1.1 A OBRA DE ARTE E SUA FUNÇÃO SOCIAL
1.1.3 Os novos tipos de licenciamento e porque eles não resolvem a pirataria
1.1.3.2 Creative Commons: alguns direitos reservados
O Creative Commons (CC) é uma organização sem fins lucrativos que tem como um de seus fundadores o jurista e entusiasta da cultura livre na Internet Lawrence Lessig. O CC propõe, basicamente, oferecer licenças flexíveis aos autores. Dessa maneira, encontram-se disponíveis no site da entidade12 várias formas de licenciamento que podem ser combinadas até que o autor da obra autorize o uso que deseja de sua criação. O objetivo é que as produções possuam “alguns direitos reservados”, escolhidos e adaptados à necessidade de quem disponibiliza o seu trabalho.
Como explica Lessig (2008), a intenção do projeto não é competir com o copyright, mas complementá-lo: “seu objetivo não é eliminar os direitos dos autores, mas sim tornar mais simples para autores e criadores exercer seus direitos de maneira mais flexível e barata.”. O autor acredita que dessa maneira, a criatividade pode ser exercida mais facilmente.
O CC propõe licenças para obras de áudio, vídeo, imagem, texto, obras educativas e também de software. Um de seus representantes no Brasil, Lemos, explica que “ninguém sabe direito o que pode e não pode fazer na internet. Eu tenho a impressão, por exemplo, de que se comprar um CD na loja, pagar por ele, eu posso copiá-lo para o meu iPod. Mas não posso” (CARMEN, 2008).
Este é um dos pontos de tensão entre o cidadão, o autor, a Lei e o mercado. Enquanto a Lei não esclarece o que pode ou não ser feito, o mercado desenvolve produtos e formatos de arquivos que o indivíduo não sabe exatamente como é permitido utilizá-los. Por outro lado, há autores que não vêem como um problema os novos usos de suas produções, mesmo que não estejam previstos em Lei.
Como explica o vídeo promocional do CC13, toda obra quando criada deve ter alguma proteção para garantir o direito do autor sobre o produto. Esta reserva de direitos é largamente e automaticamente feita pelo copyright. A proposta do CC é que a autonomia de decisão do que deve ser feito com determinada produção seja do autor e não do intermediário (gravadora, produtora, editora etc) ou de uma Lei pré-estabelecida.
Uma das críticas sobre os direitos de propriedade intelectual diz respeito ao fato de terem sido concebidos como uma extensão do regime de propriedade industrial, não
12 http://creativecommons.org/
considerando as diferenças entre estes produtos (SANTOS, 2007). O copyright apresenta-se, assim, não como uma Lei cujo objetivo é contribuir para a liberdade de criação e proteção ao autor, mas tão somente como instrumento que dificulta tal processo, já que defende, não a criação, mas esta enquanto produto mercadológico.
Santos (2007, p. 1) relembra que o objetivo primário dos direitos de propriedade era o de ser um “mecanismo capaz de proteger a invenção em nossa sociedade e, assim, assegurar o progresso da ciência e da tecnologia para o bem da humanidade”, o que, para os críticos, não tem acontecido. Lessig (2008, p.19) postula que “a função da Lei é cada vez menos apoiar a criatividade e cada vez mais proteger certas indústrias da competição”. Neste sentido, o jurista norte-americano defende a necessidade de se discutir formas de licenciamento mais adequadas à realidade da produção atual.
É válido ressaltar que Lessig é um entusiasta dos direitos de propriedade, no entanto, acredita que não é possível que estes continuem sendo exercidos de forma que privilegie apenas os grandes grupos. Para ele, o protecionismo exacerbado impede a criação de novas obras. Para defender a sua tese, cita como exemplo autores como Walt Disney que “tomavam emprestado” elementos de outros artistas, desenvolvendo uma nova forma de recontar histórias.
É possível perceber que o CC, apesar de consonante com o novo sistema de produção e troca cultural, não resolve a problemática da pirataria, uma vez que aderi-lo significa romper com um modelo de negócios secular e ter perdas significativas nos lucros, ao menos em um primeiro momento. Apesar de demonstrar uma crescente utilização da licença em ambientes acadêmicos ou até mesmo culturais, percebe-se que são grupos conectados com o ambiente virtual e com as especificidades da Cibercultura e sabemos que não são apenas estes que criam ou consomem produtos culturais.
Verifica-se a adesão ao CC em blogs, sites e fotologs, geralmente com o intuito de demonstrar uma postura política mais próxima da realidade de produção atual. Neste sentido, assistimos a casos como o do atual presidente dos Estados Unidos Barack Obama utilizar no
site de sua campanha (change.gov) uma licença dessa natureza14 da mesma forma que o blog do Planalto no Brasil15.
Empresas também passam a adotar o CC como estratégia de aproximação e participação do público na elaboração de mensagens, conteúdos, serviços. Destacamos uma ação da marca italiana de automóveis, a Fiat. Por meio do site fiatmio.cc e sob o slogan “Fiat mio: um carro para chamar de seu”, a empresa propôs aos internautas o desenvolvimento de um carro sob licença CC, a partir das sugestões enviadas por eles. Como no próprio site se explica: “o projeto Fiat Mio utilizará essas licenças para agregar e propagar as idéias enviadas por você para o site. Através delas, juntamente com nossa equipe de engenheiros automotivos, produziremos um carro conceito, o primeiro carro do mundo criado pelos e para os usuários”. Há, como se pode observar, uma possibilidade de completa convivência entre o sistema capitalista de produção e o CC, não sendo elementos excludentes.
No site da Fiat também não há nenhum “selo” que explique qual a combinação de licenças foi utilizada para proteger o projeto. Quando se trata de sites, blogs ou outras páginas na Internet, por exemplo, é possível detectar uma imagem, geralmente no final da página que, ao ser clicada, disponibiliza os usos que o autor permitiu.
Na página que utilizamos como exemplo, o autor permite a qualquer pessoa que ela compartilhe, distribua e divulgue o trabalho, podendo este também ser remixado, desde que se faça menção ao autor do conteúdo original.
Figura 2 – Alguns direitos reservados. Exemplo de um selo disponível em sites registrados sob esta licença e de
uma página que explica quais usos podem ser feitos do que está publicado naquele espaço.
Fonte: http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/ 14 Disponível em: http://www.creativecommons.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=110&Itemid=1. Acesso em 29 de dezembro de 2008. 15 Disponível em http://www.creativecommons.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=128&Itemid=1. Acesso em 3 de setembro de 2009.
Reforçamos ainda que apesar da possibilidade de convivência entre as licenças CC e o modelo industrial de negócios propiciado pelo capitalismo, grande parte das produções industriais culturais, entre elas os produtores de blockbusters ou dos ábuns musicais situados no topo da cauda longa (apenas para citar dois exemplos) não aderiram a este novo licenciamento das obras, assim como grande parte dos autores independentes.
Parece-nos claro que ainda estamos em fase de teste, na qual se arrisca um projeto com o objetivo de estudar a sua repercussão. Citamos como exemplo de indivíduos que realizam determinadas experimentações o caso do cantor e ex-ministro Gilberto Gil que, apesar de disponibilizar algumas de suas canções, não é todo o seu material que fica disponível para tal uso.