A insatisfação em relação aos direitos autorais não é somente por parte dos usuários da internet que realizam cópias e utilizam obras protegidas por esses direitos, como também dos próprios autores que vêem na proibição ao acesso do seu trabalho, uma limitação da divulgação e exploração econômica das suas obras. Dessa forma, foi necessário repensar formas de possibilitar o acesso às obras autorais de forma diferente, com o objetivo de utilizar a rede mundial de computadores como uma ferramenta nova e importante de trabalho, ao invés de algo a ser evitado.
O Creative Commons foi fundado nos Estados Unidos em 2001 com o objetivo de criar licenças jurídicas que pudessem contrabalancear um sistema de proteção autoral cada vez mais restritivo. Em 2002, a organização lançou uma série de licenças para uso voluntário, que foram adotadas por criadores do mundo todo, estabelecendo que as obras por ela
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SILVEIRA, Sérgio Amadeu. Inclusão digital, software livre e globalização contra-hegemônica. Disponível em: <http://www.softwarelivre.gov.br/softwarelivre/artigos/artigo_02>. Acesso em 02 de out. 2012.
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SANTOS, Manuela. Direito autoral na era digital: impactos, controvérsias e possíveis soluções. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 164.
licenciadas contavam com direitos de uso mais amplos que aqueles previstos pela legislação autoral. Em síntese, as licenças partem de um modelo de “alguns direitos reservados”, em contraposição ao modelo prevalecente de “todos os direitos reservados”. No Brasil, a parceria com o Creative Commons foi estabelecida pela Escola de Direito da FGV - Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, através de seu Centro de Tecnologia & Sociedade 88.
A sistemática das obras com selos do Creative Commons é explicada por Manuela Santos:
Assim, oferecer uma obra sob uma licença Creative Commons não significa abrir mão dos direitos autorais, mas sim oferecer alguns dos direitos para qualquer pessoa, justamente os que melhor atendam aos interesses, mediante condições escolhidas pelo próprio autor.
Quem viola uma licença Creative Commons viola direitos autorais e, seja no meio virtual ou não, deve ser responsabilizado por isso.
[...]
A licença mais utilizada do Creative Commons não permite o uso comercial da obra. Isso significa que a obra pode circular legalmente, mas quando utilizada com fins comerciais os direitos autorais devem ser recolhidos normalmente 89.
A partir desse trecho é possível perceber a compatibilidade que essa licença possui com a internet. Considerando que o espaço é de visibilidade, o autor afasta do usuário a responsabilidade de solicitar a sua autorização para utilização da obra. Com isso, ele incentiva a divulgação do seu trabalho, pois sabe que é interessante ver seu trabalho conhecido por várias pessoas. Ademais, o autor pode restringir o uso comercial da obra, ou seja, caso esse acordo não seja cumprido, poderá demandar os reparos judicialmente, pois ele continua possuindo direitos autorais sobre a criação.
Segundo Ronaldo Lemos, a ideia dessa licença é “permitir a criação de uma coletividade de obras culturais publicamente acessíveis, incrementando o domínio público e concretizando as promessas da internet e da tecnologia de maximizar o potencial criativo humano” 90
. Ainda é importante salientar que não é possível, nas creative commons, “a
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LEMOS, Ronaldo. Do “commons legal” para “commons social”: o Brasil e a indústria cultural do século XXI. In: FABIANO, Emerson Ribeiro (Org.). Impasses e aporias do direito contemporâneo: estudos em homenagem a José Eduardo Faria. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 294.
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SANTOS, Manuela. Direito autoral na era digital: impactos, controvérsias e possíveis soluções. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 165.
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extinção total dos direitos intelectuais do criador da obra originária, tornando-se cabível as opções mais restritivas que não resultem em sacrifício integral dos direitos” 91.
Os principais componentes das licenças, à disposição para serem escolhidos por autores e criadores são: os selos da “atribuição”, “vedada a criação de obras derivadas”, “uso não comercial” e “compartilhamento pela mesma licença” 92.
Todas as licenças do Creative Commons exigem que seja dado crédito (atribuição) ao autor/criador da obra. Pela licença chamada “Atribuição”, o autor autoriza a livre cópia, distribuição e utilização da obra, inclusive para fins comerciais (a menos que seja combinada com a opção que veda o uso comercial, o que não só é possível como usual). Entretanto, a obra deverá sempre receber o devido crédito, em todos os meios de divulgação 93. Em síntese, com a escolha desse selo, o autor receberá o crédito pela obra que criou, como também manifestará vontade de que interessados copiem, distribuam e utilizem a sua obra. No entanto, se o autor combinar esse selo com o selo “uso não comercial”, estará vedada a outros que a utilizem para esse fim.
O autor Ronaldo Lemos explica a razão de ser necessário o selo atribuição em todas as obras, pois “a lei de direitos autorais impõe a obrigatoriedade do elemento “Atribuição” em todas as combinações de licença, em decorrência, inclusive, do direito moral de autor de ter ser nome vinculado perenemente à obra que criou” 94
.
Pelos termos da opção “vedada a criação de obras derivadas”, o autor autoriza a livre cópia, distribuição e utilização da obra. Entretanto, o autor não permite que a obra seja modificada, sendo vedada sua utilização para a criação de obras derivadas. Assim a obra do autor não poderá ser remixada, alterada, ou reeditada sem a permissão expressa do autor ou criador, devendo permanecer sempre igual ao modo original em que foi distribuída 95. Um exemplo para obras com esse selo é o download de músicas para serem divulgadas e utilizadas em páginas da internet, em redes sociais, bem como para que sejam transferidas do computador para tocadores mp3, entre outros dispositivos.
91
LISBOA, Roberto Senise. Manual de direito civil, v. 4: direitos reais e direitos intelectuais. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 524.
92 LEMOS, Ronaldo. et al. Direitos autorais em reforma. Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas,
Centro de Tecnologia e Sociedade. Rio de Janeiro: FGV, 2011, p. 69-71.
93
LEMOS, Ronaldo. et al. Direitos autorais em reforma. Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, Centro de Tecnologia e Sociedade. Rio de Janeiro: FGV, 2011, p. 69-70.
94
LEMOS, Ronaldo. et al. Direitos autorais em reforma. Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, Centro de Tecnologia e Sociedade. Rio de Janeiro: FGV, 2011, p. 71.
95
LEMOS, Ronaldo. et al. Direitos autorais em reforma. Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, Centro de Tecnologia e Sociedade. Rio de Janeiro: FGV, 2011, p. 70.
Através do selo “uso não comercial”, o autor autoriza a livre cópia, distribuição e utilização da obra. Entretanto, o autor veda qualquer distribuição, cópia e utilização que tenha fins comerciais. Isto significa que qualquer pessoa que tenha obtido acesso à obra não pode utilizá-la para fins comerciais, como, por exemplo, vendê-la ou utilizá-la com a finalidade direta de obtenção de lucro 96.
Por fim, com a licença “compartilhamento pela mesma licença”, o autor autoriza a livre cópia, distribuição e utilização da obra. Entretanto, o autor impõe a condição de que, se a obra for utilizada para a criação de obras derivadas como, por exemplo, um livro traduzido para outro idioma ou uma foto incluída em um livro – ou mesmo em casos de incorporação da obra original como parte de outras obras – o resultado deve ser necessariamente compartilhado pela mesma licença. Assim, uma obra licenciada por essa modalidade só pode ser utilizada em outras obras se essas outras obras também forem licenciadas sob a mesma licença Creative Commons 97. Aqui se explica como ocorre a reprodução das licenças, ou seja, um dos mecanismos que a própria licença utiliza para se disseminar no ramo cultural.
Quanto ao objetivo da licença em questão, cabe citar trecho da obra “Direito, Tecnologia e Cultura”:
[...] o direito autoral, caracterizado com um grande “Não!”, começa a se transformar em razão desses “microatores” que passam a ter canais para indicar ao mundo que preferem o caminho do “Sim”. Um “Sim” que tenta recuperar a promessa libertária original da internet e da tecnologia digital de emancipação criativa, e que faz do direito não um instrumento de preservação do passado, mas de transição para o futuro 98.
O Creative Commons criou uma alternativa para os autores que tem interesse em divulgar suas obras na rede. Através dos seus selos, ele facilitou um acordo entre o autor e o usuário da internet, em que esse pode copiar a criação daquele e distribuí-la, com ou sem fins comerciais. Essa foi uma alternativa para conciliar os direitos autorais e a tecnologia, já que as atuais legislações autorais não condizem mais com a realidade da troca de informações na internet. Elas tentam restringir ainda mais a atividade cultural na internet, ou não se atualizam, como é o caso da lei brasileira n. 9.610/98.
96
LEMOS, Ronaldo. et al. Direitos autorais em reforma. Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, Centro de Tecnologia e Sociedade. Rio de Janeiro: FGV, 2011, p. 70.
97
LEMOS, Ronaldo. et al. Direitos autorais em reforma. Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, Centro de Tecnologia e Sociedade. Rio de Janeiro: FGV, 2011, p. 69-71.
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