Como já foi dito anteriormente, entidades médicas foram os principais críticos do Programa, chamando-o de demagógico, populista, eleitoreiro, inconsistente, falacioso, ilegítimo, injusto. Foram diversas vezes à Justiça tentar barrar o Programa, e até algumas entidades agiram de forma preconceituosa e racista com a vinda de médicos cubanos.
Coletei matérias de um ano, julho de 2013 à julho de 2014, ano em que o Programa Mais Médico ficou mais em evidência, pois logo quando foi lançado em 2013 já houve comentários e manifestações de entidades médicas contra o Programa e perdurou no ano seguinte pois como era ano de eleição formou-se um ataque ao Programa com apoio de políticos da oposição ao PT. Nessas matérias organizadas cronologicamente houve várias resistências das entidades médicas e de alguns políticos do PSDB, DEM, que são contrários ao PT, principalmente nos quatro primeiros meses do lançamento do Programa, que vou descrevendo a seguir.
Dias antes do lançamento oficial do Programa Mais Médicos, já houve burburinhos de entidades médicas, dizendo que não havia falta de médicos no Brasil e sim de falta de estrutura. E exigiam que os médicos estrangeiros passassem pelo Revalida, o exame que avalia aptidão para o exercício profissional de medicina no Brasil.
Dia 16 de julho de 2013, houve manifestação no centro do Rio de Janeiro e em outros Estados, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Fenam (Federação Nacional dos Médicos) e AMB (Associação Médica Brasileira), se reuniram para chamar os profissionais para a manifestação de forma pacífica.
Eles protestavam contra o Programa, sobre a entrada de médicos estrangeiros sem a revalidação do diploma.
Para a residente em ginecologia de um hospital municipal do Rio, Giselle Santil, o governo não valoriza os médicos brasileiros. Ela é contrária à chegada de médicos de outros países sem que seja feita
uma revalidação do diploma” (“Médicos protestam no centro do Rio contra medidas do governo, 16/07/2013, Folha de São Paulo).
O Governo Federal ficou sabendo de um boicote das entidades médicas nas redes sociais para sabotar o Programa, inscrevendo-se um número massivo de médicos para depois desistirem e dificultarem a inscrição, atrasando o Programa. Já as entidades negaram e disseram que o Governo estava priorizando os médicos estrangeiros e vindos de fora, dificultando as inscrições para os médicos do Brasil. Frente a esse problema, o Ministério da Saúde adotou medidas para certificar-se que os médicos inscritos no edital tinham real interesse na participação do Programa.
Assim, ao homologar sua inscrição ao Mais Médicos, profissionais que já estão em programas de residência médica ou no Provab (programa que leva médicos ao interior em troca de pontos na prova de residência) deverão apresentar uma declaração impressa do desligamento das atividades, assinado pela coordenação dos programas.[...] Outra medida do ministério será vedar uma segunda inscrição, pelo prazo de seis meses, de médicos que homologarem sua participação e não se apresentarem para o programa, ou daqueles que desistirem nos primeiros seis meses. Em caso de reincidência nesses atos, os profissionais serão vetados do programa em definitivo (“Para evitar boicote ao Mais Médicos, governo muda exigência para inscrição”, 18/07/2013, Folha de São Paulo).
Dia 18 de julho de 2013 o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), de partido de oposição ao Governo Dilma, entrou com um mandado de segurança na Corte para suspender a Medida Provisória, que segundo ele não atendia aos requisitos legais que exigem caráter de urgência ou emergência.
„Um programa de tal complexidade deve ser amplamente discutido com a classe médica e demais profissionais de saúde, o que já poderia ter sido feito pelo atual governo‟, ressaltou o parlamentar (“STF dá dez dias para Executivo explicar Programa Mais Médicos”, 18/07/2013, Correio Braziliense).
No dia 19 de julho de 2013, as entidades médicas rompem com o Governo Federal e deixam as comissões temáticas, incluindo colegiados do Conselho Nacional de Saúde, que é um órgão vinculado ao Ministério da Saúde. Os profissionais criticam o Programa dizendo que não houve diálogo entre eles na criação do PMM. Representantes da Fenam havia informado que entraria com duas ações judiciais para suspender o Programa, uma delas
questionando a dispensa da revalidação do diploma e se realmente há urgência para a proposta ser via medida provisória, e a outra seria uma ação direta de inconstitucionalidade ao STF, questionando os direitos trabalhistas, por se tratar de uma bolsa, e não contrato de trabalho.
A Fenam promete uma batalha nos Estados contra o Mais Médicos, pois vai orientar que sindicatos médicos analisem ações judiciais locais e que os médicos inscritos no programa ingressem com ações cobrando direitos trabalhistas não previstos na medida do governo (“Federação me médicos rompe com governo e recorre ao SFT contra MP”, 19/07/2013, Folha de São Paulo).
O Conselho Federal de Medicina também entrou com ação judicial para a suspensão do PMM, argumentando para que não sejam obrigados a emitir o registro provisório para os médicos estrangeiros sem fazer a revalidação do diploma.
Segundo a entidade, a ação não é contra a presença de médicos estrangeiros no país, „mas pelo cumprimento da exigência legal de que demonstrem efetivamente sua capacidade técnica para o exercício da profissão médica‟ (“Conselho de Medicina pede a Justiça suspensão do programa Mais Médicos”, 21/07/2013, Folha de São Paulo).
Dia 23 de julho de 2013, médicos voltam a protestar contra o PMM, houve paralisação do atendimento eletivo (consultas, exames, cirurgias marcadas) no SUS, onde foram mantidos procedimentos de urgência e emergência, em pelo menos 14 Estados, entre eles, São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Acre e Sergipe. A Fenam já está planejando outras manifestações para o dia 30 e 31 de julho.
O Conselho de Medicina, a Associação Paulista de Medicina e o Sindicatos de Médicos divulgaram um manifesto que afirma que a categoria está de „luto‟.‟Estamos em luto pelo risco iminente de falência múltipla dos órgãos da saúde pública do país. O Sistema Único de Saúde, nesse exato instante, é obrigado pelo Governo Federal a ingerir um remédio letal, batizado de Programa Mais Médicos‟, diz a nota (“Médicos voltam a protestar hoje em São Paulo”, 23/07/2013, Folha de São Paulo).
Já no dia seguinte as manifestações, dia 24 de julho de 2013, a AMB (Associação Médica Brasileira) entra com a terceira ação judicial contra o
Programa. A entidade entrou com um mandado de segurança junto ao STF pedindo para que anulasse o Programa, e disse que havia um cronograma já definido para entrar com outras ações judiciais.
Dia 26 de julho de 2013 o STF nega o pedido da AMB de suspensão do PMM, essa foi a primeira resposta aos pedidos de suspensão do Programa nas diferentes esferas da Justiça.
O ministro Ricardo Lewandowski, que está responsável por decisões do STF durante o recesso, citou em sua decisão dados que o governo tem usado para apontar a falta de médicos no país e, assim, justificar as medidas adotadas (“STF nega pedido de suspensão do Programa Mais Médicos”, 26/07/2013, Folha de São Paulo).
Dias após o STF negar o pedido de suspensão do Programa, médicos se reuniram e fizeram manifestações, dia 30 e 31 de julho. Dia 30, em pelo menos dez Estados e o Distrito Federal, médicos participaram do protesto, paralisando parcialmente o atendimento da rede pública e rede privada. Já no dia 31, houve mais Estados que aderiram ao protesto, cerca de 21 Estados e o DF.
Em Salvador, cerca de 500 profissionais, com o apoio de residentes e estudantes, colocaram 16 estandes no canteiro central de uma avenida e, enquanto atendiam de graça a população, pediam apoio em suas reivindicações e distribuiam panfletos contra o Programa Mais Médicos. (“Segundo dia de protesto de médicos tem paralisação em 21 Estados e DF”, 31/07/2013, Folha de São Paulo).
Dia 08 de agosto de 2013, médicos fizeram atos em Brasília contra o Programa, realizando uma série de ações de mobilização para barrar o Programa. Em Brasília foi marcada a Marcha dos Médicos e um ato público no auditório da Câmara dos Deputados.
No dia seguinte, 09 de agosto de 2013, o então Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), recebeu médicos que defenderam a suspensão do Programa, e o presidente do CFM, Roberto Luiz d‟Ávila se pronunciou:
„Apoiamos tudo aquilo que respeita o médico e a sociedade, e fixa o médico no interior. O que não apoiamos são medidas muito mais que provisórias, são medidas improvisadas, eleitoreiras, imediatistas, populistas, porque entendemos que o interesse da saúde pública tem que estar acima de interesses pessoais, de projetos de poder
pessoais.‟ (“Associações condenam MP que instituiu o Programa Mais Médicos”, 09/08/2013, Correio Braziliense).
Entidades médicas continuaram a encontrar empecilhos burocráticos e legais para barrar o Programa. Os profissionais levaram as críticas desta vez à OIT (Organização Internacional do Trabalho), entidaade que defende melhores condições de trabalho. Entidades criticaram o Programa, argumentando que falta direitos trabalhistas, mas o Governo rebateu dizendo que o Programa concedia uma bolsa e que há os direitos de férias e linceça paternidade ou maternidade.
Dia 14 de agosto de 2013, os conselhos médicos foram à Justiça novamente, dessa vez para barrar a entrega dos registros provisórios dos médicos estrangeiros. As entidades profissionais relutaram para dar esse registro, pois não aceitaram que os médicos estrangeiros atuassem no Brasil sem uma revalidação do diploma e a certificação de proficiência em língua portuguesa.
Entidades médicas criticam a dispensa, no programa, do Revalida, exame federal que tem feito a revalidação dos diplomas de médicos nos últimos anos. No Mais Médicos, o governo dispensou a aprovação no exame – que reprova cerca de 90% dos candidatos – e instituiu uma avaliação, já no Brasil, durante três semanas (“Conselhos médicos vão à Justiça contra registro de estrangeiros”, 14/08/2013, Folha de São Paulo).
No dia 21 de agosto de 2013, informou-se que devido a baixa adesão de médicos brasileiros no primeiro mês de seleção para o Programa, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que faria acordos internacionais para suprir essa falta e assim ter a possibilidade de levar médicos para áreas rurais e periferias de grandes centros. O acordo foi para trazer médicos cubanos e foi intermediado pela OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde). Os médicos brasileiros, quando souberam da entrada massiva de médicos cubanos, rejeitaram a proposta e gerou polêmica. Esses episódios de preconceito e racismo irei abordar claramente no próximo capítulo.
O Brasil vai receber até 4.000 médicos cubanos até o final de 2013, 400 deles imediatamente, dentro do programa federal Mais Médicos.Segundo informou o Ministério da Saúde, eles não poderão escolher as cidades em que vão atuar: os primeiros 400 serão
direcionados para 701 muncípios que não foram escolhidos por nenhum profissional na primeira etapa do programa, 84% deles no Norte e Nordeste do país (“Brasil vai receber 4.000 médicos cubanos ainda em 2013”, 21/08/2013, Folha de São Paulo).
A entrada desses médicos cubanos começou a gerar polêmica. O Ministério Público do Trabalho questionou a “importação” desses médicos, pois alegava que esses profissionais tinham condições diferentes dos demais estrangeiros, e a bolsa paga não seria repassada aos médicos e sim ao governo cubano que iria distribuir a seu critério. As parcerias de Cuba com outros países costumavam repassar somente 25% a 40% aos médicos.
Médicos brasileiros e alguns procuradores afirmaram que esse tipo de contratação feria a legislação trabalhista. O Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, posicionou-se dizendo que esse tipo de acordo com Cuba era normal e que a parceria com a OPAS não era de contratação profissional, e sim concessão de uma bolsa.
Dia 23 de agosto de 2013, a AMB (Associação Médica Brasileira) ingressou no STF mais uma vez com ação para tentar suspender o Programa.
Há mais ou menos um mês, já havia entrado com o pedido que foi negado.
[O Mais Médicos é uma] afronta à Constituição da República e por conseguinte [trará] inúmeros prejuízos à um dos maiores interesses públicos resguardados na Constituição Federal: a saúde pública digna e de qualidade à população brasileira, ao possibilitar a desproporcional e irracional situação de médicos sem formação profissional e sem a necessária revalidação de diploma não reconhecido internamente adequada tratar da saúde do povo brasileiro (“Associação Médica vai ao STF contra o Programa Mais Médicos”, 23/08/2013, Folha de São Paulo).
No dia seguinte, 24 de agosto de 2013, Alexandre Padilha, reagiu as ameaças dos conselhos médicos que prometeram não conceder o registro provisório para os médicos estrangeiros, dizendo que o governo tinha segurança jurídica para trazer os profissionais e que não iria tolerar ameaças dos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs).
„O governo já ganhou todas as medidas judiciais. Temos muita segurança jurídica no que estamos fazendo. Quem tem crítica, pode fazer sugestões para aprimorar. Agora, não venham ameaçar a saúde da população que não tem médicos‟, afirmou Padilha (“Padilha
reage a ameaças e defende chegada de médicos cubanos ao país”, 24/08/2013, Folha de São Paulo).
Dia 26 de agosto de 2013, os médicos voltaram a protestar, agora em Fortaleza. O grupo de médicos protestaram do lado de fora da Escola de Saúde Pública do Ceará, onde estavam ocorrendo as aulas do curso preparatório para os médicos estrangeiros do PMM. Na saída do curso, o grupo liderado pelo Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec) armaram confusão, xigando e agindo de forma preconceituosa, racista e xenofóbica contra médicos cubanos.
No dia seguinte do ocorrido o Ministério da Saúde e entidades de saúde do Ceará fizeram uma nota de desagravo aos médicos estrangeiros, que classificaram o ocorrido como “intolerância, racismo e xenofobia”. A nota de desagravo dizia o seguinte:
Na última segunda-feira, 26 de agosto de 2013, na Escola de Saúde Pública do Ceará, assistimos, lamentavelmente, a uma demonstração de intolerância e xenofobia do Sindicato dos Médicos do Ceará e um grupo de 40 jovens para com os médicos cubanos e outros estrangeiros, que vieram ao Brasil por espírito solidário e respondendo a um chamamento do governo brasileiro. Gritavam, a plenos pulmões, nas portas da ESP, num verdadeiro „corredor polonês‟, grosserias injustas e xenofóbicas. [...] Fazemos um apelo a todas as entidades médicas para que respeitem os médicos cubanos e outros estrangeiros, que os acolham como merecem.[...] Sejam bem-vindos médicos cubanos e todos os estrangeiros que aqui vieram prestar sua solidariedade e cuidar do nosso povo (“Ministério da Saúde chama de „xenofobia‟ protesto contra médicos no CE”, 27/08/2013, Folha de São Paulo).
Dia 28 de agosto de 2013 médicos do Ceará estavam planejando fazer greve geral da categoria para protestar novamente contra o PMM. Os médicos disseram que o Governo estava jogando a população e a imprensa contra eles.
A greve seria para protestar contra os médicos estrangeiros que no Programa Mais Médicos não precisariam da revalidação do diploma.
Outro médico discursou defendendo a greve, recebendo aplausos e sugeriu um slogan para a paralisação: „Estamos em greve, mas não se preocupe, o seu diagnóstico não é exclusividade nossa.‟(“No CE, médicos defendem greve geral contra programa federal”, 28/08/2013, Folha de São Paulo).
O Ministério da Saúde começou a pedir a emissão do registro provisório para os médicos estrangeiros no Conselho de Medicina do Rio Grande do Sul.
Muitos CRMs relutaram para não ter que fazer a emissão dos registros, e assim também atrasar o Programa. O Conselho de Medicina do Rio Grande do Sul foi um deles, tentou obter liminar na Justiça para não emitir o registro sem a revalidação do diploma, mas foi negado.
Essa insistência dos médicos brasileiros em pedir para que os médicos estrangeiros fizessem o Revalida, parece a meu ver como um mecanismo de proteção do mercado de trabalho. Já que o exame Revalida possuí alto índice de reprovação, ou seja, poderia ser um exame para dificultar a vinda de estrangeiros e assim continuar a ser uma profissão onde poucas pessoas podem ter acesso, mantendo-se uma profissão de elite.
Dia 30 de agosto de 2013, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), fez uma crítica indireta ao PT, um dos principais adversários do partido. Alckmin afirmou que o maior problema de saúde não era a falta de médicos e sim a falta de financiamento do Governo na área da saúde. Essa crítica foi feita ao Programa que visava levar profissionais, incluindo estrangeiros, para trabalhar em áreas rurais e periferias de grandes cidades.
Depois de muita reluta e de vários pedidos na Justiça para não emitirem o registro aos médicos estrangeiros, o CRM do Rio Grande do Sul foi o primeiro a conceder o registro. A entidade relatou a demora de emiti-los, pois havia uma série de dúvidas dos documentos enviados, e que as pendências de alguns documentos foram resolvidas.
Em outras partes do país, a direção dos CRMs ainda impõe uma série de condicionantes para a autorização, como a tradução de diplomas expedidos fora do Brasil. Em Minas, o presidente do conselho local falou até em renunciar se tiver que assinar os registros provisórios. (“CRM do RS libera os primeiros registros de médicos formados no exterior”, 19/09/2013, Folha de São Paulo).
Após o CRM-RS, o CFM orientou para que os CRMs dessem os registros aos médicos do Programa. Esse registro era necessário para os médicos estrangeiros, sem o registro os médicos ficam impedidos de trabalhar.
Dia 20 de setembro de 2013, o CRM do Ceará também começou a emitir os registros provisórios de médicos estrangeiros, a classe médica foi uma das
mais resistentes. Mas alguns CRMs ainda resistiram em emitir, mesmo com a orientação do CFM. No Paraná não quiseram emitir, argumentando que havia falta de documentação. Na Paraíba aconteceu a mesma coisa. No Amazonas e no Pará, os Conselhos afirmaram que iriam analisar os documentos e só depois emitiriam os registros. O CRM de São Paulo afirmou que não daria o registro a nenhum profissional enquanto o Ministério da Saúde não garantisse por escrito a veracidade dos documentos entregues pelos estrangeiros.
Vimos várias inconsistências. Não estamos indeferindo os registros, só estamos pedindo para que o ministério se responsabilize pela autenticidade dos documentos”, afirmou Renato Azevedo Júnior, presidente do Cremesp. „Não se trata de boicote. Só não quero que um juiz me questione amanhã: por que o senhor deu um registro para essa pessoa, que nem médico é‟,completou (“Cremesp pede garantia do governo para registrar estrangeiros”, 20/09/2013, Folha de São Paulo).
Diante desse embate entre entidades médicas e o Governo Federal, o Presidente do CRM-PR renunciou ao cargo para não dar o registro provisório.
Alexandre Gustavo Bley afirmou que renunciou em protesto a forma autoritária do Governo Federal impor esse Programa.
Entidades médicas se opuseram radicalmente aos registros provisórios, que dispensaram o teste de validação do diploma estrangeiro, o Revalida. Para os CRMs, isso precariza o atendimento na saúde pública do país e não haveria certeza sobre a qualificação desses profissionais (“Presidente do CRM-PR renuncia para não dar registros do Mais Médicos”, 24/09/2013, Folha de São Paulo)
Dia 25 de setembro de 2013, a Advocacia-Geral da União apresentou à Procuradoria-Geral da República uma representação para avaliar a conduta dos CRMs, que ainda se negaram a emitir o registro. O Governo havia reclamado da demora, pois sem os registros, os médicos ficam impossibilitados de atuar. E também se queixou de que os CRMs estariam pedindo documentos não previstos na lei. A AGU estava prestes a ingressar com ações individuais contra o CRM de cada Estado que se negassem a emitir.
Dia 2 de outubro de 2013, o Ministro Alexandre Padilha defendeu a decisão de que o responsável pela emissão dos registros seria o Ministério da Saúde e não mais os Conselhos Regionais de Medicina. Dia 8 de outubro de 2013 entidades anunciaram acordo sobre a Medida Provisória 621 e aceitaram
que o registro provisório fosse emitido pelo Ministério da Saúde, inclusive o CFM aceitou o acordo. O presidente do CFM afirmou que o registro era meramente cartorial e que ainda iriam continuar fiscalizando os profissionais.
Padilha afirmou achar positivo essa mudança, pois assim não atrasaria na emissão do registro provisório, podendo os profissionais atuar na Atenção Básica.
Outro tipo de protesto que aconteceu no Ceará foram os médicos se filiarem ao PSDB para fazer oposição ao Governo Federal e assim protestar diretamente contra o PMM. Médicos prometeram campanha contra a Dilma em 2014:
Houve uma articulação nacional em reuniões da categoria e ficou acertado que os médicos se filiarão a siglas de oposição também em outros Estados. A médica diz que a categoria não se opõe ao programa, mas a forma como foi implatado, sem discussão com a classe e mediante contratação de estrangeiros sem revalidação do diploma (“No Ceará, PSDB filia profissionais contrários ao Mais Médicos”, 04/10/2013, Folha de São Paulo).
No dia em que a Medida Provisória do Programa Mais Médicos entra na pauta de votação da Câmara dos Deputados, 08 de outubro de 2013, os médicos fizeram outro protesto, que aconteceu em alguns Estados. A Federação Nacional dos Médicos (Fenam) disse que o Programa era uma grande farsa de cunho circunstancial pois coincidiria com as eleições do ano seguinte, em 2014.
Para fazer concorrência ao PT com o PMM, dia 18 de outubro de 2013, Alckinin anuncia um pacote de medidas na área da saúde que inclui pagamento de bônus a médicos que escolherem trabalhar em hospitais da periferia e de cidades do interior de São Paulo. Alckimin ainda ironizou o Programa Mais Médicos dizendo que não estaria preocupado com nome e sim com a qualidade do trabalho.
Alckimin não detalhou o valor do benefício nem as unidades que o receberão, mas disse que devem ser 15 postos. [...] O governo tucano tem anunciado medias na área da saúde para se contrapor à ofensiva pré-eleitoral do ministro Alexandre Padilha (PT), seu provável adversário em 2014 na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes (“Alckimin anuncia bônus para médicos que trabalharem em periferias”, 18/10/2013, Folha de São Paulo).
No ano de 2014, com as eleições se aproximando, houve mais resistência de políticos ao Programa Mais Médicos, a meu ver nas matérias coletadas. Dia 5 de fevereiro de 2014, a oposição explora o episódio de médica cubana que abandonou seu posto de trabalho ao saber que estava ganhando menos que os outros médicos que participavam do Programa. Os médicos cubanos que participaram do Programa foram intermediados pelo OPAS, onde os médicos cubanos recebiam uma parte do dinheiro e o restante era repassado para o governo de Cuba. Esses eram os termos de relação de trabalho que foram estabelecidos entre a OPAS e o governo de Cuba desde o começo do Programa, e que nas cooperações em outros países o governo cubano fazia o mesmo. A médica cubana pediu refúgio ao abandonar o Programa na liderança do DEM, um dos partidos que são oposição ao PT.
Para Chioro, a oposição está fazendo uma „exploração politica‟ do espisódio e tentou „boicotar o quanto pode‟ a realização do programa.
„Se dependesse da oposição, 22 milhões de brasileiros continuariam sem atendimento à saúde‟, disse (“Oposição „explora‟ episódio de médica cubana, afirma ministro da Saúde”, 05/02/2014, Folha de São Paulo).
O PSDB, que também era oposição ao PT, aproveitou o episódio ocorrido com a médica cubana e ingressou com uma representação dia 19 de fevereiro de 2014, pedindo que a Procuradoria-Geral da República apurasse se o trabalho dos médicos cubanos estava em condição análoga à escravidão.
Dia 23 de julho de 2014, ministros da presidenta Dilma Rousseff rebatem críticas feitas por Aécio Neves sobre o Programa Mais Médicos. Aécio Neves era um dos candidatos à presidência nas eleições de 2014. Ele propôs que, se eleito, faria mudanças como a exigência de todos os médicos realizarem o Revalida. Segundo ele isso aprimoraria o Programa.
„A proposta do senador tucano, de exigir que todos médicos tenham seu diploma validado para integrar o programa, na prática acaba com o Mais Médicos‟, afirmou o ministro da Saúde, José Arthur Chioro (“Ministros rebatem críticas de Aécio ao Programa Mais Médicos”, 23/07/2014, Folha de São Paulo).
E assim ocorreu essa “cronologia da resistência”. O Governo conseguiu alcançar sua meta de número de profissionais que participaram e assim fizeram acontecer o Programa, superando o alvo de 13 mil participantes.
Ao contrário das entidades médicas que insistiram para que o Programa fosse barrado, que puseram empecilhos burocráticos, a população acolheu os profissionais do Programa Mais Médicos de braços abertos, pois a falta de médicos em várias regiões do Brasil estava escancarada. Coletei cerca de nove matérias apontando a perspectiva do usuário com a vinda dos médicos cubanos e também o que achavam sobre o Programa Mais Médicos.
Apresentarei a seguir os discursos da população.
No agreste de Pernambuco, os médicos foram recebidos com festa, pacientes agradeceram os médicos cubanos de joelhos, e disseram que no posto de saúde de lá não havia nenhum médico há anos. Até a forma como foram atendidos pelos médicos cubanos, os usuários disseram que foi diferente:
Eles [pacientes] ficam de joelhos no chão, agradecendo a Deus. Dão beijos‟, afirma a médica, que atendeu 231 pessoas neste primeiro mês de trabalho dos profissionais que vieram para o Brasil pelo Programa Mais Médicos, do Governo Federal. [...] A agricultora Maria Inácia, 69, havia visto um médico pela última vez em 2005. Ela se disse impressionada pela forma como foi atendida pelo cubano (“No agreste, pacientes agradecem médicos cubanos de joelhos”, 10/11/2013, Folha de São Paulo).
Outra recepção calorosa aconteceu no interior de São Paulo, em Santo Antônio de Posse, a médica cubana foi recebida com presentes. A médica afirmou ter se emocionado com todo acolhimento recebido.
„O pessoal da cidade está esperançoso com esses médicos‟, disse Antônio Bueno, dono de um bar em frente à Câmara, e que também desconhecia a chegada da médica. “A saúde aqui é como em todo lugar: precária. ‟(“Médica cubana é recebida com bíblia e camisa da seleção no interior de SP”, 21/09/2013, Folha de São Paulo).
Em algumas matérias, a população brasileira se mostrou favor da vinda de médicos estrangeiros para atuar no Programa Mais Médicos, afirmando que a vinda dos profissionais podia ser positiva para o cenário da saúde brasileira.
E das pessoas que já foram atendidas pelo Programa a maioria (69%) consideraram o atendimento ótimo ou bom.
„Eu sou a favor que tenha médicos para as pessoas, independente de ser fora do país ou não‟, pondera Maria Joaquina (“Brasileiros