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Capítulo IV – Apresentação, procedimentos de recolha e análise interpretativa dos

1. Análise de conteúdo: procedimentos adotados

1.3. Análise interpretativa

1.3.4. Crença na educação

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A relevância desse terceiro eixo interpretativo se dá exatamente pela imprescindibilidade do próprio estudo em traçar o perfil das pessoas que fazem parte da organização Hope, tanto da equipe em contexto local, quanto da equipe dos contextos pesquisados. Essa “crença na educação” está presente os todos os discursos e também nas narrativas dos jovens (próximo eixo de interpretação).

O primeiro enxerto desse eixo, de um coordenador de projetos, também professor da escola onde os projetos da Hope acontecem.

[...] Quanto a minha formação educacional, sou formado em Letras com inglês, tenho duas especializações, um em “Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial” e outra em “metodologia do ensino da língua Portuguesa e Literatura Brasileira”. Sou professor, monitor porque na escola que eu trabalho é uma escolada de alternância (E01C1).

Como podemos perceber, além de ser uma pessoa comprometida com a comunidade local para o desenvolvimento de atividades do campo, até pela sua especialização em “Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial”, faz dele um agente importante e que contribui com pequenos agricultores e comunidades quilombolas. Atuando desde 2005 na Escola Família Agrícola ele também é a pessoa responsável pela implementação e apresentação dos projetos da Hope no local.

O segundo enxerto49, de uma professora que vem trabalhando com a Hope há alguns anos e traz uma contribuição importante para esse estudo. Os projetos/programas/atividades50 que a organização Hope desenvolveu ao longo dos anos na instituição e que vem transformando a vida de crianças e jovens da região. Mesmo reconhecendo que não tem uma formação técnica ela incentiva os jovens da instituição para que esses possam transformar suas histórias por meio do acesso a educação. Como ela mesma afirma que sua

[...] formação foi só a de cursar o primário, o ginásio e o pedagógico, pra ser professora primária. E... agora eu não sou... não tenho assim uma educação, uma formação, assim... técnica, mas eu adoro quem tem. Adoro quem tem e quem se esforça pra ter. Eu fui alfabetizada por minha mãe. Mamãe não tinha livro, pedia pra papai comprar um livro pra mim, e... pra mim e pros meus irmãos também. Papai não tinha dinheiro. Um dia ele comprou um medicamento e no medicamento vinha um folheto, Jeca Tatu, aí Mamãe aproveitou e me alfabetizou com aquele livro, eu e meu irmão [...](E02C2).

49 Todos os enxertos são transcritos do discurso oral, por conseguinte é natural que as falas sejam da

oralidade, do discurso corrente e coloquial. Assim sendo, respeitamos o modo da fala dos entrevistados e mantivemos a transcrição tal o discurso. Nesse sentido, é natural que as construções das frases nem sempre sejam as mais corretas do acordo com a norma culta da língua (discurso escrito).

50 Algumas das atividades/projetos/programas que a organização Hope realizou nesse contexto aparecem nos

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O relato da coordenadora demonstra o quanto ela mesma acredita e acreditou na força que só a educação é capaz de realizar. Ela faz questão de usar a sua história própria história como um exemplo para cativar muitos jovens. Mesmo não tendo uma educação “técnica”, como ela mesma define, ela crer que o seu trabalho em conjunto com projetos da ONG Hope tem sido fundamental para tirar muitas crianças ruas e dá um novo significado as suas vidas. De origem humilde, ela soube usar a educação ao seu favor para seu progresso e combater a exclusão. Segue acreditando que a educação ainda é a ferramenta mais poderosa que uma nação pode ter.

Para o ex-presidente da Hope, também um professor, oriundo de uma família numerosa, parece conhecer as dificuldades que muitas famílias têm para manter os filhos na escola e garantir um futuro digno para eles. Ele, nascido, criado e educado num pais do Norte, enfatiza o considerável papel que a educação teve no seu percurso.

[…] I am first a teacher. Coming from a family of nine children, my parents worked hard to make ends meet. Even to fund my first year of teacher training 1960-61 was a challenge, my father co-signing a loan to help cover the cost. I understand a bit about families struggling to make ends meet. My career in education led steadfastly to further study at universities and educational leadership. I became a superintendent of schools in 1981 and completed my Ph. D. in Educational Leadership in 1994. […] I was fortunate always to have a strong team of directors - professionals in education, environment science, social and health care, and business. I always felt I had a good relationship with our directors, officers and supporters, often receiving far too many affirmations for the work […] (E03EP).

A sua carreira educacional talvez tenha contribuído para que o mesmo veja a educação como uma ferramenta poderosa de inclusão social. Sua crença pela educação o conduziu a cursar “Liderança Educacional” na universidade e posteriormente um Doutorado na mesma área. Como superintendente educacional passou a frequentar e conhecer a realidade das várias escolas na sua região. Como presidente da Hope ele destaca a multiplicidade de profissionais que compunha a corpo da organização durante sua gestão. Eram profissionais de diversas áreas: social, educação, saúde, meio ambiente e empresarial.

Os discursos apontem para a importância do acesso à educação e que foi algo que contribuiu para que essas pessoas também compreendessem o sentido que a educação escolar representa no desenvolvimento pessoal e profissional.

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Sobre a “motivação” pessoal e as “perspectivas” e os “desafios” que na realização do trabalho da e com a organização Hope os discursos de todos os entrevistados51 demonstram enorme motivação pelo trabalho que realizam e junto à organização Hope. Essa motivação aparece de diferentes perspectivas, uma vez que cada um dos entrevistados veem de realidades distintas e de percurso escolar diferente. Porém, todos são motivados pela transformação que a educação é capaz de realizar na vida das pessoas.

Para um desses coordenadores uma das motivações é

[...] ver o fortalecimento dos objetivos propostos pela escola, à permanência do jovem no campo, autonomia da juventude, o empoderamento dessa juventude por meio das ações, da organização Hope junto à escola. Sou uma pessoa apaixonada pelas atividades que são desenvolvidas na escola. Não me vejo atuando em outro espaço que não seja no espaço (E01C1).

Para ele o trabalho desenvolvido na escola tem possibilitado que os jovens se tornem protagonistas das suas histórias, contribuindo para o empoderamento, para a emancipação, para o desenvolvimento do campo, tendo o campo não só como produção da matéria, mas o lugar do conflito, o lugar da criação, da inovação, das tecnologias e o “lugar, da busca, do querer, do conhecer e do estar” (E01C1, 2019, p.8).

O segundo, uma defensora da justiça social, acredita na força e no desenvolvimento escolar como forma de emancipação da juventude. Ela tem a plena convicção do papel social que a educação representa na vida de crianças e jovens da instituição e, por isso, “que devo ajudar esses meninos a mudarem de vida, ir pra escola, aprender ler e escrever e se tornarem pessoas de bem. Todo mundo na luta para que aquelas crianças tivessem oportunidades de ser gente” (E02C2). Essa é a motivação que impulsiona o trabalho nesse contexto. Trabalhara para que as crianças e jovens que vivem em situação de abandono tenham um lar e a oportunidade de frequentar uma escola.

Já a motivação pessoal e profissional percebida no discurso do ex-presidente deu-se principalmente por meio de uma visita ao Brasil em 1999, atendendo um convite de Al Gerwing, também um defensor das causas sociais e que desenvolveu muitos projetos, em vários contextos no país. Nessa visita ele relata que:

[…] It was a difficult time in northeastern Brazil with a long drought taking its toll on crops and animals. The Brazilian Real was devaluing and many people, especially in the Sertão, were displaced from their homes by fazendeiros with whom they had been employed. We were shocked at the number of “tent cities” that we came across along roadsides and outskirts

51 Para a análise optamos apenas por um enxerto relevante para ressaltar a motivação da cada entrevistado em

121 of communities, and we even stopped to buy bread, packing our van to the hilt, to bring to families whom we met (E03EP).

“On returning to Canada, I accept to become a director of Hope” (E03EP). A motivação para um trabalho dentro do contexto da cooperação internacional para o desenvolvimento em educação ficou ainda mais evidente após conhecer a realidade de muitas famílias no Nordeste do Brasil. Assim ele reafirma ainda mais a sua vontade de ser um defensor das causas sociais e lutar para que todas as crianças tenham o direito à educação garantido.

No discurso geral, no sentido da motivação pessoal dos entrevistados, percebe-se que todos se reconhecem como atores/pessoas comprometidas com o esforço para que as mudanças aconteçam. Esse comprometimento vai muito além do discurso assistencialista na promoção do acesso à educação e na luta para que as políticas públicas consigam chegar a todos.