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Capítulo III “As atividades práticas-experimentais em ciências e as

2. Enquadramento teórico

2.2. Criança com necessidades educativas especiais

O tema da “diferença” é hoje muito abordado, sobretudo em meio escolar. As crianças podem ser diferentes em áreas que vão desde terem uma deficiência física ou mental, até excesso de peso, passando pela cor da pele, isto é, no fundo tudo o que possa sair das caraterísticas gerais do grupo e, consequentemente, da escola. Assim sendo, é na escola que se pode privilegiar a educação dos comportamentos sociais de aceitação dos outros, ditos “diferentes”.

Ser “diferente” não significa ser “deficiente”. Melhor, ter “diferenças” não significa ter “deficiências”. É necessário um esclarecimento acerca da utilização destas palavras. Por exemplo, uma criança vinda de Angola é considerada “diferente” visto possuir uma cultura diferente à dos restantes colegas da escola, contudo essa criança não tem “deficiência”, pois só por esse facto não possui qualquer tipo de deficiência física ou psíquica.

Considera-se criança com NEE, a criança que apresenta algum problema de aprendizagem no decorrer do seu processo de escolarização, o qual obriga a uma atenção específica e a maiores recursos educativos (Tavares, Pereira, Gomes, Monteiro & Gomes, 2007).

Segundo a UNESCO (1994) “a expressão „necessidades educativas especiais‟ refere-se a todas as crianças e jovens cujas carências se relacionem com defiências ou dificuldades escolares” (p.6). Em Portugal, a designação de NEE surgiu nos anos 60 do século passado. Até então, considerava-se que estas crianças não tinham direito a frequentar a escola.

Com a Declaração de Salamanca (1994), referida no DL nº 3/2008, de 7 de janeiro, passou-se a abranger todas as crianças cujas necessidades educativas se relacionem com deficiência ou dificuldades escolares. Assim, os estabelecimentos de educação e ensino passaram a integrar as crianças com NEE no mesmo grupo/turma de crianças sem NEE. O programa escolar é igual para todos, muito embora possam ter que existir algumas adaptações, e em último caso currículo específico. O objetivo que está na base destas mudanças prende-se com a promoção da escola inclusiva.

Diana Sofia Barroco Neves 56 Uma criança com NEE é, por vezes, vista pelos outros como menos inteligente, o que nem sempre pode corresponder à verdade. Algumas destas crianças são portadoras de capacidades extraordinárias e, como tal, é necessário ensinarmos às crianças ditas “normais” a aceitar e a integrar no seu grupo de brincadeiras meninos e meninas que possam ter alguma particularidade que os diferencie a nível afetivo, físico ou cognitivo.

Poderemos considerar dois tipos de crianças com NEE, por um lado, as crianças com NEE permanentes e, por outro lado, aquelas que precisam apenas de apoio muito direcionado, pontual e contextual.

A criança com NEE pode fazer aprendizagens, ainda que com outro ritmo. O contacto com esta criança permite desenvolver nas outras sentimentos de solidariedade, respeito e compreensão pela diferença, tornando-se assim um enriquecimento individual com perceção de diferentes realidades e formas de estar.

Estas crianças têm os mesmos direitos e deveres que qualquer outra, simplesmente têm capacidades e dificuldades específicas. Se a própria sociedade cria limitações a essas crianças, não é muito fácil a integração delas no meio, o que as torna ainda mais diferentes do que a própria diferença que as carateriza. Estas crianças, que um dia mais tarde serão jovens e posteriormente adultos, têm o direito a ser felizes, constituir família, tirar a carta de condução, arranjar um emprego, entre outras, dentro das suas necessidades e capacidades.

Algumas vezes, é a própria criança com NEE que inicia um processo de autoexclusão, que passa por evitar os momentos de brincadeira, ou apenas juntar-se a outras crianças que também não se sentem iguais aos demais colegas. Certo é que este comportamento resulta de uma autoestima baixa, muitas vezes motivada por mensagens transmitidas pela família e/ou pela sociedade. A família da criança com NEE deve assumir uma atitude desdramatizada face às dificuldades (cognitivas e/ou motoras) e procurar um meio de aceitação da “diferença” da criança, sem cair também na tentação de a superproteger.

A superproteção, em regra, fragiliza-nos e deixa-nos pouco preparados para a vida. Uma criança que possui uma caraterística que a torna diferente das demais, ao ser vítima de superproteção, irá tender a associar os dois fatores e a considerar-se incapaz para fazer uma vida autónoma. Na escola, por exemplo, colocar-se-á à margem dos colegas, não participando nos jogos de equipa, não indo a visitas de estudo, entre outros.

Ensinar à criança logo na educação pré-escolar a respeitar o próximo é um bom começo para que ela no futuro seja um adulto feliz e bem-sucedido na vida. “A escola é bem mais do que um local onde se aprende a ler e escrever. É, possivelmente, um local onde se aprende a viver, a participar com outros em actividades, a conhecer melhor a comunidade em que se está inserido, a conviver com pessoas diferentes” (Ladeira & Amaral, 1999, p.13).

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2.2.1. Educação inclusiva

A educação inclusiva, ou escola para todos, surgiu nos anos 70 do século XX. Esta defendia a prestação de serviços educacionais apropriados para todas as crianças com NEE e a igualdade nos objetivos educacionais e no plano de estudos, independentemente das diferenças de natureza física, psicológica, cognitiva ou social (Tavares et al., 2007).

Ao longo dos tempos, a inclusão escolar da criança com NEE tende a ganhar força, de forma a garantir a igualdade de acesso e sucesso educativos a todos os alunos. Esta mudança traduziu-se em práticas educativas mais humanistas e inclusivas, uma vez que houve alterações na forma de encarar a deficiência, no reconhecimento dos direitos de cidadania das pessoas com deficiências e no modo de ver essas pessoas em interação com o meio.

A inclusão escolar diz respeito ao ato de incluir a criança com NEE no estabelecimento de educação e ensino, e esta se sentir realmente incluída, participando e contribuindo com o seu potencial nos projetos e atividades da escola, sem passar por cima das suas dificuldades. A inclusão é o compromisso de produzir cultura, de compreender capacidades expressivas que não tinham sido previstas e realizar ações humanistas de acolher o outro sem preconceitos.

A inclusão define-se, segundo Ladeira e Amaral (1999) como um “processo que se desenrola ao longo da vida de um indivíduo, e que tem como objectivo a melhoria da sua qualidade de vida” (p.7). A inclusão consiste assim em promover a convivência dentro da diversidade humana.

Uma educação verdadeiramente inclusiva contempla as diferenças e as necessidades especiais das crianças sejam elas físicas, sociais, raciais, religiosas, familiares, económicas, culturais, entre outras. É fundamental que a escola e a socidade reconheçam a necessidade de se educarem a si mesmas para lidar com a diferença, antes de criarem técnicas, estratégias ou métodos.

A comunidade escolar é considerada inclusiva, quando é para todos, quando não faz distinção entre seres humanos, não seleciona ou diferencia com base em julgamentos de valores como “perfeitos e não perfeitos”, “normais e anormais”. Por outras palavras, a escola deve proporcionar a educação e o ensino de todos, de forma que qualquer criança tenha condições de conhecer, aprender, viver e ser, num ambiente livre e afetivo.

Os estabelecimentos de educação e ensino inclusivos devem ser abertos, eficientes, democráticos e solidários. Estes devem organizar o espaço físico em função das necessidades de todas as crianças. Por exemplo, devem existir corrimãos com apoio de madeira ou metal, rampas nos diferentes acessos de entrada e saída, casas de banho adaptadas, entre outros. Pois um dos objetivos do ensino básico é “assegurar às crianças com necessidades educativas

Diana Sofia Barroco Neves 58 específicas (…) condições adequadas ao seu desenvolvimento e pleno aproveitamento das suas capacidades” (Lei nº 49/2005, de 30 de agosto, art.7º, p.5126).

Os principais intervenientes da escola inclusiva são a família, a escola e a sociedade. É função dos pais participarem na vida escolar. Cabe a toda comunidade escolar, mas principalmente aos educadores/professores, apoiá-los no desempenho desta função. A mudança de atitudes dos docentes sobre a educação da criança com NEE é um passo para aumentar as oportunidades de inclusão.

A aceitação da criança com NEE, só acontecerá realmente quando toda a equipa que faz parte do funcionamento da escola, desde a direção até à assistente operacional, mudarem a sua atitude em relação ao lidar com a diferença, aceitando-a, estabelecendo novas formas de relação, de afectividade, de escuta e de compreensão, pondo de lado juízos de valores.

Um estabelecimento de educação e ensino que acredita no verdadeiro processo de inclusão deve promover atividades diárias onde as crianças cultivem o respeito, o amor, a cidadania, o cuidar de si e do outro, aceitação, companheirismo e tantos outros valores necessários à formação de um cidadão justo. Tais atividades devem envolver toda a comunidade escolar, num movimento de reflexão e troca de experiências entre as famílias, visando possíveis consciencializações em torno do processo de educar-se um filho para atuar numa sociedade inclusiva. Se a criança pequena souber respeitar e conviver com as diferenças, consequentemente será um agente de transformação, não somente no ambiente escolar, mas também numa sociedade inclusiva.

É importante refletir sobre o papel do educador no desenvolvimento e inclusão de crianças com NEE no grupo. Este não se pode esquecer do desenvolvimento, dos interesses, das necessidades e capacidades, e das aprendizagens de cada criança, de forma a alcançar resultados cada vez mais eficazes, uma vez que é função do docente dar a todas as crianças e jovens que frequentam o ensino idênticas oportunidades de desenvolverem as suas capacidades (Sim-Sim, Duarte & Ferraz, 1997).

Ladeira e Amaral (1999) sugerem algumas estratégias que promovem a inclusão, nomeadamente:

(i) Reorganização da sala de atividades – a sala deve ser reorganizada tendo em conta as necessidades das crianças e as estratégias de inclusão;

(ii) Continuidade – a continuidade é um fator chave na educação de crianças com NEE. Esta pode ser considerada sob três vertentes: continuidade de tarefas, continuidade nos processos de transição e continuidade fora dos tempos letivos;

Diana Sofia Barroco Neves 59 (iii) Preparação de atividades – as atividades devem ser programas de maneira a que todas as crianças possam participar. Na preparação das atividades deve-se ter em conta: definição de contextos, planificação da atividade e avaliação continua;

(iv) Aprendizagem entre pares – o trabalho de equipa é fundamental para o desenvolvimento e interação das crianças com NEE, mas também para as restantes crianças.

É preciso acentuar que a convivência com a diferença é benéfica para o crescimento social e emocional das crianças, dos jovens e dos adultos.

Ao incluirmos a criança com NEE em grupos/turmas regulares, estamos a ensinar a todas as crianças a aceitar as “diferenças”. Esse ensinamento vai ser ótimo para a vida. O sucesso do mundo de hoje, e amanhã, depende da capacidade que cada ser humano possui de entender, valorizar e trabalhar com outras pessoas, pois todos somos “diferentes”.

2.2.2. Educação especial

Segundo a LBSE (Lei nº 49/2005, de 30 de agosto, art.19º) a educação especial constitui uma das modalidades especiais de educação escolar, regendo-se por disposições especiais. Esta pretende a recuperação e a integração sócioeducativas das crianças com necessidades educativas específicas devidas a deficiências físicas e mentais. São objetivos desta modalidade: desenvolver potencialidades físicas e intelectuais; ajudar na aquisição da estabilidade emocional; desenvolver possibilidades de comunicação; reduzir limitações provocadas pela deficiência; apoiar na inserção familiar, escolar e social de crianças e jovens deficientes; desenvolver a independência/autonomia; e preparar para a formação profissional e integração na vida ativa.

De acordo com o DL nº 3/2008, de 7 de janeiro, todos os alunos têm necessidades educativas. Contudo, existem casos, em que as necessidades se revestem em contornos muito específicos, exigindo a ativação de apoios especializados. Os apoios especializados pretendem responder às NEE da criança com limitações significativas ao nível da atividade e participação, resultando em dificuldades continuadas ao nível da comunicação, da aprendizagem, da mobilidade, da autonomia, do relacionamento interpessoal e da participação social.

É imprescindível a intervenção de especialistas, nomeadamente professores de apoio de educação especial, na escola. A estes intervenientes no processo de ensino e aprendizagem são- lhes atribuídas as seguintes funções: assumir o papel de mediadores de ensino; intervir nas atividades; trabalhar diretamente com a criança com NEE no grupo; e, colaborar com o docente do ensino regular de forma a aumentar as competências da criança com NEE.

Diana Sofia Barroco Neves 60 Com a necessidade de dar resposta a preocupações levantadas na identificação de grupos-alvo no âmbito da educação especial, foi criada em 2003 a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Segundo este documento, se tratarmos as pessoas de forma diferente e as educarmos num sistema paralelo, elas desenvolver-se-ão, também, de forma diferente, nunca se integrando completamente na sociedade. Algumas instituições que existem para responder às NEE são, por vezes, as responsáveis pela criação da incapacidade.

A utilização da CIF nos estabelecimentos de educação e ensino tem permitido uma avaliação individual multidisciplinar necessária à monitorização do progresso das crianças em função do currículo educativo.

A educação especial necessita de uma mudança radical. O objetivo principal a atingir será centrar-se no sistema regular de ensino, assente na ideia de que as diferenças individuais não trazem desvantagens para a aprendizagem do aluno.

Uma abordagem inclusiva requer mudanças no sistema e implementação de respostas para os alunos com NEE e não a adaptação dos alunos ao sistema educativo atual. Não se devem rotular crianças, como tal é necessário construir meios alternativos para oferecer serviços aos que mais deles necessitam.

A uma criança com NEE é-lhe passada uma declaração de necessidades que especifica o apoio e intervenções requeridos e, nesta base, é desenvolvido um Programa Educativo Individual (PEI), através de uma equipa multidisciplinar que responde às necessidades educativas, sociais e de saúde do aluno.

O PEI é um documento dinâmico que garante a igualdade educativa; descreve o perfil de funcionalidade e estabelece as respostas educativas específicas requeridas; e responsabiliza a escola e família pela implementação de medidas educativas.