2. O PAPEL DA POLÍTICA EXTERNA NA CONSTRUÇÃO DA
4.2 CRÍTICA AO PROCESSO ABOLICIONISTA BRASILEIRO
Muitas são as visões com que analisa-se a abolição da escravidão no Brasil. Uma delas, e muito bem relatada pelo então Ministro das Relações Exteriores, Barão do Rio Branco, foi um ponto de vista de um importantíssimo estudioso, que na época em que ocorreu a ratificação da Lei Áurea estava em Liverpool como cônsul. Apesar da forma com que via a abolição, e o via de forma gloriosa, há muitos outros pontos de vistas que não veem de forma gloriosa o processo.
O Brasil, até o fim do século XVIII, era a maior nação escravista do mundo.179 Isso remete a como era importante, tanto social quanto economicamente, manter o escravismo no Brasil. No início do século XIX, os Estados Unidos assumem esta posição de maior nação escravista do mundo. Por mais que, como dito no capítulo anterior, a liberdade era um almejo intenso, por parte dos escravos negros, não o era para os fazendeiros. Em razão de dados, o Brasil durante os primeiros 250 anos de escravidão, importou cerca de 1.895.500 escravos. E nos últimos 70 anos de escravidão, importou cerca de 2.113.900 escravos.180 Isso corresponde a visão de que, escravos já não era questão de luxo mas sim de necessidade.
179 (MENEZES, 2009) 180 (MENEZES, 2009)
O escravo é entre nós um verdadeiro fidalgo proletário (Andrade Figueira, deputado do Partido Conservador)”. “A escravidão é conveniente mesmo em bem do escravo (Cansanção do Sinimbu, senador do Partido Liberal)”. “Amo mais a minha pátria do que ao negro” (Conselheiro José Antônio Saraiva, Liberal)”. “O fazendeiro deve merecer mais cuidados dos poderes públicos do que os escravos (Martim Francisco Ribeiro de Andrada, deputado do Partido).181
O sistema escravista se fez ao longo do tempo “difícil e demorado”.182 Na América, alguns países que entraram em um ciclo de independência, entraram com a prerrogativa da abolição da escravidão. Já o Brasil, após 1822, intensificou-se o movimento escravista.183 De ante do fato de ser um país continental, a nação brasileira foi a maior importadora de escravos das Américas.184 Fora a importância da produção, mediante a mão de obra forçada, os escravos, pela legislação, eram impedidos de ter acesso à educação.185 Única educação que tinham acesso era o aprendizado da língua portuguesa.186
Além dos desastres humanitários, o século XIX iniciava com a intensificação da importação dos escravos. Uma das leis importantes para o fim da escravidão foi 1831, com a proposta de dar fim ao tráfico negreiro. Esta lei é uma resposta à altíssima pressão da Inglaterra. O que eventualmente levaria o pensamento crítico a respeito disso. Caso a Inglaterra não viesse a pressionar, desde 1810, a escravidão não demoraria um pouco mais? O pensamento é válido. Mas independente disso, mesmo com a resposta à Inglaterra, a Lei é burlada de maneira frequente.187 O que levou a uma repressão por parte dos britânicos. Tanto o parlamento quanto os donos de escravos não estavam dispostos a uma resolução. As exceções existem, e já mencionou-se, no capítulo anterior, os nomes destes. O fim da escravidão, em termos gerais, se concentra nas pressões da Inglaterra e nas pressões internas produzidas pelos negros.188
Até a década de 1850 existia o contrabando de escravos. Do ponto de vista do parlamento, existe uma contradição a intenção do combate veemente ao fim tráfico de escravos, prevista na lei de 1831. No mesmo ano, em que a Lei é ratificada, em outubro, o Congresso disponibiliza recursos à Marinha para o combate ao tráfico de escravos. A
181 (APUD BIBLIOTECA NACIONAL, 1988, pág.35) 182 (MENEZES, 2009) 183 (MENEZES, 2009) 184 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 185 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 186 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 187 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 188 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988)
contradição se revela no mesmo ano, em que outra lei suspende os gastos para a Marinha.189
Os conservadores, que haviam perdido para os liberais na Lei de 1831, em 1837 encaminharam projetos a respeito da revogação desta lei. O ponto em discussão era que não havia como substituir os escravos, com isso, aquela lei se tornara uma “ameaça à riqueza da nação e aos mais ricos e respeitáveis cidadãos do Império”.190 Existia uma preocupação negativa sobre a inserção do negro para a composição étnica da nação.191 A sociedade aceitava-se ser escravista.192
Houve uma resistência forte, por parte dos senhores, donos de escravos, para que a consciência popular se voltasse para a libertação dos escravos.193 Pós 1850, a tráfico interno, principalmente entre as regiões de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, aumentavam bastante. 194 Para os dominantes do congresso, o fim da abolição não estava na pauta. Portanto, durante o tempo, após 1850, a luta para conseguir êxito na abolição, ficaria por conta dos próprios escravos.
Assim como, em 1810, um evento externo, Inglaterra, forçou ao Brasil pensar e agir de acordo com o fim do tráfico, outro evento, de novo, externo fez com que o Brasil reavaliasse sua posição. Uma delas foi a guerra civil dos Estados Unidos, que culminou com a abolição da escravidão em 1865. Vale relembrar que, ao iniciar o século XIX, os EUA se tornaram o país maior país escravista do mundo e mesmo assim, aboliu a escravidão antes do Brasil. Outro evento foi a libertação dos escravos nos impérios de Portugal, França e Dinamarca. Brasil e mais dois países se tornavam, portanto, os únicos países do “Novo Mundo”, a estarem sobre o sistema escravocrata. A Guerra do Paraguai, também auxiliou na retomada do pensamento abolicionista brasileiro.195 O fato é que esperou-se eventos externos para repensar políticas internas no governo imperial brasileiro.
O medo de uma guerra civil, no Brasil, era presente nas mentes dominantes do congresso. Até mesmo do Imperador.196 É por isso que, uma das razões pela qual, a Lei da “emancipação do ventre” foi elaborada, esteve este medo presente. A consciência
189 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 190 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988, pág.31) 191 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 192 (MENEZES, 2009) 193 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 194 (MENEZES, 2009) 195 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 196 (MENEZES, 2009)
popular atestava o início de uma vergonha ao sistema escravista. Em 1869, proibia a venda de escravos em exposição pública.197 Já não era bem quisto este tipo de atitude. A Lei de 1871, do Ventre Livre, recebeu uma oposição fortíssima a ponte de considerarem “um desrespeito ao direito de propriedade”.198 Os representantes das províncias do café se mostraram grandes opositores. Mas apesar de ter um avanço social, a Lei do Ventre Livre não era o suficiente.
Por sua vez, a Lei não prevê uma educação das crianças livres; preocupa-se com sua criação e manutenção até os 8 anos de idade, sendo que a partir daí e até os 21 anos, o jovem deveria, como retribuição, prestar serviços ao senhor de sua mãe, que tinha o direito, inclusive de castigá-lo. Aliás, a única recomendação educativa é de que o castigo não seja demasiado rigoroso, pois com isso o senhor poderia perder o direito aos serviços do menos.199
Somente após cinco anos da ratificação da Lei, é que os primeiros escravos foram libertos. Os resultados, de fato, “deixaram a desejar” 200 Apesar de não ser o suficiente, e nem representar os interesses completos dos escravos, a Lei estimulou o debate sobre a abolição.201 A ideia de um fim gradual agradava as mentes parlamentares e, também, dos proprietários de escravos.
A década de 1880, era decisiva para o fim da escravidão. Com destaque a Lei dos Sexagenários, de 1885. A elaboração do ano anterior, por Rui Barbosa, teve tanta oposição que o então Ministros Dantas, foi substituído por José Antônio Saraiva. Os termos da lei amenizavam a causa, mas de maneira nenhuma a extirpavam.
Os escravos com mais de 60 anos eram libertados, mas ficavam obrigados, ‘a título de indenização (...) a prestar serviços à seus ex-senhores pelo espaço de três anos’, até que completassem 65 anos de idade. O fazendeiro que substituísse o escravo pelo trabalho livre seria reembolsado em títulos e ainda poderia obrigar os ex-escravos a servi-los por mais cinco anos. Eles receberiam um salário doze vezes menor que o valor dos juros dos títulos recebidos pela senhores.202
O Brasil caminhava para o fim da escravidão, mas de maneira lenta e tardia. Até mesmo no ano da abolição, apresentaram-se dois projetos de abolição. Uma elaborada por André Rebouças, que exigia uma abolição sem condições e outra, elaborada por
197 (MENEZES, 2009) 198 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988, pág.37) 199 (MENEZES, 2009, pág.90) 200 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988, pág.37) 201 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 202 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988, pág.39)
Antônio Prado, que estabelecia indenização para os proprietários e “a obrigação para os ex-escravos de servirem aos seus senhores até terminar a safra de café” 203. Não havia, de fato, unanimidade. A consciência escravista ainda persistia em tardar a abolição.
A cidadania do ex-escravo negro não foi pensada. Propostas de Patrocínio, Joaquim Nabuco, André Rebouças, não foram acatadas. Propostas estas que visavam “distribuição de terras para os ex-escravos, assistência econômica e social, acesso à educação, ampliação do direito à participação política, reformas...”.204 Na visão do sociólogo Florestan Fernandes205 os negros foram duplamente espoliados. O primeiro ponto é não ter pensado, depois de 350 anos de escravidão, em nenhuma indenização ao negro. O segundo ponto é o trabalho, que pós-abolição, é posto em cheque ao negro.206 O ponto em discussão jamais pode ser a abolição em si, pois de fato, como Rio Branco escreveu, foi uma glória. Mas esta glória foi ofuscada pelo processo. Processo este que não foi o suficiente para a integração do ex-escravo à sociedade.
O quadro de visão do Barão se enquadra na perspectiva de Gilberto Freyre, quando em seu livro Casa Grande e Senzala, fala a respeito da glória de uma miscigenação étnica. Já, o pensamento crítico, explanado neste capítulo, se enquadra na perspectiva de Jessé Souza, que em seu livro A Ralé Brasileira comenta sobre o “mito da brasilidade”. Não houve, e ainda não há, depois da Lei Áurea, uma equidade étnica. É fato que não se pode, de maneira nenhuma, desconsiderar uma visão de alguém que contribuiu tanto para a identidade nacional e internacional do Brasil. Mas a história, pós Lei Áurea, somente realça o mito da brasilidade. Outro autor, que também atesta o sincretismo cultural, é Celso Lafer. A verdade é que, o Brasil é pluralista, em termos étnicos. Mas a pergunta crítica é, se de fato, consegue-se lidar, de maneira igual, com essa pluralidade. Resposta esta que, de acordo com o relato deste capítulo, é negativa.
203 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988, pág.40) 204 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988, pág.49) 205 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988) 206 (BIBLIOTECA NACIONAL, 1988)
5 CONCLUSÃO
Como evidenciado neste trabalho, o Barão do Rio Branco tem um papel fundamental, mediante o histórico da diplomacia brasileira, para a construção de identidade nacional e internacional do Brasil. A premissa de que o Brasil, nos dias atuais, é pré disposto a acordos pacíficos e, de fato, ter uma política internacional pacificadora, tem como uma das bases, o Barão. Sua visão de um Brasil com políticas externas bem definidas, e de um Brasil para todos, fez dele um protagonista de um novo panorama político brasileiro.
A análise de seus pensamentos, especificamente nos assuntos tratados neste trabalho, em relação às fronteiras e a escravidão, dão, não apenas um status de estadista, mas também, de pensador. É claro que, de acordo com a sua época, muitos dos seus pensamentos e conceitos, podem ser questionados. Como de fato, o foram neste trabalho.
As fronteiras no final do século XIX se tornou ponto principal da política externa brasileira. E em termos internos, a escravidão foi um dos temas principais do século. Trazendo assim os dois temas que ajudaram a moldar a identidade nacional e internacional, as atitudes e discursos do Barão fizeram com que ele participasse de forma direta e indireta nas questões centrais de identidade do Brasil.
O Acre, que foi o enfoque das fronteiras neste trabalho, foi alvo de muitos elogios e críticas, devido a sua resolução do conflito. É preciso, mais uma vez, reiterar que a forma com que foi dirigida a solução da região em litígio, foi pacífica. Uma das marcas, que até hoje, é registrada no Brasil. A forma com que ele conduziu o Brasil, norteou os demais diplomatas que vieram após ele.
Já na questão da abolição da escravidão, apesar da explanação ser, de fato, importante, a história após a sua morte, mostra que não foi tão eficaz quanto imaginava- se ser. A Lei Áurea foi necessária, mas não suficiente. A Desigualdade, de cunho racial, ainda é uma questão que discutimos no século XIX. Como foi discorrido neste trabalho, pensou-se na liberdade do escravo, mas não na sua inserção na sociedade.
Sua contribuição foi marcada em longo prazo. Mesmo após a sua morte, sua contribuição para a comunidade brasileira permanece. Doratioto lembra, em seu livro, que o Brasil, na chegada de Rio Branco para assumir o Ministério das Relações Exteriores, era mais respeitado do que era antes, mas mesmo assim, relembra o autor, o Barão não viu um Brasil próspero e forte. Na sua época, viu concretizadas muitas
coisas, mas nem todas que almejava. Porém, a diplomacia brasileira foi moldada com suas ações e pensamentos. Sua visão internacional era de uma inserção do Brasil de forma arbitral, mas hegemônica. Assim como a pergunta central deste trabalho foi, “Como os entendimentos de Rio Branco sobre as questões fronteiriças e da escravidão, presentes nos artigos anônimos e pseudônimos, refletem as suas posições sobre a identidade nacional e internacional do Brasil?”, pode-se concluir que, em termos nacionais, a identidade brasileira que o Barão entendia era de um país pacifico e acolhedor das diferentes culturas e raças. Levou esta visão para o âmbito internacional, sendo um dos protagonistas do projeto ABC.
A historiografia mostra que se foi muito discutido, tanto no século XIX quanto no XX, questões de identidade nacional e internacional do Brasil. Como uma nação jovem, era de se esperar estas discussões. A partir de agora, este trabalho abre margem para mais discussões a respeito da abolição da escravidão, de forma parcial e da política externa brasileira, de forma pacífica.
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