3. Aportes teóricos
3.4 Os papeis das crianças nas transações econômicas
3.4.2 Crianças como distribuidoras e transferências de bens
Neste capítulo, vale distinguir o conceito de distribuição do conceito de transferência. Para Zelizer (2002), “distribuição” significa qualquer transferência de valor. Nesta categoria, envolve falar em compartilhamento, vendas, trocas e presentes, e até jogos de azar entre as crianças. Por outro lado, a transferência de bens inclui doações e empréstimos, e especialmente a negociação dos membros da família sobre a redistribuição do dinheiro recebido por esses membros fora de casa (ZELIZER, 2011a). Na presente pesquisa, portanto, pretendemos investigar esse processo de renegociação do ponto de vista das crianças, visando compreender o efeito das crianças na constituição do orçamento doméstico.
Como um exemplo da distribuição, as crianças finlandesas, de acordo com Ruckenstein (2010), usam tanto transações monetárias quanto trocas não-monetárias de comida, bolinhas de gude ou cartas “Pokémon” para segurar e fortalecer as suas relações; por meio dessas trocas, elas mantêm uma economia de distribuição significante (ZELIZER, 2002). Os pais dessas crianças (RUCKENSTEIN, 2010), muitas vezes, temem pela perda do dinheiro e associam as trocas entre as crianças com subornos e exploração, pois acreditam que o dinheiro pode destruir a essência das atividades infantis e, por isso, não as permitem. No entanto, o tempo passado na escola, por exemplo, possibilita as crianças realizarem essas transações fora do olhar dos pais (RUCKENSTEIN, 2010).
De acordo com Zelizer (2011b), as crianças, como os adultos, até constroem “circuitos de comércio” em relação a essas trocas. Os circuitos de comércio são formas difundidas de interação econômica, constituídos por relações sociais distintas entre indivíduos específicos que compartilham atividades econômicas e criam sistemas contábeis comuns, como os “dinheiros especiais”. Entre as crianças, um circuito de comércio pode ser criado para troca de lanches ou cartas (figurinhas), por exemplo. Assim, nos circuitos de comércio existem regras próprias, sobre o valor de troca de cada item e, dessa maneira, constituem-se como trabalho relacional (ZELIZER, 2011b; 2011c).
Zelizer (2011b) apresenta as três formas de organização dos pagamentos monetários em relação à distribuição: como compensação, que é uma permuta direta e igual de valores e requer uma negociação e uma certa distância entre os participantes;
64 como intitulação (entitlement), que significa o direito a um benefício econômico, mas que não será abordado neste trabalho; e como presente, que é uma doação voluntária de uma pessoa ao outro e implica subordinação.
A autora dá um exemplo de uma troca de presentes entre as crianças. Nesse caso, as crianças negociam não só com os seus pais, mas também com as outras crianças sobre a qualidade, o valor e o caráter dos seus presentes − realizando trabalho relacional (ZELIZER, 2002, 2011c). A personalização e o preço do presente dependem da intensidade dos laços de amizade entre as crianças (ZELIZER, 2002). Todas as três formas de pagamento definem significados simbólicos e a qualidade da relação social entre os participantes, como no exemplo de troca de presentes entre crianças. Os direitos e os presentes geralmente implicam uma relação mais durável entre os participantes do que uma compensação. (ZELIZER, 2011b).
Em relação às transferências, as crianças alemãs da pesquisa de Gebauer (2013) emprestaram dinheiro aos membros da sua família ou aos parentes próximos, mas a maioria delas não tinha a intenção de pedir esse dinheiro de volta. Elas emprestam dinheiro para ajudar as outras pessoas, nesse caso, quando os membros da sua família não possuem uma quantidade suficiente de dinheiro para pagar por alguma coisa. Uma participante argumentou que ela não espera receber esse dinheiro de volta, porque comer é mais importante do que brincar, e porque ela já tem muitos brinquedos. Assim, essa menina relata que ela não gastaria o dinheiro nos brinquedos, enquanto os seus pais precisavam do dinheiro. São situações características da relação entre os pais e a criança que envolvem transações econômicas, mas outros valores estão em jogo (GEBAUER, 2013).
Da mesma maneira, as crianças da pesquisa de Gebauer (2013) emprestam dinheiro aos seus amigos para ajuda-los. No entanto, contrariamente ao empréstimo aos membros da sua família, elas esperam receber esse dinheiro de volta em algum momento, como também limitam a quantidade de dinheiro emprestado, para sobrar dinheiro para elas também. Por essa razão, pode-se inferir que as crianças não emprestariam dinheiro a pessoas que elas não conhecem, por não saber onde elas moram e pelo medo de não receber o dinheiro de volta (GEBAUER, 2013). O empréstimo aos amigos é uma maneira de fortalecer os laços, como indicado também por Ruckenstein (2010).
65 Como explicado antes, na pesquisa de Ruckenstein (2010), os pais das crianças finlandesas consideraram o empréstimo do dinheiro das crianças aos seus amigos um desperdício de dinheiro, mas as crianças discordaram. Na pesquisa de Gebauer (2013), os pais de algumas das crianças alemãs também acreditaram que o dinheiro emprestado pela criança aos seus amigos é um desperdício de dinheiro, mas ao contrário à pesquisa de Ruckenstein, os filhos desses pais concordaram com eles, e não quiseram emprestar dinheiro, pelo medo de perder o dinheiro.
Dessa maneira, segundo Gebauer (2013), emprestar dinheiro a alguém requer confiança, e por isso é mais fácil para as crianças emprestar dinheiro aos membros da sua família do que aos amigos ou a pessoas que elas não conhecem. Apesar de poder emprestar dinheiro a outros, as crianças da pesquisa de Gebauer contaram que elas não pediriam dinheiro emprestado. Uma razão dada a isso pelas crianças é que elas não precisam comprar tudo, se elas não possuem uma quantidade suficiente de dinheiro, e dessa maneira, preferem guardar o dinheiro.
Ainda em relação às transferências, de acordo com Kraemer, Brugger e Jakelja (2017), mais da metade das crianças austríacas de sete até dez anos de idade já deram ou emprestaram dinheiro a outras pessoas. Aproximadamente 33% delas pediram dinheiro emprestado, contrariamente aos resultados da pesquisa de Gebauer (2013), já que quase a metade emprestou dinheiro aos seus parentes ou aos seus amigos. Os autores chamam isso de “função de construção de comunidade” do dinheiro, que significa que o dinheiro é usado nas relações entre as crianças e os seus parentes e amigos na construção de uma comunidade, para mostrar afeição, fortalecer os laços e ajudar um ao outro.
A evidência de que crianças usam o dinheiro na tentativa de fortalecer ou sustentar os laços com outras pessoas foi encontrado também por Gebauer e Ruckenstein (2010), entre as crianças alemãs de seis até oito anos e finlandesas de seis e sete anos de idade, como já mencionado antes. 34% das crianças pesquisadas por Kraemer, Brugger e Jakelja deram dinheiro a um músico de rua e 45% a uma pessoa sem-teto. Desse modo, o dinheiro é usado como um meio para criar uma relação temporária com uma pessoa que as crianças não conhecem. Além disso, 58% das crianças acreditam que os adultos deveriam doar a pessoas pobres mesmo se eles não as conhecessem (KRAEMER, BRUGGER & JAKELJA, 2017).
66 Na pesquisa de Kraemer, Brugger e Jakelja (2017), a origem social das crianças afeta o empréstimo e a doação do dinheiro, de modo que as crianças de origem migratória mais provavelmente dão dinheiro aos amigos e aos colegas da escola do que as crianças nativas, enquanto as crianças das classes mais altas provavelmente já emprestaram dinheiro do que as crianças das classes mais baixas. Além disso, as crianças das classes mais altas e as crianças nativas esperam que os adultos doem dinheiro a pessoas desconhecidas (KRAEMER, BRUGGER & JAKELJA, 2017).
Como Chin (2001), Gebauer (2013) notou a generosidade das crianças em relação à doação de dinheiro e, assim, às transferências. Segundo ela, as crianças alemãs dão dinheiro aos parentes e aos amigos somente por causa do sentimento de prazer por dar alguma coisa ao outro. De acordo com Borg (2017), as crianças suíças entre cinco e seis anos de idade já mostram características de empatia e conhecimento das normas morais em relação ao conceito de distribuição. Quando as crianças pesquisadas por Borg foram dadas a possibilidade de compartilhar os seus doces com uma outra criança, a maioria delas compartilhou, algumas porque acreditam que é a sua responsabilidade compartilha-los, outras por acharem ser justo.
Nesta pesquisa serão investigadas as moralidades das crianças em relação à doação e empréstimo do dinheiro, que são relacionados com o conceito de transferências de bens, como também a natureza da cultura de troca de presentes das crianças relacionada com o conceito de distribuição. Como sugerido, por exemplo, por Zelizer (2011c) e Gebauer (2013), as crianças realizam trabalho relacional em relação a essas trocas, e a pretensão é investigar a natureza desse trabalho relacional.
A fábula23 (ESOPO, 1977) que será contada às crianças na parte empírica da pesquisa contêm o tema de distribuição, já que a cigarra, após aproveitar o verão, pede comida às formigas. Desse modo, a fábula nos fornece uma base para conversação sobre a distribuição, também relacionado com os objetivos desta pesquisa.