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2 O CUIDADOR QUE ACOLHE

3) FIRMAR DE UMA ESPIRITUALIDADE

3.2.1 Cuidado como modo de ser

O sentido de totalidade da integração pessoal traz consigo a possibilidade e realmente a certeza da morte; e com a aceitação da morte advém um grande alívio, alívio do medo das alternativas, tais como a desintegração ou fantasmas... eu diria que crianças saudáveis encaram a morte muito melhor do que os adultos (BOFF:2012, P.48)

Através de densa argumentação, Heidegger chega à definição de que o Cuidado é o ser do Dasein (ser-aí, presença) e propõe a seguinte pergunta: o fenômeno da angústia pode dar o todo do Dasein, em sua totalidade mesma? Para responder a essa pergunta o cuidado é apresentado de forma tripartida: Existencialidade; Factualidade; e Ser-do-decair. Estas três partes compõem o que Heidegger chama de um todo estrutural capaz de sintetizar esse processo pelo qual o Dasein passa para ser cada vez mais ele mesmo. “O livre-ser para o poder-ser mais- próprio e assim, para a possibilidade de propriedade e de impropriedade mostra-se, numa concretização originária elementar, na angústia” (HEIDEGGER: 2012, p.535). Isto significa que o Dasein não pode ser caracterizado somente por sua forma ou sua função, mas sim por algo além de si, pelo que ele pode ainda se tornar, pelo que Heidegger nomeou como ser-

adiantado-em-relação-a-si (2012, p.537). Isso caracteriza o ser no mundo de maneira geral. O

Dasein está no mundo e vive junto com outros entes. Nisto se insere um caráter ontológico existencial, porque o homem sempre se percebe em relação a um mundo e junto com outros entes dentro da temporalidade, do cotidiano onde o cuidado pode ter sua expressão. O modo dessa relação é Sorge, preocupação, cuidado, e é algo ontológico. O caráter ôntico aparece no modo de ser individual do cuidado em cada ser humano.

91 “O Dasein, enquanto cuidado é o ente que dá sentido e a vida fática tem sentido através do cuidado, já que tal sentido serve para lidar-com/tratar do mundo” (ALMEIDA: 2012, p.14). A vida fática é uma categoria fenomenológica fundamental que significa uma dimensão originária na qual todo Dasein está inserido. “O existir é sempre factual. A existência é essencialmente determinada pela factualidade” (HEIDEGGER: 2012, p.537) e o existir factual está absorvido no mundo da ocupação (besorge).

Para entender o que Heidegger chama de ocupação precisamos antes investigar o contexto no qual o Dasein vive, pois, o modo da ocupação está relacionado a uma circunvisão de mundo, um senso comum. “O mundo é aquilo que cuidamos, e, enquanto cuidamos... Vida fática, a vida que se vive a partir do cuidado” (ALMEIDA: 2012, p.36). Neste sentido o Dasein é quem dá significado a esse mundo. O cuidado enquanto ocupação se detém aos utensílios de acordo com sua função, a função de utilidade. Ou seja, um utensílio só existe de acordo com sua função e quando perde esta função, fica fora de contexto, sem serventia, e explicita a remissão. Provoca no Dasein, então, outro tipo de relação, deflagrando sua finitude, que estava lá, mesmo que não tematizada.

Para evitar a angústia latente, o homem foge diante do desconhecido e se detém dentro de um espaço de familiaridade, do ter-que-fazer, dos “deverias” da vida. Aparentemente o que Heidegger descreve é este ser humano típico que leva a vida com a expectativa de atender a um padrão socialmente estabelecido, sem questionar do que está vivendo ou fazendo. É o ser que se ocupa com utensílios de forma impessoal. “No ser-adiantado-em-relação-a-si-em-um-mundo está essencialmente incluído o ser que decai junto ao utilizável do-interior-do-mundo” (HEIDEGGER: 2012, p.537). O cuidar, enquanto sentido fundamental da vida cotidiana está absorvido no mundo e isso pode conduzir a queda quando deixamos de viver em profundidade, quando vivemos de maneira não implicada. Pois, “o abandono do Dasein a si mesmo mostra- se de modo originário e concreto na angustia” (HEIDEGGER: 2012, p.537). Quando ele se dá conta da própria finitude e o cuidado se expressa através de escolhas. Assim, “a significação da vida se explica numa multiplicidade de relações, ocupações, afazeres, trabalhos, cuidados, desejos e afetos. O viver ‘com’, ‘contra’, ‘para’ alguém são sentidos para cada momento da vida e expressam a própria diversidade de escolhas e possibilidades atualizadas do Dasein” (ALMEIDA: 2012, p.26).

O Dasein é um ser no mundo e o conceito de mundo está diretamente relacionado ao conceito de vida. “O mundo mundeia/munda e a vida se vive” (ALMEIDA: 2012, p.26). O

92 modo de ser no mundo é essencialmente cuidado e neste cuidado se insere a ocupação do Dasein com os outros que não utensílios, com outros Daseins, a preocupação (fürsorge).

Segundo Heidegger, a preocupação, ou seja, o cuidado do Dasein com outro Dasein, abrange a existencialidade, a factualidade e o decair de forma unificada, e pode se concretizar de maneira imprópria/inautêntica ou própria/autêntica. Vivida impropriamente a preocupação faz com que o outro, quem é cuidado, fique dependente e seja dominado. O outro é substituído, subjugado e pode nem se dar conta disso. Este é, sem dúvida, o modo mais comum de preocupação humana.

Por outro lado, quando vivida de maneira própria/autêntica, a preocupação gera no outro a liberdade e um viver autêntico. Seria a preocupação associada com a ética da cooperação, ou cordialidade, como diria Leonardo Boff (2012). O cuidado autêntico está diretamente relacionado com a angústia. O cuidado se concretiza na vida cotidiana, na coexistência, e somente lá pode haver um cuidado autêntico ou inautêntico.

Porém o cuidado autêntico também pode se manifestar através da ocupação. “O mundo circundante se qualifica de diferentes modos, pois, a ocupação se especializa e se direciona para uma ocupação específica. Esse modo de cuidado ocupado repercute na preocupação” (ALMEIDA: 2012, p.63) Isto demonstra uma relação intrínseca entre preocupação e ocupação. A ocupação inautêntica é dedicar-se a utensílios de tal maneira que o próprio ser acaba se identificando com eles. A ocupação autêntica acontece quando, apesar de se dedicar a utensílios, ou entes, o homem percebesse que todo o utensílio é criado para ser utilizado pelo outro, para um bem comum.

Na existencialidade o Dasein adquire certa consciência e autonomia de escolha. “Como o Ser-ai é um ser lançado no mundo, o que ele vai ser é definido por ele mesmo, não existindo de antemão qualquer regra sócio histórica definitória para o projetar”(Almeida: 2012, p.30).

O cuidado caracteriza a unidade da exitencialidade, da factualidade e o decair. Portanto o cuidado abrange o ser-adiantado-em-relação-a-si, o já-ser-em, e o ser-junto-a, e nele mora a liberdade de ser com, dentro da factualidade, cotidiano. E a “preocupação, como totalidade- estrutural-originária, reside existenciariamente a priori ‘antes’, isto é, já sempre em cada ‘comportamento’ factual e ‘situação’ do Dasein” (HEIDEGGER: 2012, p.541). Porém, não há uma precedência do comportamento prático para o teórico. “O cuidar explicita o mundo do si mesmo como mundo compartilhado e o mundo circundante” (ALMEIDA: 2012, p.31), sendo assim se mostra de maneira indivisível.

93 A intuição e a prática são “possibilidades-de-ser de um ente cujo ser deve ser determinado como preocupação”, ou cuidado (HEIDEGGER: 2012, p.541). Porém, não se deve tentar reduzir o fenômeno do cuidado a certos atos específicos. “A preocupação é ontologicamente ‘anterior’ aos fenômenos nomeados, que podem ser sempre adequadamente ‘descritos’ dentro de certos limites sem que o pleno horizonte ontológico fique visível...” (HEIDEGGER: 2012, p.541), esses fenômenos nomeados (a saber: vontade; desejo; impulso ou inclinação) se fundamentam no cuidado.

Somente o Dasein pode possuir desejo e vontade que são ontologicamente fundamentados no próprio cuidado, pois o Dasein pode ser conduzido ao seu ser pela preocupação-com-o-outro (HEIDEGGER: 2012, p.543). Ao aprofundarmos a análise desses fenômenos nomeados podemos ter um vislumbre da totalidade fundamentadora do cuidado, a abertura. Por exemplo, no ato do querer se insere o ser-adiantado-em-relação-a-si, o mundo de que ocupar-se e um poder-ser-para do Dasein (projetar-se entendedor do Dasein). “Só se pode querer algo que já está no mundo, possibilitado pela abertura em sentido ontológico existencial” (ALMENDA: 2012, p.59). Então os conceitos de cuidado e abertura se copertencem. A interpretação que o Dasein faz do mundo restringe as possibilidades. Ele fica limitado no “efetivamente real” já conhecido. Pode-se entender a abertura como compreensão. A partir dela o Dasein percebe o mundo enquanto cuidado de si (selbstsorge), cuidado dos outros (Fürsorge) e cuidado dos utensílios (Besorg). (ALMEDA: 2012, p.95).

Um querer tranquilizado dentro do mundo já conhecido faz com que o ser mostre-se como mero desejar. Seria como se o Dasein passasse a viver de maneira automática, sem avaliar as diferentes possibilidades factuais de momento a momento e isso cria a sensação de que existe um mundo efetivamente real lá fora e uma sensação de segurança. O autor parece descrever o transe social ao qual fazemos parte. “O mero desejar pressupõe ontologicamente a preocupação” (HEIDEGGER: 2012, p.545).

Por outro lado, aspirar coloca o Dasein em movimento – ser-adiantado-em-relação-a-si- no-já-ser-em instaura a inclinação do caráter de sair em busca de... Assim, a estrutura do cuidado é modificada. “Tornando-se cego, o Dasein põe todas as possibilidades a serviço da inclinação” (HEIDEGGER: 2012, p.545). O Impulso insere nesse movimento o “a qualquer preço”. Pode atropelar o respectivo encontrar-se e o entender. “No impulso puro a preocupação ainda não se tornou livre, embora somente ela possibilite ontologicamente que o Dasein seja impulsionado a partir de si mesmo. Na inclinação, ao contrário, a preocupação já está sempre atada” (HEIDEGGER: 2012, p.547). Inclinação e impulso provêm da queda, dejecção, do

94 Dasein. Ambos se fundam ontologicamente no cuidado e podem ser ôntico-existencialmente modificadas por ele.

“A determinação da preocupação como ser-adiantado-em-relação-a-si-no-já-ser-em...- sendo-já-junto-a... põe em claro que este fenômeno é também em si mesmo ainda estruturalmente articulado” (HEIDEGGER: 2012, p.547) e expressa o modo-de-ser do Dasein conforme já foi aberto ôntico-existencialmente (HEIDEGGER: 2012, p.549).

Heidegger quer com o conceito de cuidado apontar para a necessidade de investigar o Dasein no que diz respeito ao seu próprio ser. O Dasein é o único ente que ao existir seu ser sempre está em jogo. O Dasein pode escolher o que vai ser. O antecipar-se a si mesmo no projetar possibilidades que são atualizadas pela escolha, só é possível para um ente que ao existir, já é deste ou daquele modo, já atualizou alguma possibilidade por estar na estrutura ser-no-mundo. A possibilidade deve ser entendida, nesse contexto, como possibilidade existencial remetida ao próprio ser do Dasein (ALMEIDA: 2012, p.55).

Este existir do Dasein se insere no corpo, que já está em jogo quando chega ao ser, ou à consciência.