Capítulo 2 O SISTEMA ECONÔMICO E O CRESCIMENTO ECONÔMICO
2.3 Crescimento Econômico, Riqueza e Prosperidade
Considerando todo o apresentado nos tópicos anteriores deste capítulo, é possível pensar em duas questões que emergem da discussão: o que pode ser considerado como riqueza? e qual sua relação com os processos de crescimento e desenvolvimento econômico? Estas perguntas provocam uma série de desdobramentos, dentre eles, a questão do processo de crescimento econômico e sua relação direta com o bem-estar e os valores envolvidos em cada momento histórico.
Tradicionalmente, conforme discutido anteriormente, a atenção na questão da produção de riqueza tem sido mantida sobre os capitais produzidos (WORLD BANK, 2005) e suas relações com o agregado de toda a economia. Praticamente todas as teorias e modelos se concentram apenas nas dinâmicas associadas à ampliação do produto agregado. A intensidade dessa vinculação pode ser constatada na simples avaliação da força do indicador de desenvolvimento econômico padrão – o PIB.
Porém, desde A Riqueza das Nações, Smith já mostrava que o conceito de riqueza não é fixo, e que o valor de algo depende da disposição a pagar por ele em um determinado momento, conforme relembrado por Beinhocker (2006).
Segundo World Bank (2005), a riqueza real deve ser medida através da consideração dos estoques de capital produzido, capital natural e do capital intangível, este último relacionado ao amálgama do capital humano, das instituições e dos mecanismos de governança, além de outros fatores de difícil valoração. De acordo com a publicação (op. cit), o capital intangível representa a maior porcentagem da riqueza mundial. A contabilização precisa da riqueza, considerando não apenas o capital produzido como indicador, pode alterar significativamente o valor atribuído à riqueza gerada.
Desta forma, é possível afirmar que o processo de crescimento econômico está baseado apenas na variação do capital produzido, e não considera a amplitude do conceito de riqueza, visto que as outras formas de capitais são historicamente consideradas como exógenas ou, quando consideradas, as abordagens não permitem o entendimento de toda a complexidade inerente à suas dimensões.
Pensando em corrigir os desvios consolidados pelo cálculo do crescimento a partir do PIB, Dowbor (2009), propõe o conceito de produtividade sistêmica, que levaria em consideração todos os custos indiretos externalizados para a sociedade, ou seja, um indicador que explicite o resultado econômico em termos de qualidade de vida, de progresso social real.
Jackson (2009) afirma que a busca pela prosperidade deve ser mais bem posicionada em relação ao processo de crescimento econômico e de criação de riqueza. Comentando sobre a relativização da importância do processo de criação de riqueza, Jackson (2009) afirma que riqueza também não é sinônimo de prosperidade, e que a elevação da prosperidade não é a mesma coisa que crescimento econômico. O autor defende que até muito recentemente, a prosperidade não era avaliada em termos econômicos, mas como simplesmente o que se opunha à adversidade, e que este conceito de prosperidade econômica - e sua relação com o crescimento econômico - é uma construção moderna.
Segundo o autor, existem diferentes abordagens sobre a questão da prosperidade. Baseado em Sen (1984)101, Jackson (2009) elenca três diferentes concepções de prosperidade: prosperidade como opulência, como utilidade e como capacidade de desenvolvimento102.
A primeira dessas concepções - a opulência - está relacionada com o entendimento convencional de prosperidade como medida de satisfação material (JACKSON, 2009). Essa lógica da abundância, entretanto, possuiu limitações até mesmo dentro da teoria econômica tradicional, com a teoria da utilidade marginal decrescente, onde o fato de ter mais bens/produtos provê menos satisfação adicional (JACKSON, 2009).
A segunda caracterização da prosperidade - a utilidade - segundo Jackson (2009) reconhece que quantidade não é qualidade. Porém, medir a utilidade é uma tarefa complexa e difícil, visto que não é simples definir como a produção de commodities está relacionada com a satisfação (JACKSON, 2009). O autor defende que, neste sentido, o PIB não pode ser considerado um indicador de bem-estar ou utilidade.
Ainda, a terceira caracterização da prosperidade - como capacidade de desenvolvimento ou, nas palavras de Sen (1984), as capacidades que as pessoas têm de florescer103. Sen (1984, apud JACKSON, 2009) relaciona essas capacidades a questões nutricionais, de saúde, de expectativa de vida, de participação na sociedade, todas relacionadas com as liberdades e a noção de desenvolvimento propostas por Sen (2010). Neste mesmo sentido, Thirlwall (1999), falando da questão do desenvolvimento econômico como processo que alia objetivos econômicos e sociais e, neste sentido, relacionado com o conceito de prosperidade como capacidade de desenvolvimento, afirma que é necessário distinguir e perseguir os componentes ou valores básicos e fundamentais da sustentação da vida104, da autoestima105 e da liberdade106.
101
SEN, A. The Living Standard. Oxford Economic Papers, Vol. 36, 74-90. Supplement: Economic Theory and Hicksian Themes, 1984.
102
Tradução nossa. Sen (1984) e Jackson (2009) falam sobre a ideia de "capabilities for flourishing". 103
"Capabilities that people have to flourish". Sen (1984). Flourish, neste sentido, pode ser entendido como desenvolver, melhorar, progredir, evoluir.
104
Jackson (2009) afirma que esta dimensão da prosperidade - relacionada à ampliação das capacidades, entretanto, também não pode ser ilimitada, e esta barreira está vinculada a dois fatores críticos: a finitude natural dos recursos ecológicos107 e a capacidade de viver bem pensando na escala global da população. Estas questões impõem uma reflexão importante sobre a avaliação da prosperidade apenas sob o ponto de vista isolado das condições materiais. Neste sentido, o autor afirma que a prosperidade deve abarcar as dimensões intrageracional e intergeracional. Novamente, a variável tempo importa.
Dentro desta questão do enfoque intergeracional, World Bank (2005) relembra o conceito de Poupanças Genuínas108. O termo, derivado dos trabalhos de Pearce e Atkinson (1993)109 e Hamilton (1994)110, pretende ajustar a Poupança Nacional Bruta contemplando aspectos do bem-estar social e ambiental. Poupanças genuínas negativas, neste sentido, indicam que a riqueza total está declinante e o sistema socioeconômico é insustentável. Tal indicador vem sendo utilizado pelo Banco Mundial como um contraponto à avaliação do desenvolvimento tradicional pelo PIB. A principal crítica em relação à avaliação da política macroeconômica através das Poupanças Genuínas é a sua relação com a chamada sustentabilidade fraca (DIETZ; NEUMAYER, 2004), que será objeto de exame no capítulo 4.
Por fim, Jackson (2009) assevera que o crescimento econômico nem sempre pode estar atrelado ao aumento da prosperidade, e que de várias maneiras pode diminuí-la. Da mesma forma, existe uma relação não linear quanto à criação de riqueza. Reforçando a hipótese que corre transversalmente por todo o trabalho, Beinhocker (2006) afirma que a teoria evolutiva e dos sistemas complexos, neste cenário, pode fornecer uma radical nova perspectiva sobre estas questões econômicas de longo prazo.
básicas.
105
Definido por Thirlwall (1999) como a percepção de respeito próprio e independência. 106
Thirlwall (1999) relaciona a liberdade com os conceitos de escolha, muito próximo ao proposto por Sen (2010).
107
No contexto deste trabalho, adotaremos sempre o termo capital natural para representar todo e qualquer bem ou ativo de origem ecossistêmica, que possui algum tipo de influência com o bem-estar. As definições, características e propriedades serão abordadas com maior detalhe no capítulo 3.
108
Genuine savings. 109
PEARCE, D. W. ATKINSON, G. Capital Theory and the Measurement of Sustainable Development: An Indicator of Weak Sustainability.” Ecological Economics 8 (2): 103–108. 1993.
110
Uma das implicações mais importantes do processo de crescimento econômico, e que se opõe ao aumento da prosperidade considerada por Jackson (2009), e da riqueza no sentido definido por World Bank (2005) é a sua relação com o chamado capital natural, objeto de discussão no capítulo que segue.