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2. CRÍTICOS

2.2 Críticos europeus e americanos

Samuel Johnson, William Hazlitt, John Ruskin e Sainte-Beuve são alguns nomes de destaque dos primórdios do jornalismo cultural europeu. Existem inúmeros outros críticos que contribuíram para o fortalecimento do gênero, porém, não seria possível apresentar com profundidade a carreira de todos os críticos devido à limitação de espa-ço e de tempo. Ao longo deste subcapítulo serão abordados os nomes dos críticos cul-turais mais célebres, respeitando o critério de relevância, sem que isso signifique des-consideração com o trabalho dos críticos não mencionados.

78 LEENHARDT, 2000, p 20

79 PIRES, 2007, p 31

O inglês Samuel Johnson (1709-1784), conhecido como Dr. Johnson, é tido co-mo o pai de todos os críticos europeus, americanos ou brasileiros. O trabalho de Dr.

Johnson engloba resenhas da prosa e poesia de seus contemporâneos, ensaios sobre Shakespeare, estudos sobre a língua inglesa, além de romances como Rasselas. As reflexões de Dr. Johnson sobre “todos os assuntos à maneira de um Montaigne transfe-rido do castelo para a taverna fizeram dele o homem de letras mais lido e temido de seu tempo” (PIZA, 2003, p 13).

Outros ingleses que, ao lado de Dr. Johnson, foram os árbitros de toda uma ge-ração foram William Hazlitt (1778-1830) e John Ruskin (1819-1900). No final do século XVII, Hazlitt fazia reavaliações de vários clássicos como Shakespeare e guiava os ar-gumentos para qualificar o trabalho de novos criadores. Já o foco do trabalho de Ruskin era a arte e suas críticas.80

Com relação a outro país europeu, a França, um nome de destaque foi o de Sainte-Beuve (1804-1869), considerado o papa da crítica oitentista. Com Sainte-Beuve

“o jornalista cultural ganhou status: ele podia desenvolver uma carreira exclusivamente como crítico e articulista, independente de academias ou de uma obra ficcional; a tarefa tinha sua própria dignidade” (PIZA, 2003, p 15).

O principal seguidor de Saint-Beuve foi o poeta Charles Baudelaire (1821-1867), que resenhava salões de pintura nos anos 1840. Com Baudelaire, a crítica de artes plásticas se colocou como mediadora entre os artistas e o público, qualificado na época como burguês.81

O francês Émile Zola (1840-1902) e o irlandês George Bernad Shaw (1856-1950) eram romancistas que também atuavam como críticos de arte e de literatura. Émile Zola ganhou notoriedade ao se envolver no Caso Dreyfus82. Zola saiu em defesa do acusado numa carta aberta ao presidente da França sob o título J’accuse, “eu acuso” em portu-guês. Zola foi preso e multado, mas o caso foi revisto e a inocência do tenente Dreyfus foi comprovada. No mesmo período o irlandês Shaw brilhava em Londres com sua

80 PIZA, 2003, p 14

81 LEENHARDT, 2000, p 20

82 Ocorrido na França em 1894, c caso Dreyfus foi um escândalo político que se centrava na condenação por alta traição de Alfred Dreyfus, um oficial de artilharia do exército francês de origem judaica. O acusa-do, que era inocente, sofreu um processo fraudulento conduzido a portas fechadas. A farsa foi acoberta-da por uma onacoberta-da de nacionalismo e xenofobia que invadiu a Europa no final do século XIX.

luna semanal intitulada “G.B.S.”. A coluna que misturava polêmica política, observação social e análise estética tinha repercussão em toda Inglaterra, até mesmo em outros países, como os Estados Unidos.83

Outro irlandês que sacudiu Londres como dramaturgo, celebridade e crítico foi Oscar Wilde (1854-1900). Wilde era defensor da tese exposta em O crítico como artista de que a crítica cultural em si era uma forma de arte, autônoma em relação às outras artes.

Os críticos só ganhariam espaço nos Estados Unidos no século XIX, mais espe-cificamente no período pré-Guerra Civil (1861-1865). A maior figura da crítica america-na foi o escritor Edgar Allan Poe (1809-1849). Hoje famoso por seus contos de mistério, Poe só era reconhecido em seu país como crítico e ensaísta. O sustento do americano vinha de sua produção para as revistas e jornais que se multiplicavam com o desenvol-vimento industrial acelerado do norte do país. Curiosamente, Poe seria mais respeitado como escritor na França do que nos Estados Unidos, em parte graças à crítica positiva que Charles Baudelaire destinava aos livros de Poe.84

Na segunda metade do século XIX, os críticos americanos se multiplicaram à medida que o país crescia e sua cultura se solidificava. Um grande ensaísta e articulista que brilhou nos jornais de Nova York, como o New York Tribune, foi o romancista Henry James (1843-1916). De Paris e Londres, James enviava resenhas literárias e narrativas de viagens que marcavam época. Seu ensaio A arte da ficção, publicado pela Long-man’s Magazine em 1884, foi definitivo ao defender o romance como criação intelectual e criticar as histórias sentimentais escritas para o sucesso popular.85

Um dos críticos de arte mais importantes do século XX é o norte americano Cle-ment Greenberg (1909-1994), que foi editor da revista Commentary86 durante treze anos. A maior parte das críticas de Greenberg era direcionada à arte modernista.

Em geral, os textos de Greenberg eram curtos, diretos e evitavam torneio verbal, metáforas e descrições poéticas. Para Naves (2007), só quem conviveu com Greenberg

83 PIZA, 2003, p 17

84 PIZA, 2003, p 16

85 Idem

86 Commentary é uma revista americana mensal lançada em 1945 que cobre diversos assuntos, entre eles cultura e literatura.

sabe a dimensão da importância de sua figura, pois “não se tratava apenas de ter o olho afiado e saber converter adequadamente suas avaliações em argumento. Era pre-ciso ter a coragem de emitir seus juízos com franqueza, e isso num ambiente em que as relações pessoais ainda tinham o seu peso” (NAVES, 2007, p 149).

Com poucas exceções, a maioria dos textos de Greenberg era direcionada aos melhores trabalhos artísticos de sua época. Apesar disso, Greenberg praticamente des-considerou o minimalismo e a pop art, mesmo quando os dois movimentos ganharam força ao longo da década de 1960.Preocupado em formar um verdadeiro meio cultural no campo das artes plásticas americanas, Greenberg não chegou a formular uma teoria propriamente original da arte moderna: seus textos sintetizavam formulações de outros autores e artistas.87