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Crime on the couch: diagnostic basis on violent passionate personalities

No documento ESTUDOS DE PSICANÁLISE ISSN (páginas 95-105)

Marília Etienne Arreguy

1. Este texto é um excerto retrabalhado da tese “Os crimes no triângulo amoroso” defendida pela autora em 2008, no Instituto de Medicina Social da UERJ. Foi apresentado no Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, “A Psicopatia da vida cotidiana” em 2010.

O crime no divã: fundamentos diagnósticos em passionais violentos

mente um “tipo passional”. Sujeitos que co- metem esses crimes podem ter diagnósticos ligados tanto à psicose, à paranoia, quanto às neuroses graves e até manifestações de uma dita “perversão narcísica” (EIGUER, 2003). Existe desse modo certa permeabilidade en- tre essas manifestações clínicas, apesar de ter havido na literatura jurídica a tentativa de se fazer diagnósticos estritos a respeito das paixões violentas, sobretudo classifi cando- as como expressão inequívoca da perversão (RABINOWICZ, 1931; DE GREEFF, 1973). Essa tendência vinha mais de uma tentativa de eliminar a impunidade desses “crimes de exceção” (ARREGUY, 2011), do que de uma compreensão aprofundada da psicopatologia do ato passional violento.

Procurarei então retomar os postula- dos de Clérambault (1999), de Freud (1996; 1932) e de Lagache (1977; 1979; 1986) a fi m de delinear algumas raízes inconscientes em crimes passionais.

Os estudos sobre a erotomania e o delírio de ciúme fundamentaram alguns parâmetros para se compreender a criminalidade na es- fera amorosa. Clérambault (1999) foi pionei- ro ao incluir a erotomania e o ciúme como componentes dos “delírios passionais”; hipó- tese corroborada por Lagache (1977). Com base em autores como Sérieux e Capgras [Les

folies raisonnantes – 1909], Dide [Les idéalis- tes passionnés – 1913] e Ribot [La logique des sentiments – 1907] e no próprio Clérambault

(1999), Lagache distingue a presença do de- lírio de interpretação nas manifestações pa- ranoides do delírio de reivindicação ou “que- relante” nas passionais.

Na defi nição das psicoses passionais, aponta que o delírio passional se iniciaria por um choque ideoafetivo, ao contrário do delírio paranoico que teria um surgimen- to difuso e impreciso (LAGACHE, 1977, p.138). Orgulho, despeito, ciúme, sentimen- to de desonra, cólera e desespero seriam os componentes afetivos mais comuns nos passionais, podendo levar à passagem ao ato

violento em face de uma relação passional

duradoura (no sentido de ser fi xada e rígida) e desproporcional. Outra característica mar- cante é a “ideia fi xa” em relação ao objeto, obsessivamente recorrente nas ideações e de- lírios passionais (ibid.).

Clérambault (1999) balizou a atitude pas- sional delirante no erotômano pelo fato de atribuir ao outro, objeto de sua paixão, um enamoramento súbito por ele mesmo, sem que houvesse nenhuma contrapartida factu- al para essa suposição. Defi niu essa atitude como um “postulado fundamental”. Do pon- to de vista descritivo, os erotômanos fi cam aderidos a uma dada fi gura, às vezes alguém que nem conhecem. Pode ser uma pessoa famosa ou que viram apenas uma vez, afi r- mando terem percebido através de um sim- ples olhar ou de um gesto ingênuo que aquela pessoa os amava. Lagache (1977) provê uma síntese das principais características subjeti- vas na erotomania:

Desse postulado fundamental derivam um cer- to número de temas: o objeto não pode ter ale- gria sem o pretendente; o objeto é livre, seu casa- mento não vale. A esses temas vistos como evi- dentes se acrescentam os seguintes temas deri- vados: vigilância contínua do objeto, trabalhos de aproximação da parte do objeto, simpatia quase universal que suscita o romance em curso

(LAGACHE, 1977, p.138, tradução da autora) Nesse tipo de afecção, é esperado que o sujeito não aceite a recusa do objeto em amá- lo, muitas vezes, gerando reações agressivas inconformadas.

Antes de Clérambault (1999), Freud (1996) já havia falado da erotomania e de outros quadros patológicos associados a ma- nifestações passionais e à paranoia, ao con- ceituar sobre o caso Schreber. Ele construiu quatro fórmulas de uma linguagem incons- ciente elucidativa dos confl itos psíquicos envolvidos no delírio, nomeadamente, na paranoia persecutória, na paranoia de ciú- me, na megalomania e na erotomania. Para Freud (1996), o elemento gerador do delírio

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dependeria de contradições na gramática in- consciente responsáveis por tamponar a feri-

da narcísica e a bissexualidade recalcada.

Na erotomania haveria uma inversão do sujeito da ação, de modo a projetar o próprio desejo amoroso no objeto; processo sinteti- zado na seguinte fórmula: “Eu noto que ela

me ama. Eu não o amo – eu a amo porque ELA ME AMA” (FREUD, 1996, p.71). Os de-

lírios de perseguição na paranoia seriam sin- tetizados de outra maneira: “um homem ama

outro homem”; esse sentimento é recalcado

e, ao retornar à consciência, a própria ação, através da transposição do verbo em seu an- tônimo, é substituída de modo a tornar-se tolerável para a consciência, resultando na fórmula: “Eu não o amo. Eu o odeio” (ibid.). De modo projetivo, a proposição incons- ciente se transformaria por sua vez em: “Ele

me odeia, portanto, ele me persegue” (ibid.)

No delírio de ciúme, a equação incons- ciente passaria também por uma espécie de inversão: “Não sou eu quem ama o homem

[rival] – ela o ama.” (FREUD, 1996, p.72),

projetando o desejo homossexual recalcado no outro, desejo este travestido de ciúme, em gradações que podem variar da normalida- de ao delírio (FREUD, 1932). Na projeção do ciúme, o sujeito é capaz de captar os mais singelos sinais do desejo de infi delidade da companheira – algo que seria rapidamente descartado em manifestações de um ciúme normal – embora a projeção não necessaria- mente implique na aparição de um nível de- lirante, como acontece na paranoia de ciúme (FREUD, 1932).

Por fi m, na megalomania, a proposição fundadora do sintoma assumiria uma faceta totalizante: “Não amo de modo algum – não

amo ninguém [...] Eu só amo a mim mesmo.”

(FREUD, 1996). Aí haveria uma supervalo- rização de si próprio como objeto amoroso, narcísico e “hiperinvestido”, recusando todo e qualquer tipo de dependência ou subordi- nação ao outro.

Enquanto na paranoia persecutória have- ria uma inversão do afeto representado pelo

verbo (eu o amo substituído por eu o odeio, portanto ele me odeia e me persegue), na erotomania o sujeito que ama é quem será substituído. Ao erotômano só resta ser ama- do. Nas palavras de Freud: “essas afeições

começam invariavelmente não por qualquer percepção interna de amar, mas por uma per- cepção externa de ser amado” (FREUD, 1996,

p. 71). O mais importante nesse quadro é a potência com que o traço narcísico, em vias de se reafi rmar, pode levar a uma conduta criminosa caso o objeto de amor não cor- responda à fantasia delirante na demanda de reciprocidade. O erotômano chega a culpar o sujeito, fonte de seu delírio, por não assumir a paixão fantasmática que, de fato, não existe. É comum construir sua fantasia com pessoas famosas, totalmente inacessíveis, afi rmando que percebeu “um olhar”, “uma palavra” ou “um gesto” que revelava o intenso amor do outro por si mesmo. Não tolera, enfi m, a dis- crepância entre o desejo do outro e a expec- tativa onipotente de ser amado.

Fazendo um paralelo com formulações de Racamier (1990) acerca da paranoia, pode- -se pensar que a erotomania também esteja associada à projeção da experiência de pas- sividade inconsciente. Ora, o amor narcí- sico (Freud, 2004) tem como fi m o fato de ser amado. Porém, como amar nem sempre condiz com a retribuição do objeto de amor, o sujeito da ação “amar” seria relegado ao outro na medida em que a fantasia de ser amado seria o resultado fi nal de uma ação defensiva bem-sucedida para o sujeito. Na erotomania existe uma reedição da passivi- dade vivida na experiência de satisfação pri- mária com a mãe (FREUD, 1996), em que o sujeito é preservado inconscientemente do risco implicado na ação de amar, dado um suposto investimento materno massivo que impediria a diferenciação do eu. Objeto per-

dido por excelência, o afastamento inevitável

do objeto de amor produz uma “ferida nar- císica” exacerbada evitada a todo custo pelo erotônomo, assim ocorreria uma “estrutura- ção” falha do eu, e suas relações objetais ten-

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deriam a malograr. Na erotomania a deman- da amorosa é projetada como se proviesse de uma paixão avassaladora do próprio objeto, vítima de um investimento massivo e quere- lante de um sujeito passivo, destinado exclu- sivamente a ser amado. A loucura erotômana atinge o apogeu quando o sujeito recebe as negativas do outro, então, a única saída per- cebida passa a ser destruí-lo. Um exemplo do fenômeno passional violento na eroto- mania é o fi lme Atração Fatal (1987, EUA), guardadas as devidas reservas. No entanto, a erotomania só aconteceria em alguns poucos criminosos passionais.

Levando em conta a dinâmica psíquica de pessoas que matam ou agridem por ter sido abandonadas ou traídas em casos mais numerosos e comuns, esse ato costuma ser percebido instantaneamente como “justifi - cável”, pois o sujeito afi rma ter se sentido lesado pela(o) companheira(o) de outrora. Há a composição de fenômenos descritos como uma “sensação de injustiça sofrida” e o “complexo de inferioridade”, corrobo- rados por De Greeff (1973) e por Lagache (1986) como parte patente da narrativa de criminosos passionais. O psiquiatra foren- se Maurice Korn (2003) compilou alguns relatos de condenados, em que os sujeitos afi rmam-se arrependidos do crime cometi- do, e dizem com remorso não saber direito o que os moveu.

Mas, mesmo que reação passional violen- ta surja de uma infi delidade consumada em uma relação real e duradoura, ela se funda nos fantasmas do sujeito, fomentados por um ciúme crescente que impede o luto de objeto e a separação. O ato impulsivo de assassinar

por excesso de amor conota a ação num rom-

pante de cólera e deve ser visto como uma condição destrutiva multifatorial dependen- te das circunstâncias do ato, da relação e da história subjetiva.

Edith Jacobson (1985) estabelece um vín- culo entre a necessidade de traição e a passa- gem ao ato em certos pacientes paranoides. A “provocação” de um terceiro se imiscui na

relação dual e leva à emergência de confl i- tos arcaicos vividos na esfera familiar primi- tiva, em que um dos pais ou mesmo ambos teriam o funesto costume de desqualifi car o fi lho. A criança, colocada numa posição de inferioridade, daria vazão para suas pulsões destrutivas através de agressões motoras, na tentativa de afi rmar sua força, domínio e onipotência narcísica negada pelos pais. O sujeito passional adulto encarnaria repe- titivamente esse lugar inferiorizado sempre em vias de revidar qualquer “provocação” de modo impulsivo passando diretamente ao ato violento. Num contexto de ciúme exacer- bado típico da paranoia, haveria então uma necessidade inconsciente de ser traído(a) (Jacobson, 1985), dada a busca compulsiva por relações trianguladas, em que um ter- ceiro sempre estaria à espreita. A passagem ao ato homicida naquilo que chamei outrora de crimes no triângulo amoroso (ARREGUY, 2011) pode ser então compreendida a partir da presença de uma potencialidade passional (AULAGNIER, 1979), também passível de atualizar um potencial psicótico (AULAG- NIER, 1975), em que as infl uências do meio cultural costumam ser facilitar a irrupção da violência em casais.

A diferença entre a paranoia de ciúme e a psicose passional do tipo erotômana estaria na possibilidade ou não de “triangulação” da estrutura psíquica, como bem mostra Mela- nie Klein (1991) ao defi nir os mecanismos da inveja e do ciúme. Nas psicoses passionais os aspectos narcísicos exclusivamente diá- dicos seriam predominantes. Na paranoia, haveria uma interiorização do terceiro, em- bora este deva ser eliminado. Segundo Au- lagnier (1975), na paranoia, a função paterna é internalizada pela criança, porém de modo depreciativo, fi xando afetos de rivalidade e hostilidade salientados pela mãe. A ambi- valência afetiva é intensifi cada na medida em que os pais estabelecem uma relação de guerra íntima, em que existe relação sexual, contudo a simbolização dessa relação é des- qualifi cada. O coito é concebido pela criança

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como uma forma de violência, donde se de- senvolveriam fantasias paranoides em que o sujeito se sentiria traído pela mãe, mas seria impedido de identifi car-se positivamente ao pai, na medida em que ela o denigre perante o fi lho. Na paranoia os fantasmas da sexua- lidade e das origens seriam fundidos com a angústia de morte, pois o sexo seria conce- bido pela criança de forma sádica (FREUD, 1995) em que o pai se manteria na posição paradoxal de perseguidor-perseguido (AU- LAGNIER, 1975). Ademais, a criança seria incitada a odiar o pai uma vez que a imagem paterna é maculada pela mãe, identifi can- do-se negativamente a ele, principalmente quando a conspurcação materna se funda na realidade, ou seja, quando o pai de fato agri- de a mãe diante da criança.

Essa relação querelante, composta de agressão, disputa e difamação, seria repetida pelo sujeito com seus futuros objetos amo- rosos. A presença real ou imaginária de um rival odiado seria então condição essencial para integrar o triângulo amoroso no mode- lo paranoico. No campo literário, o clássico romance Otelo de Shakespeare representa os efeitos da imaginação delirante ligada à sus- peita de traição e à passagem ao ato homici- da, ilustrando o padrão do homem que mata a mulher supostamente adúltera.

Lagache (1986), em seu tratado sobre o ciúme, La jalousie amoureuse, explorou de- talhadamente a hipótese da existência de um ciúme homicida (jalousie meurtrier). Segundo Lagache (1986), no protótipo do crime passional em casais heterossexuais a mulher é, na maioria das vezes, a vítima. Já quando a mulher comete o crime, em geral o alvo prioritário do ataque é a rival, e não o marido ou amante traidor. Desse modo, haveria um emparelhamento entre a atuação criminal de homens e mulheres, pois ambos, preferencialmente, atacariam um terceiro do sexo feminino, seja a amada infi el, seja a rival da mulher traída. Essa constatação faz supor que a mulher representa com mais intensida- de o objeto a ser eliminado, já que a relação

primitiva com a mãe reconduz situações de abandono ou rejeição inconscientes viven- ciadas de forma demasiadamente castradora na infância de sujeitos que se tornam crimi- nosos passionais. A quebra na identifi cação materna primária com alto teor narcísico de idealização, sexualização e violência seria, portanto, intolerável. A mulher no triângulo amoroso violento remeteria à fi gura de uma mãe tirânica percebida inconscientemente como objeto amado, mas traidor por exce- lência. Embora a resolução edipiana seja di- ferente em cada sexo, em ambos, a mãe en- carnaria o objeto perdido para o pai, ou para uma função terceira (BALIER, 2005) que o valha, seja o trabalho, os irmãos, um ideal, ou tudo aquilo que se interpõe na relação ex- clusividade entre mãe e bebê.

Nos crimes passionais, há de todo modo questões atreladas a um terceiro termo, real ou fantasiado, que tem o poder de incitar a dúvida e a insegurança em relação ao amor de objeto. A função de incitação do ciúme por um terceiro foi ironizada por Machado de Assis no romance Dom Casmurro. Ma- chado recorre ao estilo intertextual quando usa a expressão “Uma ponta de Iago” para descrever a atitude de José Dias, espécie de agregado fuxiqueiro que estimula “a primei- ra mordida de ciúme” em Bento Santiago, ao atribuir “olhos de cigana oblíqua e dissimu-

lada” a Capitu. José Dias afi rmou ainda que

Capitu vivia interessada por qualquer “pe- ralta” que passasse pela rua. Essa fala abriu a mais viva ferida de ciúme em Bentinho, rea- tualizando a fala anterior, numa construção traumática que remete à defi nição freudiana do trauma constituído a posteriori. Otelo, de Shakespeare, também entra em quadro de- lirante a partir de uma incitação externa do ciúme, produzida pela intriga de Iago. Esse personagem representa a “terceira pessoa” que ocupa a função maledicente de instigar o ciúme e a subsequente construção vingativa. A diferença é que Bento se fi xa numa dúvida passional, da qual não consegue se desven- cilhar, ao contrário de Otelo que mata por

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aderir à certeza da traição. Assim, aquilo que o outro diz – no contexto literário: Iago ou José Dias – pode eliciar uma ação violenta, dependendo da susceptibilidade do agente, ou ainda, de sua fragilidade narcísica e das condições psíquicas que possui para refrear o desejo homicida. Em Dom Casmurro, o protagonista desiste de assassinar seu fi lho, que desconfi a ser bastardo, ao planejar dar- lhe veneno, justamente por sua predisposi- ção melancólica à dúvida. Bento consegue se conter e vai ruminar sua dor através da escrita, tentado “unir as pontas da vida”, da velhice à adolescência, através da elaboração narrativa em primeira pessoa. Então, ele os afasta, mãe e fi lho, e sofre com a perda. Ote- lo, ao contrário, transita para o ato criminal, apegando-se a uma certeza fundada numa verdade delirante.

Esses romances mostram a combinação entre fatores psíquicos e sociais em que a di- ferença que estabelece a condição do crime depende em grande parte do contexto, já que o outro enquanto um terceiro maledicente infl uencia no crime. Confi guram tragédias amorosas compostas de solidão, idealização, projeção, agressividade, rivalidade e, sobre- tudo, de passagens ao ato como tentativa de assegurar a existência subjetiva.

Enfocando o papel da cultura como ter- ceiro termo internalizado enquanto ideal a ser seguido com a exigência de um gozo moral sádico, o psicanalista brasileiro, Por- to-Carrero (1934) assinalou a existência de crimes passionais em que o supereu coletivo teria o papel de impelir, direta ou indireta- mente, o supereu individual a cometer um crime. Esse autor defi ne o “delito passional

por infl uência indireta do meio” da seguinte

maneira: (...) engloba os indivíduos que, por

Super-Ego [sic] vacilante, sofrem a sugestão difusa do ambiente e transformam o seu

Super-Ego, à feição do Super-Ego coletivo.

Assim, o indivíduo civilizado da cidade, que levaria aos tribunais, em qualquer capital, a quem lhe assacara (sic) injúrias impressas e assim fi caria satisfeito na sua honra e bem

visto pelos seus concidadãos – esse mesmo in- divíduo, transportado a regiões sertanejas

onde a injúria se lava com sangue, ver-se- -ia obrigado a matar o insultador; até por-

que os habitantes da região se ririam dele, se acaso levasse a questão aos tribunais. Assim,

os crimes passionais podem estar apoiados na lógica da honra, através da atribuição da desgraça ritual confi gurada pejorativa- mente pelo “estigma do corno” (ARREGUY, 2007). A intriga advinda de um terceiro te- ria o poder de fazer um “curto-circuito” no equilíbrio psíquico precário do sujeito com tendências passionais (AULAGNIER, 1979; Amaral, 2000). Mesmo contando com a in- fl uência indireta do meio, por injunções su- peregoicas coletivas sarcásticas e gozadoras, a responsabilidade subjetiva é inalienável. A perspectiva de que todo crime comporta uma forma de gozo amplia a teoria do “cri- minoso por sentimento de culpa”, proposta por Freud (1996), e explorada por autores de diferentes períodos e grupos psicanalíti- cos, como Reik (1973), Lacan (1966) e Ber- gler (1969). De um modo ou de outro, a ação criminal faz pensar numa tendência sádi- ca, mas, a necessidade de autopunição pela culpa inconsciente os faria associar o gozo sádico de modo secundário a um gozo ma- soquista primário, este mais diretamente ati- nente ao embate subjetivo com a Lei. Bergler (1969) afi rma que a punição falha em preve- nir e eliminar o crime, pois é justamente esse constrangimento externo que os criminosos buscam. O “criminoso por sentimento de culpa” é um sujeito que deseja inconsciente- mente ser punido, dado o ódio inconsciente voltado contra o próprio eu. A agressividade de fundo masoquista (BERGLER, 1969) se- ria, portanto, uma forma predisponente em casos passionais típicos, em que há uma ma- turação prolongada e confl ituosa, diferindo da concepção de um crime frio e calculado, como seria o crime conjugal “por dinheiro”. Mijolla-Mellor (1995) diferenciou os crimes passionais dos “crimes conjugais”, como se segue:

O crime no divã: fundamentos diagnósticos em passionais violentos

O crime conjugal não se confunde com o crime passional no sentido que se tem o costume de dar ao termo, pois se o homicida mata, não é por amor decepcionado transformado em ódio,

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