Rede de Apoio Social
5 RESULTADOS DA PESQUISA
1. homens e mulheres
5.5 Cuidado/autocuidado e Rede de Apoio Social
O cuidado e o autocuidado foram analisados nas seguintes dimensões: como se obtém informação de saúde, práticas de consumo de tabaco e álcool, dieta, prática de atividade física e lazer. Um outro aspecto analisado foi a articulação do cuidado com a rede de apoio social: se recebe ou dá apoio; a estrutura e função da rede; e qual situação ativa a rede de apoio.
Tabela 21 – Distribuição em % segundo sexo e informação sobre saúde.
Sexo/Infos.
Saúde e Doença Profissionais de saúde Cartazes e/ou folhetos vizinhosEscola e Internet TV, jornal, revista TOTAL
Feminino 15,5% 22,4% 8,6% 1,7% 51,7% 100%
Masculino 10,0% 3,3% 0,0% 3,3% 83,3% 100%
TOTAL 13,6% 15,9% 5,7% 2,3% 62,5% 100%
Conforme a tabela 21, a maioria dos participantes (51,7% mulheres, 83,3% homens) obtém informações sobre saúde e doença por meio da TV, jornais e revistas. Quase um terço das mulheres (22,4%) leem também cartazes e/ou folhetos distribuídos na UBS.
Tabela 22 – Distribuição em % segundo sexo e fumo.
Sexo/Fumante Não Sim TOTAL
Feminino 83,3% 16,7% 100%
Masculino 81,5% 18,5% 100%
TOTAL 82,7% 17,3% 100%
A tabela 22 mostra que a maioria dos homens e mulheres não fuma, o que indica um bom autocuidado em saúde; porém, a maioria dos participantes não faz dieta (tabela 23).
Tabela 23 – Distribuição em % segundo sexo e dieta.
Sexo/Dieta Sim Não TOTAL
Feminino 18,0% 82,0% 100%
Masculino 32,1% 67,9% 100%
TOTAL 23,1% 76,9% 100%
Ao se conversar sobre dieta, também se investigava os motivos para fazê-la. Os poucos participantes em dieta em geral o faziam por estética e/ou doença (por exemplo, hipertensão ou prevenção de doenças cardíacas e cerebrovasculares).
Tabela 24 – Distribuição em % segundo sexo e consumo de álcool. Sexo/Consumo de álcool p/semana1 a 2/x 3 a 4/x p/semana 4 a 7/x p/semana Só em festas Nunca TOTAL Feminino 19,2% 2,1% 2,1% 42,6% 34,0% 100% Masculino 37,9% 10,3% 10,3% 27,6% 13,8% 100% TOTAL 26,3% 5,3% 5,3% 36,8% 26,3% 100%
Pela tabela 24 observa-se que as mulheres ou não consomem álcool (34%) ou só o fazem em festas (42,6%), ao passo que os homens dividem-se entre o consumo de uma a duas vezes na semana (37,9%) ou só em festas (27,6%). Estes dados refletem a visão social hegemônica que valoriza o consumo de álcool pelos homens. No entanto, considerando os cuidados em saúde os dois sexos situam-se em uma prática indicadora de cuidado, sem uso abusivo. Vale lembrar que nossa amostra foi por conveniência – os participantes ou estavam na USF ou em uma situação de trabalho via web, o que restringe o consumo abusivo de álcool e/ou outras drogas.
Tabela 25 – Distribuição em % segundo sexo e prática de atividade física.
Sexo/Prática Atividade Física
Às vezes Sim Não TOTAL
Feminino 2,4% 42,9% 54,8% 100%
Masculino 7,4% 51,9% 40,7% 100%
TOTAL 4,4% 46,4% 49,3% 100%
A prática de atividade física pode significar um autocuidado em saúde, assim como o lazer (encontro com amigos e atividades ao ar livre). Na tabela 26, a seguir, observa-se uma pequena diferença entre homens e mulheres ao praticarem ou não regularmente uma atividade física. Há uma divisão meio a meio neste quesito, o que limita o autocuidado.
Tabela 26 – Distribuição em % segundo sexo e lazer: encontro com amigos.
Sexo/ Lazer/ Encontro c/Amigos
Sempre Às vezes Nunca TOTAL
Feminino 63,6% 36,4% 0,0% 100%
Masculino 50,0% 45,8% 4,2% 100%
TOTAL 58,8% 39,7% 1,5% 100%
Tabela 27 – Distribuição em % segundo sexo e lazer: passeio ao ar livre.
Sexo/Lazer/ Passeio ao Ar Livre
Sempre Às vezes Nunca TOTAL
Feminino 61,0% 39,0% 0,0% 100%
Masculino 61,5% 34,6% 3,9% 100%
Outras dimensões sobre lazer precisam ser mais bem investigadas, porém os aspectos que mais prevaleceram (encontro com amigos e atividades ao ar livre) são os que parecem se coadunar com o ambiente ou território em que a pesquisa foi feita. Faz parte da vida dos “habitantes da orla litorânea” passear na praia, independente da idade ou condição socioeconômica, pois esse é um território “sem muros”, onde todos podem transitar sem serem identificados; é o local de inter-relacionamento ativo e de integração dos diversos atores da sociedade. Assim como as cidades do interior do estado têm suas semelhanças culturais, a praia tem o sentido de “referencial simbólico” da região.
Analisaremos a seguir as dimensões da qualidade da rede de apoio social: se recebe ou dá apoio; a estrutura e função da rede; e qual situação ativa a rede.
O apoio social pode ser entendido como os diversos recursos emocionais, materiais e de informação que os sujeitos recebem por meio de relações sociais sistemáticas, incluindo desde os relacionamentos mais íntimos com amigos e familiares próximos até relacionamentos de maior densidade social, como os grupos e redes sociais. Trata-se de um processo recíproco – isto é, que gera efeitos positivos tanto para quem recebe como para quem
oferece o apoio –, o que permite que ambos tenham uma sensação de coerência de vida e maior sentido de controle sobre a mesma, com consequentes benefícios à saúde física e mental. A rede de apoio social é um sistema composto por vários objetos sociais (pessoas), funções (atividades dessas pessoas) e situações (contexto) que oferece apoio instrumental e emocional à pessoa, em suas diferentes necessidades. Apoio instrumental é entendido como ajuda financeira, ajuda na divisão de responsabilidades em geral, e informação prestada ao indivíduo. Apoio emocional, por sua vez, refere-se à afeição, aprovação, simpatia e preocupação com o outro e, também, a ações que levam a um sentimento de pertencer ao grupo. Nesta amostra não há nos discursos referência a apoio emocional, de forma que as categorias que se referem à dimensão de apoio foram: recebe apoio, oferece apoio e apoio instrumental (isto é, o apoio recebido).
Tabela 28 – Distribuição em % segundo sexo e Rede de Apoio Social.
Sexo/RAS – Apoio Social
Recebe apoio Apoio instrumental Oferece apoio TOTAL
Feminino 46,3% 44,4% 9,3% 100%
Masculino 48,2% 51,9% 0,0% 100%
De acordo com a tabela acima, 46,3% das mulheres e 48,2% dos homens recebem apoio da sua rede social. O apoio instrumental é o tipo de apoio de maior prevalência, com poucos relatos de “oferecer apoio”.
As características estruturais da rede de apoio são indicadores quantitativos de apoio que avaliam o grau em que as pessoas são socialmente integradas em sua família e comunidade (p. 62), considerando a estrutura (quem compõe) da rede, os laços de afeto e os recursos sociais disponíveis.
Tabela 29 – Distribuição em % segundo sexo e a Estrutura da Rede de Apoio Social.
Sexo/RAS Condição Estrutura forte Estrutura fraca Laços de proximidade Laços distantes e pouco afetivos Recursos sociais TOTAL Feminino 16,2% 32,4% 13,5% 35,1% 2,7% 100% Masculino 15,0% 35,0% 20,0% 25,0% 5,0% 100% TOTAL 15,8% 33,3% 15,8% 31,6% 3,5% 100%
Na tabela 29 observa-se que, de um modo geral, a estrutura das redes de apoio das pessoas pesquisadas é fraca. As mulheres (35,1%) relatam laços afetivos como raros e distantes, enquanto os homens dividem-se entre laços distantes e pouco afetivos (25%) e laços afetivos de proximidade (20%). Autores sugerem que a ruptura de laços sociais afeta os sistemas de defesa do organismo de tal maneira que a pessoa se torna mais suscetível a doenças. Nessa linha de pensamento, podemos conjecturar que os laços distantes e pouco afetivos da rede de apoio social poderão também tornar as pessoas mais suscetíveis a doenças.
A função da rede de apoio social foi categorizada em: autonomia (ações que promovem a autonomia própria e a do outro), solidariedade (ações que indicam partilha) e suporte para prevenção de doenças.
Tabela 30 – Distribuição em % segundo sexo e função da Rede de Apoio Social.
Sexo/ RAS Função
Autonomia Solidariedade Suporte de risco a doenças
TOTAL
Feminino 21,7% 56,5% 21,7% 100%
Masculino 40,0% 40,0% 20,0% 100%
TOTAL 27,3% 51,5% 21,2% 100%
Dentre as várias funções da Rede de Apoio está a solidariedade, que na tabela 30 aparece como o fator de maior preponderância para mulheres (56,5%) e homens (40,0%). Os
homens também oferecem ou recebem apoio na direção da autonomia (40%), enquanto as mulheres dividem-se entre autonomia (21,7%) e o apoio como suporte para prevenção de doenças (21,2%).
Como veremos a seguir, a situação que mais ativa a rede de apoio social é a doença.
Tabela 31 – Distribuição em % segundo sexo e Situação que ativa a Rede de Apoio Social.
Sexo/Situação ativante da RAS Compromentimento da saúde mental Conflito familiar Doença TOTAL Feminino 21,6% 8,1% 70,3% 100% Masculino 30,0% 5,0% 65,0% 100% TOTAL 24,6% 7,0% 68,4% 100%
A tabela 31 aponta três dentre os vários aspectos que ativam a Rede de Apoio Social, sendo a doença o fator mais preponderante. Ter algum tipo de comprometimento mental (desde estresse e depressão até retardo mental) ou outras doenças, assim como conflitos familiares, podem fazer surgir demandas para as quais as pessoas necessitam de apoio. Tendo em vista estas questões e tantas outras a que todos estão expostos em sua vida diária, a forma como a rede social se estruturada, se mobiliza, pode influenciar diretamente nos recursos individuais, como também levar a rede de ajuda e cuidado a lidar com as oportunidades e contingências da rede de apoio social.
A seguir sintetizamos a resposta às questões que nortearam este estudo:
Notamos que homens e mulheres constroem redes de apoio social com laços de proximidade e/ou vínculo emocional com poucas diferenças, entre elas a filiação, que compõe a rede das mulheres e não a dos homens. Além disso, os homens percebem-se mais como cuidadores de si do que as mulheres. Entretanto, é preciso cuidado neste aspecto pois, apesar de existirem diferenças entre homens e mulheres, elas não são significativas. Compõem a rede de apoio a família (duas a quatro pessoas) e pessoas do contato cotidiano no ambiente profissional. Os familiares (cônjuges e/ou pais) são as pessoas de referência afetiva para conversar e oferecer cuidado, quando necessário;
Quanto à qualidade da rede, a estrutura é fraca. Mulheres e homens recebem apoio da sua rede social do tipo instrumental. Os laços afetivos da rede, relativos a mulheres em sua maior porcentagem, são distantes e sem proximidade, enquanto os
homens mantêm tanto laços distantes como próximos e afetivos. A rede de apoio cumpre a função de solidariedade nas situações de doença para homens e mulheres, mas para os homens também atua como promoção de autonomia;
O cuidado e autocuidado analisados nas dimensões: como obter informação de saúde, práticas de consumo de tabaco e álcool, dieta, prática de atividade física e lazer não apresentaram diferenças significativas entre homens e mulheres. A pequena diferença detectada refere-se ao consumo de um pouco mais de álcool pelos homens, bem como à prática de atividade física mais frequente, quando comparados às mulheres;
Homens e mulheres fazem itinerários terapêuticos distintos, visto que:
o as mulheres iniciam seu itinerário com a busca de serviços de saúde, associada a automedicação e cuidados caseiros; procuram utilizar os recursos de saúde disponíveis;
o inicialmente os homens não fazem nada e/ou tentam entender/ explicar o porquê do seu mal-estar; caso não melhorem, buscam os serviços e recursos de saúde disponíveis.