Adhemar de Barros, diante do lançamento das candidaturas de Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, também se colocou oficialmente na corrida ao pleito eleitoral de 1965, um ano depois de assumir a cadeira de governador. O quadro já estava praticamente traçado: Lacerda seria lançado pela UDN; Adhemar amealharia os votos dos partidos marginais; e Juscelino conseguiria o apoio de parte dos conservadores, principalmente do seu partido, o PSD, e de parte do PTB. Seria um páreo duro para o governador paulista.
O bloco da situação na Assembléia Legislativa, diante desse novo quadro e a pretensão de Adhemar de ser candidato, queixava-se
administrativo. Entre o PSP e as bancadas situacionistas, estava ocorrendo verdadeira ausência de coordenação devido à omissão do governador. O abandono seria a prática comum para quem estava constantemente em viagens pelo país.
Em nível nacional, as relações de Adhemar com o presidente da República pioravam a cada dia. “Após a reforma ministerial de junho, ficou evidente que Jango perdera o interesse pelos problemas centrais de estabilização e crescimento econômico continuado” (Skidmore, 2003: 316). A reforma ministerial começou a afastar o PSP do governo federal.
No mês de maio de 1963, Adhemar concedeu uma entrevista ao jornal O Globo, marcando seu discurso pela defesa do regime democrático e colocando-se candidato à sucessão presidencial. Criticou novamente a proposta de reforma agrária do governo com modificações na Constituição. “Não sou contra o sentido de progresso, das reformulações do povo. O que não considero oportuno é modificar-se a estrutura democrática a qualquer pretexto nem mesmo o das reformas de base”298.
Analisando a situação nacional, o governador dizia existir um quadro de agitação de elementos que estavam ligados ao presidente. Afirmou que o momento político era propício para medidas que desafogassem “o povo e afastar as nuvens de agitações que melhor se desenvolvem em momentos assim”299.
Sobre as Forças Armadas salientou: “acredito na tradição luminosa das gloriosas Forças Armadas brasileiras, que sempre se mantiveram firmes na defesa do regime”. E completou ainda, como um prenúncio do golpe dos conservadores: “na hora das grandes decisões, os sargentos, que têm sido motivo de tantas preocupações, ouvirão as suas esposas, as suas filhas e terão na lembrança os horrores por que inocentes úteis de outras nações, como Cuba, passaram”300.
298 Anais da Câmara dos Deputados, vol VIII, ano 1963, pp. 239-240. 299 Idem.
Os militares estavam impedidos de concorrer a cargos eletivos, mas descumprindo a lei alguns se candidataram e foram eleitos em 1962. Em 11 de setembro do ano seguinte, o Supremo Tribunal Federal julgou e considerou inelegíveis os sargentos eleitos, causando agitação nas Forças Armadas.
Após a entrevista de Adhemar ao jornal carioca, a reação foi imediata. O deputado Bocayuva Cunha, líder do PTB na Câmara dos Deputados, preparou um discurso com críticas severas ao governador de São Paulo. Salientou que o Brasil estava atravessando uma nova fase e essa seria para melhor, e que o presidente, por meio da ordem e da disciplina, estava vencendo todas as etapas difíceis, tanto políticas quanto econômicas. Defendeu as reformas:
O país já não suporta mais a atual estrutura econômica, que asfixia o nosso desenvolvimento. O país já sentiu a necessidade urgente de reformular esse arcabouço jurídico, que está obsoleto, cuja manutenção apenas equivale à permanência dos grupos privilegiados que não permitem acesso à imensa maioria do povo brasileiro, que não tem ainda aquele mínimo de condições de vida compatíveis inclusive com a dignidade humana301.
Diante das mudanças políticas, sociais e econômicas – apregoadas em discurso pelo líder do partido -, era inconcebível que o governador de São Paulo se tornasse o principal foco de agitação no país. “O governador Adhemar de Barros é hoje o agitador número um deste país”302, disse o petebista. A frase gerou revolta no plenário do Legislativo e os deputados adhemaristas contestaram a declaração. Dizia Bocayuva Cunha:
O sr. Governador de São Paulo, hoje, conspirador e agitador, não tem feito outra coisa em seus pronunciamentos públicos, senão intranqüilizar o País, pregando a ameaça de uma guerra civil, pregando a ameaça de uma república
sindicalista, andando com um documento no bolso, uma segunda Carta Brandi de apoio a uma república sindicalista. E não se limitou a fazer esses pronunciamentos em São Paulo, mas também em diversas capitais de nosso País, em diversas cidades (...) tornando-se o arauto de um imaginário plano de subversão. Mas, bem sabemos o intuito do Senhor Adhemar de Barros, que quer se transformar nesse agente n˚ 1 da reação, agente n˚ 1 das forças que desejam a manutenção dos privilégios odiosos, das forças que desejam a manutenção das condições obsoletas de nosso país303.
O líder do PSP, deputado Arnaldo Cerdeira, tomou o microfone de apartes de sobressalto, promovendo um momento de tensão e discussão entre os dois parlamentares. “É tão absurda a posição de V.Exa. nessa tribuna, tão inconsciente e tão incoerente a análise da posição de um governador de Estado que tem a resguardá-lo a autonomia do seu cargo, do seu Estado, e a liberdade de pensamento de suas manifestações (...)”304.
Cerdeira destacou que os deputados do PTB, apesar de defenderem as reformas de base, não queriam reformular absolutamente nada e torciam para o quanto pior, melhor. Bocayuva Cunha rebateu as críticas afirmando que o PSP, mesmo participando da base de apoio ao governo, votava contra o presidente da República. “Faço um desafio de honra a V.Exa. para provar o que diz. V.Exa está faltando com a verdade”305, contradisse o líder pessepista.
O petebista afirmara que o governador, além de ser o principal fator de intranqüilidade nacional, vinha se reunindo com empresários de São Paulo a fim de arrecadar recursos para a compra de armamento para defender o Estado contra o presidente da República e os comunistas. Afirmação que posteriormente não foi confirmada. “Em face da gravidade das declarações e das reuniões, dos movimentos que tem praticado o governador Adhemar de Barros,
303 Ibidem. 304 Ibidem. 305 Ibidem.
me perguntei se devíamos encarar com seriedade qualquer coisa que partia do Senhor Adhemar de Barros”306.
Em resposta, o governador afirmou que as declarações do líder do PTB eram tendenciosas, com a intenção de confundir e desorientar a opinião pública. “Não me apanharão de surpresa e nem farão desordens em São Paulo”307, lembrou o chefe do Executivo paulista.
Ressaltou ainda aos que chamava de agitadores e desordeiros: “causa espécie sentir que algumas unidades da Federação estão alertas e preparadas para se defenderem, dentro das normas constitucionais, pois a Carta Magna é explícita nesse ponto: a segurança interna depende dos Estados e dos Governadores”308.
O PSP ensaiou, novamente, um rompimento com o governo federal. Acreditavam os deputados que o presidente estava sabendo antecipadamente das declarações do líder de seu partido na Câmara. Adhemar procurou contemporizar. Perguntado sobre suas relações com o governo de Jango, disse que não havia uma crise entre os dois. “O que há realmente é uma crise ideológica. Mas não se pode ser inflexível em política”309.
Asseverou não ser contrário às reformas, mesmo porque enviou um pronunciamento ao Congresso Nacional indicando seu posicionamento. Adhemar também lembrou reunião do PSP logo após o pronunciamento de Bocayuva Cunha, onde foi proposto o rompimento com o governo, que havia conversado com o presidente da República e esse garantiu que desaprovara o discurso do petebista.
Depois das declarações do líder do PTB na Câmara, Adhemar esteve com o presidente da República. Os jornais afirmavam que no encontro Jango o responsabilizou pela inquietação no país, deixando clara a possibilidade de rompimento entre os dois.
O deputado e líder do PSP Arnaldo Cerdeira estava presente e contestou as afirmativas lembrando que o governo federal negava
306 Ibidem.
307 “`Não me apanharão de surpresa e nem farão desordens em S. Paulo’”. O Dia,