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Mapa 5- De localização da hidrelétricas do rio Araguari

5 CRENÇAS, SABERES E BIODIVERSIDADE (SISTEMA KCP) E

Hoje qualquer coisa vai pra Macapá, a gente antigamente não tinha médico, nosso remédio era do mato (Deuzarina Desidéria 76 a.).

Este capítulo objetiva analisar as diferentes práticas e modalidades de manejos, conhecimentos e saberes quilombolas em São Pedro dos Bois para entender a efetivação da triangulação do Sistema. confere o sistema de crenças, espiritualidades e sentimentos atinentes ao mundo imaterial, o Corpus (C) refere ao conjunto de saberes, hipóteses, cálculos e conhecimentos dos recursos da natureza, e a Práxis (P) evoca as maneiras de fazer, dizer, coletar, criar e viver. Este sistema permeia historicamente atividades de reproduções sociais desenvolvidas nas roças, pescas, caças, construções, extrativismos, modalidades de conservações e armazenamentos de alimentos e crenças.

Para realização desta abordagem foram reunidas diversas narrativas dos agentes sociais que manejam o território estabelecendo um diálogo entre as antigas estratégias de manejos e as práticas atuais. Foram levantados dados a partir de observações etnográficas no território e por meio de registros de narrativas e anotações em caderno de campo sobre os quintais, as áreas de campo, de mato do território e as maneiras de fazer, viver e criar da comunidade.

Em São Pedro dos Bois existe um misto entre as construções de alvenarias representadas pelas igrejas, casa de farinha comunitária, escola e casas do projeto “Minha Casa, Minha Vida” e as construções tradicionais de casas de farinha familiares nos quintais, poços de “boca aberta”, chamados de poço amazonas, cercas, unidades domésticas de madeiras e pequenas construções de acolhimento para as crias e também nos quintais.

Parte do material retirado para pequenas construções vem do campo e do mato como pedras, areias e madeiras, em poucas situações utilizam cipós para amarrações ou palhas. As coberturas de palhas são destinadas às pequenas construções de acolhimento das crias ou barracas para guardas ferramentas e demais utensílios de trabalhos. Outros insumos para grandes construções são comprados fora da comunidade diferenciando-se de um tempo em que grande parte dos recursos era tirada diretamente do território com a participação coletiva das famílias como relata o Sr. João Fortunato:

Usavam o serrotão manual do Chico Calu, Dica Capemba e João Coco, coberta com telha de barro, o resto era taipa, o soalho de jussara, pachuba, cobertura palha de bussú, buritizeiro, madeira roliça, amarradas com cipó,

tala de buriti, paredes tecidas com varas de buriti. Era muito mais frio que hoje, era bom. (informação verbal).

A narrativa demarca a existência de um conhecimento prático sobre o território, sobre as diversidades de espécies vegetais utilizadas para as construções domésticas sinalizando a predominância de construções de madeiras. A diversidade de espécies vegetais utilizadas é também ratificada pelas narrativas do Sr. Urgel ao ponderar: “Tinha uma casa assoalhada aqui que era da vovó e da cumadre Eugenia, assoalhada de paxiuba, jussara ou micaranazeira, as vezes a parede de buruti”, grande parte destas espécies vegetais não são encontradas com facilidade no território, a não ser no mato e em lugares bem distantes, relata.

O conhecimento do território manifesta a distinção de lugares e classificações de espécies para diversas finalidades levando à formulação de teses sobre o Corpus (C) da natureza que racionalizam e adjetivam a utilização, tanto no que refere ao acesso, como a apropriação, no caso a madeira voltada à construção de unidades domésticas por espécies vegetais específicas para telhar, fazer as paredes e o assoalho.

O domínio da geografia local e a classificação das espécies vegetais conforme utilidade subtende a existência de um saber “ecogeográfico” (TOLEDO; BARRERA-BASSOLS, 2009) sobre o território, fundamental para a decifração da natureza. O conhecimento das propriedades físicas das espécies quanto ao peso, durabilidade, textura, rugosidade são informações centrais no conjunto de estratégias particulares e gerais para decidir o processo de usos sociais dos recursos da natureza.

As construções coletivas precediam também a participação, a unidade e os compromissos e remetiam a uma arquitetura que oferecia bem-estar principalmente no que se refere à temperatura da unidade doméstica. A construção do assoalho de madeira não caracteriza mais a arquitetura das casas de alvenaria o que remete à simplificação do conhecimento dos insumos utilizados. Observa-se também o repertório linguístico ao se referir ao tipo de madeira descrevendo a importância, a riqueza e o conhecimento prático. Como demonstra o Sr. Urgel Cirilo na narrativa abaixo sobre um tempo em que utilizavam a madeira nativa com maior frequência:

Era o cedro, levava pra fazer o assoalho. Andiroba e palha de obim, dá no centro (mata), umas folhas bonitas. Ali, a gente corta ela, pega mais a juçara do açaí, parte, tira aquelas ferpas e ali vai tecendo ela amarando ali, e cobre a casa. Quando não tirava o cavaco (pedaço de madeira) de cobrir casa. O amapá, um pau grande que tem no mato tirava com a roladeira (serrote). Tirava a tora, tem a faca de bater o cavaco, uma faca grande bate com dois cacete, limpa, pega um prego e vai cobrindo a casa igual a essa telha. Tira o

cavaco do amapá, da sova e do cataquiça que é mais forte, um pau que dá, e tra pra cubri. Agora não tem mais, antes era mais friozinho, agora ninguém qué mais sabe. Palha de buçu de cobrir a casa, ninguém que mais isso. Acho que tocaram fogo, vem essas toras aí de fora da boca do rio Matapí na cheia, reboca pra vender pra lá. A folha desse matão, o buçu não existe mais. A folhazinha que usava pá tecer, jussara do açaí não tem mais. (informação verbal).

O sentimento de perda exposto na narrativa informa a contínua simplificação do repertório da biodiversidade e repertórios linguísticos que interferem na paisagem e nas estratégias de manejos e reproduções sociais. O registro remonta também ao saber fazer e às maneiras de manejar a partir de um conhecimento prático que estaria proporcionando a valorização de cada etapa do processo de construção, bem como a valorização dos recursos da natureza transformados em bem material e simbólico.

A memória revela recordações de um tempo de trabalho, conhecimento e diversidade biológica sobre processos individuais e coletivos constituintes de maneiras de viverem características de sentimentos de pertencimentos a tempos e lugares específicos. Este pertencimento subscreve um conhecimento detalhado de práticas culturais demarcadas historicamente e sentimentos de bonanças pouco visíveis no tempo presente, a exemplo da diversidade de espécies vegetais e ambientes agradáveis das unidades domésticas.

O Sr. João Fortunato chama a atenção para mudança das práticas alimentícias das gerações anteriores e sinaliza novamente a redução do repertório, simplificação do manejo e principalmente perda da qualidade de nutrientes nas alimentações contemporâneas:

Minha mãe não me dava maizena, me dava carimã retirado da própria mandioca. De molho, amassava, ía para o tipiti, depois tabua de masseira feita com tora de pau cavada, amassava de novo voltava pro tipiti, até tirar o produto venenoso do tucupi. Depois torrava usando as vassouras de açaí, depois de consumido. Ficava fino que nem produto feito hoje na fabrica e aí se tomava o mingau feito com leite de vaca mesmo. Hoje agente come veneno, conservante. (informação verbal).

O Corpus (C) e a Práxis (P) incorporados nos procedimentos de elaboração da alimentação demonstram conhecimentos de todas as etapas de preparações e também da logística e trabalho invisíveis caracterizados por pequenas e intermitentes tarefas necessárias sinalizando um saber e domínio de todos os instrumentos e equipamentos necessários. Remete também ao domínio de várias técnicas e atividades de trabalhos relacionadas ao cultivo e à coleta da mandioca, à criação de animais, à carpintaria, ao extrativismo da madeira e palha acompanhadas de práticas artesanais para preparar o tipiti, saberes tradicionais quanto às

propriedades naturais, à toxidade do tucupi e ao valor nutricional do carimã ao estabelecer análise comparativa com a maisena.

Sobre esse tempo de bonanças e biodiversidade acentuada o Sr. Urgel Cirilo relata também as práticas de pescas em períodos de grande abundância no que se refere à diversidade de espécies: “Tucunaré, pirapitinga, tambaqui, curimatam eu enxergava cardume de tucunaré. Aí na entrada do igarapé do lago tinha muito. Eu só pegava peixe escolhido, o canacá. Fora o igarapé, aqui era muito rico, muito. Eu fui criado na fartura”. Por conseguinte, informa: “Eu morava no Boi de Baixo fui pegar peixe lá no canal eu fui flechar, nós matava muito peixe, muito peixe, só andavam amutuado”, além do repertório de espécies bastante farto manifestam- se também conhecimentos hidrológicos com ênfase aos lugares de maior incidência de espécies, circuitos hídricos para realizar a pesca, locais de passagens e aglomerações dos peixes.

Em outra narrativa demonstra orientações enérgicas recebidas de seu pai no sentido de aprender processos regulatórios de usos sociais dos recursos pesqueiros mesmo diante da fartura e riqueza:

Se vivia melhor, na alimentação. Meu pai dizia: ‘se foi ao lago olhou em tal lugar o peixe tá passando lá, flecha no cardume, flecha sempre o último para o da frente passar. Não traga comida pra manhã, só pra hoje. Se trouxer mais vão apanhar. Traga a alimentação do dia almoço e jantar. Se eu topar um peixe morto sem necessidade, vou bater em vocês’. O respeito era maior. (informação verbal).

Os ensinamentos demonstram conhecimentos sobre o comportamento das espécies e do ambiente nos quais habitam como também do domínio regular sobre o lugar sinalizando ser comum seu trânsito como usuário e fiscalizador. A instrução sobre a necessidade de regulação sobre os recursos demonstra comportamento de incertezas e limites sobre a disponibilidade e intermitência das espécies revelando ao mesmo tempo respeito e relação de dependência. Para Toledo; Barrera-Bassols (2009) a construção de saberes locais ocorre pelo conhecimento e intervenções práticas intercambiadas com a natureza levando a um conhecimento das estruturas e processos naturais marcados por variações e incertezas que nem sempre podem ser controlados e mediados pelo comportamento humano.

A Sra. Raimunda Silva demonstra conhecer a topografia e o movimento das águas nos lagos ao relatar o “aiú” como um fenômeno de áreas inundáveis em que a tonalidade e a qualidade da água para o consumo ficam comprometidas. Salienta que durante o “aiú” podem consumir o peixe, mas não a água o que exige um trabalho de armazenamento de água para consumo durante a atividade de pesca:

Os igarapés seca o lago no verão aí fica bom de pegá peixe, no inverso fica difícil de pegar eles se espalham no lago, quando enche o lago a agua fica limpa, quando tá secando no verão fica escura é difícil não dá o que a gente chama de aiú que mata até peixe, água escura, quase preta. Fica aquela nata por cima aí morre ás vezes muito peixe. O peixe que estão morrendo que a gente pega não faz mal nenhum. O pessoal quando vai pegar o peixe no aiú, leva água limpa de casa a agua do lago não presta pra beber. (informação verbal).

O conhecimento do movimento, tonalidade e profundidade dos lagos durante o “aiú” reflete domínio e saber tradicional sobre o lugar o que requer mudança de comportamento e planejamento em relação à disponibilidade e acesso aos recursos pesqueiros. Esta mudança exige a complementação alimentar com a efetivação de outras atividades para aquisição de proteínas e nutrientes. Durante o “aiú” ocorrem mudanças na circulação e disponibilidade de outras espécies da flora e fauna que podem estar interferindo em outros processos ecológicos em escalas locais e regionais que afetam as práticas de reproduções sociais em áreas alagadas ou não.

Sobre a integração de sistemas naturais Toledo e Barrera-Bassols (2009, p. 57) informam:

Este mosaico representa el escenario sobre el que el produtor tradicional, como un estratega del uso múltiple, realiza el juego de la subsistencia a través de la manipulación de los componentes geográfico, ecológico, biológico y genético (genes, especies, suelos, topografía, clima, agua y espacio), y de los procesos ecológicos (sucesión, ciclos de vida y movimiento de materias). (informação verbal).

A necessidade em conhecer e saber o mosaico de estratégias de sobrevivências no território garante a continuidade e a permanência em um movimento contínuo de recuperações de experiências do passado e atualizações de saberes, concomitantes à introdução de novas técnicas.

A Sra. Raimunda Silva acrescenta que: “Argila tira pra fazer o aguidá pra amaçar a bacaba, tira lá do lago. Fazia pote pra botar água pra gelar”. O conhecimento sobre as diferentes possibilidades do uso da água presente na memória dos mais idosos retrata, por exemplo, estratégias de armazenamento de águas para o consumo, como salienta o Sr. João ao se referir à confecção de potes de barro: “A geladeira era feito de pote de barro feito cortava e partia tucumanzeiro, cajazeiro, buritizeiro, quatro bandas e abria e colocavam o pote lá, no inicio da noite colocava água no outro dia estava estilando a água fria , natural, sem

conservante e vivia melhor. Novamente ao se referir ao armazenamento da água revela conhecimento sobre o uso do solo, e das áreas de mato para realizar a extração da madeira.

Sobre o uso de potes de barro o Sr. Urgel relata:

Meu pai mandava cavá um poço na beira do lago, tirava aquela água fervia, tinha uns pote de barro né. Na casa do Miguel da Jurema ainda existe ainda existe um. Tirava aquele barro fazia aquele pote bacana, fervia a água botava ali dentro, ficava igual na geladeira, geladinha pra beber, colocar na comida. (informação verbal).

Outras maneiras de usos sociais das águas são reveladas pelo Sr. Urgel:

Todo mundo fazia poço ou pegava do igarapé mesmo, você ia provar pra vê onde tinha agua limpa. Sempre em casa tinha um poço. A vovó tinha, todo mundo usava, a tia Tereza tinha, todo mundo usava. Ia pra Macapá comprava pote, sabia escolher o pote muito vermelho, muito queimado não esfria a água. Aquele pote quase branco esfria demais. O pote era que nem a geladeira a agua fria, fria a qualquer hora. (informação erbal).

O acesso à água para uso doméstico dava-se também pelo conhecimento da qualidade dos recursos hídricos retirados direto do igarapé em um tempo em que se podia consumi-la sem riscos de contaminações. Outra modalidade, a construção de poços de usos sociais coletivos, demonstra a importância em viver comunitariamente e a necessidade em compartilhar um bem comum. Por outro ângulo, a narrativa expõe a expertise quanto ao conhecimento do pote a ser comprado em Macapá.

A observação da tonalidade da cor do barro especificara a qualidade do produto deixando escapar o saber prático de quem também praticava a construção artesanal de potes. Os critérios próprios de tonalidade, rugosidade, cheiro, textura e demais constatações revelam o saber tradicional comprovado historicamente por sistemas de classificações e hierarquizações que produzem informações sobre processos, produtos e na natureza.

O conhecimento dos recursos hídricos importava para realizar o consumo doméstico e para servir às criações de animais próximas às unidades domésticas, como destaca o Sr. Urgel: Nós carregava da beira do rio, botava pra bezerro, porco, tomava banho, no chiqueiro, porco não andava abandonado pelo mato. Era tudo preso, feito com encosto de pau. Sobre o deslocamento da água do lago, igarapé ou riacho a Sra. Raimunda Silva registra: “Naquele tempo Cubuca (cuia grande quase do tamanho de uma lata ou fazia pequenas cuias) plantava limpava pra carregar água que era longe, com o poço artesiano não usa mais”. O

conhecimento sobre a qualidade da água e as técnicas de transporte e armazenamento eram tão importantes como o conhecimento sobre os circuitos hídricos que cortavam o território.

Para navegar em circuitos de igarapés e rios com o objetivo de fazer deslocamentos até paragens relativamente distantes, os deslocamentos realizados para fazer trocas comerciais deveriam ser aproveitados para realizar outras atividades de coletas e pescas, bem como, aguçar o conhecimento de uma natureza em constante processo de transformação e com rico repertório. Sobre estes aspectos o Sr. João relata:

Aqui antes era mais troca, farinha trocava com café, açúcar, feijão. A gente saia daqui com meu pai pelo igarapé que a agua só desce, nos saia 4h da manhã ele olhava pelos astros, quando chegar no igarapé do Ambé agente pega a maré de vazante, desce. Vai lá no barracão do Santo Antônio onde é a ponte do Pedreira, faz a compra até ela fazer a preamar de vazante aí dá pra parar pra tirar açaí no caminho e tomar um banho no igarapé do João Felipe e vinha flechando peixe na beira do rio, não conhecia malhadeira era flecha e anzol. (informação verbal).

O relato sinaliza a relação de diversos saberes sobre astronomia, movimento das marés, nominação de lugares e conhecimentos de áreas de banho, pesca e extrativismo o deslocamento tornava-se um momento oportuno para desenvolver várias habilidades e aperfeiçoar os saberes atualizando o Corpus (P). A polivalência dos saberes tradicionais expressados na narrativa demonstra também relações diretas com a biodiversidade local, para cada atividade, necessita- se de estratégias e técnicas específicas que podem sofrer variações de acordo com os calendários de verão e inverno.

Em tempos pretéritos estes deslocamentos exigiam maior disponibilidade e habilidades dos navegantes devido ao fato de consumirem um tempo relativamente importante no cotidiano dos circundantes que realizavam atividades na terra firme, na várzea, na floresta e nas águas. O Sr. Urgel argumenta que naquele tempo “Daqui pra Macapá, ía pelo rio Pedreira e pegava o Amazonas, subia até Macapá era meio dia de deslocamento”, a viagem requeria preparação e conhecimento sobre os movimentos da natureza para que o percurso não fosse alterado e para que pudessem otimizar ao máximo o aproveitamento do tempo nas atividades em curso em diferentes ecossistemas. A narrativa apresenta um tempo em que os contatos entre as localidades eram realizados prioritariamente por vias marítimas referendando outros sentidos e prismas de como relacionar-se com a natureza. Os rios Matapi, Pedreira e igarapés adjacentes eram rotas costumeiras.

Em terra firme utilizou-se com maior frequência o cavalo e o boi exigindo outras habilidades relacionadas ao gerenciamento do tempo, conhecimento de trilhas e caminhos.

Exigia-se também conhecimento sobre o comportamento animal e estabelecimento de códigos de comunicações, gestos e comandos para que não houvessem problemas sobre a condução da carga. O Sr. João Fortunato relata:

Tudo era no cavalo, mau pai com minha vó criavam boi, quando ela morreu meu pai passou o gado la pro São Francisco, ái já ía de cavalo. Chegava na beira do rio, e pegava o transporte, eu ainda monto cavalo. Se batê ele corre se puxar ele anda. Eu não sei andá de bicicleta, é melhor andá de cavalo que agente puxa ele. (informação verbal).

A memória biocultura sobre a montagem em animais salienta a segurança em relação aos procedimentos e aos resultados por ter conhecimento do comportamento animal e continua fixada como um saber que acionado a qualquer tempo. O conhecimento do comportamento de animais, vegetais e fenômenos da natureza como astros e marés em condições situacionais exibem o farto repertório de saberes elaborados pelos quilombolas de São Pedro dos Bois em diferentes lugares do território.

Estes saberes religam memórias, linguagem, lugares, técnicas e diversidades biológicas produzindo estratégias de convivências com a natureza e tecendo métodos específicos de manejos. Na comunidade São Pedro dos Bois foram coletadas várias narrativas de como resolviam e ainda recorrem para resolver situações diárias de modo alternativo a técnicas e saberes elaborados a partir dos recursos da natureza dispersos no território.

Nas práticas de combate ao carapanã, por exemplo, usava-se o esterco do boi seco, o fogo preparado conforme sentido da ventilação exalava fumaça em direção às unidades domésticas repelindo carapanãs, relata o Sr. João. Da vaca aproveitava-se a urina para fazer o preparo de um tipo de inseticida natural contra as pragas. Revela-se o melindrado aproveitamento dos organismos naturais por observarem, experimentarem e conhecerem as propriedades ou os efeitos em interações na natureza.

A Sra. Deuzarina Desidério acrescenta a creolina ao esterco do boi para a mesma utilidade: “fazia fumaça de creolina com bosta de boi, prendia o boi fazia aquela fumaça, a moçoroca caia que nem olhava pra traz”. O enriquecimento do saber tradicional encontra-se adstrito às substancias químicas. Não existe pré-definições ou pré-julgamentos que limitem a possibilidade de aproveitamento, na sociedade dominante a urina e o esterco são considerados excrementos que devem ser despejados.

Criava o porco, criava o gado e sargava no coro, não tinha freezer, era no coro do boi, amarrava, fazia um pito, mosca não entrava era tirado o espeto, tirava pau no mato fazia espeto grande assim, abria um buraquinho alí e ía