ESCOLHA DO CÔNJUGE E LOCAIS DE ENCONTRO
4 Outros critérios de proximidade na escolha do cônjuge
4.4 Religião e formação do casal
4.4.1 Crença religiosa, origem social e escolaridade
Que em Portugal prevalece a fé católica não é obviamente um dado que nos surpreenda. Tal como constatamos, a esmagadora maioria das mulheres inquiridas é católica, ou mais precisamente, o catolicismo é a religião de mais de nove em cada dez inquiridas ou cônjuges (quadro n. º 4.19). A crença religiosa preponderante não se traduz, para uma grande parte das mulheres no que consideram ser um acompanhamento assíduo dos rituais católicos, sendo que pouco mais de metade das católicas (52,1%) declara ser católica praticante. Todavia, a proporção das que se declaram católicas praticantes contrasta com o comportamento homólogo dos cônjuges: no conjunto dos casais estão, pelo contrário, em clara maioria (59,9%) as uniões em que o homem não é católico praticante.
Por um lado, não deixa de ser surpreendente que estas diferenças entre os sexos no que toca à prática dos rituais católicos tenham já sido observadas por Girard (1981/1964) na França ainda muito rural da década de cinquenta, se tivermos em linha de conta o desfasamento temporal entre o inquérito Famílias no Portugal Contemporâneo, de 1999, e o inquérito Le Choix du
portuguesas coincidir com a das francesas inquiridas por Girard, se recordarmos que tanto umas como outras são, grosso modo, oriundas de meios sociais pouco favorecidos ligados ao campo.
Quadro N.º 4.19 Religião e prática religiosa das mulheres e dos homens (em percentagem)
Mulheres Homens N % % N % % Praticantes 873 52,1 659 40,1 Não praticantes 807 47,9 984 59,9 Católicos 100.0 94,6 100,0 92.7 Sem religião 61 3.4 99 5.6 Não católicos Outra religião 34 1.9 30 1.7 Total 1775 100.0 1772 100.0
Observe-se então o modo como a fé religiosa e a prática dos rituais varia consoante a proveniência social das mulheres portuguesas (quadro n.º 4.20). Em primeiro lugar, é entre as filhas de camponeses que a prática católica mais se acentua - mais de sete em cada dez inquiridas (73,0%) é católica praticante - estando também notavelmente presente entre as mulheres oriundas do operariado agrícola (50,5%) e industrial pouco qualificado (51,5%), este último tantas vezes associado ao mundo rural em virtude da frequente natureza pluriactiva das famílias no campo (Almeida, 1999/1986; Wall, 1998).
Em segundo lugar, as mulheres provenientes dos meios sociais menos favorecidos, no que toca à prática dos rituais católicos, contrastam não apenas com as inquiridas provenientes de meios mais qualificados - como o operariado qualificado da industria (39,7%) - mas também, e sobretudo, com as mulheres com origens sociais mais favorecidas no que se refere aos recursos escolares e qualificações, ou seja, as profissões técnicas de enquadramento intermédio (33,3%) e, em particular, as profissões intelectuais e científicas (13,3%). A menor adesão à prática católica junto das mulheres com as origens sociais mais qualificadas revela, por outro lado, que tal comportamento parece sobretudo associado a um contexto familiar caracterizado pela detenção de capitais culturais - mais precisamente, títulos escolares - uma vez que essa atenuação da prática católica contrasta também com o comportamento das mulheres oriundas dos meios mais favorecidos em capital económico (ED), que, pelo contrário, se declaram bastante mais cumpridoras dos rituais católicos. Ainda que o número absoluto de inquiridas
oriundas destes estratos culturalmente mais favorecidos (PIC) ou privilegiados em capital económico (ED) não autorize uma comparação precisa entre percentagens, parece-nos evidente uma maior propensão para a ausência de fé religiosa entre estas mulheres, sobretudo entre as primeiras: três em cada dez inquiridas com uma origem social muito qualificada (PIC) declara não ter religião.
Por último, no que toca à crença católica sem um acompanhamento assíduo dos respectivos rituais, esta não deixa de ser particularmente notável entre as filhas de profissionais técnicos de enquadramento intermédio (60,4%), mas também entre as provenientes de meios menos qualificados como os independentes e pequenos proprietários (49,8%), os empregados não qualificados (52,3%) ou os operários industriais qualificados (54,0%). De resto, as filhas de empregados executantes - grupo mais escolarizado do que estes últimos - destacam-se pela significativa proporção (5,4%), comparando com a proporção de mulheres (3,3%) que, no conjunto das inquiridas com essa origem social, declara não ter religião.
Quadro N.º 4.20 Religião e prática religiosa da mulher segundo a sua origem social
(percentagem em linha)
Religião e prática religiosa da mulher
Católica Total
Posição sócio-profissional do pai Praticante Não praticante
Sem religião religião Outra
% N ED 43,8 43,8 12,5 0,0 100,0 32 PIC 13,3 56,7 30,0 0,0 100,0 30 PTEI 33,3 60,4 4,2 2,1 100,0 48 IPP 43,5 49,8 3,3 3,3 100,0 271 C 73,0 25,2 1,5 0,4 100,0 270 EE 45,9 45,3 5,4 3,4 100,0 148 ENQ 41,5 52,3 3,1 3,1 100,0 65 OIQ 39,7 54,0 3,7 2,6 100,0 272 OINQ 51,5 45,5 1,8 1,3 100,0 400 OA 50,5 46,7 1,1 1,6 100,0 184 Total 49,5 45,3 3,3 1,9 100,0 1720 x2= 177,84; DF=27; p<,000 (cc=,31)
Se o facto de ter uma origem social mais qualificada parece determinante, junto das mulheres católicas, no modo como praticam a fé, já a própria detenção, ou não, de títulos escolares sugere de uma forma bastante óbvia uma associação entre esta forma de capital cultural e a prática do catolicismo. Com efeito, a proporção de mulheres que se declaram católicas praticantes vai decrescendo progressivamente com o acréscimo do volume de recursos escolares, ao ponto de
a respectiva proporção de mulheres licenciadas representar menos de metade da proporção observada entre as mulheres sem escolaridade (quadro n.º 4.21). De um modo semelhante, é entre as mais escolarizadas, ou mais especificamente entre aquelas que possuem, pelo menos, o ensino secundário, que se verifica maiores proporções de mulheres declarando não ter religião: em particular, mais de uma em cada dez inquiridas (13,1%) que possuem um curso médio ou que não completaram a licenciatura diz não ter religião.
Quadro N.º 4.21 Religião e prática religiosa da mulher segundo o seu grau de escolaridade actualmente
(percentagem em linha)
Religião e prática religiosa da mulher
Católica Total
Escolaridade da mulher Praticante Não praticante
Sem religião religião Outra
% N
Licenciatura. ou grau superior 33,3 56,3 8,3 2,1 100,0 48
Ensino médio/Licenc. Incompleta 35,5 50,5 13,1 0,9 100,0 107
Ensino secundário 36,8 55,2 6,0 2,0 100,0 201
Ensino preparatório/ unificado 43,6 51,0 2,1 3,3 100,0 574
Ensino primário 60,1 37,1 1,7 1,0 100,0 687
Sem escolaridade 67,1 27,6 3,9 1,3 100,0 76
Total 49,7 44,9 3,4 1,9 100,0 1693
x2= 118,61; DF=15; p<,000 (cc=,26)
Em suma, se inquiridas e cônjuges, no seu conjunto, têm comportamentos dissemelhantes no que toca à prática do catolicismo, pode dizer-se que a crença e assiduidade aos rituais católicos, por um lado, e a ausência de tal assiduidade ou mesmo de uma crença religiosa, por outro, são comportamentos que contrastam no modo como se associam quer à proveniência social das mulheres inquiridas, quer à detenção de títulos escolares. Que impacto tem, enfim, na escolha do cônjuge a diferença sexual da prática católica e, mais particularmente, as diferenças entre as próprias mulheres no que toca à crença religiosa e à assiduidade aos rituais católicos?