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Crianças e adolescentes no Brasil colônia e império

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CAPITULO II. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (ECA):

2.1 Infância e adolescência no Brasil: breve resgate histórico

2.1.1 Crianças e adolescentes no Brasil colônia e império

A primeira ação social voltada para as crianças e adolescentes no Brasil

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No Brasil, de acordo com o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Criança e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária, há “maior concentração de crianças e adolescentes nas regiões mais pobres e nas faixas populacionais com menor instrução e menor renda, sendo que 45 % destas vivem em famílias com renda per capita de até ½ salário mínimo. Entre as crianças e adolescentes negras e indígenas, o percentual de pobreza é ainda maior, respectivamente, 58% e 71%. A mortalidade infantil no Brasil no ano de 2003 era de 26,6 por mil crianças nascidas vivas. As principais causas da mortalidade infantil – doenças infecciosas e respiratórias – estão ligadas as condições gerais de vida e aos anos de estudo da mãe. (...) Em 2003 havia 5,1 milhões de crianças e adolescentes trabalhando. Quase a metade das crianças que trabalham vive em famílias com renda de até ½ salário mínimo. (CONANDA; CNAS; SEDH; MDS, 2006, p. 50).

ocorreu no contexto da colonização portuguesa por meio da ação jesuítica. A presença dos portugueses foi acompanhada pela Igreja Católica que legitimava e reforçava o processo colonizador. Na ação colonizadora e evangelizadora da Igreja Católica ocorreu a catequização das crianças indígenas realizada pelos jesuítas. Essas crianças, de acordo com os registros históricos, tiveram importante papel na introdução de novos hábitos, costumes e crenças entre os indígenas. Os pequenos índios eram vistos pelos jesuítas como capazes de mudar seu estilo de vida, do ponto de vista cultural, por meio da evangelização. Como estratégia de aproximação utilizaram crianças órfãs portuguesas para ganharem a confiança das crianças indígenas. As crianças indígenas eram levadas para instituições religiosas, nas quais eram evangelizadas, aprendiam a ler, escrever e adquiriam hábitos e costumes portugueses. Com essas ações, evidenciava-se o desrespeito à idenidade cultural das crianças ao serem duplamente utilizadas, ou seja aculturadas e aviltadas em sua cidadania.

Contudo, a ação jesuítica não era recebida passivamente. Para Priore (apud SANTOS, 2004, p. 14), havia resistência à dominação étnica e cultural. Quando alcançavam a adolescência, os indígenas retornavam ao seu povo, retomando seus costumes e hábitos, enfim, sua cultura, juntamente com os mamelucos e mestiços, lutando para a própria sobrevivência como segmentos marginalizados.

Ainda no período colonial, ocorria com frequência, o abandono de crianças. Para enfrentar esse problema, surgido da própria sociedade colonial, foram criados mecanismos e instituições para cuidarem dos abandonados. A adoção era realizada por algumas famílias. Outra maneira de enfrentar esse problema foi a instalação (a exemplo de Portugal), das chamadas rodas dos expostos, que passaram a funcionar nas Santas Casas de Misericórdia. Como afirma Carvalho (2006),

a solução encontrada para a questão das “crianças enjeitadas” na época colonial também foi importada da Europa, onde a roda dos expostos, instalada nas Santas Casas de Misericórdia, garantia que a criança fosse entregue anonimamente pela mãe biológica em tal instituição asilar. A roda dos expostos foi fundada no século XII, entre 1201 e 1204 na Itália, chegou a Portugal no ano de 1273 e no Brasil, com a reivindicação pelas autoridades da colônia à coroa portuguesa, no ano de 1726, em Salvador. A segunda “roda” instalada no Brasil, foi construída no Rio de Janeiro, em 1738 (p. 9).

De acordo com Santos (2004, p. 16), muitos estudos apontam outras funções dessas casas, tais como “desembocadouro para as crias indesejadas pelos

senhores patriarcais”, “suporte no comércio de leite de escravas”, “mecanismo para ocultar o infanticídio”, e também para “servir de fonte para adoções ilegais”. Além disso, “o índice de mortalidade era extremamente elevado”, tendo atingido “70% nos anos de 1852 e 1853, na Casa dos Expostos do Rio de Janeiro” (RIZZINI, 1995, p. 109).

Nesse cenário, destacava-se a figura da ama-de-leite, encarregada de cuidar dos abandonados e que recebia pagamento pelo seu trabalho. Estes mecanismos e instituições estruturaram-se e se disseminaram pelo país.

Em relação ao trabalho no campo, os colonizadores não conseguiram utilizar o trabalho dos indígenas e buscaram na África negros para o trabalho nos canaviais. No contexto da escravidão no país, a realidade da criança e do adolescente encontrava-se de maneira diversificada, como consequência e desdobramento de uma estrutura escravista. Em muitos momentos, ao utilizar a mão-de-obra negra para o trabalho nas lavouras, as crianças eram separadas dos pais e vendidas por valores baixos, pois não representavam lucro imediato para o senhor. Em outras situações, a exploração do trabalho infantil ocorria no interior das próprias senzalas.

O Código Criminal, de 1830, expressa a realidade da criança e adolescente no período imperial, pois havia uma distinção das responsabilidades, que se dava por faixa etária e era dividida em três períodos: os “menores de 14 anos” não tinham ”responsabilidade penal (essa determinação só passou a ter validade para os escravos a partir de 1885), os maiores de 14 anos e menores de 17 anos (...) poderiam receber as penas de cumplicidade; a partir de 21 anos recebiam a “imposição de penas mais drásticas, como as galés” (SANTOS, 2004, p. 18). Mas Londono afirma que

nos casos de menores de 14 anos que atuassem com discernimento, o Código permitia seu recolhimento a casas de correção, a critério do juiz, até que completassem 17 anos; isso permitia que menores de 17 fossem para a prisão comum, pois só no fim do século surgiram casas de correção para menores (apud, SANTOS, 2004, p. 18).

Conforme Vieira (2003), no contexto de estrutura escravista, legalizada e já enraizada na sociedade brasileira, a aprovação das Leis do Ventre Livre, em 1871 e da Lei Áurea, em 1888, não significou melhoria e nem avanços na qualidade de vida das crianças e dos adolescentes. A Lei do Ventre Livre foi pouco significativa, pois

como os pais não tinham liberdade, as possibilidades de sustento das crianças tornaram-se inviabilizadas. A Lei Áurea, resultado das pressões dos abolicionistas e dos capitalistas, também não teve impacto significativo na vida das crianças e adolescentes. Confirmando a avaliação de Vieira (2003), de acordo com Carvalho (2006, p. 5),

com o fim do regime escravista, a expectativa de uma vida melhor para os ex-escravos, adultos e crianças, não se confirmou. Após a libertação, as condições de vida de milhares de homens, mulheres e crianças não se modificaram em quase nada. Despreparados, os ex-escravos tiveram de continuar a luta pela sobrevivência e o espaço da fábrica no início do século XX foi o local para onde foram ‘levados’. De mão-de-obra escrava passaram a mão-de-obra barata – a desqualificação servindo como justificativa para o pagamento de irrisórios salários.

Indiscutivelmente, o contexto do Brasil Colônia e Império configura-se como sombrio, de flagrante desrespeito e violação aos direitos da criança e do adolescente.

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