3.2. O nascimento do lacerdismo e os seus adversários
3.2.3. O crescimento do Lacerdismo dentro e fora da UDN
O lacerdismo crescia na mesma proporção em que aumentava a visibilidade do discurso de Carlos Lacerda nos meios de comunicação, e a sua escalada política eleitoral. Esse crescimento junto à população demandava um crescimento dentro da própria UDN. O discurso radical e golpista de Lacerda acabou por entrar em conflito com setores mais “liberais” e “bacharelescos” dentro do próprio partido, principalmente, quando se aproximou dos militares udenistas ligados à Cruzada Democrática e à Cruzada Anticomunista nos meses anteriores ao 11 de novembro de 1955238.
Não é objetivo nosso analisar as disputas internas da UDN, mas a série de “derrotas gloriosas” alimentava as diferenças internas dentro do partido. As coligações vitoriosas no âmbito nacional entre PSD e PTB deixavam claro para muitos membros da UDN que sua “pureza” e sua postura elitista e bacharelesca dificultava sua penetração no eleitorado urbano, seduzido pelo discurso populista-desenvolvimentista dos herdeiros da tradição getulista, impossibilitando assim uma vitória nacional239. A radicalização do lacerdismo, agora contra o governo Juscelino Kubitschek, e a atuação dos realistas como Juracy Magalhães e Magalhães Pinto, reforçou novamente a tese de que, sozinha, a UDN jamais venceria por vias democráticas.
A cúpula do partido, de tradição antipopulista, agora apostaria na prática adversária através dos comícios da “Caravana da Liberdade” e do “Caminhão do Povo” (uma espécie de comícios relâmpagos feitos sobre carroceria de caminhões em vários bairros do Rio de Janeiro num mesmo dia), o que acabou dividindo o partido.240 Foi durante o impasse na disputa para a sucessão de Juscelino Kubitschek, quando a UDN estava dividida entre “lacerdistas” e “bacharéis históricos”, o “movimento renovador” (futura Bossa-Nova) versus os “realistas” (que queria lançar o nome de Juracy Magalhães)241, que Carlos Lacerda passou a ser considerado “pela opinião pública como o líder nacional do partido”242.
Seu forte apoio à candidatura de Jânio Quadros contra o nome de Juracy Magalhães, e a sua candidatura a governador do Estado da Guanabara marcariam o início da fase lacerdista dentro da UDN nacional. Entrar em contradição através de pronunciamentos, discursos e artigos não é algo raro dentro do jogo político, ainda mais quando se comparam
238
BENEVIDES, Maria Victória Mesquita. Op. cit. p. 97-98. 239
Idem, ibidem, p. 113-115. 240
MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. cit., p. 202-205. 241
BENEVIDES, Maria Victória Mesquita. Op. cit., p. 108. 242
momentos eleitorais distintos. Mas a verborragia de Carlos Lacerda algumas vezes o colocava em situações quase cômicas. Em primeiro de julho de 1955, ou seja, já em plena conjuntura eleitoral para a sucessão do presidente Café Filho, Lacerda falava na Tribuna da Imprensa acerca de Jânio Quadros, o então governador de São Paulo. “Ainda agora vemos essa manobra do aventureiro Jânio Quadro – personagem sinistro e lúgubre que só a insânia e o horror à personalidade que dominam os responsáveis pela vida nacional poderiam tolerar à frente de um movimento político [...]243”.
Pouco anos depois, no final do mandato de Juscelino Kubitschek, em plena Convenção Nacional da UDN em março de 1959, Carlos Lacerda tornar-se-ia o principal defensor do apoio udenista para a campanha de Jânio Quadros. Na ocasião, o então deputado pelo Distrito Federal diria: “haverá algo mais udenista neste país do que a obra de Jânio Quadros em São Paulo?”244 No entanto, tais contradições não eram fruto de instabilidade psicológica (a insânia citada por Lacerda em 1955) e sim de cálculos e estratégias políticas pragmáticas.
Izabel Picaluga, em sua pesquisa sobre a UDN na Guanabara, acredita que o empenho de Carlos Lacerda no apoio à então “insólita” candidatura de Jânio Quadros teria como objetivo se lançar nacionalmente, pensando nas eleições presidenciais de 1965245. Lacerda buscava marcar posição dentro da própria UDN nacional e consolidar sua liderança no partido em detrimento dos “bacharéis”. Buscava também aproveitar o forte apelo eleitoral de Jânio Quadros junto à classe média (segmento da sociedade onde o lacerdismo encontrava maior repercussão), além de possibilitar certa inserção nos votos dos trabalhadores de baixa renda, que também viam em Jânio Quadros a possibilidade de ganhos sociais246. Em depoimento, Lacerda admitiria também que seu apoio a Jânio era bastante pragmático: “Apoiei porque o Jânio ganhava de qualquer jeito”247.
Essa ascensão nacional do lacerdismo marcaria ainda o distanciamento deste em relação aos “históricos” como Milton Campos e Afonso Arinos de Melo Franco e em relação à facção reformista “Bossa-Nova”248. Segundo Benevides, os dois Estados onde a UDN tinha mais força e atuação política foram Minas Gerais e o Distrito Federal (depois Guanabara)249.
243
LACERDA. Carlos. Editorial do jornal Tribuna da Imprensa. 01/07/1995. Texto também citado em PICALUGA, Izabel. Op. cit., p. 62-64.
244
BENEVIDES, Maria Victória. Op. cit., p. 108. 245
PICALUGA, Izabel. Op. cit., p. 67. 246
Idem, ibidem, p. 68. 247
LACERDA. Carlos. Depoimento, Op. cit., p. 202 248
BENEVIDES, Maria Victória, Op. cit., p. 114-115. 249
A eleição de Lacerda para o governo da Guanabara em 1960 iria aumentar a penetração do lacerdismo na “caixa de ressonância nacional”, estado que tinha a maior participação eleitoral e constituía-se no quarto maior colégio eleitoral do Brasil250.
A partir de 1961 podemos observar, na UDN carioca, duas pautas diferentes de comportamento. De um lado, encontramos os liberais que tenderão a acompanhar s medidas políticas e econômicas do presidente Quadros, e de outro o governador Lacerda e seus simpatizantes que tenderão cada vez mais para a uma posição à direita dos demais partidos conservadores. Esta guinada para a direita, associada com atitudes personalistas de Carlos Lacerda, iniciou um processo de desagregação no interior do partido que culminou em 65 com o total afastamento das duas correntes de opinião251.
Em abril de 1963, durante o governo João Goulart e já com as Reformas de Base na pauta de discussões nacionais, a convenção nacional da UDN em Curitiba indicou Lacerda para ser candidato à presidência em 1965 (ficou acertado que isso seria confirmado numa outra convenção em abril de 1964), consolidando de vez a hegemonia do lacerdismo dentro da UDN, Lacerda vencera o “realista” Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, favorável a Reforma Agrária252. A constatação de que Carlos Lacerda já se configurava como uma liderança política também a nível nacional, a ponto de ser um presidenciável com votação expressiva no pleito de 1965, é confirmada por Antônio Lavareda, que reproduz uma pesquisa feita pelo IBOPE nas principais capitais brasileiras entre 9 e 26 de março de 1964 (dias antes do Golpe Militar) onde a pergunta era “E se tivesse que escolher entre esses?”. O resultado da pesquisa foi: Juscelino Kubitscheck com 37%, Carlos Lacerda com 25%, Adhemar de Barros com 9%, Magalhães Pinto com 7% e brancos, nulos e “não sabem” com 23%. Ainda segundo Lavareda: “Lacerda era mesmo o melhor nome da UDN para o pleito, embora suas chances diante de Juscelino fossem diminutas”253.
De fato a diferença de Kubitscheck em relação a Lacerda era bastante significativa, principalmente para uma eleição que não previa segundo turno. Dificilmente Lacerda conseguiria inverter a vantagem de Kubitscheck. Contudo, com o Golpe de 31 de março de 1964 e a cassação dos direitos políticos do então Senador Kubitscheck em 8 junho do mesmo ano, Lacerda passou a ser celebrado como virtual vencedor das eleições de 1965, pois não teria adversários à sua altura. Mas a 22 de julho, o Congresso aprovaria o adiamento das
250
MOTTA, Marly Silvia da. Saudades da Guanabara. Rio de Janeiro: FGV, 2000, p. 35. 251
PICALUGA, Izabel. Op. cit., p. 67. 252
LACERDA, Cláudio. Carlos Lacerda e os anos sessenta: oposição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 66-67.
253
LAVAREDA. Antônio. A Democracia nas Urnas. O processo partidário-eleitoral brasileiro, 1945-1964. Rio de Janeiro: IUPERJ - Revan, 1999, p. 174.
eleições para outubro de 1966 e a prorrogação do mandato do General Castelo Branco para março de 1967.
Esse ato marcaria o rompimento definitivo de Lacerda com os “revolucionários” (inclusive com parte da UDN, que aderira ao governo militar), e sepultaria de uma vez por todas as suas pretensões à faixa presidencial. Porém, de qualquer modo, vale ressaltar que no dia 8 de novembro de 1964, a VII Convenção Nacional Extraordinária da UDN realizada em São Paulo representou uma importante vitória para Lacerda, pois recebeu 309 votos, num total de 318, confirmando seu nome como candidato à presidência da república254.