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2. FAMÍLIA NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

2.3 Crianças e Adolescentes como Sujeitos de Direito

Durante o 7º Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção de Delito e Tratamento do Delinquente, realizado em Milão, durante o período de 26 de agosto à 6 de setembro de 1985, foi adotado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), um documento em que é estabelecida a necessidade fundamental ao bem-estar da criança e do adolescente, como também de suas famílias, no qual a Justiça da Infância e da Juventude é prevista como parte neste processo de desenvolvimento de cada país.

A Convenção Internacional sobre os direitos da Criança aprovados pela ONU em 1989 abriu caminho para retificação e adesão dos Estados membros. Foi em 1990, no intuito de promulgar uma normatização que permeasse os direitos da criança e do adolescente que o Brasil ratificou o tratado através da Lei 8.069/90, denominada como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O estatuto protege o conceito de família como núcleo essencial e traz a perspectiva da criança e do adolescente como sujeitos de direitos, sendo estes garantidos por lei e tratados com prioridade absoluta, tendo em vista que, por estar em fase de desenvolvimento físico, psicológico, social, além dos direitos que uma pessoa adulta tem, possuem direitos especiais.

O ECA aprofundou as normas que a Constituição Federal de 1988 (CF 88) apresenta para a população mais jovem do país, garantindo a partir do art. 227, como direitos fundamentais o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Nele também se encontra disposto acerca dos direitos, da proteção integral e regulamentada a relação da família, da comunidade e do Estado com estes indivíduos, visando o melhor para seu desenvolvimento.

Sendo assim, a condição da criança e do adolescente em fase de desenvolvimento não os distancia da concepção de sujeito de direitos civis, humanos e sociais garantidos na CF, como qualquer outro cidadão perante o Estado, e sim que seus direitos devem ser visados como prioridade, garantindo condições dignas para seu desenvolvimento, físico e psíquico.

A família, enquanto instituição possui vários papeis perante a sociedade, sendo um destes a responsabilidade durante o processo de desenvolvimento da criança e do adolescente. A Constituição Federal dispõe sobre o direito à convivência familiar e comunitária, o qual deve ser garantido tanto pela família, quanto pela sociedade e pelo Estado, além do dever de

assegurar seus direitos fundamentais.

O ECA refere à família como núcleo essencial no qual o poder familiar13 constitui os direitos e deveres dos pais em relação aos bens dos filhos menores de 18 anos incompletos e não emancipados, partindo do princípio de que os pais são os maiores interessados no desenvolvimento saudável e feliz da criança. Além disso, a garantia ao sustento, da guarda, da educação e do cumprimento das obrigações judiciais em função dos interesses da criança e do adolescente também estão inclusas ao poder familiar. Porém, a partir do momento em que a família não cumpre com a sua função de resguardar o bem estar da criança ou do adolescente, por motivos expostos como negligência, abandono, violência, o Estado tem fundamento para aplicar medidas de suspensão e destituição, legalmente previstas, ao poder familiar.

Faz-se importante a abordagem das necessidades humanas para uma melhor compreensão acerca da responsabilidade repassada a família. Assim, a percepção das necessidades apresentadas pelo psicólogo norte-americano, Abraham Harold Maslow14 (1908- 1970), desenvolve uma teoria da hierarquia das necessidades básicas, conhecida como a Pirâmide de Maslow ou a Hierarquia das Necessidades de Maslow. Está servirá como apoio para entender os fatores necessários para o desenvolvimento saudável da criança e do adolescente.

A Pirâmide de Maslow apresenta as condições necessárias para que o ser humano possa atingir sua satisfação pessoal. Dividida em cinco níveis hierárquicos, cada um é formado por um conjunto de necessidades. Na base da pirâmide estão as necessidades

fisiológicas, que precisam ser saciadas para manter o corpo saudável e garantir a

sobrevivência (respirar, comida, água, sono). Em seguida, há as necessidades de segurança, está engloba os elementos que fazem o indivíduo se sentirem seguros (segurança do corpo, segurança financeira, moradia, família, saúde). No terceiro nível estão representadas as

necessidades de amor e relacionamentos, no qual o senso de pertencimento e intimidade são

fatores para a evolução social (amizade, família, relacionamentos, pertencimento a grupos de atividades, escola). Logo após há a necessidade de estima, em que o ser humano desenvolve a habilidade de reconhecer suas potencialidades, identificando seu valor (confiança, respeito, reconhecimento). No topo da pirâmide há a necessidade de autorrealização no qual é preciso fazer aquilo que gosta para se sentir realizado (MATSUOKA, 2013, p.636).

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Com a modernização da legislação, o poder familiar substitui o que antes era classificado como Pátrio Poder, que centralizava o poder familiar no pai, o chefe da família.

14 Maslow possuía uma visão positivista sobre “a natureza humana e suas potencialidades de autorrealização em qualquer tipo de ambiente, seja ele sadio ou não, desde que o seu comportamento esteja motivado e regulado para satisfazer suas necessidades básicas” (BRANCO, 2017, p.190).

É importante ressaltar que os três primeiros níveis de necessidades estão interligados a família, a partir do momento em que a criança e o adolescente não possuem capacidade suficiente para suprir estas necessidades sozinhas que sofrem reação de questões históricas, sociais e econômicas, sendo estes fatores mutáveis.

Porém, devido ao país ser marcado por uma desigualdade de renda em que as oportunidades para se ter uma vida digna se torna inalcançável para muitos, as famílias que não possuem condições para prover as necessidades básicas a seus filhos são classificadas, muitas vezes como “desestruturadas”. Atribuindo um caráter de culpabilização para as famílias que não possuem capacidade financeira para criar seus filhos, sem analisar o que a lei apresenta sobre ser também responsabilidade do Estado a proporcionar o bem-estar da criança e do adolescente.

Esta classificação foi sendo aproximada ao termo negligência, que muitas vezes incumbiu um ordenamento com carga histórica no qual as condições financeiras são retratadas como razão para o rompimento do vínculo familiar mesmo não sendo esta sua definição. Durante o século XVIII, a solução para aqueles que não tinham condições de criar seus filhos era a “Roda dos enjeitados”. As crianças eram abandonadas aos cuidados de instituições religiosas. Após esse período, a institucionalização se deu por meio do contato entre as famílias e as organizações ou um representante do Estado.

No início do século XX, a proteção à infância era regulamentada por meio do Código de Menores, em que expressava a obrigação ao detentor da guarda da criança e do adolescente, à prestação da assistência material, moral e educacional. Quando estes descumpriam sua “obrigação”, eram aplicadas medidas que ao invés de reconstruir o vínculo familiar, apenas punia e afastava os jovens do seu núcleo familiar.

Sendo assim, o Código de Menores dava a preferência em institucionalizar as crianças e adolescentes que, quando se encontravam em “situação irregular”, possuíam o direito à assistência religiosa. Até este dado momento, não havia intervenção ou suporte para que a criança e/ou o adolescente ficasse no seu núcleo familiar. Posteriormente, através de novas leis como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Política Nacional de Assistência Social em 2004, as atribuições e responsabilidades sob a criança e o adolescente foram se distinguindo.

No entanto, mesmo que a política social contemporânea possua papel fundamental como agente na proteção social das famílias, ainda apresenta um déficit na aplicabilidade de políticas e ações que sejam capazes de efetivar condições de vida adequada a criança, ao adolescentes e a família, conforme os direitos estabelecidos pelo ECA.

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