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3.3 Como funciona o Crime Organizado no Brasil

3.3.1 Crime Organizado no Ceará

O Crime Organizado da chamada era pós-industrial tem expandido seus tentáculos por toda parte numa dimensão assustadora e devastadora no âmbito do tecido social humano. Não seria, pois, surpresa a existência do Crime Organizado e a atuação de suas organizações criminosas no Estado do Ceará.

As ações ousadas das organizações criminosas na terra alencarina no biênio 2005/2006 ganharam destaques nacional e internacionalmente. As atuações dessas organizações criminosas têm exigido das autoridades, sobretudo as que são ligadas diretamente com a questão da segurança e ordem públicas ações e reações, no âmbito político-criminal, mais enérgicas e inteligentes.

A história da existência do Crime Organizado no Ceará embora, vez por outra, seja camuflada pelas autoridades locais, não é nova. Já nos idos da década de 1970, em pleno regime militar e início da formação e estruturação da mais antiga e hierarquizada organização criminosa do País, o CV, o Ceará tinha um filho da terra como um dos partícipes criadores dessa organização criminosa, inclusive, fazendo parte do alto escalão na hierarquia do CV e que, posteriormente, a partir de 1992, com a morte de Rogério Lengruber, se tornaria o principal chefe.

Francisco Viriato de Oliveira, o Japonês. É um dos mais terríveis criminosos encarcerados no Instituto Penal Cândido Mendes. Cearense de 46 anos, filho de Clóvis Franco Oliveira e Maria de Jesus Oliveira. Matou a própria mulher diante da filha de quinze anos. Pior: teria obrigado a menina a presenciar os últimos momentos da mulher que ele acusava de traição.

Tem, além da menina, outros três filhos. Está condenado a um século de prisão. Respondeu a 33 processos que resultaram em dezesseis diferentes mandados de prisão preventiva. Seria tedioso descrever todas as infrações do Código Penal que Viriato cometeu, incluindo dezessete violações do Artigo 121 – os crimes contra a vida. Em 1971, foi julgado pela primeira vez numa auditoria militar. Destino: Ilha Grande. Atualmente está em Bangu Um. É hoje o principal chefão do Comando Vermelho (AMORIM, 1993, p.

88).

Francisco Viriato de Oliveira, o Japonês era especialista na organização de seqüestros. Ele, inclusive, foi um dos líderes no seqüestro do empresário carioca Roberto Medina em 1990 que rendeu dois milhões e meio aos cofres do CV.

No ano de 1996, um relatório do Serviço Reservado da PMCE apontava que criminosos pertencentes ao CV do Estado do RJ estavam montando ou tentando montar suas bases criminosas no Estado do Ceará, sobretudo em Fortaleza. A finalidade inicial era “recrutar” cearense de bairros periféricos na capital alencarina para em seguida vinculá-los à estrutura criminosa do CV, definitivamente.

Corroborando com as informações do Serviço de Inteligência da PMCE, nesse mesmo ano, o traficante carioca Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, que foi um dos fundadores da organização criminosa ADA, com Celsinho da Vila Vintém, após ter sido expulso do CV, foi preso em Fortaleza. Uê foi Morto em setembro de 2002, no presídio Bangu 1, zona norte do Rio. O assassinato de Uê é atribuído ao chefe maior do CV Fernandinho Beira-Mar. O objetivo de Uê era montar uma ramificação da estrutura criminosa que comandava no RJ. A hipótese inicial das autoridades cearenses foi confirmada numa entrevista de um pastor evangélico (prefere não se identificar) ao Jornal O Povo de 05 de setembro de 2005. Nascido em Fortaleza, ex-matador de aluguel e com atuação no tráfico do RJ, no Complexo do Alemão quando morador por vários anos no Estado fluminense. O atual pastor revela que a religião entrou em sua vida após largar o mundo do crime. Atualmente, é casado, tem filhos e reside modestamente em um dos bairros periféricos de Fortaleza.

O pastor supracitado teve acesso às informações que davam conta do projeto de Uê, durante o período em que atuou como membro da Associação Comunitária da PMCE. O trabalho junto à PM visava manter aproximação com os jovens do bairro para tirá-los da criminalidade. Na época, lembra o pastor, chegou a cadastrar 525 integrantes de gangues no Bairro Pirambu, em Fortaleza, a maioria na faixa etária entre 14 e 25 anos de idade de famílias pobres.

Foi através do contato mais próximo com esses jovens que o pastor tomou conhecimento da intenção do traficante Uê. As áreas estratégicas a serem trabalhadas pelo projeto criminoso seriam os bairros Pirambu e o Serviluz. Segundo o pastor o traficante iria treinar grupos nesses bairros para atuar com o manuseio com armas de grosso calibre na realização de grandes assaltos e seqüestros já que para Uê o tráfico de drogas em Fortaleza não muito lucro. Uê não conseguiu realizar

seu projeto porque foi preso. Conforme o pastor, Uê já havia estudado o terreno e discorda da tese de que estava em Fortaleza para se esconder: “[q]uem quer se esconder não vem para cá, fica no Rio. Lá é o melhor esconderijo para os bandidos.

Aqui eles só vêm quando estão planejando alguma coisa” (O POVO, 21/05/ 2005, p.

06). A idéia de Uê era montar uma estrutura que possibilitasse executar ações delituosas audazes com conexão com outros estados da região Nordeste. A idéia era potencializar e organizar a revolta de jovens da periferia, excluídos e sem perspectivas para o ingresso no mundo do crime começando pelos jovens mais violentos dos Bairros do Pirambu e do Serviluz.

Entretanto, a ação organizada de criminosos no Estado do Ceará não pode ser atribuída apenas a bandidos ligados a organizações criminosas de outros estados ou que essas ações ocorrem somente na capital cearense. Um relatório de investigação policial encaminhado em julho do ano de 2000 um relatório de investigação policial dirigido ao Diretor do Departamento de Polícia do Interior – DPI, por um dos mais experientes Delegados de Polícia Civil do Estado do Ceará, bem como o processo Nº. 1.024/99, Comarca de Morada Nova, indicavam conexões de ações criminosas organizadas de bandidos locais com bandidos de outros estados da Região Nordeste e que estavam praticando uma modalidade criminosa até então desconhecida neste Estado: roubos a agências bancárias seqüestrando, primeiramente, os respectivos gerentes e familiares.

Senhor Diretor: o Estado do Ceará desde o ano de 1996 deixou de ser pacato, porquanto desde a referida época irrompeu uma forte onda de assaltos que vem deixando deveras preocupada a família cearense.

Matérias e mais matérias são divulgadas principalmente no jornal “DIÁRIO DO NORDESTE”.... Outrossim Senhor Diretor... a Secretaria de Segurança Pública e Defesa da Cidadania – SSPDC/CE – tem procurado assistir os cidadãos de assalto que está se tornando o pior dos delitos, ultrapassando até mesmo o homicídio; para tanto, as polícias civil e militar estão em campo para combater as atividades malfazejas das quadrilhas organizadas... . PEDRO GOMES DA SILVA FILHO, vulgo “Pedro das vacas”, o maior articulador de assaltos no Nordeste do Brasil devido a sua inteligência e perspicácia, além de frio e calculista, tendo criado inclusive a modalidade de seqüestrar os gerentes e funcionários de instituições financeiras para êxito na prática do delito. Aliás, outro perigoso assaltante compunha aquela quadrilha: FRANCISCO PEDRO BARRETO DE FREITAS, o “Veio do Chico Peba” (Sic.) (Fls.01).

Nesses dispositivos são apontados como principais organizadores e articuladores de homicídios, assaltos às agências bancárias, a carros pagadores, a cargas e a seqüestros neste Estado os cearenses Pedro Gomes da Silva Filho, o

“Pedro das Vacas”, natural de Acarape-CE; Francisco Pedro Barreto de Freitas, o

“Véi do Chico Peba”, natural de Morada Nova-CE e os pernambucanos Ednaldo Dantas Brandão, o “Naldo do Mané”, natural de Cabrobró-PE e Fernando Rosendo da Silva, o “Fernando Cruel”, natural de Recife-PE. Todos possuidores de uma longa ficha criminal.

Com efeito, as ações criminosas organizadas neste Estado continuam em alta. No ano de 2000, Marcos William Herba Camacho, o 'Marcola', considerado o líder nº. 01 no comando do PCC, coordenou em fevereiro de 2000, o 2º (segundo) maior roubo ocorrido (na época) no Ceará contra a Empresa Nordeste Segurança de Valores – NSV, em Caucaia, Região Metropolitana – RM de Fortaleza/CE., de onde foi roubado R$ 1,3 milhão. No ano anterior (1999), outra facção também ligada ao PCC havia, até então, realizado o maior roubo no Ceará quando atacou a empresa de Segurança Corpvs, roubando R$ 6,9 milhões. Na época, parte da quadrilha liderada por “Marcola”, foi presa em Fortaleza (20/02/2000), num pequeno prédio residencial no Bairro da Aldeota, a dois quarteirões da Sede da Secretaria da Segurança Pública e Defesa da Cidadania - SSPDC. Na ocasião houve um intenso tiroteio com comparsas de “Marcola” e a polícia. Um dos integrantes do PCC, Cláudio Manoel Santiago que usava o nome falso de Jéfferson Nunes Lino, tombou sem vida após ser atingido por vários tiros de arma de fogo. Além dessa morte, foram presos: Reinaldo Teixeira campos, o

“Psicopata” (paulista); Maurício Alves Ribeiro, o “China” (paulista); e Luiz Eduardo Nogueira de Jesus (paranaense). Durante as investigações a polícia cearense teve a certeza que Marcos William Herba Camacho, o “Marcola” articulou em São Paulo o roubo a empresa de Segurança e participou pessoalmente da ação criminosa.

Deste modo, “Marcola”, o líder da maior organização criminosa do país é, oficialmente, fugitivo e foragido da justiça do Estado do Ceará (Jornal Diário do Nordeste, de 15 de maio de 2006, p. 15, Polícia).

Até recentemente o Ceará contava com um de seus filhos como um dos principais canais de representação do Crime Organizado entre este Estado e o

estado do RJ. Erismar Rodrigues Moreira, o “Bem-Te-Vi” até bem pouco tempo (até ser morto pela polícia em 29/10/2005), era o principal líder do tráfico na Favela da Rocinha, em São Conrado. Filiado à organização criminosa ADA, Bem-Te-Vi reforçava sua organização criminosa com homens nascidos nos municípios cearenses de Varjota, terra natal do traficante, Santa Quitéria, Independência, Monsenhor Tabosa e Nova Russas, região do norte cearense. Segundo um relatório do Serviço de Inteligência do 23º BPM (Leblon) na capital fluminense, Bem-Te-Vi já havia recrutado mais de 100 homens cearenses para serem utilizados no tráfico de drogas na Favela da Rocinha. Para esse “recrutamento”, o traficante sempre usa um de seus conterrâneos de extrema confiança. Até pouco tempo, essa atribuição era do bandido conhecido como “Jiló”, natural de Varjota e que viajava freqüentemente à sua terra natal. Todavia, “Jiló” foi destituído da função depois de se desentender com Bem-Te-Vi. O chefão só não o matou por se tratar de um conterrâneo, mas o expulsou da Favela da Rocinha – atualmente, “Jiló” estaria abrigado na Favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá – RJ. De acordo com os policiais que investigavam a conexão Bem-Te-Vi-Rocinha, a preferência de Bem-Te-Vi era por homens com idade entre 18 e 30 anos que, sem muitas perspectivas, são seduzidos pela vontade de melhorar de vida na capital carioca. As viagens e despesas iniciais desses homens que vão para o RJ são previamente financiadas pelo chefe do tráfico tendo que ser pagas pós-ingresso na rede de traficantes, sob pena de morte.

Muitos nem têm envolvimento com o crime lá no Ceará, mas se iludem com a idéia de sair de um lugar muito pobre e vir morar no Rio. São acolhidos na favela e treinados para aprender a manejar armas e rádios, além de atuar na venda de drogas... a fidelidade dos cearenses ao chefe do tráfico da Rocinha é total. Por esse motivo, Bem-Te-Vi teria optado por providenciar a vinda para o Rio do exército de conterrâneos. Muitos dos cearenses de Bem-Te-Vi ficam por algum tempo na quadrilha, depois compram uma moto e passam a trabalhar como entregadores ou mototaxistas. Alguns se integram à frota de mototáxis controlada pelo bandido, estimada em 60% do total de motos que circulam na favela (Site:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u58844.shtm1).