4. DOS CRIMES E DAS PENAS
4.1. DO CRIME DE POSSE IRREGULAR DE ARMA
4.1. DO CRIME DE POSSE IRREGULAR DE ARMA
O crime de posse irregular de arma de uso permitido é previsto no artigo 12 do Estatuto, vejamos o dispositivo legal:
Art. 12. Possuir ou manter sob sua guarda arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, em desacordo com determinação legal ou regulamentar, no interior de sua residência ou dependência desta, ou, aindano seu local de trabalho, desde que seja o titular ou o responsável legal do estabelecimento ou empresa:
Pena – detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. (BRASIL, 2019).
Desse modo, a conduta descrita no art. 12 está relacionada à ausência de registro da arma de fogo, pois não há que se falar em porte já que a arma está na residência ou no local de trabalho.
Trata-se de crime comum, o sujeito ativo, que é quem, de forma direta ou indireta, realiza a conduta descrita no tipo penal, pode ser qualquer pessoa, inclusive o proprietário da arma. O sujeito passivo, que é o titular do bem jurídico protegido pela lei penal violada por meio da conduta criminosa, é a coletividade, ente destituído de personalidade jurídica, o que faz com que seja um crime vago.
A objetividade jurídica de tal crime, que consiste no interesse tutelado pela norma, é a proteção da incolumidade pública, mais especificamente a segurança pública. Tutela-se também o controle sobre a propriedade de armas de fogo e,
protege-se reflexamente a vida, a integridade física, o patrimônio, a honra e a liberdade, conforme é também o entendimento do STF2 e do STJ3.
Acerca do tema, tanto o STJ quanto o STF consagraram o entendimento de que a posse de arma de fogo que esteja apta a produzir disparos, ainda que desmuniciada, tipifica o crime descrito no art. 12 da Lei nº 10.826/06, eis que o delito é classificado como de mera conduta e perigo abstrato. Nessa mesma linha de pensamento, a doutrina de César Dario Mariano da Silva (2005) diz que:
Como crimes de perigo abstrato, não necessitam da demonstração deque efetivamente alguém foi exposto a perigo de dano, que é presumido pela lei de forma absoluta, não admitindo prova em contrário. São, também, crimes de perigo coletivo (ou comum), uma vez que um número indeterminado de pessoas é exposto a perigo de dano. Assim, a objetividade jurídica dos delitos elencados no Estatuto é a incolumidade pública, ou seja, a segurança da sociedade como um todo, que deve ser preservada, evitando-se que bens jurídicos como a vida, a segurança e a integridade física da coletividade sejam lesionados ou expostos a perigo de dano. (...) (SILVA, 2005, p. 31-35).
Em razão da vontade do agente, a consumação do referido delito se propaga no tempo, o que torna o crime permanente. Assim, torna-se possível a prisão em flagrante, enquanto não cessada a permanência, já o curso do prazo prescricional somente se inicia com a cessação da permanência e, sobrevindo lei penal mais gravosa, - enquanto não cessada a permanência - poderá ser aplicada ao caso.
A posse irregular de arma de fogo de uso permitido é crime de perigo abstrato/perigo presumido, assim como a maioria dos demais crimes previstos no Estatuto do Desarmamento. Desse modo, significa dizer que o crime se consuma com a mera exposição do bem jurídico a uma probabilidade de dano, não necessitando a comprovação do dano efetivo e não cabendo prova em contrário.
2 STF – RHC: 81057SP, Relator: Min. ELLEN GRACIE, Data de Julgamento: 25/04/2004, Primeira Turma, Data de Publicação: DJ 29-04-2005 00030 EMENT VOL-02189-02
PP-00257 RTJ VOL-00193-03 PP-00984. Disponível em:
Como não há resultado naturalístico, o crime se consuma com a mera posse irregular, não importando a finalidade, pois, é um crime de mera conduta, eis que o tipo penal se limita a descrever uma conduta.
Conforme dito, a pena será de um a três anos e multa. Por se tratar de crime de médio potencial ofensivo (pena de um a três anos), admite a suspensão condicional do processo, prevista no art. 89 da Lei 9.099/95 e que consiste em medida despenalizadora que tem por benefício a extinção da punibilidade, ou seja, a não aplicação da pena pelo crime cometido. Vejamos:
Art. 89. Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não por esta Lei, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo, por dois a quatro anos, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal). (BRASIL, 1995)
Como a pena não ultrapassa quatro anos, conforme preconiza o artigo 322 do Código de Processo Penal, o próprio delegado poderá arbitrar a fiança. Por fim, estando presentes os requisitos do art. 44 do Código Penal, é perfeitamente possível que a pena privativa de liberdade seja convertida em restritiva de direitos, já que trata-se de crime doloso, trata-sem violência ou grave ameaça e a pena não ultrapassa quatro anos, o que permite a conversão.
Outro instituto despenalizador do nosso ordenamento jurídico que também pode ser aplicado é o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), desde que obedecidas as condições impostas no artigo 28-A do Código de Processo Penal.O referido acordo, regularizado pela Lei nº 13.964/2019 (conhecida como pacote anticrime) em síntese, nas palavras de Rogério Sanches Cunha (2020), consiste em:
Ajuste obrigacional celebrado entre o órgão de acusação e o investigado (assistido por advogado), devidamente homologado pelo juiz, no qual o indigitado assume sua responsabilidade, aceitando cumprir, desde logo, condições menos severas do que a sanção penal aplicável ao fato a ele imputado. (CUNHA, 2020, p. 127).
4.1.1 Abolitio Criminis Temporária
Ao ser promulgado, o Estatuto do Desarmamento estabeleceu, em seu art. 30, um prazo de 180 dias para que os possuidores e proprietários de armas de fogo de
uso permitido fizessem a solicitação de registro. Desse modo, após algumas prorrogações, fora estabelecido prazos para o registro e, durante esses períodos, não configurava crime a posse ilegal de arma permitida ou proibida e equiparadas, ou seja, criou-se uma abolitio criminis temporária, de 23 de dezembro de 2003 a 23 de outubro de 2005. De 24 de outubro de 2005 a 31 de dezembro de 2009, a posse ilegal de arma permitida continuou a não configurar crime, porém, a posse ilegal de arma proibida ou restrita passou a ser crime.
Nesse sentido, a Súmula 513 do STJ:
Súmula 513-STJ: A abolitio criminis temporária prevista na Lei n.
10.826/2003 aplica-se ao crime de posse de arma de fogo de uso permitido com numeração, marca ou qualquer outro sinal de identificação raspado, suprimido ou adulterado, praticado somente até 23/10/2005.
Por exemplo, se algum cidadão foi flagrado com uma arma de uso permitido em sua residência entre a entrada em vigor do Estatuto do Desarmamento e o dia 31 de dezembro de 2009, não poderia ser punido, pois ainda possuía prazo para efetuar a solicitação do registro da arma e tal conduta não configurava crime.
Por fim, a partir de 1º de janeiro de 2010 a posse ilegal de arma permitida passou a configurar crime, mas a entrega espontânea à Polícia Federal continuou causa extintiva de punibilidade. Em relação ao porte ilegal de qualquer arma, sempre configurou crime desde a entrada em vigor do Estatuto do Desarmamento, conforme estudaremos.