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2 O ESTADO MODERNO NO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

2.1 A CRISE DO CAPITAL E A REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO

O primeiro decênio do século XXI protagonizou um tsunami financeiro em proporção mundial. O mercado de Wall Street dava mostras de que seria insustentável conter a denominada crise das hipotecas subprime6, o que desencadeou em momento posterior a ruína de um conjunto de bancos de investimentos. A falência do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, promoveu uma estagnação na movimentação de empréstimos no mundo, causando um grande colapso nos mercados de créditos. A suposta estabilidade do mercado mundial demonstrava fragilidade diante de um dos maiores tremores na economia dos últimos 60 anos. A queda das exportações de matérias-primas nos ditos países em desenvolvimento e as grandes taxas de desemprego nos Estados Unidos, China e Espanha deflagraram a agudez do momento de recessão.

Sobre esta crise econômica, reconhece-se que a mesma se configura como o desdobramento da crescente mundialização da economia, com imensa concentração de capitais em mãos de conglomerados, na sua maioria, empresas estadunidenses. Para Harvey (2011), os Estados Unidos sentiram os impactos no setor financeiro com esta atual crise: mesmo engendrando um plano emergencial, do qual retiraram dos cofres públicos cerca de 700 bilhões de dólares para amortizar o colapso do sistema financeiro, na dimensão do mercado mundial demonstrava cada vez mais a sua incapacidade de orquestrar um plano isolado de recuperação, principalmente pela enorme dívida que o país acumulou através de empréstimos nos anos 1990, culminando no final da seguinte década com a cifra de US$ 2 bilhões/dia. A ameaça à supremacia financeira deste país justifica-se tanto na desvalorização de sua moeda, como também pelo perceptível poder dos credores em sua economia.

No entanto, longe de reafirmar a defesa dos liberais de que uma crise é um evento imprevisível, ou ainda, provocado por um acidente da natureza, destaca-se que a sua composição possuem raízes históricas. Se no primeiro quarto do século XIX as crises se apresentavam como um fenômeno local, já a partir de 1847-1848 elas atingiram proporções mundiais. Quanto a este movimento, Marx e Engels (2005), no panfleto operário “Manifesto do Partido Comunista”, já destacavam este processo como resultado da necessidade de

6 Termo utilizado nos Estados Unidos para denominar a modalidade de empréstimo destinada ao setor imobiliário classificado como de alto risco, uma vez que os seus requerentes não precisavam comprovar renda, além de pagarem juros altíssimos. Esse quadro gerou o endividamento de inúmeras famílias. Segundo Harvey (2011), a crise econômica neste país afetou pessoas de baixa renda (em sua maioria, imigrantes hispânicos e afro-americanos e/ou mães solteiras) que entre 1998 e 2006 perderam juntos entre 71 e 93 bilhões de dólares envolvidos nesta modalidade de empréstimo. Somente no ano de 2007, uma média de dois milhões de habitantes tinham perdido suas casas hipotecadas e quatro milhões corriam o risco de serem despejados.

exploração do mercado mundial pela burguesia, cujo objetivo seria o de ampliar as possibilidades de consumo em todos os países.

No desenvolvimento do pensamento liberal sobre o Estado Moderno, é possível identificar em suas formulações os seguintes princípios: o Estado, mediante um contrato social, é responsável por assegurar as condições para reprodução da esfera mercantil na sociedade civil; compete ao Estado garantir o direito natural à propriedade privada, como reafirmação dos direitos políticos aos cidadãos; é papel deste aparato a não interferência nas atividades mercantis, sendo requerido quando necessário (como exemplo, durante uma crise econômica). Os autores ainda constatam que esta classe, em momentos de crise, imprime duas ações necessárias para manter a sua dominação: “Por um lado, pela destruição forçada de grande quantidade de forças produtivas; por outro, através da conquista de novos mercados e da exploração mais intensa de mercados antigos” (MARX; ENGELS, 2005, p. 92).

A condição de superação gradativa das barreiras protecionistas para a circulação de mercadorias e capitais já era apontada por Lênin (1985) como o fio condutor, na passagem do século XIX ao XX, para a superação do capitalismo concorrencial entre empresas por ramos de atividade e para a consolidação da era dos monopólios como estágio superior do capitalismo. Neste sentido, a fase imperialista do capitalismo toma como referência não somente o terreno nacional, mas a concentração de capitais em um número cada vez mais reduzido de empresas, aqui denominadas de cartéis7.

O grau de desenvolvimento do capitalismo monopolista possibilitou a articulação orgânica entre capital bancário e industrial, fortalecendo o chamado capital financeiro. Este, por sua vez, pode ser considerado como “a hegemonia dos que vivem dos rendimentos e do oligarca financeiro; significa uma situação privilegiada de um pequeno número de Estados financeiramente ‘poderosos’ em relação a todos os outros” (LÊNIN, 1985, p. 58). Disto resultou a partilha geopolítica e econômica do mundo que atravessou todo o século XX, e o desenvolvimento dos cartéis em plano internacional se constituiu como uma importante força político-econômica, capaz de subordinar aos seus interesses até os Estados que alcançaram um grau elevado de independência financeira.

Para Lênin, o imperialismo possibilitou a interligação entre mercado interno e externo e uma perniciosa relação entre aquilo que denominou Estados-usurários e Estados-devedores.

7 Em sua lógica

interna, destacam-se como regularidade na era dos monopólios os seguintes processos: privação de matérias-primas em torno destes cartéis; alianças entre capitalistas e sindicatos operários para regulamentar o mundo do trabalho e a privação da força de trabalho; supremacia na definição dos mercados; acordos entre os compradores que se comprometem a formar sólidos cartéis; baixa sistemática dos preços, no sentido de evitar qualquer possibilidade de concorrência; privação de créditos e boicote aos que não estão localizados na rota dos cartéis (LÊNIN, 1985, p. 26).

A supremacia do imperialismo como fase mais elevada de desenvolvimento capitalista foi apresentada pelo autor em cinco características principais:

1) concentração da produção e do capital atingindo um grau de desenvolvimento tão elevado que origina os monopólios cujo papel é decisivo na vida econômica; 2) fusão do capital bancário e do capital industrial, e criação, com base nesse

“capital financeiro”, de uma oligarquia financeira;

3) diferentemente da exportação de mercadorias, a exportação de capitais assume uma importância muito particular;

4) formação de uniões internacionais monopolistas de capitalistas que partilham o mundo entre si;

5) termo da partilha territorial do globo entre as maiores potências capitalistas (LÊNIN, 1985, p. 88).

A reafirmação da era dos monopólios pode ser reconhecida quando, desde a segunda metade da década de 1960, boa parte de suas respectivas atividades econômicas já extrapolavam os limites geográficos do seu país, atingindo principalmente os estados nacionais nos quais os custos da produção – principalmente do pagamento pela força-de- trabalho e a aquisição de matérias-primas – eram baixos. Para Harvey (2011), uma das explicações que justifica a magnitude desta crise deve ser verificada nos fenômenos econômicos decorrentes no início da década de 1970, com a chamada quebra do sistema fixo de câmbio (pulverização do Padrão-Ouro). O resultado desta ação promoveu um controle volátil das movimentações comerciais e financeiras.

O quadro de instabilidade permaneceu ao longo dos anos 1980, obrigando setores do capital financeiro a apostarem numa saída voltada para um mercado compensatório, de característica descentralizada e informal, mais flexíveis às regras do comércio. Como resultado disso, um grande número de novos produtos financeiros – dentre eles, a troca de inadimplência de créditos com maiores taxas de juros e a aplicação em derivativos cambiais – foram lançados na década de 1990, como formas de amortização da crise. Se este tipo de mercado estava em um primeiro momento limitado aos bancos, Harvey vai apontar que estas atividades, uma vez inseridas no plano da reprodução ampliada do capital, também serão assumidas por empresas de diversos ramos comerciais8.

Neste sentido, como forma de reestruturação do mundo do trabalho e da função política do Estado e em resposta à crise do capital da década de 1970, as teses neoliberais

8No livro “O enigma do Capital”, David Harvey apresenta como exemplo clássico o caso da empresa de energia

Enron, da seguinte forma: “A Enron era supostamente especializada em fazer e distribuir energia, mas cada vez mais apenas comercializava futuros de energia e quando faliu em 2002, viu-se que não era nada além de uma empresa de comércio de derivativos que havia sucumbido em mercados de alto risco” (HARVEY, 2011, p. 28).

atacaram vorazmente a suposta rigidez da legislação trabalhista e da ampla função exercida pelo Estado através de suas políticas sociais, uma vez que estas se apresentavam como principais entraves no crescimento da taxa de lucro das empresas e na geração de desenvolvimento econômico. Ao mesmo tempo, percebe-se que o emergente processo de trabalho denominado como Toyotismo se configura como um dos importantes elementos para a formulação de uma ideologia de acumulação flexível, sendo este uma ressignificação dos modelos taylorista e fordista de produção. Como desdobramento de um modelo de produtividade flexível, era necessário que nas relações de trabalho fosse também reforçada a ideia de formação de um trabalhador flexível. O resultado disso: um quadro crescente de desemprego, devido às inovações tecnológicas que gradativamente surgiam como substitutivas das atividades laborais realizadas pelo conjunto de funcionários das empresas. Destarte,

para a efetiva flexibilização do aparato produtivo, é também imprescindível a flexibilização dos trabalhadores. Direitos flexíveis, de modo a dispor desta força de trabalho em função direta das necessidades do mercado consumidor. O toyotismo estrutura-se a partir de um número mínimo de trabalhadores, ampliando-os, através de horas extras, trabalhadores temporários ou subcontratados, dependendo das condições de mercado. O ponto de partida básico é um número reduzido de trabalhadores e a realização de horas extras (ANTUNES, 1999, p. 28).

Em relação ao desdobramento desta ideologia nas políticas de Estado, Boron (1999) aponta que o neoliberalismo alcançou sua consolidação promovendo uma retração das forças populares na América Latina, Europa Oriental e Rússia, ainda que, segundo o autor, a sua vitória fosse alcançada muito mais no plano ideológico e cultural do que econômico. Enquanto impactos dessa reestruturação capitalista na esfera da organização estatal, o autor aponta que esta ocorreu em quatro dimensões: a) mercantilização dos direitos e conquistas dos trabalhadores transformados em serviços (saúde, educação, seguridade social, dentre outros) de responsabilidade dos mercados; b) crítica ao aparato estatal como espaço da ineficiência, morosidade e improdutividade, e ao mercado como eficiente e moderno; c) necessidade de adoção da mentalidade dos receituários econômicos dos organismos multilaterais como forma de regular a crise do capital, atribuindo-a à crise do Estado; d) a aceitação da inexistência de alternativa política, principalmente após a derrocada dos regimes socialistas do Leste europeu, sendo necessárias as reformas econômicas que, diferentes das políticas do Welfare State, deviam se voltar para o repasse de funções do Estado para o mercado por meio das privatizações.

Na última década do século XX, como forma de amortização da crise do capital, o ideário neoliberal e social-liberal - também entendido como neoliberal da Terceira Via - foi apontado como uma nova expressão fenomênica da conformação de classes, principalmente pelo fato do fortalecimento do Estado na promoção de serviços sociais e de uma ação voltada para a reestruturação do mercado através das medidas de ajustes fiscais, deslocamento do fundo público para financiamento da iniciativa privada, política de privatizações de instituições e empresas estatais. A crescente adesão política ao neoliberalismo e, em momento posterior, a crítica reformista aos seus princípios tornam-se de fundamental importância para a identificação das principais transformações ocorridas da década de 1990 aos dias atuais no Brasil, principalmente a partir do contexto da reforma do Estado e da suposta modificação na sua forma organizacional.

2.2 AS TRANSFORMAÇÕES DO ESTADO BRASILEIRO E O PAPEL DA