2 TERAPIA COGNITIVA
2.4 CRENÇAS INTERMEDIÁRIAS E CENTRAIS
As crenças intermediárias encontram-se no segundo nível da estrutura cognitiva, estão mais enraizadas do que os pensamentos automáticos, que compõem o primeiro nível. Elas visam a dar significado ao ambiente e são formas encontradas pelo indivíduo para operacionalizar as crenças centrais, que compõem o terceiro nível. As crenças intermediárias consistem, então, na maneira que o indivíduo encontra para lidar com as ideias absolutas e não adaptativas que tem a seu respeito. (KUYKEN et al., 2010; NEUFELD; CAVENAGE, 2010).
Conforme Kuyken et al. (2010, p. 32),
os pressupostos subjacentes são crenças de nível intermediário que (1) mantêm as crenças centrais explicando experiências de vida que de outra forma poderiam contradizer a crença central ativada, (2) oferecem regras de vida em inúmeras situações que estão em consonância com as crenças centrais e (3) protegem a pessoa do afeto negativo associado à ativação das crenças centrais. Eles se chamam intermediários porque se situam entre as crenças centrais, que são absolutas, e os pensamentos automáticos, que são específicos das situações.
As crenças intermediárias são também chamadas de crenças condicionais porque se apresentam como regras, atitudes ou suposições, encontradas em enunciados do tipo Se... então... ou Deveria. Segundo Neufeld e Cavenage (2010), elas podem ser chamadas também de pressupostos subjacentes, de pressupostos condicionais ou ainda de crenças associadas ou secundárias, formando um conjunto geralmente coerente que serve de apoio às crenças centrais com as quais apresentam relação. De acordo com Pereira e Rangé (2011, p. 22), o indivíduo constrói essas crenças intermediárias, porque elas “funcionam como um mecanismo de sobrevivência que o auxiliam a lidar e a se proteger da ativação extremamente dolorosa das suas crenças nucleares”.
As crenças intermediárias estão envolvidas quando, por exemplo, o indivíduo faz previsões de seu comportamento, ou quando suas atitudes estão sendo orientadas por regras tais como Se eu me dedicar, então conseguirei bom emprego; Devo ser a melhor em tudo, senão sou uma preguiçosa. O foco na terapia deve, pois, recair nas crenças que geram dificuldades para o paciente (KUNZLER, 2011b).
Segundo Cataldo Neto et al. (2003, p. 795),
o paciente condiciona a resolução de seu sofrimento, supondo que se determinadas regras forem seguidas, então seu problema acabará. Por exemplo, um paciente que tenha as crenças de ser incompetente e de ser incapaz de ser amado, pode adotar o pressuposto de que se estudar ou trabalhar arduamente, e não incomodar ninguém estará resolvendo o seu problema. O que poderia ser uma atitude adequada acaba por se tornar disfuncional, pela forma excessiva e rígida. O mesmo acontece com as chamadas estratégias compensatórias, que são o correspondente comportamental dos pressupostos, regras e crenças condicionais. O que poderia ser uma estratégia de alívio acaba sendo disfuncional pelo excesso e rigidez do comportamento. Ao invés da resolução, termina perpetuando a crença.
As crenças intermediárias configuram um caminho para acessar o sistema cognitivo da pessoa, pois elas orientam as ações e posturas cotidianas do indivíduo. Conforme Knapp (2007b, p. 144), a pessoa pode se manter relativamente estável quando as condições dos pressupostos e das regras estão sendo atendidas. As dificuldades e o sofrimento aparecem quando não é possível atender às circunstâncias e às consequências estabelecidas de forma rígida nos pressupostos ou regras. Além disso, segundo o autor, “quando as crenças nucleares vêm à tona, acionadas por circunstâncias existenciais, é que aparece toda desadaptação”.
Embora fenômenos tais como pensamentos, sentimentos e desejos possam passar apenas rapidamente por nossa consciência, as estruturas subjacentes responsáveis por estas experiências subjetivas são relativamente estáveis e duradouras. Além disso, estas estruturas não são, em si, conscientes, embora possamos, mediante introspecção, identificar seu conteúdo. Não obstante, as pessoas podem modificar a atividade das estruturas e, em alguns casos, de modo substancial, através de processos conscientes, tais como reconhecimento, avaliação e testagem de suas interpretações. (BECK, A.; FREEMAN, 1993, p. 24).
Judith Beck (2013, p. 226) elenca algumas formas que o terapeuta pode utilizar para identificar crenças intermediárias, apresentadas na figura 8:
Figura 8 – Identificação de crenças intermediárias
Reconhecendo quando uma crença é expressa como um pensamento automático. Apresentando a primeira parte do pressuposto.
Evocando diretamente uma regra ou atitude. Usando a técnica da seta descendente.
Examinando os pensamentos automáticos do paciente e procurando temas em comum. Perguntando diretamente ao paciente.
Revendo um questionário de crenças preenchido pelo paciente. Fonte: (BECK, J., 2013, p. 226)
Conforme Kunzler (2011b), uma maneira de identificar e de iniciar a reestruturação cognitiva de crenças intermediárias consiste em solicitar ao paciente que complete frases na forma Se, então. Segundo Kuyken et al. (2010, p. 34), “expressar os pressupostos subjacentes de uma forma ‘se... então...’ explicita as crenças de uma forma mais clara”. A figura 9, a seguir, traz exemplos dessa técnica.
Figura 9 – Técnica Se... então...
Se (algum conceito relevante), então...
Se (algum conceito relevante) não é verdade, então
Se eu (um comportamento relevante, uma emoção, um pensamento ou sensação física), então... Se eu não (um comportamento relevante, uma emoção, um pensamento ou sensação física), então... Se alguém (um comportamento relevante, uma emoção, um pensamento ou sensação física), então... Se alguém não (um comportamento relevante, uma emoção, um pensamento ou sensação física), então...
Fonte: adaptado de Kunzler (2011b).
Knapp (2007b, p. 144) apresenta algumas técnicas que podem ser utilizadas para identificar as crenças intermediárias. Dentre elas, destacaremos a técnica da seta descendente, a técnica de elaboração de perguntas diretas ao paciente e a técnica de destaque de temáticas recorrentes.
Na técnica de seta descendente,
uma vez identificado um pensamento automático com forte carga emocional (cognição quente), o processo de desvendar camadas de cognições mais fundas para chegar aos pressupostos (‘se..., então...’) e às regras (‘tenho que’) dá-se por meio de uma série de perguntas, buscando o significado que os pensamentos mais manifestos tem para o paciente. (KNAPP, 2007b, p. 144, itálicos no original).
Para Judith Beck (2013, p, 227-228), na técnica de seta descendente, você [terapeuta],
primeiro, identifica um pensamento automático fundamental que você suspeita que possa se originar diretamente de uma crença disfuncional. Então, você pergunta ao paciente sobre o significado dessa cognição, presumindo que o pensamento automático seja verdade. Continue a fazer assim até que tenha descoberto uma ou mais crenças importantes. Perguntar ao paciente o que significa um pensamento para ele geralmente traz à tona uma crença intermediária; perguntar o que o pensamento revela
sobre o paciente geralmente desvenda a crença nuclear. (itálicos no original).
Outra forma para identificar as crenças intermediárias consiste em perguntar diretamente ao paciente, de forma colaborativa, sobre os seus pressupostos e regras. Ou ainda, ressaltar as temáticas recorrentes apresentadas pelo paciente “para a identificação de pressupostos e regras que estejam vinculadas” (KNAPP, 2007b, p. 145).
Knapp (2007b, p. 145) ressalta que a proposição de experimentos comportamentais consiste em uma das maneiras mais eficientes para avaliar os pressupostos condicionais. Isso se deve ao fato de que
o indivíduo somente extrai das situações da sua vida aquilo que se encaixa em suas convicções previamente formadas e cristalizadas em pressupostos e esquemas. Numa retroalimentação das distorções, acaba agindo na vida de forma a confirmar suas profecias disfuncionais. Toda vez que deixa de lidar com alguma situação que poderia trazer mais dados de realidade para modificar suas cognições distorcidas, o indivíduo reforça tais distorções.
As crenças centrais, por sua vez, constituem o terceiro nível da cognição proposto pelo modelo cognitivo desenvolvido por Aaron Beck. Elas configuram-se como verdade absoluta, imutável, global e generalizada sobre o que o indivíduo acredita. O seu desenvolvimento ocorre desde o início da vida e consiste no acúmulo de experiências e aprendizagens obtidas das interações do indivíduo com outras pessoas significativas e da vivência de muitas situações que fortaleçam essas ideias.
De acordo com Pereira e Rangé (2011, p. 22) as crenças centrais
resultam da interação da natureza genética do indivíduo e de sua hipersensibilidade pessoal à rejeição, ao abandono, à oposição, às dificuldades inerentes de se estar vivo e de componentes externos do seu ambiente, que podem reforçar ou atenuar fatores positivos e negativos da natureza geneticamente determinada do indivíduo.
Para Aaron Beck et al. (1997), as crenças centrais podem estar relacionadas com o próprio indivíduo, com outras pessoas, com o mundo ou com estados futuros. Essas crenças centrais é que levam à necessidade da elaboração das crenças intermediárias, pois as crenças intermediárias auxiliam o indivíduo a lidar com as crenças centrais e a protegê-lo de sua ativação. Desse modo, a terapia cognitiva assume que as crenças são organizadas de acordo com uma hierarquia que atribui significados progressivamente mais amplos e complexos aos sucessivos níveis.
As crenças centrais disfuncionais podem ser enquadradas em três categorias: desamparo, desamor e desvalor. Para identificar com qual dessas categorias as crenças centrais do paciente estão associadas, o terapeuta deve investigar qual o significado das cognições do paciente e levantar hipóteses sobre qual crença pode ter originado determinado pensamento disfuncional. Feito isto, o terapeuta apresenta uma hipótese para confirmá-la ou refutá-la (BECK, A. et al., 1997; BECK, J., 2013, p. 252-253).
Figura 10 – Categorias de crenças centrais
Crenças associadas ao desamparo
Eu sou incompetente Eu sou ineficiente
Eu não consigo fazer nada direito Eu estou desamparado Eu sou impotente Eu sou fraco Eu sou vulnerável Eu sou vitima Eu sou um perdedor Eu sou um necessitado Eu estou sem saída Eu estou fora do controle Eu sou um fracasso Eu sou deficiente
Eu não sou bom o suficiente
Crenças associadas ao desamor
Eu sou incapaz de ser amado Eu não sou gostável
Eu não sou desejável Eu não sou atraente Eu não sou querido
Ninguém se preocupa comigo Eu com certeza vou ser abandonado
Eu com certeza vou ficar sozinho Eu sou diferente
Eu sou mau Eu sou deficiente
Eu não sou bom o suficiente Eu com certeza vou ser rejeitado
Crenças associadas ao desvalor
Eu não tenho valor Eu sou intolerável Eu sou mau Eu sou inútil Eu sou imoral Eu sou perigoso Eu sou prejudicial Eu sou ruim
Eu não mereço viver Fonte: adaptado de Judith Beck (2013, p. 254).
As crenças centrais podem ser encaixadas em diferentes categorias. É por esse motivo que o terapeuta deve buscar com o paciente qual o seu significado. Por exemplo, quando a crença Eu sou deficiente significa que Eu não estou à altura dos outros, ela está relacionada à categoria de desamparo. Por sua vez, quando a crença Eu sou deficiente implica que Os outros não vão me amar, ela está relacionada à categoria de desamor.
Conforme Judith Beck (2013, p. 235), para a modificação de crenças intermediárias e centrais o terapeuta pode utilizar diferentes técnicas cognitivas e comportamentais, tais como: o questionamento socrático, os experimentos comportamentais, o continuum cognitivo, o role– play intelectual-emocional, o uso de outros como referência, o agir “como se” e a autoexposição.
Knapp pontua que a maioria das técnicas utilizadas para a identificação e para a modificação dos pensamentos automáticos também pode ser utilizada para esses níveis cognitivos. Todavia, o autor pondera que “a exploração e a modificação dos pressupostos e das crenças nucleares devem ser trabalhadas após uma razoável confiança do paciente em sua capacidade de identificar e modificar os PA [pensamentos automáticos]” (2007b, p. 144, colchetes nossos).
Cabe salientar que, de acordo com Judith Beck (2013, p. 251), a identificação e a modificação de crenças são variáveis para cada paciente. Há casos em que o terapeuta pode abordar uma crença central já no início do tratamento e obter sucesso. Há casos em que isso não ocorre. Posto isso, o terapeuta deverá primeiro enfocar estratégias para trabalhar em nível cognitivo de pensamentos automáticos e de crenças intermediárias.
Judith Beck (2013) argumenta que é importante refinar continuamente as hipóteses sobre as crenças disfuncionais, abordando-as apenas quando já se tornaram evidentes para o paciente. Além disso, conforme pondera Serra (2007), a identificação e a modificação de crenças requer um cuidado maior do que a identificação dos pensamentos automáticos. Caso uma crença seja abordada precocemente, corre-se o risco de ativar a resistência do paciente em trabalhá-la, dificultando referências futuras à mesma crença.
Isso põe em evidência o fato de que o paciente pode apresentar comportamentos para proteger o seu sistema de crenças. Trata-se de estratégias compensatórias que atuam como uma forma de retroalimentar este sistema. Quando as crenças são disfuncionais, e essas estratégias são executadas em excesso, elas causam sofrimento e, com isso, reforçam e auxiliam a manutenção dos sintomas (NEUFELD; CAVENAGE, 2010). Tomemos, como exemplo, a paciente Sally.
Observe:
As estratégias de Sally eram desenvolver altos padrões para si, trabalhar com muita dedicação, preparar-se excessivamente para as provas e apresentações, permanecer vigilante em relação às suas falhas e evitar buscar ajuda (especialmente nas situações em que isso poderia, na sua cabeça, expor sua incompetência). Ela acredita que o engajamento nesses comportamentos vai protegê-la do fracasso e da exposição da sua incompetência (e que não executá-los poderia levar ao fracasso e à exposição da incompetência). (BECK, J., 2013. p. 224, itálicos no original).
Conforme Judith Beck (2013, p. 225), essas estratégias são geralmente consideradas como comportamentos adaptativos para a maioria das pessoas. Todavia, o problema emerge quando o paciente recorre excessivamente a elas para não enfrentar as crenças centrais que causam sofrimento. Eis alguns exemplos desses comportamentos:
evitar emoções negativas, tentar ser perfeito, ser excessivamente responsável, evitar intimidade, buscar reconhecimento, evitar confrontação, tentar controlar situações, agir com infantilidade, tentar agradar os outros, exibir emoções intensas (p.ex., chamar atenção), propositadamente parecer incompetente ou desamparado, evitar responsabilidades, buscar intimidade inadequada, evitar atenção, provocar os outros, abdicar do controle em favor de outros, agir de maneira autoritária, distanciar-se dos outros ou tentar agradar somente a si. (BECK, J., 2013, p. 225).
Segundo De-Oliveira (2011, p. 219), “lidar com crenças nucleares é mobilizar o que há de mais significativo para o paciente e, consequentemente, movimentar alta carga emocional”. As crenças centrais representam a essência dos mecanismos desenvolvidos pelo indivíduo para lidar com as situações cotidianas e, quando disfuncionais, são o foco da intervenção.
Todavia, Judith Beck (2013, p. 29-30) pondera que
nem todos os pacientes têm sucesso suficiente em alguns poucos meses. Alguns deles precisam de um ou dois anos de terapia (ou possivelmente mais) para modificarem crenças disfuncionais muito rígidas e padrões de comportamento que contribuem para seu sofrimento crônico.
Como procuramos demonstrar, na terapia cognitiva, o que e como as pessoas pensam afetam profundamente o seu bem-estar emocional. A intervenção do terapeuta consiste em tornar as crenças mais realistas ou flexíveis. Os pensamentos automáticos disfuncionais consistem na parte do processamento cognitivo que pode ser mais facilmente acessada. As crenças, por sua vez, estão em níveis menos acessíveis.
Na próxima seção, daremos destaque ao processo de modificação de uma crença intermediária, descrito no extrato 1 da interação entre Judith Beck e Sally. Nesta seção, apontaremos algumas lacunas na descrição e explicação dos processos cognitivos, valendo-nos da crítica de Wainer et al., (2005a, 2005b), para quem uma interface entre a terapia cognitiva e as teorias pragmáticas da comunicação é viável.