USP, UNICAMP e UNESP
CRECHES IMPLANTADAS
Década de 1970 4%
Década de 1980 76%
Década de 1990 20%
Fonte: Com base nas consultas realizadas na COSEAS/ USP, DGRH/ UNICAMP e PRAD/ UNESP
De acordo com a Tabela 12, é durante a década de 1980 que se consolidam os CCI’s nas universidades: USP, UNICAMP e UNESP, revelando a ampliação do programa ao longo dos anos, inclusive na década de 1990.
Podemos concluir com base nos levantamentos apresentados que, até o final da década de 1970, a USP, a UNICAMP e a UNESP permaneceram não cumprindo as determinações previstas pela CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas - 1943) quanto a
obrigatoriedade das empresas em oferecer instalação apropriada para a guarda e cuidado dos filhos de suas funcionárias durante o período de amamentação.
Como revelam os dados documentais pesquisados juntamente com os depoimentos arrolados, a demanda pelo atendimento em creche antecede aos anos de 1980, tanto na USP, quanto UNICAMP e UNESP. Isso demonstra que a busca pelo cumprimento da Lei trabalhista de 1943 (CLT) estava na ordem do dia nas referidas universidades, compondo uma bandeira de luta trabalhista dos funcionários e professores, contando com o apoio e participação dos alunos quanto a essa reivindicação.
Entretanto, a implementação das creches nas universidades públicas estaduais paulistas concretizou-se prioritariamente nos anos de 1980, mais especificamente a partir de 1982, revelando sua ligação com o Decreto Estadual Paulista de 1982 (nº 18370, de 08/01/1982), que institucionalizou o Programa Centro de Convivência Infantil – CCI, portanto, declarando a necessidade desse atendimento também nas universidades, entidades descentralizadas do Estado.
Ainda que na USP e UNICAMP os processos administrativos analisados revelem que o processo pela implementação de suas creches antecedeu a década de 1980, trazendo dados históricos importantes e marcantes referentes a essa busca, somente pós-decreto é que vemos sua instalação (salvo CECI de Piracicaba, que surgiu como uma iniciativa independente tomada por mães funcionárias).
Na UNESP as creches foram implementadas após o decreto estadual de 1982, que institucionalizou o Programa CCI, mas vimos no Capítulo 2 relatos de movimentos de pressão em prol da creche sendo realizados por funcionários da universidade, contudo tais manifestos já se pautavam no decreto estadual, enquanto justificativa legal para tal implementação, portanto aconteceram após 1982. A localização descentralizada dos CCI’s da UNESP é um ponto a ser considerado como obstáculo ao registro de seu histórico de implementação.
Nas três universidades analisadas, vemos uma distância temporal entre o processo de demanda pela creche apresentada pela comunidade universitária e sua concretização, indicando que a universidade, apesar de ser estudiosa da questão da implementação de Políticas Públicas, não inovou nessa questão, sofrendo com entraves no decorrer do processo.
3.2- A atuação dos atores
Relembrando que o processo de implementação envolve a relação entre os atores governamentais e não-governamentais, podendo estes ter idéias, recursos e ações próprias (VIANA, op.cit.), focamos esse ponto como um indicador dessa pesquisa.
Na USP podemos sentir que essa relação entre os atores foi tensa, principalmente quando observamos que a primeira solicitação de creche na universidade foi realizada por um grupo de funcionárias da Reitoria no ano de 1965, e, dez anos depois do primeiro pedido oficial nenhuma providencia havia sido tomada. Tal resposta a esse pedido acabou gerando o manifesto denominado “a Passeata dos Bebês”, mobilização apoiada pelo movimento feminista da década de 1970 e pelo movimento de luta por creche na cidade de São Paulo.
A Reitoria da USP respondeu a solicitação somente após essa mobilização. Sua ação foi pedir a COSEAS que elaborasse um projeto de creche que atendesse a demanda da universidade. Tal projeto passou por várias adaptações, mas em 1982 a implantação da creche se tornou realidade; após 17 anos de lutas marcadas por passeatas e abaixo- assinados, entre outras formas de mobilização da comunidade universitária, é que a creche se concretizou. Novamente vemos a demora existente entre a demanda pelo atendimento em creche e sua implementação.
Entretanto, cabe destacar que desde a criação da primeira creche em 1982, até os dias atuais, a coordenação de creches da USP sempre trabalhou em cima do ideal denominado “Creche Aberta”, ou seja, aonde a participação da família é priorizada. Esta ideologia compõe os princípios das demais creches administradas pela COSEAS, dando continuidade a participação da comunidade universitária na célula educativa representada pela creche.
Na UNICAMP, o primeiro pedido oficial de creche foi enviado à Reitoria em meados da década de 1970. A lentidão na tomada de uma ação concreta em prol da creche deu-se devido a inúmeras dificuldades entre as quais destacamos: dificuldade de encontrar um local adequado, um longo processo de licitação da obra, levantamento de preço/custo referente à montagem de um Berçário (considerando-se recursos humanos, impostos, limpeza, alimentação, entre outros) e, principalmente, as dificuldades financeiras de tirar o
projeto de creche do papel, pois era necessária a previsão de gastos para tais fins, dentro de uma programação de recursos, e obedecendo às normas do setor financeiro da universidade.
Diante de entraves resultantes dessas dificuldades, em 1977 a comunidade universitária manifestou-se através de abaixo-assinado, pedindo maior agilidade no processo.
Convém lembrar que, em 1979, no campus de Piracicaba, havia uma pequena creche em funcionamento, atendendo provisoriamente e em um espaço impróprio os filhos de mães funcionárias da Faculdade de Odontologia - FOP. A gestão era feita pelas próprias mães, sendo os recursos provenientes de mensalidades e promoções sociais organizadas pelas mesmas. A Faculdade havia cedido o local para o seu funcionamento provisório desta creche, solicitando somente em 1984 que a Reitoria da UNICAMP construísse uma creche no campus. A partir desse momento, a creche que já havia sido organizada pelas mães passou a receber aditamento mensal para cobrir as despesas com alimentação e a Reitoria contratou funcionárias para atuarem junto à creche.
Também relembremos que, paralelamente a organização de uma creche administrada pela UNICAMP, no campus de Campinas, o Instituto de Física “Gleb Wataghin”, já havia tomado a iniciativa de oferecer uma creche em suas dependências para os seus funcionários e atendendo a demanda existente entre funcionárias e funcionários quanto ao atendimento de seus filhos; tratava-se de uma gestão local e independente do sistema de assistência social do campus.
Entretanto, com a criação via Reitoria do CCI da UNICAMP, iniciou-se em 1985 um processo de incorporação da creche do Instituto de Física ao CCI – Centro de Convivência Infantil e neste momento destacaram-se as diferenças de princípios existentes entre tais instituições.
Esse processo de incorporação gerou a restrição da demanda, focalizando somente as servidoras-mães, excluindo os pais servidores do processo de aquisição de vaga na creche. Além disso, a creche administrada pela Reitoria atendia até a faixa etária dos 4 anos, enquanto que a creche “Cantinho da Física” atendia até os 6 anos. Apesar da intervenção do diretor do Instituto de Física junto a Reitoria, apresentando o descontentamento de seus funcionários, a adequação a esse processo foi determinada pela
Reitoria, acontecendo a incorporação desta creche ao Regimento do CCI – UNICAMP (CECI), sem o aproveitamento de seu regimento.
Outro fato que compõe o indicador ação entre os atores, diz respeito a vinda do Hospital das Clínicas (HC) do centro de Campinas para o campus de Barão Geraldo, em 1986.
Logo, os funcionários da área da saúde passaram a reivindicar o atendimento em creche para seus filhos. Todavia, existia mais um agravante: como se tratava de funcionários da área da saúde, a creche deveria atender as reais necessidades e especificidades de seus requerentes, instaurando nesse momento o início da luta pela creche da área da saúde, inaugurada em 1990, fruto de um convênio realizado entre UNICAMP, IRCAMP e FUSSESP. Tal convênio indica a ação conjunta entre formuladores e implementadores, conforme aprofundado no capítulo 2 desta dissertação.
De acordo com os dados levantados durante essa pesquisa, vemos que a partir de 1982 a creche nesta universidade já estava bem encaminhada, fruto de tramitações originárias desde de 1975, que envolveram abaixo-assinados, negociação com o gestor da universidade, levantamento de demandas, licitações da obra, previsão de recursos no orçamento da universidade, enfim, todo um conjunto de processos administrativos, burocráticos e de estudo, acerca da implementação da creche.
Quanto às creches da UNESP, apesar de sua criação estarem pautadas no Decreto Estadual de 1982, também são frutos da luta dos funcionários, que não desistiram da batalha pela creche, enquanto um direito trabalhista; portanto, a pressão social também fez parte do seu histórico de implementação, não diferindo do processo de busca pela creche estabelecido na USP e UNICAMP.
Porém, devido à distância entre as unidades acadêmicas da UNESP, espalhadas por todo Estado de São Paulo, houve uma maior dificuldade na sistematização e organização do movimento em prol da creche, gerando movimentos parciais e isolados, muitas vezes sem força política, devido a pequena demanda existente em alguns desses locais.
3.3- A estrutura de atendimento
As propostas de atendimento à infância e sua família variam de universidade para universidade.
A primeira creche da USP tinha como proposta ser uma “creche piloto”, iniciando o atendimento com crianças de berçário, oferecendo 50 vagas para a faixa etária de 4 meses a 18 meses, a qual se expandiria gradual e naturalmente até a faixa etária dos 6 anos e 11 meses. Até hoje as creches da USP atendem as crianças entre 4 meses à 6 anos e 11 meses.
A distribuição das vagas tinha como critério primordial atender aos filhos das servidoras (mulheres), paralelamente à análise socioeconômica. Vemos que a mulher era enfocada como a principal a ser atendida, pois era a única forma de dar-lhe abertura para se assumir enquanto profissional.
Na UNICAMP, a primeira creche criada pela Reitoria iniciou seu funcionamento primeiramente em uma casa alugada, destinada ao atendimento do berçário, inicialmente atendendo crianças de 2 a 9 meses, período de amamentação. Somente em meados dos anos de 1980 é que o CCI – UNICAMP, mais tarde CECI, passa a atender o maternal expandindo dessa forma o seu atendimento.
Entre os critérios para a obtenção de vaga no berçário, nos tempos iniciais, estavam: ser filho de mãe funcionária da universidade; ter no mínimo 2 meses e meio, sendo o atendimento prolongado até os 9 meses, desde que o mesmo estivesse sendo amamentado. De acordo com o Ex-reitor e Prof. Dr. Pinotti, tinha-se como objetivo ao estabelecer tais critérios, atender aos filhos de suas funcionárias que se encontravam em período de amamentação, e concomitante a essa ação a universidade estaria cumprindo com as determinações da CLT (Leis trabalhistas de 1943).
Hoje, a faixa etária atendida no CECI/ UNICAMP é de 2 meses e meio até 4 anos, mas em seu projeto inicial a previsão era atender a crianças entre a idade de 4 meses a 2 anos; porém, a demanda fez com que houvesse um ajustamento as necessidades das servidoras.
Na UNESP, o atendimento realizado em seus CCI’s abrange a faixa etária de 0 a 7 anos de idade, existindo uma variação na faixa etária atendida conforme a demanda proveniente de cada campus. Contudo, assim como na USP e na UNICAMP, as creches da UNESP iniciaram seu funcionamento através do atendimento em berçário expandindo-o naturalmente.
Como a UNESP é uma universidade multi-campi, a partir de 1982 é que foram sendo criados os CCI’s em suas unidades, que por sua vez estão espalhados por todo o
Estado de São Paulo. Das 14 creches da UNESP, 8 atendem menos de 50 crianças e as outras 6 creches restantes atendem entre 51 a 150 crianças. A diferença no número de crianças atendidas entre os CCI’s da UNESP é decorrente da demanda existente em cada campus em que há uma creche instalada, levando-se em conta a proporção de funcionárias existentes em cada unidade universitária que solicitam esse serviço de assistência a criança e ao servidor (a).
Nas três universidades, o atendimento em creche vai de encontro com o horário de trabalho de seus responsáveis, mais especificamente, durante a jornada de trabalho das mães. Desde de seus tempos iniciais buscou-se atender a essa estrutura de atendimento, adequando horário de trabalho dos pais com o horário de atendimento na creche, finalidade para a qual foram implementadas. Hoje as creches já se encontram mais estruturadas do que nos tempos iniciais, havendo ampliado o atendimento em termos de faixa etária, o que no princípio necessitou de paciência, já que a expansão seria gradual, proposta apresentada pelas creches das três universidades estudadas, conforme mostra o quadro a seguir:
Quadro 6 – Creches de universidade pública e estrutura de atendimento