Graciela Natansohn
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Introdução
Este trabalho é uma reflexão inicial que inicia-se na pesquisa “Ciberfeminismos 3.0 na América Latina,
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apropriações feministas da cultura digital” , na qual avaliamos o desenvolvimento do que convencionou-se em chamar, desde a década de 90, ciberfeminismo, e que hoje emerge atualizado, com características próprias, inovadoras, pelo que passamos a denominar como ciberfeminismo 3.0 (Graciela NATANSOHN e Mônica PAZ,
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2018 ). No horizonte dos feminismos em redes digitais vislumbram-se iniciativas cujo principal traço é reivindicar o direito humano à comunicação e à internet, à vez que contestam e criticam os atuais direcionamentos da rede, particularmente o rastreamento digital e a vigilância que este potencializa, e concomitantemente, as violências digitais contra as mulheres e os grupos dissidentes. Trata-se de coletivas cujxs membrxs tem interesse nas tecnologias, no software livre, na produção material de recursos tecnológicos de base (infraestructuras e redes livres), na alfabetização digital, na criação de redes e aplicativos autônomos e seguros. Também se organizam ao
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Projeto de Pesquisa Ciberfeminismos 3.0 na América Latina. Apropriações feministas da cultura digital. POSCOM/UFBA.
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Quando citamos autoras mulheres optamos por não seguir estritamente as normas APA ou ABNT e por isso, colocamos nome e sobrenome. Cremos que assim contribuímos para a visibilidade das mulheres cientistas e desnormalizamos a crença generalizada de que as citações se referem a autores homens. Um simples teste com nossos/as alumnos/as comprova esta percepção androcêntrica da produção científica.
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redor de temas urgentes, como as redes de atendimento ao aborto e às violências de gênero, todos ativismos em redes off e online que, com seus pontos de vista e táticas particulares, desvendam os aspectos androcêntricos das relações sociotécnicas. Na tentativa de caracterizar estes grupos, na busca de particularidades comuns que nos permitam prefigurá-los como parte de um movimento ou tal vez, um proto-movimento social com capacidades de contestação organizada, pesquisamos seus modos de funcionamento e suas produções e estratégias. Esses grupos revindicam a subversão do capitalismo de dados, a soberania e autonomia tecnológica e a internet como bem comum e trabalham em forma de projetos locais, autogestionados, independentes, cooperativos e gerenciados com perspectivas feministas. Interpretamos estas iniciativas sob a lente dos estudos da cibercultura mas também do tecnofeminismo (Judith WAJCMAN, 2006), dos estudos sociais feministas em ciência e tecnologia (Diana MAFFÍA, 2007, Cecilia CASTAÑO, 2008) e da ética feminista (Carol GILLIGAN, 1982,2013; Alisson JAGAR, 2014; Ilze ZIRBEL, 2016).
Uma das práticas mais difundidas por esses grupos é o trabalho sobre os cuidados de si e das outras para prevenir e agir ante ataques misóginos, mas também para enfrentar o direcionamento que tem tomado a tecnologia digital no que se refere a seus protocolos de funcionamento, que permitem o rastreamento e a vigilância em escala nunca vista. Avaliando estas práticas e a violência que estas implicam para a segurança, a privacidade e a intimidade das mulheres, grupos feministas desenvolvem diferentes estratégias, como a produção de ferramentas para a segurança digital e a prevenção de ataques virtuais. Essas adquirem formatos diferentes quando disponibilizadas online: manuais (em formatos para fazer download), aplicativos ou textos online com recomendações. Como parte do ativismo feminista digital essas ações não se limitam a serem publicadas e divulgadas em ambientes virtuais. Oficinas e cursos presenciais são promovidos e realizados por muitas organizações com apoio de ONGs, em diferentes locais, sob cuidados extremos para manter o sigilo das participantes e do local, pois muitas delas são militantes dos direitos humanos em países que penalizam qualquer dissidência política.
Tema emergente do feminismo em redes digitais, os cuidados em ambientes virtuais surgem com força perante a violência de gênero que se traslada desde os ambientes físicos para os virtuais e adquirem outras modalidades e sobre os quais as soluções legais ou técnicas não são suficientes. Essa percepção impulsiona as ativistas digitais a tecer redes de ajuda e solidariedade, convocando uma ética da colaboração e do acolhimento em rede. Vamos discutir um aspecto deste ativismo ciberfeminista, o fenômeno dos cuidados digitais, a partir da perspectiva feminista da ética dos cuidados (Carol GILLIGAN, 2013). A ética dos cuidados sustenta-se numa lógica relacional,
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Nos países onde existe o aborto legalizado só para alguns casos e onde a pressão do Estado, igreja ou grupos anti-direitos está muito presente (como em quase toda América Latina), existem grupos com alguna presença na web, como http://socorristasenred.org/index.php/quienes-somos/. Mas em geral, a maioria dos grupos de acompanhamento de mulheres que optam por abortar são perseguidos e por isso, utilizam redes cifradas e anonimato.
onde a comunicação adquire um lugar fundamental na gestão dos conflitos onde os sujeitos estão “dispuestos no como adversarios en una pugna por derechos, sino como miembros de una red de relaciones. Por consiguiente su solución al dilema se encuentra en activar la red por medio de la comunicación” (GILLIGAN, 1982, p. 59 apud M. Eulalia TORRAS VIRGILI, 2013, p.155).
Na primeira parte apresentamos algumas das principais iniciativas ciberfeministas sobre cuidados digitais na web e em aplicativos de celular, gerados a partir do debate sobre a violência de gênero; posteriormente nos extendemos sobre o enquadre teórico, o ciberfeminismo, o tecnofeminismo e a teoria feminista sobre a ética dos cuidados, onde realizamos um exercício de aproximação teórica entre ambos campos.
Cuidados contra as violências nas TIC
Um dos temas que tem ocupado a mídia e o judiciário nos últimos anos tem sido a violência de gênero e o ódio misógino exercido mediante e a través dos dispositivos eletrônicos com os que as mulheres interatuam na internet, muito especialmente, com os celulares. Na internet, a violência contra as mulheres (en adelante, VCM) se
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da tanto sob a forma de assédio, extorsão, ameaças, roubo de identidade, doxxing , alteração e publicação de fotos e vídeos sem consentimento ou uso indevido, ofensas, stalking, invasão ou hacking de computadores, criação de perfis falsos criados para asssediar; coerção para deletar perfis; dentre outras, como também na forma de discurso de odio: montagens racistas de fotos ou vídeos, criação e divulgação de memes ofensivos (gifs, etc), comentários misóginos, transfóbicos e/ou racistas, criação de hashtag para promover discurso ofensivo, uso de
bots para as ações anteriores.
Ataques afetam de forma real a vida das mulheres porque geram danos à reputação e produzem isolamento, depressão, ansiedade, medo e até suicídio. Este tipo de conduta tem sido facilitado pelos mecanismos de rastreamento e vigilância típicos dos protocolos de internet e pelos usos corriqueiros das redes sociais, pouco atentos às questões de segurança.
Com o aumento do uso da internet e dos telefones celulares, os casos de violência contra as mulheres no ciberespaço, seja na web o com o uso de aplicativos para celulares, tem aumentado também, e suas consequências para a vida e a liberdade das mulheres são tão graves e perigosos quanto na vida offline. Isto acontece por que, na avaliação de Dafne Sabanes Plou (2013, p.124):
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Continua tendo vigência no contexto social uma visão estereotipada do lugar que deve ocupar uma mulher em uma sociedade e dos papéis que se espere que desempenhem. Esta visão, atrelada a questões culturais ou religiosas ou a tradição social, impedem que se quebrem relações de gênero desiguais e injustas, com as quais o poder patriarcal pretende seguir controlando a vida das mulheres e pondo em questão sua liberdade e autonomia.
As relações sociais em ambientes digitais numa sociedade patriarcal não poderiam estar isentas de violência machista. Mapeamentos dos diversos tipos de violências em ambientes virtuais vem sendo feitas por muitas organizações feministas, como a Associação Para o Progresso das Comunicações/APC e, desde Brasil, por associações civis como Coding Rights e Internetlab que, em 2017, elaboraram um informe sobre violências contra a mulher na internet com diagnósticos, soluções e desafios, para a relatora especial da ONU (CODING RIGHTS; INTERNETLAB, 2017). Ainda nestes últimos anos, à violência digital somam-se evidências sobre a coleta e mercantilização descontrolada dos dados pessoais em rede, que coloca em xeque o direito à privacidade e à intimidade das pessoas e se constituem em mecanismos sofisticados de rastreamento e vigilância digital. Tema emergente do feminismo em redes digitais e do ciberfeminismo, os cuidados em ambientes virtuais se manifestam, como dizemos acima, na produção de manuais, sites com recomendações, cursos, oficinas e aplicativos. Os dados das violências contra as mulheres no Brasil também permitem ver o racismo imbricado nelas. O feminicídio, a violência doméstica, obstétrica e a mortalidade materna atingem principalmente as mulheres
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negras , além dos ataques racistas e misóginos online. Dai, surge com força no movimento ciberfeminista a necessidade de pensar de que forma e com quais estratégias a segurança devem ser levada a frente, pensando num enfoque interseccional.
Mapeamento inicial de sítios web com ferramentas ou outros instrumentos para cuidados e segurança digital, realizado para nossa pesquisa, deu como resultado preliminar um conjunto de propostas que mostramos, em ordem alfabética. Foram excluídos sítios web de aplicativos de celular, os quais podem ser encontrados nas lojas virtuais de aplicativos de Google e Apple. Não é objetivo deste texto apresentar uma análise detalhada de cada uma delas, senão mostrar os resultados mais relevantes, que expressam a sensibilidade do movimento ciberfeminista com o tema:
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Entre 2003 e 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%. As mulheres negras são as mais vitimadas pela violência doméstica: 58,68% e as mais atingidas pela violência obstétrica (65,4%) e pela mortalidade materna (53,6%), de acordo com dados do Ministério da Saúde e da Fiocruz. O Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014 eram negras. E 62,2% dos homicídios de mulheres vitimaram pretas (19,3%) e pardas (42,9%). Dados do Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino- Americana de Estudos Sociais e Informações do Ligue 180 - Central de Atendimento à Mulher, de 2015.
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- Callisto, página web destinada a ajudar vítimas de violências digitais (em inglês) ;
- Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA). ONG feministas brasileira, elaborou e disponibilizou um "Guia prática de estratégias e táticas para a segurança digital feminista", em colaboração com outras entidades
7;
feministas, como Blogueiras Negras e MariaLab (em português)
- Cibermujeres. Sitio web que conta com apoio do Institute For War And Peace Reporting, elaborou um manual para defesa digital e capacitação de lideranças feministas em TIC, o "Currícula de Capacitación en Seguridad
8;
Digital Holística para Defensoras de Derechos Humanos"(em espanhol, árabe e inglês)
- Ciberseguras. Sitio web com materiais sobre segurança digital, privacidade, dicas de software livre, etc. (em
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espanhol) ;
- Coding Right. Organização liderada por mulheres dedicada a promover a compreensão sobre o
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funcionamento de tecnologias digitais e "expor as assimetrias de poder que podem ser ampliadas por seu uso" ; - Escuela feminista en red. Cuerpo, Territorio y Tecnología. Apresenta materiais, discussões, práticas e dicas de
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segurança contra violência sexista (em espanhol) ;
- Hackblossom. "Facilitamos o intercâmbio de recursos técnicos, iniciativas ativistas, redação pessoal e projetos artísticos que promovem uma cultura inclusiva da tecnologia. Nossa comunidade é de apoio radical e visão feminista, acolhendo todos os que rejeitam a violência e a opressão", segundo se apresentam na web (em
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inglês) ;
- Harassmap. Organização que reporta, investiga, mapeia online e registra casos de assédio sexual (em
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inglês) ;
- Tactical Technology Collective. É uma organização sem fins lucrativos com sede em Berlim que trabalha na intersecção entre tecnologia, direitos humanos e liberdades civis. Oferecem treinamentos, realizam pesquisas e intervenções culturais "que contribuem para o debate sócio-político mais amplo sobre segurança digital, privacidade e ética dos dados". Investigam "as maneiras pelas quais as tecnologias digitais mudam a sociedade e impactam a autonomia e a agência individuais, usando nossas descobertas para gerar soluções práticas. para uma
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audiência internacional de atores da sociedade civil e cidadãos engajados" . São autoras do “Zen and the art of
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making tech work for you”, manual de capacitação em segurança digital (em espanhol e inglês) ;
6 <https://www.projectcallisto.org/> 7 <http://www.cfemea.org.br/index.php/autocuidado-e-cuidado-entre-ativistas/nossa-abordagem > 8 <https://cyber-women.com/es/cibermujeres/cibermujeres.pdf> 9 <https://ciberseguras.org/>. 10 <https://www.codingrights.org/pt/> 11 <https://escuelafeminista.red/>. 12 <https://hackblossom.org/> 13 <https://harassmap.org/en/> 14 <https://tacticaltech.org/projects/holistic-security-2016/> 15 <https://tacticaltech.org/projects/holistic-security-2016/>
- Take back the tech. Principal campanha da ONG internacional Association for Progressive Communications (APC), Dominemos a Tecnologia! (em inglês, Take Back the Tech!) "convoca mulheres e adolescentes para adquirir controle da tecnologia visando contar as nossas próprias histórias, criar nossos próprios depoimentos, nos representar e moldar as nossas narrativas sobre a violência enfrentada por mulheres e adolescentes no mundo todo". Para isso criaram um mapa online colaborativo onde participantes de diferentes partes do mundo registram e documentam histórias e casos que colocam em evidência a violência contra mulheres que ocorre online, ou por meio do uso das tecnologias de informação e comunicação, tais como telefones celulares e a internet. "As histórias serão usadas pelas participantes para advogar pelo reconhecimento e pela reparação de casos de violência contra mulheres, relacionados à tecnologia, nos níveis local, nacional e internacional. Elas também informarão esforços para fortalecer a capacidade de mulheres e meninas, de endereçar e lidar com a violência contra mulheres que elas enfrentam online, e o trabalho dos defensores dos direitos humanos das mulheres e dos ativistas de direito da internet com relação à violência contra mulheres", explica o site. Participam dessa plataforma muitas ONGs do mundo, como One World Platform for Southeast Europe (OWPSEE) (Albania, Bosnia- Herzegovina, Croatia, Montenegro, Serbia); Colnodo, de Colombia; Si Jeunesse Savait, do Congo; KictaNet, de Kenya, Bytes for All, de Pakistan, Foundation for Media Alternatives (FMA), das Filipinas. APC trata-se de uma das ONGs com maior extensão e trabalho intensivo sobre os direitos humanos das mulheres na internet (em espanhol
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e inglês) ;
- Vedetas. Organização sediada em São Paulo, Vedetas se denomina "servidora feminista" que, "existe para ajudar grupos feministas nas suas atividades online e aumentar a segurança e autonomia de mulheres na
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internet". Realizam cursos presenciais, pesquisas e assessorias em segurança digital (em português) .
A maioria destas paginas web são de organizações feministas e muitas destas trabalham em forma conjunta, seja na criação de materiais educativos, pesquisas ou na organização de encontros presenciais. Em relação aos aplicativos para celular sobre este tema, um informe da Fundación Activismo Feminista Digital (2018), de Argentina, traz resultado de uma análise sobre aplicativos (app) web e para celulares destinados às mulheres, disponíveis no mercado online. Pesquisaram 46 app disponíveis para Argentina e resto de América Latina (não especificaram que países) e os classificaram de acordo com sua finalidade, em sete categorias:
1) De visibilidade das violências (por exemplo, ruas com mais episódios de assédio);
2) Educativas (informam e/ou promovem conhecimentos sobre temas de interesse ou relacionados com as mulheres);
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<https://www.takebackthetech.net/mapit/main?l=lg&l=pt_BR>
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3) De assistência (dão informação ou assessoria a usuárias sobre determinados temas perante situações de perigo, vulnerabilidade, etc.);
4) De sensibilização (promovem campanhas de conscientização sobre diversos temas); 5) De denúncia (facilitam o acesso às autoridades públicas perante fatos violentos);
6) De emergências (oferecem mecanismos de alerta para serem ativadas perante situações de necessidade, tipo "botom do pânico");
7) Combinadas ou mistas (apresentam várias destas características numa mesma app) (Fundación Activismo Feminista Digital, 2018).
Algumas das app analisadas foram criadas ou apoiadas por entidades estatais; outras, por ONGs. Os resultados justificam as preocupações com a intimidade e privacidade das mulheres.
Algunas son simples de usar, expeditivas y prácticas; otras requieren un nivel de alfabetización digital que no todas las mujeres tenemos. Un pequeño porcentaje solicita solamente datos personales mínimos; otro grandísimo actúa como una auténtica aspiradora de datos personales(...)
La cantidad de información que suministramos al iniciar cualquier app es impresionante: no sólo solicitan permisos cuestionables -como el acceso al micrófono y las cámaras delantera y trasera del celular-, sino también incluso llegan a solicitar el domicilio físico de la usuaria (FUNDACIÓN ACTIVISMO FEMINISTA DIGITAL, 2018, online).
A esse respeito, a Coding Rights, já citada, que além do Brasil, tem presença em Argentina, Chile, México e
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Colômbia, também vem pesquisando sobre apps para mulheres (por exemplo, o que chamam de menstruapps , para controlar o ciclo menstrual) para entender como funcionam e que dados usam pois segundo pesquisadores da Universidade de Columbia, este tipo de app é o quarto mais popular na categoria "aplicações de saúde" entre adultos, e o segundo mais popular entre mulheres adolescentes (MENSTRUAPPS, 2018). Descobriram que "sugam" muitos mais dados dos que necessário, coletam, armazenam e tal vez vendam esses dados com fins publicitários e quem sabe que outros fins, a governos, clínicas, operadoras telefônicas e até agências de crédito. A pesquisa, chamada Chupadados, também mostra quais aplicativos são mais seguros e como se proteger. Estas tecnologias coletam dados íntimos em escala macro, os sistematizam e compartilham com terceiros sem consentimento ou através de um termo de aceite pouco claro ou em outros idiomas e quase todas coletam dados do dispositivo (IMEI, dados da rede de acesso, etc.). Até onde estes softwares permitem as mulheres maior capacidade de agência e controle sobre seus corpos e suas vidas? A tecnologia é lida em chave feminista como tecnopoder e biopolítica e o cuidado entre ativistas, como uma forma de intervenção política que
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Estes aplicativos controlam a ovulação, ciclo e período fértil, peso e medidas do corpo, pressão arterial e pulso. https://chupadados.codingrights.org/ es/menstruapps-como-transformar-sua-menstruacao-em-dinheiro-para-os-outros/
oportuniza, às mulheres que estão no ativismo, lidar com elementos que bloqueiam sua trajetória de transformação no âmbito subjetivo. É um caminho para interpelar o individualismo, o sexismo, o racismo e outras formas de discriminação que introjetamos e nos oprimem. E, ao mesmo tempo, é uma maneira de lidar e buscar eliminar tais elementos dos discursos e práticas de quem quer transformar o mundo. O cuidado entre ativistas envolve corações e mentes das mulheres que estão na luta, para curar as feridas abertas pela violência da dominação. Por isso mesmo, insere-se no conjunto de reflexões e práticas alternativas que vêm sendo desenvolvidas a partir do feminismo” (CFEMEA, 2018, ONLINE)
Ciberfeminismos, hoje: todo cuidado é pouco
Ciberfeminismo é o termo usado para nomear parte do movimento feminista comprometido com os direitos humanos das mulheres em relação às tecnologias digitais de informação e comunicação. Seu uso remonta a 1991, quando as VNSMatrix, coletivo de artistas e ativistas australianas que centraram seu trabalho na crítica ao papel das mulheres na tecnologia e na arte, publicaram o “Cyberfeminist Manifesto for the 21st century”. Elas, junto a Sadie Plant (1999) são consideradas as referentes teóricas iniciais do movimento ciberfeminista, inspiradas no trabalho de Donna Haraway e seu Manifesto Cyborg (1987). Os movimentos feministas vêm desenvolvendo práticas políticas e artísticas autodenominadas até hoje como ciberfeministas. Acusado de utópico, tecnofílico, eurocêntrico e acrítico, o ciberfeminismo inicial foi discutido, resenhado, criticado e reformulado por muitas investigadoras (Florencia GOLDSMAN, 2017; Montserrat BOIX e Ana De MIGUEL, 2013), dando lugar a novos enfoques teóricos que se nutrem do construtivismo e a crítica feminista contemporânea e queer, tal como o tecnofeminismo (Judy WAJCMAN, 2006). Consideramos aqui o ciberfeminismo como um proto-movimento social, mais do que um marco teórico. Porque, com todas as críticas, hoje
las ciberfeministas están acompañando a activistas y colectivas de defensa del territorio, de derechos indígenas, de la comunicación popular, y defensa de derechos humanos en general. Los niveles de vigilancia y represión estatal son alarmantes. Las personas activistas tienen grandes deficiencias en alfabetización y seguridad digital, cosa que las ciberfeministas están tratando de subsanar (Inés BINDER, 2017, p. 28).
O tecnofeminismo (WAJCMAN, 2006), enquanto herança teórica crítica do ciberfeminismo, analisa como o gênero atua nos processos sociotécnicos: a materialidade da tecnologia propicia ou inibe a ação de sujeitos/as enredados/as nas relações de poder generizadas, assim como a agência desses/as sujeitos/as, nessas relações de
poder, e afetam de diversas formas tanto o desenvolvimento como a circulação, distribuição, uso e apropriação de tecnologia. "Cierto tecnofeminismo emergente concibe una relación mutuamente conformadora entre género y tecnologia, en el que la tecnología es, al mismo tiempo fuente y consecuencia de las relaciones de género", afirma Wajcman (2006, p.161).
A aliança estruturante entre a tecnologia e a masculinidade (em singular, enquanto fenômeno geral e global, ainda reconhecendo que há masculinidades em disputa) fica evidente quando no campo teórico não se detectam