Nada do que foi será De novo do jeito que já foi um dia Tudo passa Tudo sempre passará A vida vem em ondas Como um mar Num indo e vindo infinito Tudo que se vê não é Igual ao que a gente Viu há um segundo Tudo muda o tempo todo No mundo Não adianta fugir Nem mentir Pra si mesmo agora Há tanta vida lá fora Aqui dentro sempre Como uma onda no mar (Lulu Santos / Nelson Motta - Como uma onda no mar)
Começo a dissertar sobre as experiências de si, expondo o que por vários momentos senti, ao “olhar” para minha alma aprisionada pelo medo de não ser capaz de conseguir escrever o que estava “escondido” dentro mim. Este medo tem suas origens distantes e para ele se manifestar, muitos questionamentos emergiram em mim, de maneira acelerada e surpreendente, tais como: sou capaz de fazer isso? Por que fui procurar um “problema” para minha vida se estava tudo tão bom? Todas as pessoas passam por estas inquietações que me consomem? Assim fui realizando uma autoanálise, questionando e procurando em mim mesma as respostas, percebendo que no meu interior elas são confusas e que para algumas coisas nem eu mesma tinha a resposta. Essa atividade me fez analisar meu comportamento, condicionar e disciplinar meu corpo, tendo paciência para ficar sentada por muito tempo em frente ao computador, admirando a tela em branco que esperava por minhas inscrições, meus medos e minhas angústias.
Neste momento, surgiu em mim a vontade da fuga e foi o que mais me incomodou. Este sentimento fez-me “olhar para dentro de mim” e perceber que, para onde quer que eu fugisse, jamais fugiria de mim mesma. Aprendi através do autodisciplinamento, a centrar o meu pensamento naquilo que estava empenhada a
fazer, partindo da experiência que me mobilizou e fez, aos poucos, aumentar minha autoconfiança. Esta dolorosa e gratificante experiência que tive, de aprender, mesmo na “solidão” da leitura e escrita, auxiliou na construção de uma nova relação comigo mesma, pois tive de dominar meus “monstros” que, a cada dia, apareciam disfarçados e me colocavam medos e sensações que eu desconhecia e eram difíceis de descrever. Monstros como a insegurança, a ansiedade, a culpa, o medo de não ser capaz, medo do julgamento, medo do tempo (tempo para produzir, prazo a cumprir). Talvez sejam estes “monstros” que também fizeram parte da vida dos pesquisados quando precisaram pensar sobre eles mesmos com relação à sexualidade e seus desejos. Um dos monstros muitas vezes não compreendidos é o desejo manifesto por pessoas do mesmo sexo. Nesse estranho campo de monstros que na infância nos assustaram e que hoje nos invadem de maneiras tão diversas e com nomes tão distintos, situa-se a experiência de Júlio César que nos relata o momento em que começou a perceber, ainda na infância, seu interesse pelos meninos.
Eu acredito que um pouco antes da adolescência, ali pelos 10 anos, 11 anos, eu comecei a notar essa diferença. Confesso que eu fui um pouco tardio em relação aos outros, que eu vejo foi bem mais precoce a sexualidade, mas ali pelos 10 anos eu já comecei a notar o interesse mais pelos meninos do que pelas meninas, mas até por uma questão de cultura da cidade, uma cultura mais fechada, interiorana, isso contribuiu com essa sexualidade tardia e eu acho que me ajudou bastante, evitou a exposição, eu acho que contribuiu para a forma como eu me comporto, como eu conduzo a minha homossexualidade hoje, eu tenho só a agradecer (JÚLIO CÉSAR).
Ilumino minha escrita nesta parte do estudo, a partir de Foucault (2007, p. 10) para quem o conceito de experiência compreende “a correlação, numa cultura, entre os campos de saber, tipos de normatividade e formas de subjetividade”. Esta experiência está evidente nas palavras de Júlio César no instante em que relata a questão da cultura e do seu aprisionamento à visão do que ele construiu enquanto normalidade para seus desejos. Sobre as experiências de si, pude evidenciar os “jogos de verdade”5
que o levaram a pensar e refletir sobre sua condição de diferente, a partir do momento que reconheceu seus desejos. Esses jogos de
5 Conforme Foucault (2007, p. 12) “uma história que não seria aquela do que poderia de haver de
verdadeiro nos conhecimentos; mas uma análise dos ‘jogos de verdade’ dos jogos entre o verdadeiro e o falso, através dos quais o ser se constitui historicamente como experiência, isto é, como podendo e devendo ser pensado”.
verdade estão presentes na fala de Júlio César quando relata a experiência de se sentir diferente por sentir interesse pelos meninos. O exercício feito por ele, para que sua conduta fosse percebida como padronizada, evidencia as “experiências de si” tais como comportamento e condução, que ele diz ter aprendido para viver melhor sua sexualidade.
As técnicas que nos fazem pensar esta normalidade estão condicionadas às experiências da nossa infância. Não raro, ouvimos falar sobre a “cadeira do pensar” para as crianças, levando-os a rever suas atitudes. A família dá início a esses “jogos de verdade” fazendo com que, através da ação sobre o que um dos seus integrantes pense ou faça, seja um ato permanente de correção e cuidado, analisando as experiências e voltando-as para nós mesmos. O curioso é pensar que não é preciso esforço para que sejam ativados os mecanismos de controle, para que vigiemos nossos comportamentos, mas ao mesmo tempo são fortes e precisas as técnicas que nos fazem pensar e refletir sobre nós mesmos, como argumenta Larrosa.
A experiência de si, historicamente constituída, é aquilo a respeito do qual o sujeito oferece seu próprio ser quando se observa, se decifra, se interpreta, se descreve, se julga, se narra, se domina, quando faz determinada coisa consigo mesmo, etc. E esse ser próprio sempre se produz com relação a certas problematizações e no interior de certas práticas (LARROSA, 1999, p. 43).
Neste contexto, podemos considerar que não existe homem sem história e sem cultura, assim como não faria parte dos discursos a história e a cultura sem a existência do homem. Para que o indivíduo não seja modelado, julgado e disciplinado, torna-se imprescindível refletir sobre a sua constituição de sujeito histórico, problematizando e assinalando as práticas que disciplinaram e normalizaram suas ações tornando eficientes as técnicas de normalização e controle, a observação minuciosa de si mesmo e do outro. A partir deste reconhecimento é possível identificar a importância do homem enquanto corpo individual e sujeito pensante. Para Frederico, o pensamento ganha proporções profundas, pois conhecer a si mesmo é também modelar-se, controlar-se e ser forte para viver fora da “ordem”.
O grande problema está no ser humano se conhecer. No momento em que tu te conheces, que tu sabes das tuas limitações, das tuas possibilidades, tu começas a te adequar, tu sabes que pode isso e não pode aquilo. Desde o momento em que o ser humano entende isso e principalmente o
homossexual, que sabe que ele é um homossexual, que sabe que não é bem visto por algumas pessoas, que sabe que o grupo dele é minoria, que naquele momento seja o único, então ele não pode ter determinados tipos de atitudes. É uma questão de adequação. E o próprio homossexual dentro do que ele pode e não pode, ele ir mesclando (FREDERICO).
Os aparelhos prescritivos, mencionados por Louro (2001) são utilizados pela educação e compreendidos como algo positivo que, através do disciplinamento, buscam o “aperfeiçoamento” da criança visando o sujeito adulto que queremos. É por isso que, desde a infância, somos treinados para refletir sobre nós mesmos classificando nossas práticas como certas ou erradas, tendo em vista a adequação do comportamento e das atitudes que, por ventura, tivemos ou pudermos vir a ter. Alexandre nos fala desse mecanismo que define a experiência de ser homossexual e o controle do comportamento conforme o local e a cultura, fazendo da reflexão de si por si mesmo, uma atividade de precaução ao comportamento, o que evitaria assim a rejeição.
Lá em São Borja tem muito preconceito que aqui em Floripa não tem. Aqui falar que tu és homossexual na faculdade, no colégio, é normal, tu és homossexual, é normal. Eu tenho amigos que não tem trejeito nenhum, tu olhas e não dá nada, e eles assumem que são homossexuais. E lá em São Borja tem uma cultura diferente parece que a cidade não evoluiu nesse sentido, tanto é que as pessoas que se assumem lá, elas são rejeitadas, algumas não são muito bem vindas em certos lugares. E a minha família também eu respeito muito, meu pai também, mesmo ele sabendo tudo, eu respeito ele. Eu não iria fazer lá o que eu faço aqui. Se eu for falar eu não vou dizer tudo o que eu faço aqui, se eu for lá eu vou ficar com minha família, vou andar com eles e deu, não vou pensar em nada mais. Fora de cogitação (ALEXANDRE).
Essa produção e correção dos indivíduos não cessa na família, ela é contínua e se multiplica na escola. É comum ouvir de mães e pais – “que não podem mais com a vida dos filhos” e que a sua última esperança corretiva é a escola. Assim, a visão de uma escola corretiva e normalizadora se efetiva pela imposição da sequência dos conselhos dados pela família. Tais discursos tornam-se evidenciados e aceitos, como solução aos desvios de conduta que são postos para que ela gerencie e ofereça soluções. A escola fabrica indivíduos a partir do que eles aprendem, não somente enquanto conteúdos, mas em especial, nas suas condutas e pensamentos morais.
Por ’moral’ entende-se um conjunto de valores e regras de ação propostas aos individuo e aos grupos por intermédio de aparelhos prescritivos
diversos, como a família, as instituições educativas, as igrejas etc (FOUCAULT, 2007, p. 26).
Nessa lógica, é evidente a importância dada à cultura e à história enquanto discurso, que se referem ao tempo como modelo ideal das condutas humanas. Assim, não desconhecemos afirmações com estes “jogos de verdades”: "- no meu tempo não era assim, não existiam estas coisas, homem era homem”. São as condutas e regras de moralidade que por tempo se fizeram presentes nos discursos da culpa e condenação aos que teimassem e por fugir à normalidade. São as regras das condutas que fazem com que os indivíduos reflitam através do passado, sobre o seu presente.