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2.2 Crises estudadas

2.2.7 Crise Brasileira (2002)

De acordo com Brotto (2003), a eleição do presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva em 2002 trouxe temor aos investidores estrangeiros devido às incertezas sobre a política econômica a ser adotada. Como consequência, houve aumento no risco Brasil4 de 1.227 pontos, valorização do dólar para quatro reais (R$ 4,00) e queda no Ibovespa de 65% entre janeiro e outubro de 2002.

Para Serrão (2005, p.30), “[...] no decorrer do ano de 2002, é claro o papel dos investidores estrangeiros como propulsores dos fluxos de saída de capitais do Brasil e como principais motivadores da deterioração dos indicadores macroeconômicos e financeiros.” A maioria dos trabalhos sobre a crise brasileira de 2002 a explicam como

4 “O risco-país pode ser representado pela taxa de juros paga por títulos de risco soberano, subtraída a taxa livre de risco. O risco-país é, portanto, o prêmio de risco (entendido como o „excesso‟ de juros cobrados acima de um título livre de risco) que os investidores cobram para carregar títulos de um determinado país.” (SERRÃO, 2005, p.40)

consequência da expectativa negativa dos investidores frente à chegada ao poder de um candidato de esquerda, ligando a crise a um momento político interno em detrimento de fatores do cenário macroeconômico.

De acordo com o investidor Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil e integrante do conselho do Grupo dos 305, em entrevista “[...] apesar da crise financeira internacional ser a pior da história mundial, ela é menos perigosa para o Brasil do que a de 2002, quando o mercado financeiro reagiu mal à iminência da primeira vitória do Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições presidenciais.” (AGENCIA BRASIL, 2009).

Segundo Bresser-Pereira (2002, p.10), a partir do Plano Real, em 1994, os principais problemas da economia brasileira poderiam ser resumidos em câmbio valorizado e alta da taxa de juros real. Após a adoção do câmbio flutuante, em 1999, começou uma queda sistematizada da taxa de juros. Porém, em 2001, o pequeno aquecimento da economia brasileira, os desequilíbrios norte americanos após os ataques terroristas de 11 de setembro e a crise Argentina, levaram o Banco Central a elevar novamente a taxa de juros aos níveis mais elevados do mundo, com o objetivo de conter a inflação.

Na verdade, como a determinação da taxa de juros é a única arma de que contam as autoridades monetárias para atingir a meta inflacionária (política que adotou em 2000) e como a inflação ameaçava elevar-se temporariamente devido a novo deslizamento da taxa de câmbio para cima, em busca de um nível de equilíbrio, o Banco Central elevou novamente a taxa de juros. (BRESSER-PEREIRA, 2002, p.10).

Para Bresser-Pereira (2002, p.10), a equipe econômica errou ao concentrar esforços em conter a inflação, uma vez que a verdadeira ameaça à economia brasileira surgira em 1995: “o desequilíbrio do balanço de pagamentos e a consequente insolvência externa.” Essa situação seria parte de estratégias para desenvolver a credibilidade frente aos grandes centros econômicos norte-americanos. Assim, o governo aceitou, sem críticas, a proposta central do Segundo Consenso de Washington, “[...] a de que seria possível para países em desenvolvimento, altamente endividados, retomar o crescimento com poupança externa” (BRESSER-PEREIRA, 2002, p.10).

Serrão (2005, p.47) corrobora a ideia de Bresser-Pereira (2002) quando apresenta uma nova perspectiva a respeito da deflagração da crise brasileira de 2002. Para o autor, a crise foi consequência de dúvidas quanto à sustentabilidade da dívida pública brasileira, crise da marcação a mercado e posterior racionamento de crédito. Assim, o episódio da eleição brasileira contribuiu, mas não foi o principal motivo da crise de 2002. Em 1994, o mesmo candidato estava à frente das pesquisas de intenções de votos e não houve sinais de turbulências. A diferença entre 1994 e 2002 seria então o contexto macroeconômico em que o país estava inserido.

5 “[...] formado por economistas que formulam um projeto de reforma do sistema financeiro internacional.” (AGENCIA BRASIL, 2009). O intuito do projeto é evitar que crises como a de 2008 se repitam.

No intuito de contextualizar o episódio, serão apresentadas as ideias de Serrão (2005). De acordo com o autor, ao final de 2001 e início de 2002, os títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional e Banco Central brasileiros foram perdendo valor, dando origem à crise da marcação a mercado. Embora os princípios da gestão fiduciária de recursos financeiros orientassem a marcação a mercado dos ativos de fundos mútuos de investimentos, parcela significativa dos administradores de recursos não o fazia. Com a queda dos valores dos títulos públicos federais, vários fundos registravam um patrimônio líquido superior ao resultado realizado caso suas carteiras fossem liquidadas, apostando na recuperação do preço dos títulos.

No primeiro semestre de 2002, as autoridades reguladoras brasileiras exigiam a marcação a mercado das carteiras dos fundos de investimento. Este evento levou ao reconhecimento de perdas em diversos fundos e à venda dos títulos para fazer caixa e honrar com os numerosos resgates solicitados pelos cotistas. A crise de marcação a mercado foi considerada o estopim da crise de confiança sofrida nos meses seguintes (SERRÃO, 2005, p.49-50).

A crise de marcação a mercado levou à saída de capital do país assim como à inibição de novos fluxos.

“Emprestadores são por natureza avessos ao risco e, na presença de informação assimétrica ou imperfeita, podem racionar o crédito” (SERRÃO, 2005, p.53). O mercado internacional passava por um momento de racionamento de crédito, momento esse que Serrão (2005, p.53) chama de ciclo de aversão ao risco.

Assim, tanto a instância pública quanto privada foram afetadas por esse fenômeno. No caso da instância privada, Serrão (2005, p.52) apresenta o Gráfico 3 a seguir onde demonstra a evolução dessa restrição de crédito. Utilizando informações das contas “Empréstimos e financiamentos demais setores – Longo Prazo” e “Empréstimos e financiamentos demais setores – Curto Prazo”, do Balanço de Pagamentos brasileiro, o autor demonstra que, a partir de 2002, os saldos dessas contas apresentaram-se cada vez mais negativos, indicando a não rolagem de empréstimos e financiamentos que venceram neste período, evidenciando o racionamento de crédito.

Gráfico 3 - Empréstimos e financiamentos demais setores - curto e longo prazos (US$ milhões) FONTE: Banco Central do Brasil

Em uma terceira etapa desta crise, a dinâmica da dívida brasileira era considerada explosiva. Como parte das dívidas externa e interna era indexada ao dólar e o câmbio era flutuante, a depreciação da moeda local e a saída de capital do país provocou aumento significativo na relação dívida/PIB. Assim, havia dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida brasileira. Os investidores, percebendo esta movimentação, passaram a se desfazer de todo tipo de ativos brasileiros, levando à realização das expectativas anteriores.

No início de 2003, inicia-se a recuperação nacional. Internamente, o novo governo reconquista a confiança dos investidores e há uma nova subida de preços, as taxas de juros internacionais caem novamente e a aversão ao risco diminui. Neste novo cenário internacional, os países endividados, suscetíveis ao pagamento de altas taxas de juros, voltam a presenciar a entrada de capitais e aumento do câmbio (SERRÃO, 2005, p.62).