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2. SOCIEDADE VIGILANTE

2.3.1. Crescimento do CFTV

A revista Surveillance & Society publicou em 2004 um artigo que demonstra o crescimento do número de câmeras de vigilância nos espaços públicos da Europa e pelo mundo (Norris, McCahill e Wood, 2004).

O artigo remonta ao estudo publicado pelo Urbaneye Project (Hempel e Töpfer, 2002), que documentou a proliferação das câmeras em espaços públicos e semipúblicos. Esses estudos foram realizados em seis capitais europeias e apontaram para o uso cotidiano do CFTV em espaços publicamente acessíveis, como lojas, bancos, restaurantes, bares, terminais de transporte, etc.

Em toda a Europa, 29% dessas instituições usavam alguma forma de videovigilância, embora, como mostra a Tabela 1, o crescimento foi desigual. Os dados do Urbaneye sugerem

que, em Londres, 40% dos espaços com acessos públicos foram monitorados por câmeras de vigilância, em comparação com apenas 18% em Viena (Hempel e Töpfer, 2004).

Apesar desses números indicarem a difusão geral do CFTV em toda a sociedade europeia, eles ocultam diferenças importantes entre a vigilância do espaço público e privado. Os dados do Urbaneye mostram que, em 2003, na Dinamarca e na Áustria, não havia sistema de CFTV em espaços públicos, havia apenas um na Noruega (que consistia em seis câmeras), pelo menos 14 sistemas em Budapeste e 15 na Alemanha. No Reino Unido, havia mais de 500 sistemas. Assim, enquanto no Reino Unido havia mais de 40.000 câmeras de CFTV monitorando o espaço público, provavelmente havia menos de 1.000 em todos os outros países europeus incluídos na pesquisa (Hempel e Töpfer, 2004).

Tabela 1 – Percentagem de vigilância em espaços com acesso público em seis capitais europeias e o número de sistemas de CFTV em espaços públicos em cada país

Cidade

% de instituições com câmeras em espaços

com acesso público

País Nº de sistemas de CFTV em

espaços públicos

Londres 40 Reino Unido Mais e 500

Oslo 39 Noruega 1

Copenhagen 33 Dinamarca Nenhum

Budapeste 28 Hungria Mais de 14, apenas em

Budapeste

Berlim 21 Alemanha 15

Viena 18 Áustria Nenhum

Fonte: Urbaneye, (Hempel e Töpfer, 2004): 27-34

Esses dados sugeriam uma expansão limitada do CFTV fora do Reino Unido. Contudo, em outros países europeus não incluídos no estudo do Urbaneye, houve um crescimento sustentado CFTV em espaços públicos. Na França, por exemplo, depois da flexibilização das leis sobre vigilância do espaço público em 1995, houve uma rápida implantação de CFTV nesses espaços. Entre 1997 e 1999, mais de 200 cidades francesas receberam a aprovação para a instalação de CFTV em locais de alto risco e 259 para a proteção de edifícios públicos, como prefeituras, bibliotecas públicas, escolas e museus (Hempel e Töpfer, 2002, apud Norris, McCahill e Wood, 2004).

Igualmente, na Holanda, as primeiras câmeras a serem usadas em espaços públicos ocorreu em 1997, e apenas seis anos depois, em janeiro de 2003, 80 dos 550 municípios do país estavam usando CFTV em locais públicos (Flight, et al., 2003, apud Norris, McCahill e Wood, 2004). Na Irlanda, o primeiro sistema de CFTV foi instalado em Dublin em meados dos anos 90, e expandido em 1997. Na época desse artigo de Surveillance & Society, o Ministro da Justiça Irlandês havia anunciado uma grande expansão CFTV de rua em todo o

país, com planos para estender a 21 áreas diferentes (Norris, McCahill e Wood, 2004). Na Itália, 22 das 33 instalações esportivas com capacidade para mais de 20.000 espectadores estavam equipadas com sistemas de videovigilância (Conselho da Europa, 2002, apud Norris, McCahill e Wood, 2004) e, naquela época, em resposta às ansiedades crescentes sobre o crime, o Ministério do Interior havia instalado CFTV nas áreas sensíveis de 50 cidades italianas (Norris, McCahill e Wood, 2004).

Nos EUA, a primeira pesquisa nacional de CFTV, realizada em 1997, descobriu que os departamentos de polícia de apenas 13 cidades do país usaram sistemas de vigilância CFTV, principalmente para tráfego de pedestres em bairros centrais e residenciais (Nieto, et al., 2002, apud Norris, McCahill e Wood, 2004).

Em 2001, cerca de 25 cidades dos EUA estavam usando CFTV para monitorar as áreas públicas; que variavam de pequenos sistemas como o sistema de CFTV do Balboa Park, em San Diego, com cinco câmeras monitorando o centro comercial e a área de museus, para sistemas muito maiores como em Washington/DC, que havia estabelecido o maior sistema público de vigilância por CFTV do país, ligando centenas de câmeras que monitoravam estações de transporte de massa, monumentos e escolas com novas câmeras digitais que vigiavam ruas, áreas comerciais e bairros (Nieto, et al., 2002, apud Norris, McCahill e Wood, 2004).

Apesar da pesquisa ter apontado para um avanço relativamente lento dos Estados Unidos em adotar tecnologias de CFTV, como na Europa, o crescimento predominante tinha sido no setor privado. Já em 1996, a pesquisa dos gastos dos negócios dos EUA feita por Hallberg descobriu que 75% das empresas usavam CFTV (Slobogin, 2002, apud Norris, McCahill e Wood, 2004).

Além disso, a preocupação com a segurança após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, aliado aos avanços tecnológicos e os custos decrescentes dos produtos, levou à rápida difusão de vigilância por CFTV e tecnologias biométricas. Como exemplo, as câmeras de vigilância de CFTV são amplamente utilizadas nas escolas públicas para monitorar o movimento estudantil e identificar atividades ilegais, e ainda, em cruzamentos de rua para detectar carros atravessando sinais vermelhos (Nieto, et al., 2002 apud Norris, McCahill e Wood, 2004).

A pesquisa da Associação Internacional de Chefes de Polícia (International

Association of Chiefs of Police – IACP, 2001) descobriu que, naquela época, 80% das

agências de aplicação da lei nos EUA já utilizavam CFTV de alguma forma. Muitas forças policiais americanas tinham equipado suas viaturas com CFTV para monitorar a prisão e

procedimentos de detenção, e outros, tinham instalado em tribunais e outros edifícios do governo. Mas, mais da metade das agências que responderam também usavam CFTV em “áreas de alta criminalidade”: 25% nas ruas, 15% em parques e pouco mais de 10% em locais de habitação pública (IACP, 2001, apud Norris, McCahill e Wood, 2004). Até mesmo antes de 11 de setembro, a pesquisa da IACP previa que a vigilância de CFTV estava pronta para crescer dramaticamente nos Estados Unidos.

Esses desenvolvimentos estavam refletidos nos números do valor e tamanho do mercado de CFTV nos Estados Unidos. Nessa época, o crescimento tinha acelerado desde o início dos anos 90, onde as receitas anuais da venda câmeras de vigilância mais que triplicam, indo de US$ 282 milhões em 1990 para mais de US$ 1 bilhão em 2000 (Norris, McCahill e Wood, 2004).

Atualmente, Londres é uma das cidades mais vigiadas do mundo – um relatório estima que o londrino médio é capturado por câmeras mais de 300 vezes por dia –, mas sua crescente rede de câmeras faz parte de uma tendência mundial. Em 2015, a indústria global de videovigilância foi avaliada em cerca de US$ 20 bilhões e deverá crescer para US$ 63,2 bilhões até 2022. Em 2014, havia 245 milhões de câmeras de vigilância instaladas profissionalmente ao redor do mundo (Teicher, 2018).

Na China, a efetivação do Projeto Golden Shield para criar uma infraestrutura de vigilância nacional levou à implantação de câmeras de vigilância por vídeo em uma escala sem precedentes (Norris, McCahill e Wood, 2004).

O projeto foi lançado para promover a adoção de uma avançada tecnologia de informação e comunicação para fortalecer o controle central da polícia, as capacidades de resposta e de combate ao crime, a fim de melhorar a eficiência e a eficácia da polícia (Walton, 2001).

O aparato de segurança da China anunciou um plano ambicioso: construir uma rede nacional de vigilância digital, ligando redes nacionais, regionais e agências locais de segurança com uma rede panóptica de vigilância. Pequim previu a Golden Shield como um sistema de vigilância remoto baseado em banco de dados, oferecendo acesso imediato aos registros de todos os cidadãos da China, ao mesmo tempo em que se liga a uma vasta redes de câmeras projetadas para aumentar a eficiência policial (Walton, 2001).

Os efeitos dessa política começavam a ser vistos em cidades da China. Em julho de 2004, o escritório de Segurança Pública de Hangzhou anunciou planos para instalar mais de 1.000 postos de observação através da cidade, cada um equipado com câmeras de segurança CFTV. De acordo com uma notícia de jornal da época, seria dada uma atenção especial a

grandes shoppings, praças, teatros, locais de entretenimento, estações de transporte, hotéis e em lugares que ainda não estavam em um estado de ordem adequado (Norris, McCahill e Wood, 2004).

Funcionários afirmavam que o esquema teria sido motivado por crescentes preocupações com o crime de rua e as seis primeiras centenas de postos de observação custariam US$ 12 milhões (China Daily, 2004, apud Norris, McCahill e Wood, 2004). Da mesma forma, em agosto de 2004, autoridades da cidade de Xangai revelaram planos para ampliar a pequena rede de câmeras existente, onde, de acordo com um relatório da época, até 2010, planejavam instalar mais de 200.000 câmeras de CFTV em toda Xangai, a fim de deter o crime e manter ordem social (Straits Times, 2004, apud Norris, McCahill e Wood, 2004).