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Criança/jovem: os conceitos do risco ao perigo

No documento Tese final PDF (páginas 48-52)

Capítulo II Família, Risco e Intervenção 2.1 Família

2.4. Criança/jovem: os conceitos do risco ao perigo

A ideia de risco não se circunscreve a um conjunto de áreas ou disciplinas específicas do viver. Atravessa todas as dimensões da existência, abrangendo vários domínios ⎯ como o económico e financeiro e o médico, o desportivo e o rodoviário, o psicológico e o social (Martins, 2004).

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O conceito de famílias em risco pretende assinalar a vulnerabilidade desenvolvimental sentida pela famílias, por um período alargado de tempo ou não, que as incapacita de responder às necessidades pessoais, sociais e afetivas dos elementos que as constituem, pelo que é necessário dar especial atenção ao bem-estar da(s) criança(s), salvaguardando a sua integridade física e psíquica. Desta vulnerabilidade familiar resultam práticas educativas, muitas vezes, desajustadas (Rodrigo, Máiquez, Correa, Martín & Rodríguez, 2006).

Nesta eminente vulnerabilidade do ser humano, a criança é o ser mais propício e vulnerável a ser alvo de risco devido à sua fragilidade de ser em crescimento e desenvolvimento, devido ao facto de ser dependente e indefesa. Atualmente, quando existe investigação sobre as crianças em risco, há uma maior tendência para estudar e tratar o assunto de uma maneira mais compartimentada, onde são destacados diversos grupos e diversas temáticas que podem potenciar o risco. Contudo, é certo que diversos problemas que surgem na infância colocam o sujeito numa situação vulnerável e num risco sério de comprometer o seu desenvolvimento e funcionamento futuro (Fonseca, 2004).

Os conceitos do risco quando aplicados à área da proteção da criança têm apresentado alguma ambiguidade, sendo o conceito amplo e abrangente. As situações de risco implicam a probabilidade ou previsão de ocorrência de dano para a criança, de situações que colocam em perigo a sua a integridade física e psicológica, da ocorrência de maus tratos futuros, ou do risco de retirada do seu ambiente familiar (Little, Axford & Morpeth, 2004). Nesta investigação em particular, a ideia de risco está presente, contudo esse mesmo risco evoluiu para situações de perigo, em que as crianças foram colocadas em perigo quando o seu meio familiar não constitui um contexto favorável ao seu desenvolvimento, podendo comprometer a sua integridade física e psicológica.

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Em Portugal, juridicamente, o conceito de risco distingue-se do conceito de perigo, sendo que o conceito de perigo vem contemplado e tipificado na LPCJP (artigo 3.º,nº1), o que não se verifica com o conceito de risco. Segundo Penha (1996, p.11), pode considerar-se uma criança em risco “a criança que pelas suas características biológicas e ou pelas características da sua família está sujeita a elevadas probabilidades de vir a sofrer omissões e privações que comprometam a satisfação das suas necessidades básicas de natureza material ou afetiva”. Por outras palavras, enquanto numa situação de perigo a criança enfrenta situações que, no imediato, ameaçam a sua integridade física e psicológica, numa situação de risco, o dano é menos imediato, embora provável de se vir a desenvolver no futuro, podendo também falar-se de risco para a exposição ao perigo, por exemplo, risco de maltrato. Importa salientar que quantos mais fatores de risco implícitos, maior a probabilidade de acontecer algo prejudicial para a criança (Melo, 2011).

Ambos os conceitos reúnem distintas condições de legitimidade e de atuação, dado que as de risco referem-se a um perigo apenas potencial para a efetivação dos direitos da criança, enquanto as de perigo legitimam qualquer nível de intervenção.

Este conceito que deve ter em conta a pluralidade e diversidade das necessidades físicas, psicológicas e sociais das crianças ao longo dos seus estádios de desenvolvimento, tem também uma função de sinalização que deve funcionar como forma de prevenção. Em alguns casos, quando as situações de risco não são sinalizadas e quando existe uma evolução negativa dos contextos de risco, poderão surgir as situações de perigo (Direcção Geral da Saúde, I.P., 2008; Instituto da Segurança Social, I.P., 2011).

Assim sendo, torna-se difícil definir fronteiras muito nítidas entre criança em risco ou criança em perigo, não só porque a natureza dos riscos é variada, mas também

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porque o risco situa-se exatamente na fronteira entre a forte probabilidade de vir a acontecer e o acontecer concretamente (Direcção Geral da Saúde, I.P., 2008). Em título de exemplo, Fonseca (2004) refere que as crianças que ao longo da sua infância estão expostas a um ambiente de violência, no futuro poderão vir a repetir esses mesmos comportamentos. O mesmo autor acrescenta que os indivíduos que possam estar eventualmente em risco em determinado domínio (e.g. maus tratos) poderão ser mais suscetíveis de estar em riscos noutros domínios (e.g. abandono escolar, distúrbios emocionais). Nesta linha de pensamento, as crianças e/ou jovens que possam neste momentos estar em risco, no futuro, poderão ter mais dificuldades em inserir-se na sociedade e também poderão apresentar mais resistência a qualquer eventual intervenção a que possam ser sujeitos. Assim, importa salientar que as situações de risco não podem ser vistas e entendidas apenas pelo seio familiar, mas por um todo, e ter em conta todos os fatores subjacentes que podem potenciar as situações de risco.

Quando existem situações de risco relacionadas com o maltrato torna-se extremamente difícil delimitar essas mesmas situações, uma vez que existem variadas formas de maltratar.

A situação de maus tratos pode ser caracterizada como qualquer ato de tratamento físico e(ou) emocional, intencional e inadequado, provocado por disfunções e/ou carências nas interações entre crianças e adultos, num contexto de uma relação de responsabilidade, confiança e/ou poder. Esses mesmos atos podem manifestar-se através de comportamentos violentos, que podem ser de carácter passivo (como é o caso da negligência e do abandono) ou ativo (através do abuso físico, psicológico e sexual) (Magalhães, 2005). No caso dos comportamentos ativos está implícito o recurso à força física, emocional ou sexual e que pela sua intensidade provocam marcas nas crianças. Já os comportamentos passivos incluem todo o tipo de comportamento negligente ou

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omisso referente aos cuidados básicos e aos afetos das crianças que estão inseridas no contexto familiar. Torna-se relevante salientar que da pesquisa subjacente, a negligência é a forma de maltrato mais frequente, ficando comprometidas as funções parentais para assegurar a proteção, educação e criação dos filhos. Todas estas situações de risco colocam a criança numa possível privação dos seus direitos e liberdades contribuindo negativamente no seu desenvolvimento biopsicossocial e a sua dignidade (Alberto, 2010; Hildyard & Wolf, 2002; Instituto da Segurança Social, I.P., 2011; Magalhães, 2005).

As questões que abarcam o risco e a proteção das crianças são de difícil teorização e operacionalização, dada a inexistência de um padrão universalmente aceite no trato e na educação de um filho. São inúmeros os casos em que as situações de risco passam rapidamente para situações de perigo. É fundamental, por parte do profissional fazer uma avaliação acertada e exaustiva (quando possível) para que intervenha o mais rapidamente possível. Estas situações devem ser objeto de uma intervenção adequada por parte do sistema de proteção à infância sempre que signifique risco para as mesmas.

No documento Tese final PDF (páginas 48-52)