CAPÍTULO 3 – GESTÃO E ASSISTÊNCIA: AS CONTRADIÇÕES EXPRESSAS
3.9 CRIATIVIDADE E RESPONSABILIZAÇÃO NO PROCESSO DE TRABALHO
Considerando a entre-disciplinaridade como perspectiva importante à reorganização do processo de trabalho e à construção de novas práticas em saúde, na medida em que pressupõe contextos menos institucionalizados e mais criativos, o estudo questionou junto aos
profissionais do HU/CAS/UFJF sobre em que medida estes têm exercitado a criatividade/inventividade em seu processo de trabalho. As repostas incluem: o usuário como estímulo à criação; ausência de estímulo institucional ao exercício da criatividade no processo de trabalho; criatividade estimulada no setor pelo método 5S (senso de utilização, senso de organização, senso de limpeza, senso de saúde e higiene, senso de autodisciplina).
Falas dos profissionais:
“Eu posso falar que é um serviço que tá ampliando, a gente passou pelo processo da implantação do 5S, existe uma valorização profissional, do usuário, de todo mundo, a gente teve que usar de muita criatividade, de muita ajuda também de toda a administração pra tá
conseguindo o prêmio(prêmio nacional Top Bronze de qualidade do modelo 5S) foi até em
tempo recorde e eu acho que todos os funcionários ficaram envolvidos, foi muito bom, muito satisfatório, e a gente tenta atender da melhor maneira possível”. (PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM “F”)
“Na maioria das vezes, no atendimento ao usuário. Na maioria das vezes, é o usuário que promove esse movimento. Eu não me sinto desafiada pela instituição em fazer diferente. Ela não me demanda essa inventividade ou esse fazer diferente, só na relação com o usuário, exatamente no ato do cuidar desse usuário é que isso me remete, assim, de fazer uma busca, de tentar um olhar, de buscar uma leitura até pra apertar um pouco mais nessa resposta, nessa demanda, mas é só aí, só nesse lugar”. (PROFISSINAL DE SERVIÇO SOCIAL) “Na verdade, depois de subir o hospital pra cá, muitas das coisas que eu tinha pensando em termos de assistência sumiram. Aqui, simplesmente eu chego, atendo e vou embora”. (PROFISSIONAL MÉDICO)
Análise Teórica
A partir das falas dos profissionais, pode-se verificar que, num dos setores da Unidade Dom Bosco, o processo de trabalho caracteriza-se por um contexto extremamente institucionalizado, devido à padronização e produtividade exigidas na prestação assistencial. Embora os relatos da entrevistada “F” explicitem o estímulo à criatividade nesse processo, o estudo considera pouco provável que, num ambiente com tamanha normatividade, se estabeleçam práticas mais intuitivas do que técnico-científicas ou relações mais subjetivas – sensíveis às singularidades de cada caso – do que protocolares.
Pode-se verificar, ainda, que essa abertura efetiva à alteridade que amplia a criatividade nos processos de trabalho e assistencial, quando ocorre, é pela postura do próprio profissional, que, seja pela formação (Serviço Social) e/ou perfil pessoal, se sente desafiado a
reinventar-se permanentemente, ainda que num contexto institucional adverso, supostamente biomédico.
A responsabilização dos profissionais do HU/CAS/UFJF com as necessidades de saúde dos usuários também foi analisada, quando questionados sobre quais demandas avaliam como não sendo de sua competência no cotidiano profissional.
Falas dos profissionais:
“Não, eu acho que tudo é da sua competência. Eu, particularmente, não fico gerando
demandas do que eu tenho certeza do que estou falando”. (PROFISSIONAL MÉDICO) “Então, praticamente eu me considero envolvido em tudo. Um dia desses teve um problema na portaria, foi um paciente que chegou aqui pra ser atendido e tal... e a pior coisa que tem é alguém chegar e falar assim com você: - ah! fulano eu não sei vou ver com o beltrano ali. Ah! vou ligar pra a fulana pra saber... E você tá ali na portaria, fica chato, não fica? Mas eu sei até onde eu vou, sei até onde eu posso ir pra não atrapalhar o esquema de trabalho do hospital”. (PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM “M”)
“Um monte de coisas que eu faço não é meu, acho que de nenhum Assistente Social, Eu acho que as demandas são muito aquém do que a gente teria a contribuir enquanto profissional. Eu tenho um grande incômodo com a grande maioria das ligações que o Serviço Social é solicitado a realizar, algumas até eu acho que são nossas sim [...], mas a maioria delas é pra saber a que horas o motorista chega, por quê que atrasou, ligar pra minha filha pra avisar que eu vou chegar mais tarde pro almoço. A questão da liberação de alguns serviços, de alguns acessos internos ao hospital, eu acho que elas não, necessariamente, deveriam ser do Assistente Social, eu acho que muitas das demandas são das chefias de ambulatórios”. (PROFISSIONAL DE SERVIÇO SOCIAL)
Análise Teórica
As falas dos profissionais médico e de enfermagem, num primeiro momento, apontam uma possível abertura dos mesmos a todas as demandas assistenciais que se lhes apresentam, tornando-os potenciais portas de entrada para o cuidado integral em saúde (MATTOS, 2007). Entretanto, a suposta centralização destas demandas indicada pelo profissional médico suscita maiores reflexões quanto à abrangência desse cuidado, isto é, à efetividade de suas respostas, visto que são feitas a partir de um único olhar terapêutico. Embora explicite disponibilidade em atender às múltiplas necessidades de diferentes sujeitos, o caráter unilateral desse atendimento compromete a construção coletiva de um plano de cuidados individualizado.
Quanto ao relato do profissional de Serviço Social, percebe-se o predomínio de demandas emergenciais e imediatistas em seu processo de trabalho, decorrentes da desorganização do sistema, mais precisamente, de seus fluxos assistenciais. As dificuldades de acesso recaem no cotidiano desses profissionais, concentrando boa parte de suas ações em questões de competência mais organizacional do que assistencial; o que prejudica o exercício de todas as suas potencialidades relacionais em resposta às necessidades de seus usuários.
Diante da criação inexpressiva observada no cotidiano profissional dos distintos sujeitos da pesquisa, combinada à sua responsabilização superficial na relação com os usuários, confirma-se a vigência do contexto biomédico institucionalizado (BONET; TAVARES, 2007) registrado anteriormente, em contraposição à suposta aproximação dos setores e profissionais do HU/CAS/UFJF na organização da assistência, presente no discurso de alguns dos entrevistados.