A CRIANÇA NO AMBIENTE DIGITAL
2.3. Internet das Coisas (Internet of Things – IoT)
2.3.2. A criança e a Internet das Coisas
A IoT, a exemplo do que acontece com a IA, relaciona-se com as crianças em todas as aplicações que, de alguma forma, impactem suas vidas. Por exemplo, se houver uma melhoria dos processos na agricultura, com redução de gasto de energia, maior sustentabilidade, menos utilização de agrotóxicos, maior qualidade dos alimentos e melhor distribuição, que impacte na diminuição dos preços, as famílias das crianças e, por consequência, elas próprias, serão beneficiadas.
De qualquer forma, atualmente, há diversos objetos embarcados com a tecnologia da IoT, específicos para crianças, ou seja, feitos pensados nelas – ainda que
275 POSTCAPES. Internet of Things (IoT) history: A closer look at who coined the term and the background evolution into today´s trending topic. Postcapes, 2019. Disponível em:
https://www.postscapes.com/iot-history/ (Acesso em: 27 Fev. 2022).
276 MEIRA, Silvio. Sinais do futuro imediato, #1: Internet das coisas. 2016. Disponível em:
https://silvio.meira.com/silvio/sinais-do-futuro-imediato-1-internet-das-coisas/ (Acesso em: 23 Abr.
2021).
277 MARKOFF, John. Entrepreneurs see a web guided by common sense. The New York Times, 2006.
Disponível em: https://www.nytimes.com/2006/11/12/business/12web.html (Acesso em: 23 Abr.
2021).
não, necessariamente, no seu melhor interesse –, como é o caso dos brinquedos conectados (Internet of Toys – IoToys) e dos assistentes pessoais infantis278.
O universo emergente dos brinquedos conectados compreende um conjunto de brinquedos habilitados para software que (i) são conectados a plataformas online por meio de WiFi ou Bluetooth, mas, também, potencialmente, a outros brinquedos;
(ii) são equipados com sensores; e (iii) fazem conexões customizadas para cada criança.279
São brinquedos que incorporam tecnologias da Internet que respondem e interagem com as crianças. Costumam usar tecnologias sofisticadas baseadas em sensores para coletar informações das crianças por meio de interações e plataformas baseadas em nuvens para processar as informações coletadas, em tempo real. Esse processamento baseado em nuvem depende de algoritmos sofisticados, que se valem de IA, e podem fornecer soluções mais personalizadas ou respostas individualizadas às crianças. Podem ser equipados com câmera, reconhecimento de voz ou podem ser controlados remotamente por meio de smartphones ou tablets conectados à Internet.280 Alguns exemplos de brinquedos conectados são as bonecas Hello Barbie e Cayla; os bonecos i-Que Robot281 e Vai Kai282; diversos games283 e robôs284.
278 O Information Commissioner´s Office (ICO) do Reino Unido assim define brinquedos e assistentes pessoais conectados: “These are children’s toys and other devices which are connected to the internet.
They are physical products which are supported by functionality provided through an internet connection. For example: (i) a talking teddy bear with a microphone that records what the child is saying and then sends this data back to your servers so that you can use it to personalise the teddy bear’s responses; (ii) a fitness band that records the child’s level of physical activity and then transmits this back to your servers so the child can then access activity reports via a fitness app; or (iii) a ‘home hub’
interactive speaker device that provides internet based services via a voice recognition service.”.
INFORMATION COMMISSIONER´S OFFICE (ICO). Age appropriate design code (Children´s Code).
Disponível em: https://ico.org.uk/for-organisations/guide-to-data-protection/ico-codes-of-practic[…]-of-practice-for-online-services/14-connected-toys-and-devices/ (Acesso em: 28 Fev. 2022).
279 MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell; KUPIAINEN, Reijo. Introduction. In MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell (editores). The Internet of Toys: A report on media and social discourses around young children and IoToys. DigiLiEY, 2017, p. 5. Disponível em:
https://sites.google.com/sheffield.ac.uk/digilitey/publications/digilitey-publications (Acesso em: 2 Mar. 2022).
280 MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell; KUPIAINEN, Reijo. Introduction. In MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell (editores). The Internet of Toys: A report on media and social discourses around young children and IoToys. DigiLiEY, 2017, p. 5. Disponível em:
https://sites.google.com/sheffield.ac.uk/digilitey/publications/digilitey-publications (Acesso em: 2 Mar. 2022).
281 GENESIS TOYS. I-Que. Disponível em: https://www.genesis-toys.com/ique-intelligent-robot (Acesso em: 26 Abr. 2021).
282 VAI KAI. Vai kai. Disponível em: http://vaikai.de/ (Acesso em: 26 Abr. 2021).
Podem ou não ser considerados brinquedos inteligentes (smart toys).
Brinquedos inteligentes podem englobar não somente brinquedos conectados, mas também brinquedos convencionais, desde que usem tecnologia para interagir com as crianças, como foram os seus primeiros exemplares: o Tamagotchi (1996) e o Furby (1997). Da mesma forma que um brinquedo inteligente não precisa ser conectado à Internet, um brinquedo conectado não é, obrigatoriamente, inteligente.285
Por serem equipados com sensores, os brinquedos conectados possuem novas habilidades, expressas em novas formas de comunicação. Podem reagir a vários estímulos físicos (sons, imagens, toques, movimentos), acompanhar o comportamento infantil, seus dados biométricos, medir o ambiente circundante, interagir de forma personalizada e produzir informações que circulam por meio de redes, para análises e interpretações. Podem ser considerados novas formas de mídia e meios de comunicação que mediam o mundo privado das residências com a esfera pública.286
Ao redor do mundo – em especial nos países do norte global onde são mais populares – os brinquedos conectados têm suscitado uma série de questionamentos relacionados a direitos humanos de crianças, na medida em que podem ocasionar danos advindos dos vários riscos que envolvem e que são, em grande medida, desconhecidos da população287. Entre outros, trata-se de riscos à privacidade288 e
283 SCHOER, Alyssa. 7 AI game companies introducing us to the future of entertainment. Built In, 2021.
Disponível em: https://builtin.com/artificial-intelligence/ai-games (Acesso em 26 Abr. 2021).
284 FREEMAN-MILLS, Max. Best tech toys 2022: Connected toys, robots and more. Pocket-lint, 2021.
Disponível em: https://www.pocket-lint.com/parenting/buyers-guides/142793-best-tech-toys-connected-toys-robots-and-more (Acesso em: 26 Abr. 2021).
285 MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell; KUPIAINEN, Reijo. Introduction. In MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell (editores). The Internet of Toys: A report on media and social discourses around young children and IoToys. DigiLiEY, 2017, p. 5. Disponível em:
https://sites.google.com/sheffield.ac.uk/digilitey/publications/digilitey-publications (Acesso em: 2 Mar. 2022).
286 MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell. Introducing the Internet of Toys. In MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell (editores). The Internet of Toys: Practices, affordances and the political economy of children´s smart play. Cham: Palgrave Macmillan, 2019, pp. 2-6.
287 “Unfortunately, children and their parents are often unaware of SCTs’ far-reaching capacities and limitations (Moini 2016; Albuquerque et al. 2020). SCTs’ capabilities and constraints can lead to serious side effects at the technical, individual, and societal levels such as the potential exacerbation of inherent biases for gender stereotyping, dependency, or the creation of new forms of play that blur the lines between the tangible and intangible reality.” FOSCH-VILLARONGA, Eduard; VAN DER HOF, Simone;
LUTZ, Christoph; TAMÒ-LARRIEUX, Aurelia. Toy story or children story? Putting children and their rights at the forefront of the artificial intelligence revolution. AI & Society, 2021. Disponível em:
https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-021-01295-w (Acesso em: 18 Jun. 2022).
também acerca de discussões éticas e legais sobre, por exemplo, a responsabilidade das empresas quanto ao dever de reportarem informações sensíveis, tais quais, indicações de abuso infantil ou pensamentos suicidas, que tenham sido compartilhadas pela criança com o brinquedo e armazenadas online.289
Em que pese a Alemanha ter proibido a boneca Cayla no país, sob a justificativa de violação da lei de espionagem290, os riscos à segurança de brinquedos conectados estão relacionados a vulnerabilidades de software, que permitem ser hackeados por terceiros mal-intencionados. Até porque é comum que tais brinquedos tenham capacidade de filmar ou gravar as conversas das crianças e de saber a sua exata localização – informações que podem gerar danos efetivos se forem captadas em máquinas acessadas por pessoas que as coloquem em risco.
A título de exemplo, vale citar o incidente de segurança da empresa estadunidense CloudPets, fabricante de bichos de pelúcia conectados à Internet, que deixou públicos cerca de 2 milhões de gravações de voz de mães, pais, responsáveis e crianças, além de 800 mil dados de cadastro de seus clientes291, em fevereiro de 2017.
Incidente semelhante, deu-se em novembro de 2014, quando a central de armazenamento da fabricante de dispositivos digitais voltados a crianças292, VTech,
288 “The rise of artificial intelligence — and especially machine learning — and its use in toys and home devices raises concerns that the data collected by these devices and toys may impede on children’s right to privacy. Children today are far more receptive to adopting and using new technologies than previous generations and express little to no concern about the privacy implications associated with using new technologies and devices. They seem to be open to trading their privacy in return for gaining access to social media and other online services. Companies may take advantage of this by directly marketing to and targeting children from a young age.” UC BERKELEY HUMAN RIGHTS CENTER RESEARCH TEAM.
Memorandum on Artificial Intelligence and child rights. Califórnia: Human Rights Center, UC Berkeley
School of Law, 2019, p. 50. Disponível em:
https://www.unicef.org/innovation/sites/unicef.org.innovation/files/2019-05/MEMORANDUM%20AI%20AND%20CHILDREN%2527S%20RIGHTS%20FINAL%20APRIL%2030
%202019%20%281%29_0.pdf (Acesso em: 2 Mar. 2022).
289 UNITED NATIONS CHILDREN´S FUND (UNICEF); UC BERKELEY HUMAN RIGHTS CENTER RESEARCH TEAM. Executive Summary: Artificial Intelligence and Children´s Rights. Disponível em:
https://www.unicef.org/innovation/media/10726/file/Executive%20Summary:%20Memorandum%
20on%20Artificial%20Intelligence%20and%20Child%20Rights.pdf (Acesso em: 2 Mar. 2022).
290 BBC. German parents told to destroy Cayla dolls over hacking fears. BBC, 2017. Disponível em:
https://www.bbc.com/news/world-europe-39002142 (Acesso em: 24 Jul. 2020).
291 FRANCESCHI-BICCHIERAI, Lorenzo. Internet of Things teddy bear leaked 2 million parent and kids message recordings. Motherboard – Tech by Vice, 2017. Disponível em:
https://motherboard.vice.com/en_us/article/pgwean/internet-of-things-teddy-bear-leaked-2-million-parent-and-kids-message-recordings (Acesso em: 1 Mar. 2022).
292 BARRETT, Brian. Hack brief: Hacker strikes kids' gadget maker VTech to steal 5 million accounts.
Wired, 2015. Disponível em: https://www.wired.com/2015/11/vtech-childrens-gadget-maker-hack-5-million-accounts/ (Acesso em: 1 Mar. 2022).
foi hackeada e os dados de 5 milhões de indivíduos foram expostos – inclusive selfies de crianças –, motivando a Federal Trade Commission (FTC) a multar a empresa, em janeiro de 2018, em 650mil dólares, pela coleta de dados de crianças sem autorização prévia dos responsáveis legais e por falhar ao tomar medidas preventivas de segurança da informação293.
Outro caso controverso acerca do uso de IA embarcada em coisas, por meio da IoT, dá-se pela interação de crianças com robôs294 que se valem de reconhecimento facial e de voz. Podem ser utilizados para fins educacionais ou como brinquedos.
Também nesse caso há riscos relacionados à segurança e à privacidade e proteção dos dados das crianças. Ademais, podem vir a desafiar a noção de agência nas brincadeiras infantis, visto que, cada vez mais, os robôs têm sido capazes de aprender e modificar suas interações para atender aos desejos da criança usuária.295
Da mesma forma, os assistentes pessoais importam riscos às crianças, ainda que, muitas vezes, à primeira vista, pareçam inofensivos. Nesse sentido, em 2018, especialistas e defensores de direitos296 alertaram mães, pais e responsáveis legais de crianças, nos Estados Unidos, para as deixarem longe de assistentes pessoais desenvolvidos para o público infantil, pelo potencial de normalizarem a sua vigilância297 e, com isso, terem prejudicado o seu desenvolvimento cognitivo infantil.
293 FEDERAL TRADE COMMISSION (FTC). Electronic toy maker VTech settles FTC allegations that it violated children’s privacy law and the FTC Act. Disponível em: https://www.ftc.gov/news-events/press-releases/2018/01/electronic-toy-maker-vtech-settles-ftc-allegations-it-violated (Acesso em: 1 Mar. 2021).
294 “O termo ‘robô’ advém da palavra checa robota, que significa servo ou trabalhador forçado.
Portanto, é interessante notar que, na gênese do termo, há uma forte vinculação da ideia de robô como um servo moderno da humanidade. (...) A palavra robô pode se referir tanto a robôs físicos quanto a agentes virtuais de software, mas os últimos geralmente são chamados de bots (diminuitivo de robots), também conhecidos na internet como bots ou web robots, consistindo geralmente em uma aplicação de software voltada a simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão. Aqui, especificamente, nos importam mais o conteúdo e o poder de agência/ influência do que a forma de manifestação.”
MAGRANI, Eduardo. Entre dados e robôs: Ética e privacidade na era da hiperconectividade. Nota de rodapé 34. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2019, pp. 29 a 31.
295MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell; KUPIAINEN, Reijo. Introduction. In MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell (editores). The Internet of Toys: A report on media and social discourses around young children and IoToys. DigiLiEY, 2017, p. 8. Disponível em:
https://sites.google.com/sheffield.ac.uk/digilitey/publications/digilitey-publications (Acesso em: 2 Mar. 2022).
296 CCFC. Advocates demand FTC investigation of Echo Dot Kids edition. CCFC, 2019. Disponível em:
https://commercialfreechildhood.org/advocates-demand-ftc-investigation-echo-dot-kids-edition/
(Acesso em 24 Jul. 2020).
297 BIONI, Bruno Ricardo. Proteção de dados pessoais: A função e os limites do consentimento. 3a Reimpressão. Rio de Janeiro: Forense, 2019, p. 142.
Um dos principais motivos citados foi o fato de tais dispositivos serem orientados para promover o consumo de marcas e produtos variados diretamente às crianças. Outra razão mencionada dizia respeito à alegação de os assistentes pessoais facilitarem a substituição das interações com outras crianças e com a própria família ou excluírem trocas afetivas divergentes da vida das crianças – absolutamente essenciais para a construção de pessoas empáticas e saudáveis do ponto de vista emocional298. Tudo isso, para além da óbvia constatação de que crianças, quanto mais novas forem, não compreendem a complexa teia da coleta de seus dados299300.
Além dos riscos interpessoais, como se nota, os brinquedos conectados e os assistentes pessoais utilizados pelo público infantojuvenil, também apresentam riscos relacionados à privacidade de dados das crianças301, diante da capacidade que
298 “These robots can’t be in a two-way relationship with a child. They are machines whose art is to put children in a position of pretend empathy. And if we put our children in that position, we shouldn’t expect them to understand what empathy is. If we give them pretend relationships, we shouldn’t expect them to learn how real relationships — messy relationships — work. On the contrary. They will learn something superficial and inauthentic, but mistake it for real connection.” TURKLE, Sherry. Why these friendly robots can’t be good friends to our kids. The Washington Post, 2017. Disponível em:
https://www.washingtonpost.com/outlook/why-these-friendly-robots-cant-be-good-friends-to[…]017/12/07/bce1eaea-d54f-11e7-b62d-d9345ced896d_story.html (Acesso em: 18 Jun. 2022).
299 “Almost a third (29%) of children aged eight to 13 have given out personal details to people they´ve met online, accordind to new research.” O2. Children as young as eight giving out their personal details to people they meet online. O2, 2019. Disponível em: https://news.o2.co.uk/press-release/children-as-young-as-eight-giving-out-their-personal-details-to-people-they-meet-online/ (Acesso em: 28 Fev.
2022).
300 “According to the CCFC’s Executive Director Josh Golin, ´Amazon wants kids to be dependent on its data-gathering device from the moment they wake up until they go to bed at night. … AI devices raise a host of privacy concerns and interfere with the face-to-face interactions and self-driven play that children need to thrive.´ Jeff Chester, executive director of the Center for Digital Democracy, which co-signed the statement, added his concerns:
´Commercially-produced voice-recognition technologies, such as Amazon Echo, are primarily designed to promote products and brands. Amazon is acting irresponsibly by urging parents to unleash an AI-driven Alexa product into their children’s lives, without first ensuring that it will not harm their cognitive and emotional development. Echo Dot Kids is designed to encourage children to give up their personal information so it can drive even more revenues for the E-Commerce colossus´.” BIDDLE, Sam.
Experts say keep Amazon´s Alexa away from your kids: Citing professor, pediatricians and others, critics say the listening device could stunt development and normalize surveillance. The Intercept, 2018. Disponível em: https://theintercept.com/2018/05/11/experts-say-keep-amazons-alexa-away-from-your-kids/ (Acesso em: 23 Abr. 2021).
301 “The interaction of children with IoToys, therefore, representes a further step towards the datafication of childhood, along with other data-inducing practices (such as baby wearables and school analytics).”
MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell; KUPIAINEN, Reijo. Introduction. In MASCHERONI, Giovanna; HOLLOWAY, Donell (editores). The Internet of Toys: A report on media and social discourses around young children and IoToys. DigiLiEY, 2017, p. 7 Disponível em:
https://sites.google.com/sheffield.ac.uk/digilitey/publications/digilitey-publications (Acesso em: 2 Mar. 2022).
possuem de ampla coleta de dados302 e também da consequente divulgação de publicidade comercial, e por vezes, comportamental303, direcionada às crianças304, que acabam por promover um brincar permeado pela exploração comercial e mercantilização da identidade das próprias crianças305.
A esse respeito, campanha da organização britânica 5Rights Foundation, intitulada Twisted-Toys, tem alertado famílias e crianças, também por meio de vídeos ilustrativos repletos de ironias306. Já, o Federal Bureau of Investigation (FBI), dos Estados Unidos – baseado na premissa de que o vazamento e o acesso não autorizado aos dados de crianças pode criar oportunidades para fraudes de identidade infantojuvenil e colocar sua segurança em risco –, em 2017, divulgou alerta com recomendações para as famílias interessadas em consumir brinquedos conectados307.
É importante destacar que, inobstante a existência dos referidos riscos, os brinquedos conectados também possuem a capacidade de gerar diversos benefícios às crianças, se forem garantidas oportunidades para que desenvolvam suas habilidades digitais e criatividade, bem como o apetite por mais aprendizado.
302 TOWNSEND, Matt. Críticos da Hello Barbie usam boneca da Mattel para tratar luta pela privacidade.
UOL - Bloomberg, 2015. Disponível em:
https://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2015/03/25/criticos-da-hello-barbie-usam-boneca-da-mattel-para-travar-luta-pela-privacidade.htm (Acesso em: 24 Jul. 2020).
303 “In the words of a Chief Data Scientist for a major technology company, “[t]he goal of everything we do is to change people’s actual behaviour at scale. When people use our app, we can capture their behaviours, identify good and bad behaviours, and develop ways to reward the good and punish the bad.
We can test how actionable our cues are for them and how profitable for us.” UNITED NATIONS CHILDREN´S FUND (UNICEF). Discussion paper series: Children´s rights and business in a digital world. Privacy, protection of personal information and reputation. Nova Iorque: Unicef – Better
business for children, 2017, p. 11. Disponível em:
https://sites.unicef.org/csr/css/UNICEF_CRB_Digital_World_Series_PRIVACY.pdf (Acesso em: 7 Mai.
2021), citando ZUBOFF, Shoshana. The secrets of surveillance capitalism. Frankfurter Allgemeine Zeitung, 2016. Disponível em: https://www.faz.net/aktuell/feuilleton/debatten/the-digital-
debate/shoshana-zuboff-secrets-of-surveillance-capitalism-14103616-p2.html?printPagedArticle=true (Acesso em: 7 Mai. 2021).
304 CCFC. Child advocates mobilize to stop Mattel´s Eavesdropping ´Hello Barbie´. CCFC, 2015.
Disponível em: https://commercialfreechildhood.org/child-advocates-mobilize-stop-mattels-eavesdropping-hello-barbie/ (Acesso em: 24 Jul. 2020).
305 FOSCH-VILLARONGA, Eduard; VAN DER HOF, Simone; LUTZ, Christoph; TAMÒ-LARRIEUX, Aurelia.
Toy story or children story? Putting children and their rights at the forefront of the artificial intelligence revolution. AI & Society, 2021. Disponível em:
https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-021-01295-w (Acesso em: 18 Jun. 2022).
306 5RIGHTS FOUNDATION. Twisted Toys. Londres: 5Rights Foundation. Disponível em:
https://twisted-toys.com/br/(Acesso em: 28 Fev. 2022).
307 FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION (FBI). Public servisse announcement. Consumer notice:
Internet-connected toys could presente privacy and contact concerns for children. FBI, 2017.
Disponível em: http://www.ic3.gov/media/2017/170717.aspx (Acesso em: 1 Mar. 2022).
Pesquisas demonstram, nesse sentido, que brinquedos conectados podem melhorar a sociabilidade, o jogo colaborativo e até mesmo atividades físicas.308 Novas oportunidades de brincar e aprender podem surgir com os brinquedos conectados porque essa nova categoria de brinquedos tem o potencial de modificar a forma como as crianças constituem conhecimento e valores, especialmente quando possuem características antropomórficas309.
Muitos desses brinquedos ainda não desembarcaram no Brasil e outros, ainda que possam ser encontrados, não desfrutam a mesma popularidade que possuem em países do norte global. Tal qual ocorreu com as três revoluções industriais anteriores, que tiveram início nos países do norte global e chegaram com atraso no Brasil, a chamada quarta revolução industrial310 ainda está a caminho no país, mesmo que uma de suas características, juntamente com a amplitude, a profundidade e o impacto sistêmico, seja a velocidade! Caracterizada por uma Internet ubíqua e móvel, por sensores e dispositivos cada vez mais acessíveis e menores, bem como pelo desenvolvimento da IA e aprendizagem automática311312, é questão de tempo que aporte em território nacional313.
308 GILCHRIST, Kate. Early learners: Digital media and learning in the lives of under-eights. LSE Blogs:
Parenting 4 Digital Future, 2020. Disponível em:
https://blogs.lse.ac.uk/parenting4digitalfuture/2020/03/11/early-learners-digital-media-and-learning-in-the-lives-of-under-eights/ (Acesso em: 1 Mar. 2022).
309 “By accepting a new category of relationship, with entities that they recognize as ‘sort-of-alive’, or
‘alive in a different, but legitimate way’, today’s children will redefine the scope and shape of the playing field for social relations in the future. Because they are the first generation to grow up with this new paradigm, it is essential that we observe and document their experiences.” TURKLE, Sherry. The third culture. Apud FOSCH-VILLARONGA, Eduard; VAN DER HOF, Simone; LUTZ, Christoph; TAMÒ-LARRIEUX, Aurelia. Toy story or children story? Putting children and their rights at the forefront of the artificial intelligence revolution. AI & Society, 2021. Disponível em:
https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-021-01295-w (Acesso em: 18 Jun. 2022).
310 SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo:
Edipro, 2016.
311 MAGRANI, Eduardo. A Internet das coisas. 1a Reimpressão. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2018, p. 79.
312“A quarta revolução industrial, no entanto, não diz respeito apenas a sistemas e máquinas inteligentes e conectadas. Seu escopo é muito mais amplo. Ondas de novas descobertas ocorrem simultaneamente em áreas que vão desde o sequenciamento genético até a nanotecnologia, das energias renováveis à computação quântica. O que torna a quarta revolução industrial fundamentalmente diferente das anteriores é a fusão dessas tecnologias e a interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos.” SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 2016, p. 19.
313SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo:
Edipro, 2016, p. 54.