CAPÍTULO 2: DO SENTIDO AO SENTIDO DO SOFRIMENTO
2.4 CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS, O QUE DEVO AOS ANTIGOS 4
Em Crepúsculo dos Ídolos, o que devo aos antigos 4, Nietzsche explica que a veneração do ato sexual e da gravidez nos antigos cultos dionisíacos era uma alusão parental à fertilidade da natureza, simbolizando o impulso para a continuidade da vida. Nesse contexto, as dores da mulher no parto simbolizariam a dor em geral sob a premissa de que “todo vir-a-ser e crescer, tudo o que garante o futuro implica a dor” (CI, o que devo aos antigos 4). A sensualidade e a dor eram exortadas num gesto de adoração religiosa e de divinização da própria vida. Desse modo, no simbolismo órfico de Dioniso, prazer e dor, alegria e sofrimento não são dissociados como se fossem duas substâncias distintas. Não se pode querer o prazer da criação sem, com isso, querer a dor da destruição e vice-versa.
A antítese do simbolismo religioso do dionisíaco é identificada por Nietzsche no cristianismo. Este teria feito do pressuposto da vida, o ato sexual, algo impuro e pecaminoso, devido ao seu “fundamental ressentimento contra a vida” (idem, ibidem)65. É interessante comparar essa crítica à condenação do ato sexual com outra bastante similar que Nietzsche já havia desenvolvido no aforismo 76 de Aurora, intitulado “Pensar mau é tornar mau”.
Na obra de 1881, a argumentação se desenvolve a partir das figuras de Eros e Afrodite enquanto idealidades simbólicas das sensações ligadas ao sexo. A tese de Nietzsche é de que
“as paixões tornam-se más e pérfidas quando são consideradas más e pérfidas”. Visto com essas lentes, o disciplinamento cristão da consciência teria transformado aquelas divindades gregas em “espíritos e gênios infernais” ao fazer a excitação sexual ser sentida e interpretada como tormento. Assim, as sensações ligadas ao ato sexual foram tomadas como “fonte de miséria interior” até o estágio de “irmanar a procriação dos seres humanos à má consciência”.
65 No FP 24 [1], de Outubro-Novembro de 1888, §9 o qual serve de preparo para CI, o que devo aos antigos 3, 4 e 5¸ há um trecho que Nietsche retirou da redação final. Nele consta: “o conceito de immaculata conceptio foi a maior infâmia psíquica que se cometeu até agora sobre a Terra – jogou sujeira na origem da vida”. Nietzsche ataca aqui o dogma cristão, segundo o qual, o nascimento da Virgem Maria se deu sem a mancha, a sujeira (macula, em latim) do pecado original. Isto implica também: sem culpa, condenação, logo: sem sofrimento.
Como, porém, aquelas sensações são recorrentes por serem “regulares e necessárias”, o cristão acabou convencido de que a própria miséria interior é algo regular e necessário.
Tanto em Aurora, quanto em Crepúsculos dos ídolos não parece ter havido mudança substancial na opinião de Nietzsche quanto à crítica da moralização do ato sexual pelo cristianismo. Em ambos os casos, a repulsa aos instintos fala a partir do pano de fundo geral da demonização da carne, a qual conduz, em última instância, a condenação do mundo terreno. No entanto, as diferenças do vocabulário, com o qual Nietzsche expressa sua tese em ambas as obras são relevantes e devem ser enfatizadas. Agora, em 1888, Eros e Afrodite são substituídos por Dioniso. O entendimento que Nietzsche tem do dionisíaco amplia a dimensão da discussão e faz do ato sexual um símbolo para expressar as noções mais densas de afirmação e negação da vida.
Como se verá no capítulo seguinte, tal qual no FP 14 [89], da primavera de 1888, o tema da afirmação e da negação da vida aparecerá novamente e também relacionado ao simbolismo do Dioniso e à moral cristã, associada ao simbolismo do Crucificado. No primeiro caso, o texto do Crepúsculo dos Ídolos é explícito: o valor do sofrimento está orientado para a vida terrena, especificamente a serviço de seu contínuo vir-a-ser, tirando deste o seu sentido. No caso do cristianismo, o texto não menciona o sofrimento, mas a colocação daquele como antítese do simbolismo do Dioniso deixa claro que o sofrimento é interpretado também antiteticamente. Nesse caso, a expressão “ressentimento contra a vida”
permite aproximar o posicionamento cristão da interpretação ascética do sofrimento, exposta na terceira dissertação de Para a genealogia da moral. Posteriormente, O Anticristo autorizará a identificação entre ambos: “Em minha Genealogia da moral expus pela primeira vez, em termos psicológicos, os conceitos antitéticos de uma moral nobre e uma moral de ressentiment [ressentimento], esta se originando do Não àquela: mas esta última é pura e simplesmente a moral cristã” (AC §24).
A passagem pelos textos analisados nesse capítulo permite observar que a tematização do sentido do sofrimento ocupa um lugar de destaque nos pensamentos de Nietzsche sobre sofrimento no período de 1886-88. Isto não quer dizer que, nesse marco, sempre que Nietzsche aborda o sofrimento, ele está tratando do seu sentido. Apenas foi mostrada a recorrência, relevância e abrangência do tema, a tal ponto de subsumir nele outras reflexões sobre o sofrimento, como aquelas concernentes ao ressentimento, saúde e doença, por exemplo. E isto porque o tema do sentido sintetiza a maneira pela qual Nietzsche pensa o sofrimento nos últimos escritos. Para Nietzsche, é por não saber lidar com o sofrimento
inerente à vida que surgem artifícios como o ressentimento, a necessidade de narcóticos e ficções que negam a vida, dentre as quais está a moral, os ideais ascéticos, os sistemas metafísicos. Todos esses seriam fantasias, cuja lógica consiste em criar um sentido fora do mundo para o sofrimento a fim de justificar a existência.
Assim, o sofrimento é interpretado por Nietzsche como uma instância terminal para um posicionamento diante da vida. Ele se impõe como realidade incontornável para todos os tipos fisiológicos, fortes ou fracos. É o sofrimento que decisivamente demanda uma interpretação que o justifique. Assim, questionar o sentido da vida significa questionar o sentido do sofrimento inerente a ela porque este é a instância que impele a negar ou afirmar a vida. Diante disso, a investigação é levada a estabelecer que o movimento teórico que vai do questionamento do sentido para o do sentido do sofrimento não é propriamente o de uma passagem do caso mais geral para o mais específico. Trata-se, isto sim, de uma transformação do questionamento. Quando as instâncias suprassensíveis não mais podem ser consideradas parâmetros de valor para auferir o sentido da existência, resta apenas a própria vida terrena.
Na totalidade desta, é o sofrimento, na visão de Nietzsche, o ponto crucial que decidirá o valor da vida e o sentido da existência, pois é o sofrimento que decidirá, em última instância, a continuidade de um indivíduo na vida ou sua retirada dela.
A passagem pela Para a genealogia da moral é crucial para o ponto de vista apresentado acima. A terceira dissertação revela a gênese de uma interpretação ascética do sentido da existência. De posse dela, Nietzsche conhece as condições fisiológicas pelas quais um sentido ideal é produzido. Ao mesmo tempo, ele conhece a interpretação antagônica, cujo anseio fisiológico é por um sentido fluido. Por trás de ambos impera a incontornável realidade do sofrimento sem sentido. É para domá-lo de alguma maneira que o ser humano é levado a instaurar um sentido. Assim, de certo modo, tomando o texto da terceira dissertação como base, todo sentido último da existência diz respeito sempre a um sentido que precisa se posicionar perante o sofrimento a ela inerente. Longe disso indicar uma unificação ou conciliação para a produção de sentido ao sofrimento inerente à vida, a investigação revela um antagonismo inerente à própria vida. A própria pluralidade dos tipos fisiológicos os conduz a interpretar o sofrimento de modo antagônico. Cabe agora investigar como e porque isso aparece aos olhos de Nietzsche como um problema.