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Critérios de noticiabilidade e agenda-setting

Capítulo 3 Do acontecimento jornalístico à edição online

3.3. Critérios de noticiabilidade e agenda-setting

Faz parte do interesse jornalístico revelar aquilo que de mais importante e de maior relevância ocorreu, sendo esta informação destinada a um público vasto e diverso, e devendo obedecer a certos critérios (tais como pluralidade, correção, transparência e imparcialidade). Como se referiu no ponto anterior, a produção noticiosa implica a seleção de notícias que possam corresponder aos interesses do público (Wolf, 1999).

De forma a definir-se que acontecimentos são merecedores de se tornarem notícias, convencionou-se um conjunto de critérios, cujo objetivo é definir a noticiabilidade de cada um, ou seja, a sua capacidade e importância em se converterem em peça jornalística. Estes requisitos servem também para que os órgãos de informação possam escolher, quotidianamente, de um número indeterminado de factos, uma quantidade finita e estável de notícias. Os acontecimentos que não obedecerem a esses critérios são excluídos, não adquirindo desta forma o estatuto de notícia. De referir que o jornalista deve sempre comprovar e verificar esse evento, de forma a garantir a sua veracidade. Caso contrário, não passará de uma mera possibilidade, a qual não possui valor jornalístico (idem).

Deve-se ter em conta que os critérios de noticiabilidade encontram-se sujeitos a inúmeros fatores, tais como os julgamentos de caráter pessoal do jornalista, a própria cultura profissional e o seu contexto histórico-cultural em que se situam. Estes fatores não

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podem ser processados de forma individual e isolada, devendo ser analisados no seu contexto global. Traquina (2002) menciona que alguns destes agentes externos à organização jornalística podem ser influenciadores da produção noticiosa.

Podemos por isso referir que, ao se definir noticiabilidade como um conjunto de elementos que servem para determinar se um certo facto tem condições suficientes para a sua transformação em notícia é reducionista. A noticiabilidade trata também das questões éticas, inerentes à própria sociedade e à cultura onde o jornalista em questão se encontra.

Sena et al. (2005) apontam alguns fatores que promovem o conformismo do profissional com a política editorial. Eles são a autoridade institucional e as sanções, os sentimentos de obrigação e estima com os superiores, as aspirações de ascensão e o prazer na atividade.

É de referir que o processo de seleção, que se realiza dentro dos próprios órgãos de comunicação, é de grande importância, não só por escolher qual a matéria-prima mais relevante, mas também porque a hierarquiza consoante graus de avaliação de critérios. Ao tratarmos jornalisticamente os factos na produção material da notícia, a sua seleção e a sua hierarquização recorrem ainda aos chamados valores-notícia, os quais correspondem a um subgrupo de fatores que atuam como um segundo conjunto de critérios de noticiabilidade. Eles são as referências utilizadas pelos profissionais para definir o que deve ser noticiado. É importante frisar que esses critérios dependem da natureza consensual do contexto cultural onde estão inseridos, baseando-se nos consensos criados e mantidos socialmente. Esses critérios dizem respeito ao contexto em que se inserem para que as notícias sejam visualizadas e assim consumidas pelos leitores (Pereira, 2005).

Pode-se por isso referir que os valores notícias atuam de duas formas: para selecionarem, do material disponível para redação, os elementos que merecem transformar- se em notícia, e para funcionarem como linhas orientadoras para a forma como os jornalistas devem apresentar o material trabalhado, enfatizando ou omitindo certas informações e estabelecendo a sua prioridade na apresentação ao público.

É de grande importância referir que os valores notícia apoiam-se em padrões culturais pré-existentes, característicos de cada sociedade, para se realizarem e produzirem (Sousa apud Silva, 2004). Devemos por isso considerar que os valores-notícia funcionam como um mapa de representação cultural e ideológica, fazendo assim com que a notícia seja, consequentemente, uma construção social (Campbell apud Silva, 2004 ).

Embora sejam de grande utilidade para o mundo jornalístico, a verdade é que os valores-notícia também apresentam algumas limitações. Segundo Erbolato apud Silva

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(2004), o facto de estes serem mutáveis e não universais, torna-se um inconveniente, na medida em que o acontecimento pode originar diversas peças jornalísticas de teor diferente, dependendo da cultura que se lhe encontra intrínseca.

Ligada à ideia definida pelos critérios de noticiabilidade, encontra-se também a teoria da agenda-setting, a qual, segundo McCombs e Shaw apud Landim (2012) se baseia no resultado entre a ênfase existente no tratamento de um determinado tema por parte dos OCS e as prioridades temáticas manifestadas pelo público depois de receberem o impacto dessa mesma peça noticiosa. É importante referir ainda que, seguindo esta linha de pensamento, quanto maior for a relevância e o período dedicado a um tema por parte dos

media, maior será a importância que o público lhe irá atribuir (Saperas apud Landim,

2012).

José Rodrigues dos Santos (1992) afirma que, segundo esta teoria, os OCS, ao dedicarem maior atenção a determinados assuntos, vão produzir efeitos sobre as pessoas que os consumem, como se estivessem a definir que temas é que são merecedores de debate e de destaque social. Este autor chama ainda à atenção para os efeitos nocivos que poderão surgir como corolário desta teoria, na medida em que as pessoas ficam “media- dependentes” para a formação da sua opinião pessoal.

Para concluir, podemos considerar que, tanto os critérios de noticiabilidade, como os valores-notícia, se repercutem em todas as fases da atividade jornalística, estando presentes em diversas combinações e de forma ponderada, fazendo assim parte da cultura profissional dos jornalistas (Ponte, 2004). Tal como os próprios valores culturais e ideológicos de uma determinada sociedade, os valores-notícia evoluem no tempo, não sendo, por isso, imutáveis. Visto se constituírem como um quadro de avaliação racionalizado e interiorizado pelos jornalistas, a sua utilização garante uma operacionalidade no processo de produção da notícia e uma orientação da ação de rotina dos jornalistas.

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