Ao estudar a aplicação da anistia no Brasil, é obrigatória a análise dos crimes cometidos pelos agentes do Estado, em nome deste ou com o seu consentimento. O número de condutas que podem ser atribuídas aos agentes do Estado durante o regime militar é imenso. Como exemplos, podemos citar homicídio, lesões corporais, omissão de socorro, sequestro, cárcere privado, ameaça, violação de domicílio, sevícia, torturas, ocultação de cadáver, desaparecimento forçado etc..
Importante ressaltar que os crimes aqui abordados não são aqueles cometidos pelo servidor público fora de suas funções, ou seja, delito cometido por motivos pessoais (inclusive ideologias), fora do âmbito das atividades estatais. Os crimes da Ditadura são aqueles praticados pelos funcionários públicos,civis ou militares, a mando dos chefes dos departamentos responsáveis pela repressão política, e que serviam à consecução dos objetivos (dos defensores) do Estado de Segurança Nacional. Para um aprofundamento, aproveita-se o entendimento de Swensson Junior (2011, p. 64):
A criminalidade estatal não diz respeito às condutas desviantes de alguns agentes encarregados da repressão política estatal, ou seja, aos crimes cometidos por alguns subalternos isoladamente, contra as ordens de seus superiores. Tampouco trata-se de um esquema local de corrupção, em que determinados agentes estatais abusam do seu status ou da sua autoridade para obterem ilicitamente certos benefícios. Quando falamos em criminalidade estatal no Brasil, estamos nos referindo a toda uma estrutura de repressão montada, organizada e patrocinada pelo Estado, que utilizou práticas criminosas para perseguir e punir os inimigos políticos do regime militar.
Durante a Ditadura Militar, com a instalação da Doutrina de Segurança Nacional no País, podemos falar na prática do terrorismo de Estado, o qual, segundo Bastos (2009, p. 35) é:
[...] a organização sistemática e institucionalizada de um conjunto de instituições repressivas por meio de leis, prisões, execuções e julgamentos, que é utilizada como fórmula para criar um sentimento generalizado de angústia e atemorização nos indivíduos, a fim de que estes se mantenham consoante com os desígnios dos governantes e abstenham-se de questionamentos quanto às suas tomadas de decisões (BASTOS, 2009, p. 35).
Como exemplos de órgãos repressivos utilizados para esta manutenção do regime e que cometeram crimes contra as pessoas que estavam sob sua custódia se pode citar o Centro de Operações de Defesa Interna (CODI) e os Departamentos de Operações e Informações (DOI’s), os quais tinham tarefas separadas, apesar da utilização corriqueira da expressão DOI-CODI, como se fossem um órgão único. O CODI fazia o trabalho burocrático administrativo e podia coordenar vários DOI’s, os quais, por sua vez, eram o braço operacional do organismo, realizando as ações práticas (FON, 1986, p. 20). Eram as seguintes funções que cada órgão desempenhava:
[...] enquanto ao CODI cabe, além do serviço burocrático, a análise das informações e o planejamento estratégico do combate à subversão, definindo as metas prioritárias em sua área de ação, o DOI, com suas equipes de interrogatórios e capturas se incumbe da execução dos planos traçados pelo CODI. Dentro deste organograma, é o DOI que mantém o contato direito com o prisioneiro, embora eventualmente um funcionário do CODI, geralmente das equipes de análise de informações, possa querer interrogá-lo para dirimir alguma dúvida (FON, 1986, p. 20).
Uma fonte confiável sobre as ações realizadas pelos órgãos de repressão à época é o Projeto Brasil Nunca Mais (BNM), desenvolvido pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela Arquidiocese de São Paulo nos anos oitenta, sob a coordenação do reverendo Jaime Wright e do arcebispo Paulo Evaristo Arns. O BNM analisou depoimentos prestados pelos réus no âmbito dos tribunais militares, em cerca de 900 mil páginas de processos judiciais movidos contra presos políticos. Os dados revelam que até o ano de 1977 foram denunciados pelos presos políticos 6.016 casos de tortura (BRASIL: NUNCA MAIS).
Apesar de haver denúncias de outros tantos delitos, neste capítulo abordaremos somente os crimes de tortura e desaparecimento forçado, este último ainda não penalizado pelo ordenamento jurídico brasileiro, como veremos adiante. A escolha se justifica por vários fatores. A tortura e o desaparecimento forçado são os crimes mais citados e discutidos pelos autores de artigos e livros sobre o período da Ditadura Militar. Eles têm, ainda hoje, mais repercussão na mídia, nas doutrinas e no Judiciário. O fato de ainda encontrarmos casos de tortura praticados por agentes policias, por exemplo, faz com que a discussão sobre a tortura no período ditatorial tenha grande relevância. No caso do desaparecimento forçado, temos atualmente tramitando ações penais movidas pelo Ministério Público Federal contra agentes estatais que sequestraram perseguidos políticos durante a Ditadura.
Além desses fatores, estes crimes são geralmente os mais utilizados por regimes autoritários, como as ditaduras militares da América Latina, para a punição de seus opositores, pois facilitam a repressão e a continuidade da ditadura. E, por fim, mas não menos importante, há o fato de que estes delitos mostram o absurdo da utilização da teoria da conexão para tornar os crimes dos torturadores/sequestradores conexos aos crimes políticos ou mesmo comuns dos torturados/desaparecidos.
4.1.1 Tortura
A tortura não é prática exclusiva da Ditadura Militar brasileira. O método é utilizado desde a antiguidade como instrumento de manutenção do poder e nos procedimentos de investigação e instrução criminais, passando mais tarde a ser considerado um ilícito penal (COIMBRA, 2002). Sobre a utilização da tortura no Brasil, especialmente durante a Ditadura Militar, o Projeto Brasil: Nunca Mais explana resumidamente:
De abuso cometido pelos interrogadores sobre o preso, a tortura no Brasil passou, com o Regime Militar, à condição de “método científico”, incluído em currículos de formação de militares. O ensino deste método de arrancar confissões e informações não era meramente teórico. Era prático, com pessoas realmente torturadas, servindo de cobaias neste macabro aprendizado (ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, 1986, p. 32).
O ensino das técnicas de tortura pelas escolas de formação de militares mostra o objetivo da Ditadura Militar de utilizar este método de interrogatório e de punição com os dissidentes políticos. Fon (1986, p. 32) explica como tal prática foi instalada nos órgãos de repressão política do regime militar:
Sistematizada a partir da criação da “Operação Bandeirantes”, a prática da tortura como forma de arrancar informações e confissões, ou simplesmente humilhar prisioneiros políticos, já era um mal em processo de franco desenvolvimento em julho de 1969. De forma intermitente, entretanto, ela nunca deixou de ser usada, desde sua introdução no arsenal à disposição da política brasileira, durante o Estado Novo. Após 1945, as denúncias iriam se tornar assustadoramente mais frequentes a partir do dia 1º de abril de 1964, quando o velho líder comunista Gregório Bezerra foi arrastado pelas ruas do Recife, amarrado à trazeira (sic) de um jipe do Exército.
Outro fator que denuncia a utilização sistemática da tortura contra os opositores políticos do regime é a indulgência com que as denúncias de maus tratos e sevícias contra presos políticos eram tratadas pelo Poder Judiciário. “A Justiça Militar brasileira, conforme demonstrado nesta pesquisa do Projeto BNM, tinha plena consciência da aplicação rotineira de sevícias durante os inquéritos, e ainda assim atribuía validade aos resultados destes, apoiando neles seus julgamentos” (ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, 1986, p. 203).
A tortura era tratada como um mal necessário pela linha dura da Ditadura Militar. Tinham nela o meio mais efetivo de conseguir informações e, ainda por cima, ela se apresentava como uma forma excelente de amedrontar e traumatizar os presos políticos. “Um corpo torturado é um corpo roubado ao seu próprio controle; corpo dissociado de um sujeito, transformado em objeto nas mãos poderosas do outro – seja o Estado ou o criminoso comum” (KEHL, 2010, p. 130-131).
Segundo Kehl (2010, p. 124):
O “esquecimento” da tortura produz [...] a naturalização da violência como grave sintoma social no Brasil. Soube, pelo professor Paulo Arantes, que a polícia brasileira é a única que comete mais assassinatos e crimes de tortura na atualidade do que durante o período da ditadura militar. A impunidade não produz apenas a repetição da barbárie: tende a provocar uma sinistra escalada de práticas abusivas por parte dos poderes públicos, que deveriam proteger os cidadãos e garantir a paz.
Por esses motivos é que se escolheu abordar a tortura e o desaparecimento forçado. Além dos motivos já alegados no começo deste capítulo, outro ponto importante a ser discutido é a presença constante desses crimes no cotidiano brasileiro. Admitir a ocorrência de vários casos de tortura durante o período da Ditadura Militar praticados pelos agentes do poder público é passo imprescindível para a real redemocratização do País. Vivemos em uma democracia, em termos políticos, mas não temos instituições totalmente democratizadas. A polícia é, ainda, um grande exemplo dessa transição mal acabada, pois ela repete os atos injustos e ilegais dos órgãos de repressão policial da ditadura.
4.1.2 Desaparecimento forçado
Conforme Teles (2005, p. 130): “O termo desaparecido é usado para definir a condição daquelas pessoas que apesar de terem sido sequestradas, torturadas e assassinadas pelos órgãos de repressão, as autoridades governamentais jamais assumiram suas prisões e mortes”. Nesse mesmo sentido:
A condição de desaparecido corresponde ao estágio maior do grau de repressão política em um dado país. Isso porque impede, desde logo, a aplicação dos dispositivos legais estabelecidos em defesa da liberdade pessoal, da integridade física, da dignidade e da própria vida humana, o que constitui um confortável recurso, cada vez mais utilizado pela repressão. (ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, 1986, p. 260).
Por essas características do desaparecimento forçado é que a Ditadura Militar tirou tanto proveito deste delito. O sentimento de medo de a qualquer momento poder ser sequestrado e levado para lugar desconhecido sem poder fazer contato com qualquer familiar ou amigo é realmente muito útil aos órgãos da repressão políticos. A tortura era mais empregada para obter confissões e informação úteis à caça dos opositores. O desaparecimento
forçado, por sua vez, servia mais à manutenção do regime, ao passo que dava sumiço nos sujeitos indesejáveis e intimidava os demais companheiros de luta.
O único fato que se sabe sobre um desaparecido é que foi detido por organismos de segurança. O mais se baseia em hipóteses. A vítima quase certamente foi objeto de assassinato impune, sendo enterrada em cemitério clandestino, sob nome falso, geralmente à noite e na qualidade de indigente (ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, 1986, p. 261).
Ao mesmo tempo, o cometimento desse delito esconde as ações ilegais do regime, pois dificilmente os corpos dessas vítimas serão encontrados, e mesmo que sejam, a autoria destes crimes é praticamente impossível de ser provada.
Os órgãos internacionais de proteção dos direitos humanos, entre eles a Comissão e a Corte Interamericana de Direitos Humanos, manifestam-se já há algum tempo no sentido de que é necessário que o crime de desaparecimento forçado seja incluído no ordenamento jurídico dos países que passaram por períodos ditatoriais e experimentaram ou experimentam o período de transição política. A importância desta penalização interna do crime de desaparecimento forçado é a de aplicar a punição devida e de prevenir a reutilização deste método de repressão política. No âmbito do direito internacional, o desaparecimento forçado já é considerado como crime contra a humanidade.
A Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos há tempos catalogou a prática dos desaparecimentos forçados ou involuntários de pessoas como crime contra a humanidade, que viola direitos fundamentais da pessoa humana, como a liberdade e a integridade pessoal, o direito à devida proteção judicial e as devido processo, e inclusive o direito à vida. Similarmente, o desaparecimento forçado de pessoas é caracterizado como um crime contra a humanidade pelo artigo 7.1.i. do Estatuto do Tribunal Penal Internacional, quando cometido como parte de uma prática generalizada ou sistemática contra membros de uma população civil (ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS, 2009, p. 50).
O Brasil ainda não cumpriu a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Caso Gomes Lund e outros, “Guerrilha do Araguaia”, em 24/11/2010) quanto à obrigação de tipificar e julgar o crime de desaparecimento forçado de pessoas. Esta ação trata da responsabilidade do Estado brasileiro quanto à detenção, tortura e desaparecimento forçado dos membros do PCB (Partido Comunista Brasileiro) durante as ações militares para extinguir a Guerrilha do Araguaia entre 1972 e 1975 (JARDIM, 2011, p. 104).
Todavia, atualmente tramitam no Congresso Nacional os Projetos de Lei n. 301/07 e 4.038/08 (apensados) que têm como objetivo definir condutas que constituam crimes de violação do direito internacional humanitário, estabelecer normas para a cooperação judiciária com o Tribunal Penal Internacional,entre outras providências. A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania apresentou substitutivo aos projetos de lei, no qual o artigo 31 define o crime de desaparecimento forçado:
Crime contra a humanidade por desaparecimento forçado.
Art. 30. Apreender, deter, seqüestrar ou de outro modo privar alguém de liberdade, ainda que legalmente, em nome do Estado ou de organização política, ou com a autorização, apoio ou aquiescência destes, ocultando ou negando a privação da liberdade ou informação sobre sua sorte ou paradeiro a quem tenha o direito de sabê- lo, deixando o detido fora do amparo legal por período superior a quarenta e oito horas:
Pena: reclusão, de cinco a quinze anos, sem prejuízo da concorrência de outros crimes.
§ 1o Na mesma pena incorre quem ordena os atos definidos neste artigo ou mantém a pessoa detida sob sua guarda, custódia ou vigilância.
§ 2o O crime perdura enquanto não seja esclarecida a sorte ou o paradeiro da pessoa detida, ainda que sua morte ocorra em data anterior.
Desaparecimento forçado qualificado.
§ 3o A pena será de dez a trinta anos de reclusão, se o desaparecimento durar mais de trinta dias (COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO E JUSTIÇA E DE CIDADANIA, 2008, p. 14-15).
Portanto, em breve o Estado brasileiro estará, é permitido supor, em dia com esta obrigação internacional. Importante frisar que a tipificação deste delito servirá como defesa dos cidadãos contra ações policiais arbitrárias atuais. Sabe-se que não apenas regimes autoritários cometem crimes contra seus cidadãos. Apesar de a Ditadura Militar ter se utilizado sistematicamente deste crime, os resquícios de arbitrariedade e violência deixados pelos órgãos de repressão ainda estão muito incutidos nas ações policiais de hoje.
4.2 CRÍTICA À INTERPRETAÇÃO DOMINANTE DA LEI N. 6.683/79: