco ou nada mudou tanto na produção, quanto nas condições de trabalho do corte após a greve.

era manual. você usava as duas pernas, sabe? Assim, por exemplo: uma ficava e uma funcionava, só a direita, por exemplo. Aí quando a perna direta tava cansada, aí você colocava a esquerda, era "entrançada". mas os braços, eram os dois braços. Esse era pra colocar as amêndoas e o outro era pra descascar, descascaroçando elas. Aí no caso você passava o dia todinho fazendo esse movimento. Tanto mexia com o corpo como mexia com as mãos, com os braços como mexia com a cabeça também. (Entrevista. Valdenice Monteiro. 27 nov. 2017)

As condições do lugar onde era realizado o corte traduziam as condições de trabalho: as paredes e pisos eram escuras como o óleo das castanhas, as máquinas manchadas do líquido obtinham também a mesma coloração. A temperatura é bastante quente no interior do galpão, apesar de ventiladores fixos e do seu enorme tamanho para abrigar as 400 máquinas manuais de corte que a CIONE tinha em 1968. (FROTA, 1984)

Fonte: Fotografado pelo autor na fábrica da CIONE em junho de 2014

Esta imagem é de uma maquete encontrada na fábrica da CIONE e retrata a mesa de trabalho do corte da castanha, demonstrando como a cortadeira e a tiradeira ficavam dispostas uma de frente para a outra, para execução de uma colaboração no processo produtivo. Aqui Figura 11: Maquete retrata como era feito do corte manual da castanha de caju

podemos perceber mais nitidamente como a exploração iguala as exploradas, possibilitando que solidariedades surgissem no processo, potencializadas pela cooperação estabelecida já no próprio processo produtivo da mercadoria. Compreendendo, a partir de Marx, que “a maquinaria (...) funciona apenas com base no trabalho imediatamente socializado ou coletivo. O caráter cooperativo do processo de trabalho se converte agora, portanto, numa necessidade técnica ditada pela natureza do próprio meio de trabalho” (MARX, 2013, p. 566).

2.4.1.6) Secagem

Após o corte a castanha segue para secagem em grandes bandejas de cerca 2 x 1,50 m, numa temperatura controlada variando entre 70 E 80º C, em estufas. As bandejas geralmente ficavam sobrepostas em 11 prateleiras com capacidade de armazenamento de 11 kg cada. (FROTA, 1984).

2.4.1.7) Umidificação

Após a secagem as castanhas voltam a ser umedecidas em câmaras para facilitar o desprendimento da película que as envolvem. Na CIONE, nessa ocasião, a secagem e a umidificação funcionavam no mesmo local.

2.4.1.8) Despeliculagem

O processo de retirada da película que envolve a amêndoa já era feito mecanicamente na CIONE em fins dos anos 1960 “através do despeliculador – uma máquina de tipo centrífuga que, através de um processo de exaustão, provoca o afrouxamento da película. Neste processo são liberadas apenas 75% da mesma, ficando 25% para serem feitas manualmente por mulheres – as peliqueiras.” (FROTA, 1984, p. 84)

2.4.1.9) Seleção

O setor de seleção também era integrado apenas por mulheres que eram dispostas em bancadas onde ficavam as amêndoas ou em esteiras, após passar por uma rápida seleção eletrônica. Como demonstra a descrição sistematizada por Helena Frota e pelas imagens abaixo:

A seleção das castanhas (separadas por cor, tamanho e peso) na CIONE, no período, era semi mecanizada, sendo boa parte do processo sendo realizada manualmente, função também desempenhada totalmente por mulheres, as castanheiras selecionadoras que executam tarefas de retirar de uma esteira pneumática, corrediça, elétrica, as amêndoas que vão passando à sua frente. Estas amêndoas que vão passando à sua frente. Estas amêndoas são postas em grande quantidades num depósito de cabeceira da esteira, cuja vazão é controlado por um aparelho regulado que, de acordo com a extensão da capacidade da força de trabalho, vai sendo

graduado o volume de liberação das amêndoas a serem selecionadas. As mulheres [...] em pé vão colhendo rapidamente com as duas mãos as amêndoas de acôrdo com critérios estabelecidos pela supervisora da seção, quais sejam: tamanho, cor, pedaços, inteiras, deterioradas, com películas e pedaços. (FROTA, 1984, p. 85)

Fonte: Panfleto demonstrativo da CIONE. Coletado pelo autor em junho de 2014

Fonte: Panfleto demonstrativo da CIONE. Coletado por Marcelo Ramos em junho de 2014. 2.4.1.10) Embalagem

Por fim, após a seleção, as amêndoas seguem para embalagem onde são acondicionadas em latas de 12 quilogramas, como podemos visualizar na imagem abaixo. Das latas é retirado o oxigênio e injetado gás carbônico, para evitar a proliferação de bactérias. logo após são fechadas a vácuo e encaminhadas para depósitos para serem condicionadas em caixas de papel aguardando a distribuição.

Fonte: Panfleto demonstrativo da CIONE. Coletado por Marcelo Ramos em junho de 2014 2.4.1.11) Extração do óleo (LCC)

Como outro substrato do processo de beneficiamento se dá a extração do óleo da castanha de caju. Após o corte as cascas são encaminhadas para grandes prensas e caldeiras onde são esmagadas e desidratadas para ser extraído o LCC. O resíduo deste processo serve ainda como combustível das caldeiras. Por fim, o LCC é filtrado e acondicionado em latas, assim o produto pode ser embalado e condicionado em depósito para espera da distribuição.

2.4.2) Uma produção de mulheres

Na CIONE, assim como nas demais indústrias do ramo, era comum se empregar um contingente de até 90% de mulheres do total da força de trabalho da produção. Franzé discorre sobre este dado:

A maioria das operárias é mulheres. Não existe nenhum estudo que defina isso, mas o que se sabe é que empresas do nosso segmento fazem isso. No processo de seleção só tem mulheres selecionando. É uma esteira onde a amêndoa corre e elas vão selecionando por tamanho e por tipo. Antes elas separavam por cor também. Por alguma razão que eu sinceramente não sei justificar as mulheres se adaptam melhor a esse trabalho, talvez por ter mais paciência, ela é mais resignada, ela passa o dia inteiro selecionando. O homem não. E especulo, se tem fundamento ou não os estudiosos que comprovem, mas acho que isso tem uma carga de machismo. Tanto que outras empresas, como a Iracema e a Cascaju, tentaram empregar homens não lograram êxito. De repente o cara pensa que aquilo é coisa de mulher, não é serviço pra macho o cara ficar ali o dia inteiro catando castanha. (Entrevista. Francisco José. 01 jul. 2014)

Apesar de o processo de beneficiamento industrial da castanha de caju ser predominantemente executado por mulheres, a produção doméstica da castanha de caju – que remonta a relações pré-coloniais entre comunidades indígenas que já povoavam a região e se perpetuaram na população cearense – era executada por todos os membros da comunidade e da família. O processo de especialização da mulher no trabalho com a castanha se dá no contexto da produção industrial de mercadorias. Entendemos que tal processo está relacionado com os mecanismos de desigualdade de gênero aos quais a mulher é historicamente submetida, constituindo-se como fundamento do capitalismo industrial a naturalização das habilidades das mulheres em torno ao trabalho doméstico e que, no processo de transição desta para o trabalho industrial, a submete a uma estrita divisão do trabalho em função de uma política de desigualdade de gênero.58

2.4.3) Jornada de Trabalho

A jornada de trabalho na fábrica chegava a 12 ou 13 horas DIÁRIAS. Como afirma a ex-castanheira da CIONE Maria de Fátima: “Tinha gente que saía lá 18h, 18h30, gente que entrava às 6h. Tudo pra fazer uma boa produção. (Entrevista. Maria de Fátima. 10 jul. 2014). Oswald, que se integrou À produção pela Ação Popular e viveu junto com uma castanheira chamada Hélia59 entre 1968 e 1969 descreve a jornada e o estado físico e mental das castanheiras ao fim do dia:

Elas geralmente iam a pé, normalmente não tinham dinheiro nem pro onibus. Acordavam de madrugada pra chegar antes das 6h, ia a pé, e voltava 7 horas da noite, 8 horas da noite, exausta, morta e só fazia [gesto de se deitar]. Quando a gente 58 Ao final deste capítulo retomaremos essa discussão à luz da relação entre gênero, trabalho, classe e raça 59 Hélia também foi da AP, assim como seu irmão, de nome Pedro. Fizemos um enorme esforço para encontrar os dois, visto não só a importância de Hélia para contar a história da greve, como também o fato de que a casa de Hélia e Pedro se tornou uma espécie de aparelho da AP para receber Cristina Carvalheira e Oswald Barroso no processo de integração a produção. Porém não conseguimos nenhuma pista deles atualmente. Após 50 anos poucos são os vínculos que ainda restam entre os depoentes, muitos destes vínculos pessoas foram quebrados durante a larga repressão após o AI-5 e não foram mais reestabelecidos.

namorava era no fim de semana. Só fazia cair. Ela tinha muita sorte porque tinha a mãe pra cuidar dos filhos delas. E as que não tinha? Deixava o filho (gesto de largado) ... Então eram as condições do começo da revolução industrial... fábricas artesanais. (Entrevista. Oswald Barroso. 17 jan. 2018)

2.4.4) Acidentes

Os acidentes de trabalho eram extremamente comuns, especialmente no setor de corte. Segundo depoimentos que coletamos existia até um preconceito difundido na sociedade cearense quanto às operárias castanheiras pois era comum que estas fossem mutiladas pelas lâminas do corte e pelo ácido da castanha de caju. Foram produzidos diversos depoimentos sobre estes acidentes de trabalho E o curioso é que, diante de tantos casos, a opinião da atual gerência e do pessoal do setor administrativo da fábrica relativiza ou mesmo nega a existência deste volume de casos, como podemos ver na entrevista de Franzé: “Não haviam muitos acidentes de trabalhos. Porque é um processo que não oferece muito perigo. Haviam assim uns cortezinhos, furinhos, arranhõeszinhos. Coisa que se curavam com 'band-aid'. (...) Mas mutilação não havia não” (Entrevista. Francisco José. 01 jul. 2014) e mesmo de Holanda: "É porque elas trabalhavam com imunização. Elas pegavam o óleo de mamona e imunizava as mãos pra evitar que o leite da castanha queimasse a pele. Isso era uma proteção, porque não se podia usar luva." (Entrevista. Holanda. 01 jul. 2014).

Porém os depoimentos de trabalhadores que passaram pela produção industrial da castanha são categóricos quanto à quantidade e gravidade dos ferimentos e acidentes no processo de beneficiamento da castanha ao qual especialmente as castanheiras eram submetidas:

Muita gente acidentado. As vezes a castanha não estava bem no ponto de sair lá do fogo. Sabe que a castanha tem um óleo né. Aí aquele batia no olho da gente e a pessoa gritando: "colírio, colírio!". As vezes o colírio tava lá na ponta... daqui que viesse... era só os grito.. Gritando pra botar colírio... você sabe que o óleo da castanha é horrível né. Nos tempos que eu trabalhei lá, que eu fiquei lá... eu me lembro que foi ela [uma amiga, mãe de sua nora] quem me levou pra lá... "Lá tão precisando de cortadeira, vamo?!" aí eu ia porque eu... Tinha que ser de duas (eu e a mãe dela) uma era a cortadeira e outra era a tiradeira. (Entrevista. Maria Elódia. 26 de abr. 2013)

Maria de Fátima descreve a produção no corte e as formas utilizadas pelas castanheiras para tentar evitar ou diminuir os acidentes com o óleo da castanha, levando em consideração a ausência quase absoluta de material de segurança no trabalho:

Aí aqui em cima, como você que tá olhando pra mim, ficava a moça que cortava a castanha. E eu ficava aqui encostada na, tipo a mesa, já recebendo as castanhas, tirando a casca. E pra fazer esse serviço eu tinha que tá todo tempo molhando minha mão num óleo (cara de asco). Óleo de mamona. Aquele óleo de mamona, tinha que

tá todo tempo [fazendo gesto de esfregar óleo nas mãos], quando você sentisse a mão seca... [faz gesto de enfiar a mão] na latinha lá de novo. Porquê queimava, a gente ficava com os dedos tudo encardido. Mesmo assim passando óleo, fiquei com muito tempo com marca no dedo. Ficou um pouco aqui mas ainda tem [mostrando as marcas nas mãos]. Que era aonde a gente passava, segurava a castanha, né. Ficava ainda mais branco, a gente tinha que passar limão e uma pedrazinha pra limpar depois. Então se tinha aquele cuidado pra não ficar queimado e ainda ficava, salpicava na gente, salpicava o leite da castanha e você ficava com aquelas pintinha [apontando para a o rosto]. Aí depois com o tempo ia saindo ao normal né. Você usava uma manga, tipo uma manga de vestir, não era própria, a gente que inventava. Mandava botar um elástico aqui [apontando para os braços], aí vestia. Como as pessoas usavam pro sol, aquelas mangas, aquelas blusas. Era as operárias que faziam, ninguém recebia isso não. [...] Na minha época era só pra botar as castanha, pra assar as castanha, pra tirar os surrão, era num surrão de palha. As casca que já iam pra lá que eles iam aproveitar essas cascas pra fazer óleo. Tinha um surrão aqui [fazendo gesto de perto do corpo]. Tinha um surrão aqui, e a gente tinha o cuidado pra não queimar as perna nas casca. Que onde salpicasse a casca de castanha era uma queimadura. [...] Ah, tinha gente lá que aqui [fazendo gesto alisando o punho]... Graças a Deus que eu nunca queimei não. O punho né... Só vivia no seguro. Aquelas queimadura, sabe, tinha gente que se queimava muito. [...] Queimadura na mão era uma. Cortar o dedo era outra. Porque você pegava a castanha nessa posição... deixa eu ver se eu me lembro... nessa posição aqui [juntando os dedos polegar e indicador], a castanha. Aí passava isso aqui [fazendo gesto como se fechasse uma máquina de corte manual]. Aí tudo que você fazia isso aqui podia pegar o dedo. Muita gente cortava o dedo. Isso no óleo né. Nessa seção que tem o bruto né. Do jeito que vinha da caldeira pra gente trabalhar com a castanha. [...] Lá tinha um problema na caldeira que as mulher tudo corria, parecia até que ela ia explodir.60

(Entrevista. Maria de Fátima. 29 set. 2017)

Cristina Carvalheira nos fala sobre como as castanheiras buscavam tratar as queimaduras de ácido da castanha “Cada uma tinha que levar limão para passar no rosto, para passar nos braços, para não ficar cheio de queimadura” (Entrevista. Cristina Carvalheira. 15 jul. 2014). Entre os que não trabalharam na fábrica mas contribuíram com a organização da greve e conheceram a situação de vida das castanheiras, também é comum a riqueza de detalhes quanto à descrição dos acidentes e das condições degradantes de trabalho. Oswald Barroso conta como era comum haver um rápido envelhecimento da aparência das castanheiras devido a essas condições: “Tinha muito acidente. Elas cortavam o dedo. Essa menina chegava sempre cortada. Chegava toda queimada em casa, do óleo. E é porque ela tinha 17 anos. Com 20 e tantos já era velha, aí jogava fora e contratava as botava gente mais novas. Trabalhava de menor né. Muito jovens. Essa Cláudia tinha 34 anos e já era velha, velha. (Entrevista. Oswald Barroso. 17 jan. 2018). Cacau afirma que conheceu muitas operárias ajudando elas a se livrarem das queimaduras ácidas:

Então no caso da greve da CIONE o que é que acontecia... na época elas tinham uma condição sub-humana. Elas se queimavam, não tinham nenhum tipo de proteção. 60 Essa possibilidade de explosão da caldeira que aterrorizava as castanheiras da CIONE se efetivou alguns anos depois em outra fábrica, do Grupo Lindoya, em 1985, onde morreram 10 operários. Disponível em

https://www20.opovo.com.br/app/opovo/opovoehistoria/2015/03/06/noticiasjornalopovoehistoria,3402977/explo sao-de-caldeira.shtml acessado no dia 29/01/2017 as 02:07

Realmente elas mesmo que usavam limão. Inclusive na casa da minha sogra, na mãe do Machado, ela tinha um pé de limão, elas iam muito lá atrás de limão, porque ali no Jardim Iracema tinha muita operárias, as castanheiras, como chamavam. (Entrevista. Maria do Carmo. 08 jul. 2014

2.4.5) Alimentação

Não havia alimentação fornecida pela empresa, nem sequer lugar onde comer, o que obrigava as castanheiras a se alimentar no chão da rua, nas calçadas, em qualquer canto fora da fábrica. Uma prática comum não só na CIONE mas em toda A indústria do caju, como nos conta Luzimar: “Era uma hora e meia pra almoço, eles não dava almoço. A gente quiser que se lascasse para comprar e pra trazer de casa, comer aquelas boia-fria.” (Entrevista. Luzimar. 07 dez. 2017). E Maria de Fátima corrobora: “Naquela época nem refeitório tinha, todo