3 Enquadramento teórico à prática profissional
3.2 Crianças com Dificuldades Intelectuais e Desenvolvimentais
Desenvolvimentais
Antes de partir para a especificação das crianças com DID, interessa fazer uma breve contextualização do que é o constructo de DID. Assim sendo, “A Dificuldade Intelectual é caracterizada por limitações significativas no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, expressado em competências conceptuais, sociais e práticas. Esta dificuldade tem de surgir antes dos 18 anos” (Schalock et al., 2010, p.1).
O funcionamento intelectual engloba todos os aspetos da vida mental, estando ligado a funções como o raciocínio e a aprendizagem. Pode ser averiguado através de um teste de QI, onde uma pontuação baixo de 75 indica alterações. Por outro lado, o comportamento adaptativo é uma miríade de competências aprendidas e postas em prática no dia-a-dia, onde se destacam exemplos como as Atividades de Vida Diária, a noção de tempo, linguagem, competências de relacionamento interpessoal, competências ocupacionais, entre outras. De referir que também existem testes padronizados que podem aferir as competências do comportamento adaptativo (American Association on Intellectual and Developmental Disabilities [AAIDD], s.d.).
Feita esta pequena introdução sobre o que é a DID de um modo mais geral, importa reportar-nos às crianças com DID, visto ter sido a população com que o estagiário interveio. Posto isto, serão apresentadas algumas características destas crianças que têm relevância, pois fundamentam a intervenção realizada e ajudam a compreender algumas das suas limitações e seu funcionamento de um modo geral.
Conforme a literatura analisada, as crianças com DID, quando comparadas com crianças sem qualquer condição, evidenciam um desempenho motor em vários domínios mais baixo (Frey e Chow, 2006; Geshoski, 2015; Houwen, Visser, Putten e Vlaskamp, 2016). Geshoski (2015) observou que as crianças com DID demonstram parâmetros biofísicos mais baixos, nomeadamente no que respeita ao peso, à altura, a várias mensurações corporais e ao índice de massa corporal. Segundo Frey e Chow (2006) este último parâmetro não deve ser tido em conta como um fator com grande preponderância neste capítulo, sugerindo-se que outras componentes influenciem o desempenho motor de crianças e jovens com DID. Geshoski (2015) assinala que o pouco envolvimento em atividades de cariz físico e a falta de participação em atividades de cariz desportivo fora da escola pode ter influência neste desempenho. Sugere-se ainda que o timing de intervenção poderá ser um dado importante, uma vez que, quão mais precoce for a intervenção, assim que se deteta uma alteração de desenvolvimento, poderão minimizar-se as dificuldades futuras que, mesmo que se reportem apenas a uma área de desenvolvimento, poderão ter influência na globalidade do sujeito (Lobo, Harbourne, Dusing e McCoy, 2013).
Por outro lado, um fator com grande importância poderão ser as capacidades intelectuais das crianças com DID, como verificaram Houwen et al. (2016). Conforme as competências intelectuais das crianças iam sendo mais limitadas, piores desempenhos motores se verificaram. Por outro lado, regista-se que estas dificuldades motoras e cognitivas aparecem em concomitância com maiores limitações ao nível da linguagem, sendo evidente uma relação entre estes três domínios de desenvolvimento. De referir ainda que as correlações se acentuavam entres estes domínios, conforme menores competências intelectuais (Houwen et al., 2016).
Estas interações podem explicar-se através da relação que existe entre os sistemas sensoriomotores e as funções cognitivas superiores, uma vez que as áreas cerebrais em funcionamento são semelhantes em ambas. Assim sendo, não será de estranhar que se verificou uma grande correlação entre a motricidade fina e as funções cognitivas de receção e expressão verbal (Houwen et al., 2016). Como nos refere Fonseca (2010a), a motricidade fina é um fator psicomotor que envolve competências da praxia global, mas de
forma mais complexa, envolvendo um dos membros mais complexos do corpo humano, a mão, requisitando outras competências mais básicas (inerentes a outros fatores psicomotores). Como verificou Houwen et al. (2016) a motricidade global não estava tão fortemente relacionada com competências intelectuais superiores, podendo isso estar ligado ao facto de a motricidade global envolver um planeamento menos complexo que a motricidade fina, como nos relata Fonseca (2010a). Também estas características se relacionam com o perfil psicomotor da criança com DID traçado por Fonseca (1995), onde constam alterações em algumas funções cognitivas, nomeadamente ao nível do foco da atenção, da capacidade de gerar novas respostas a problemas, de dificuldades de seleção de informação importante em determinada tarefa, da organização de dados relevantes, tidas como funções cognitivas que exigem mais elaboração.
Em suma, o desenvolvimento motor não é um processo que depende de si só, estando intimamente relacionado com outros domínios do desenvolvimento humano, como a linguagem e a cognição, sendo por isso que Houwen et al. (2016) sugerem que qualquer intervenção deva ser focada tanto em aspetos cognitivos como motores. É neste plano que se justifica a intervenção psicomotora na DID, uma vez que, segundo Fonseca (2001), através das atividades que propõe, efetiva-se o desenvolvimento de uma consciencialização do ato motor, através do enriquecimento do ato mental, que conduz a uma mais praxia mais organizada e estruturada. Permite ainda consciencializar as sensações e as perceções, de forma a serem alvo de análise e permitam criar símbolos, como a linguagem, tentando-se igualmente tornar o corpo uma complexa mas organizada dialética entre a motricidade e a psique, de tal maneira, que se potenciem os processos cognitivos e socio-afetivos, conferindo uma boa adaptabilidade social e a situações novas (Fonseca, 2001). Com estes objetivos podem colmatar-se algumas das dificuldades das crianças com DID, perspetivando-se a psicomotricidade como uma abordagem como uma potencialidade de desenvolvimento destas crianças.
Como referem Houwen et al. (2016) as dificuldades não residem apenas nas crianças, estando relacionadas com os contextos onde se desenvolvem, sendo que estes também se podem modificar, ou ser modificados por pessoas de referência, de forma a facilitar o desenvolvimento motor e, consequentemente, todos os outros domínios. Em linha com este pensamento, Lobo et al. (2013) afirmam que é importante tentar estabelecer objetivos fora da sessão, para que, no dia-a-dia, a criança possa desenvolver as suas competências sensoriomotoras nos respetivos contextos, desenvolvendo não só estas, mas também outras, pessoais, sociais e de linguagem, na gestão do que são os seus eventos de vida e situações da convivência social. As situações para que estes objetivos
pudessem ser desenvolvidos tinham de ser criadas pelas pessoas de referência da criança (Lobo et al., 2013). Mais uma vez, pelo facto de a psicomotricista compreender a pessoa na sua pluricontextualidade e nas suas diversas experiências (Fonseca, 2001), poderá fazer uma intervenção contextualizada e que englobe estas vertentes do ser humano, visando portanto a inclusão de objetivos que envolvam os pais e/ou outras figuras de referência da criança, conforme se afigure necessário.
Face às situações experienciadas pelas crianças e às implicações que as mesmas têm no seu desenvolvimento e comportamento, no meio institucional, os educadores (cuidadores) assumem um papel fundamental no desenrolar do crescimento destas crianças e jovens, sendo por isso importante analisar as interações que são estabelecidas entre ambos.